#CBN26anos – A minha história do rádio

 

radio-2704963_960_720

 

Sou do rádio desde muito pequeno. Aventurei-me no jornal, escrevi em revista, editei, reportei e ancorei em televisão, e atuei na internet. Mas aí já era profissional do jornalismo. E como tal somos de todas as mídias. Temos de ser de todas as mídias para sobreviver. Foi o rádio, porém, que influenciou minha vida desde criança.


 

Lá em casa, em Porto Alegre, o aparelho ficava sobre o balcão, na sala de jantar. A mãe costumava levantar o som sempre que o pai fosse falar. Sim, meu pai é radialista e jornalista, também – como o caro e raro leitor deste blog deve saber. Ao menos o foi até que a falta de sensibilidade dos gestores de rádio o fez ir para casa e aposentar seu talento. Além de narrador de futebol, Milton Ferretti Jung, o pai, foi locutor de notícias. Mais do que isso: foi o melhor locutor de notícias do Rio Grande do Sul. Apresentou por anos o Correspondente Renner, síntese noticiosa da rádio Guaíba, na época uma potência.

 

Sempre que o noticiário estava para começar, era a oportunidade de a mãe por ordem na casa. Para calar a bagunça dos filhos e a “brigalhada” dos irmãos, ela levantava o som do rádio e alertava a todos: “se continuarem gritando, o pai vai ouvir e quando chegar em casa vocês vão se ver com ele!”.

 

Silêncio total na sala. Vai que o pai ouve.

 

Crescemos imaginando que o ouvinte podia ser ouvido pelo radialista. Houve um momento, não sei quando, em que percebemos que aquela interação não era possível, mas entendemos também que tudo que a mãe precisava era de alguns minutos de paz para ouvir o pai falando. Nós também queríamos saber o que o pai tinha pra contar: ele sempre trazia as notícias mais importantes do Brasil e do Mundo. Dava um baita orgulho saber que era o nosso pai que estava ali contando todas aquelas coisas importantes para o Mundo e para o Brasil. Sem exagero. Não tinha internet, mas nas ondas médias e curtas, a Guaíba às vezes era ouvida das partes mais distantes do planeta.

 

microphone-1562354_960_720

 

Nem havia crescido muito quando conheci o estúdio de uma emissora de rádio. O pai fazia questão de nos levar à Guaíba, especialmente nos fins de semana. Acho que era para dar uma folga para mãe. Às vezes, enquanto ele lia o noticiário, os colegas nos distraíam proporcionando jogos de futebol no corredor da rádio, onde a bola era feita de papel das laudas de notícias embrulhadas aos montes por durex.

 

Demorou pouco para o pai cometer um sacrilégio: abrir a porta do estúdio da rádio e me permitir sentar ao lado dele, durante a locução do Correspondente Renner. Naquela época, o estúdio era lugar sagrado. Só os Deuses da Voz tinham o direito de permanecer lá dentro. Eu sequer para anjo servia. Mas fazia enorme esforço para não decepcioná-lo. Ficava ao lado dele em silêncio, total silêncio. Mal respirava durante os 10 minutos de duração do Correspondente. Ver o pai com os cotovelos sobre a mesa do estúdio e as mãos colocadas em formato de concha, enquanto pronunciava com precisão e expressividade cada palavra, me emocionava.

 

Havia dias em que o pai me deixava visitar a redação do jornal Correio do Povo, que ficava no andar de baixo, do mesmo prédio da rádio, onde meu tio trabalhava com editor-fechador da edição de domingo. Era ele quem tinha de atualizar as últimas informações e acompanhar o jornal rodando nas esteiras antes de começar a ser distribuído por todo o estado do Rio Grande do Sul. Tio Tito Tajes me deixava dedilhar nas máquinas de datilografia, pedia para recolher as notícias que chegavam na sala de teletipos – espécies de computadores da Idade da Pedra – e me levava a passear entre as rotativas do jornal. Foi lá naquela redação que conheci Mário Quintana, o poeta.

 

Era lindo, mas era o rádio que me fascinava.

