Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: meu passeio às cegas na terra da garoa

 

Por Wilson Baroncelli
Ouvinte da rádio CBN

 

 

Essa é do tempo em que São Paulo tinha garoa, da qual você só ouviu falar, pois sumiu faz muito tempo. Do tempo em que havia bondes, inclusive em avenidas importantes, como a Paulista.

 

Lembro da linha que ia do Largo Ana Rosa até Santo Amaro: com exceção do Brooklyn, depois do Ibirapuera até lá só havia mato. Corria em via exclusiva, feito trem – tinha propagandas como esta: “Veja, ilustre passageiro, o belo tipo fagueiro, que o senhor tem ao seu lado. No entanto, acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o o Rhum Creosotado”. Havia também o trem de cremalheira para Santos, que eu, meus avô, tio e primo pegávamos para ir até Piaçaguera caçar siris no mangue. Depois minha avó cozinhava num imenso caldeirão. Isso – claro! – quando a Cosipa estava em seus primórdios e antes que o polo petroquímico de Cubatão poluísse tudo.

 

De volta a nossa história de São Paulo:

 

O ano acho que foi 1966, 1967. Naquela época, a garoa de São Paulo era densa, infernal. Ou, dizendo melhor, invernal, porque gelada, de penetrar nos ossos. Se déssemos o azar de estar usando japona (um casaco de lã de fechamento transpassado, comum na época), ela ficava encharcada e levava uma semana pra secar. E, com frequência, a garoa vinha acompanhada de uma neblina igualmente tão densa que a gente tinha a sensação de que dava pra cortar com faca.

 

Naquele fim dos anos 1960, os esportes favoritos dos rapazes de classe média – eu entre eles – eram futebol e paquera, não necessariamente nessa ordem. Coisa impensável hoje. Não o futebol, a paquera. Atualmente tudo é assédio. Uma pena…

 

Quando não tínhamos namorada, nos sábados à noite a gente saía de carro, sempre em dupla, e ia paquerar na Augusta e nas ruas do centro da cidade (24 de Maio e Barão de Itapetininga), então liberadas ao tráfego. As meninas faziam o mesmo, algumas também de carro. Frequentemente só gastávamos combustível, mas de vez em quando as coisas davam certo. Nessas horas, o rumo que tomávamos ficava na dependência da vontade das meninas. Respeitávamos isso.

 

Numa dessas ocasiões, estava no carro de meu amigo Arnaldo, o Nardo. Eu, nessa época, não dirigia, ia sempre de carona. As meninas que paqueramos toparam seguir para Interlagos, onde havia diversos dancings à beira da represa de Guarapiranga, pra gente tomar umas (ninguém tinha consciência dos riscos de beber e dirigir – pensando bem, mesmo hoje muita gente não tem), dançar e namorar.

 

Na volta, a garoa. E a neblina.

 

Aqui preciso abrir um parêntesis para que se compreenda o drama da situação que se seguiu. Nasci míope como Mr. Magoo (os mais novos podem dar um Google pra saber o que significa). Acho que na época usava óculos com sete graus. Ou seja, se em condições normais não enxergava direito, imagine com chuva e neblina. Pois bem, quando embicamos na avenida Atlântica na direção da Ponte do Socorro, a situação ficou preta. Literalmente. As luzes da avenida pareciam lâmpadas de Natal (só serviam pra enfeitar), os faróis do fusca do Nardo não iluminavam coisa alguma e, pra complicar, os vidros do carro, fechados por causa da chuva, embaçavam.

 

Pânico.

 

Trafegamos um bom tempo à velocidade de tartaruga, passando pano no para-brisa pra desembaçar. Minha cervical doía de tanta tensão. Mas chegou uma hora que não deu pra seguir, porque simplesmente o Nardo não enxergava os limites da rua. Eu, então, nem se fala. Parar naquele ermo nem pensar, embora não fosse tão perigoso como hoje. Ainda assim, era arriscado. Então tomei a decisão de ir pro sacrifício. Desci do carro e fui andando na frente dele, pois, apesar da chuva, ali fora enxergava um pouco mais. A sensação foi de ter andado 300 km ou 48 horas seguidas.

 

A neblina só amainou depois que cruzamos a Ponte do Socorro. Nardo parou para que eu voltasse para dentro e só aí percebi que diversos outros carros haviam nos seguido como em um cortejo. Pra sorte deles, não erramos o caminho.

 

Wilson Baroncelli é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta homenagem aos 464 anos da nossa cidade: escreva seu texto para milton@cbn.com.br

Um comentário sobre “Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: meu passeio às cegas na terra da garoa

  1. Caro Wilson,
    Adorei sua história. Certamente, temos muitas passagens semelhantes.em comum.
    Bendito o privilégio de sermos agentes ativos dos “anos 60”.
    Parabéns!
    Alceu Sebastião Costa

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