 

radio-1989628_960_720

 

Meu primeiro estágio em jornalismo foi na Guaíba, por obra do meu pai, claro. De lá sai para trabalhar em outras mídias e retornei ao rádio quando já havia desembarcado, em São Paulo, há algum tempo. Vim para trabalhar em TV e foi na redação da TV que conheci Heródoto Barbeiro que, ao saber de meu passado e desejo, me convidou para apresentar programa na CBN, onde permanecerei até segunda ordem.

 

Tantos anos depois, descobri que minha mãe tinha razão quando nos mandava calar porque o pai podia ouvir. Era como se ela estivesse prevendo o que viria a acontecer. Hoje, os jornalistas de rádio trabalham com os ouvidos (e os olhos) bem abertos porque o ouvinte fala o tempo todo. Fala no e-mail, fala no WhatsApp, fala no Facebook e fala no Twitter. Ainda fala por carta. Fala quando encontra você na rua, no shopping, na Igreja, onde quer que você esteja.

 

Ai de você que não ouça o que ele pensa. Pode se livrar de algumas chateações, mas, tenha certeza, estará desperdiçando ótimas oportunidades de se desenvolver na carreira e realizar jornalismo qualificado, que atenda as demandas do cidadão. Sem contar que esses ouvintes que “falam” são, atualmente, fontes importantes de informação, que não podem ser desdenhadas.

 

Quanto ao pai, segue em Porto Alegre. Respeitado por aqueles que conheceram seu trabalho. Na memória dos que cresceram ouvindo os jogos de futebol e as notícias do dia. E na história dos que se preocupam em estudar a trajetória do rádio brasileiro.

 

Como disse lá no início, sou do rádio desde pequeno. E o pai tem tudo a ver com isso. Obrigado, pai!

13 comentários sobre “#CBN26anos – A minha história do rádio

  1. Enfim, de 1948 até hoje sou um aficionado do rádio.
    Na minha mesinha de cabeceira tenho um rádio ligado numa só estação, CBN, que escuto sempre que estou na cama e acordado ou não. E Na CBN meu programa favorito é o do Milton Yung, de 6:00 as 9:00 horas

  2. MEU NAMORO COM O RÁDIO
    Primeiro para dizer que tenho 75 anos e isso não quer dizer que o meu contato com o rádio é há muito tempo ou não.
    Mas, a minha relação com o rádio começou muito cedo, e isso importa, foi no final da década de 40.
    Eu escutava no autofalante de rua, ou nos botequins, de meu bairro a irradiação dos jogos de futebol, transmitidas pela Rádio Nacional nas vozes de Jorge Cury e Antônio Cordeiro. Mais tarde eu fui atento e fiel ouvinte de Oduvaldo Cozzi, o mestre dos mestres no meu entender.
    Não havia tv ainda.
    Nas casas de meus irmãos eu sempre ouvia o rádio, com muita atenção, achava fabuloso o palavreado dos locutores tanto de futebol quanto de noticias como o Repórter Esso com Heron Domingues, outro mestre das palavras.
    Com meu pai eu ouvia a Voz do Brasil, programa respeitadíssimo na época e depois descobri com meus irmãos/irmãos o gosto pelo programa de Almirante, Cesar de Alencar e Paulo Gracindo.
    Sempre acompanhando o rádio entre 1955 e 1958, não sei precisar o ano, comprei um rádio de pilha SPICA, e daí para frente sempre o tinha colado ao meu ouvido à noite inteira.
    Meus programas favoritos eram, sem ordem de preferência:
    Vc sabia? Rádio Relógio;
    Repórter Esso;
    Cesar de Alencar;
    Almirante;
    Futebol;
    Músicas nas Passarela;
    Desfile das Escolas de Samba;
    Corridas de Formula 1;
    Enfim, de 1948 até hoje sou um aficionado do rádio.
    Na minha mesinha de cabeceira tenho um rádio ligado numa só estação, CBN, que escuto sempre que estou na cama e acordado ou não. E Na CBN meu programa favorito é o do Milton Yung, de 6:00 as 9:00 horas

    • Cinézio, que bom que você trouxe a história que havia escrito por e-mail – e já lhe respondi por lá também – aqui para o Blog. Fico muito feliz em ter estas lembranças compartilhadas com os nossos leitores.

  3. O rádio sempre marcou a minha vida, tanto que ao fazer 15 anos, ao invés de jóias, baile, etc. eu quis um rádio de presente. Ver futebol na TV, ou no estádio, e o rádio no ouvido.
    Saudades da Rádio Guaiba de antigamente. Correspondente Renner era obrigatório. Do Correio do Povo, que me fez querer aprender a ler com 4 anos de idade.
    Não segui a carreira de jornalista, embora tenha cursado, fui obrigada a seguir outros caminhos. Mas até hoje sou viciada em qualquer mídia jornalística.
    Abraços Milton

  4. Bom dia,

    Em 1958, quando o Brasil foi Campeão Mundial de Futebol na Suécia, tinha
    eu 10 anos e residia em Arapongas-Pr., não tínhamos rádio, meus tios
    Otacílio e Orlando, me levaram e fomos para
    a frente da Rádio Arapongas, aqueles tempos só tinha AM, que estava
    instalada na Av. Pres. Getulio Vargas, e a fecharam uma quadra defronte
    a emissora para que através de um ALTO FALANTE que fica na janela da
    emissora que estava instalada em um sobrado, todos pudessem ouvir o jogo
    do Brasil e Suécia que foi 5×2. Mais adianta quando tive um rádio
    portátil para ouvir principalmente a Rádio Bandeirantes aos domingos os
    jogos de futebol, as vezes AS ONDAS SUMIAM, e quando era na eminência de
    um gol, tínhamos que virar girando para tentar recuperar o
    som, já em rádio fixos em residência, colocávamos BOMBRIL, na antena.
    Parabéns a vocês da CBN, pelo aniversário que trazem notícias quentinhas
    a toda hora a seus ouvintes.
    Grato
    Newton Luiz Colleti

    • Newton,o pai começou sua trajetória da Voz Alegre da Colina, uma rádio que só funcionava no sistema de alto-falante da Igreja Sagrado Coração de Jesus, em Porto Alegre. E eu um dia volto aqui pra contar minha saga para ouvir os jogos do Grêmio pelo rádio na época em que cheguei a São Paulo.

  5. Parabéns, CBN, parabéns, Milton pela carreira e história familiar no Radio (cabia até o Claudio Antonio sonorizando)
    Desde muito pequena mesmo lembro de meu pai com o rádio sempre ao seu lado, depois que teve um de pilha, então…E assim peguei o gosto também, não consigo dormir sem ouvir rádio pelo celular e como foi com meu pai, acho que me acompanhará até a morte.
    Abraço!

  6. Que histórias fascinantes, a sua e a do pai! Você diz que ele segue em Porto Alegre, então a CBN poderia nos presentear nas comemorações dos seus 26 anos, trazendo Milton Ferreti Jung para apresentar um pedaço do Jornal da CBN com o “filho” Jung. 🙂
    O caminho de volta. O pai sentando no seu estúdio .

    Abraços, Milton!

  7. Boa noite, Mílton

    Está gravado na memória a musiquinha que prenunciava o correspondente Renner. A voz linda de seu pai!! É como se agora estivesse ouvindo, pois marcou muito a minha infância. Que história!!
    Parabéns a você, o pai e à Radio CBN.

  8. Com toda a evolução tecnológica o rádio continua indispensável para todos nós. Foi através do rádio que, ainda criança, fiquei sabendo dos horrores da Segunda Guerra Mundial. A Voz do Brasil era ouvida por grande parte da população. Em junho de 1958, aos 15 anos de idade, cursava eu o primeiro ano científico quando, durante uma prova de química, fiquei ouvindo o jogo Brasil e Inglaterra durante a Copa do Mundo em que a seleção brasileira saiu-se campeã, através de um rádio em alto volume de um bar na esquina do Liceu Coração de Jesus, no bairro dos Campos Elíseos em São Paulo. Tirei zero na prova.
    Parabéns Milton e toda a equipe da rádio CBN!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s