Carnaval 2018: sambas-enredo fotografam o Brasil real

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Prefeito Crivella apareceu como Judas no desfile da Mangueira 

 

A retomada da crítica social e política pelas escolas de samba de SP e RJ não foi surpreendente embora contundente. O apoteótico encerramento do desfile carioca pela Beija Flor e os componentes fantasiados de juízes e políticos na X9 Paulistana, que abriram a abordagem política em São Paulo, não só refletiram o conturbado momento em que estamos, mas também o claro entendimento que toda a nação está tendo.

 

A manifestação política no samba é de origem. No Rio, em 1920 os protestos foram dirigidos à repressão policial. De cunho racial e musical. Era contra negros, mulatos e samba. A Estação Primeira de Mangueira reagiu e seus membros foram considerados arruaceiros.

 

Em 1932, foi criado pelo jornalista Mário Filho, do jornal Mundo Sportivo, o formato que resiste até hoje. Um concurso de escolas de samba. Para cativar o prefeito Pedro Ernesto, Mário estabeleceu que os enredos devessem se ater à História do Brasil. Regra que levou o ditador Getúlio Vargas usara os desfiles como meio de propaganda governamental.

 

A Portela foi campeã, em 1941, mostrando “Os Dez Anos de Glórias” do governo de Vargas e a vice-campeã foi Mangueira, com homenagem a Pedro Ernesto. No encerramento da Segunda Guerra as escolas foram obrigadas a falar sobre a Vitória dos Aliados.

 

Esse processo manipulativo tomou outro rumo, em 1960, quando o Salgueiro apresentou “Quilombo dos Palmares”. Continuou esta trilha, em 1967, com “A História da Liberdade no Brasil”, em plena ditadura militar. Dois anos depois a Império Serrano focou os “Heróis da Liberdade”. A Vila Isabel apresentou como enredo “Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade”, em 1972, auge da repressão.

 

As Diretas Já, nos anos 1980, foi levada aos enredos dos desfiles pela Caprichosos de Pilares e São Clemente.

 

A mudança de poder nas escolas, dos bicheiros para os patrocinadores, acarretou situações essencialmente mercantilistas. Os enredos algumas vezes eram vendidos sem critérios artísticos e históricos, comandados por departamentos de marketing de empresas contratantes.

 

Recentemente, a queda de patrocínio privado, a redução da verba estatal e o crescimento do carnaval de rua, levaram a criação de enredos mais autorais. E, nesses termos, cinco escolas do eixo Rio-São Paulo adotaram tom social e político nos sambas-enredo.

 

A X9 Paulistana atacou com “A Voz Do Samba é a Voz De Deus – Depois Da Tempestade Vem a Bonança”

 

Sou xisnoveano apaixonado, “o bicho vai pegar”
“Tiro da cartola” o que no bolso não tem
“Nem sempre o que brilha é prata meu bem”

 

A Império da Casa Verde mostrou o samba enredo “O Povo: A Nobreza Real” que usou a Revolução Francesa para exibir a falência nacional, tal qual a Queda da Bastilha

 

Quem sou eu na ‘selva de poder’?
Mais um ‘bobo da corte’ a padecer
Sem desfrutar da riqueza
Que a realeza tem pra oferecer
No ‘Reino das Regalias’

 

Na Estação Primeira da Mangueira o título do samba “Com Dinheiro ou Sem Dinheiro, Eu Brinco” traz crítica ao corte de verba e ao menosprezo com o carnaval.

 

O morro desnudo e sem vaidade
Sambando na cara da sociedade
Levanta o tapete e sacode a poeira
Pois ninguém vai calar a Estação Primeira

 

A Paraíso de Tuiuti através do samba “Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?” mostra que desde a Abolição até hoje existe escravidão explicitada nas diferenças sociais e econômicas.

 

“Não sou escravo de nenhum senhor
Meu Paraíso é meu bastião
Meu Tuiuti o quilombo da favela
É sentinela da libertação”

 

A Beija Flor condena os aspectos sociais, econômicos, religiosos e a diversidade não respeitada, com o tema “Monstro é Aquele que Não Sabe Amar. Os Filhos Abandonados da Pátria que os Pariu”.

 

Oh pátria amada, por onde andarás?
Seus filhos já não aguentam mais!
Você que não soube cuidar
Você que negou o amor
Vem aprender na Beija-Flor

 

Quem disse que o carnaval não serve para nada?

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

3 comentários sobre “Carnaval 2018: sambas-enredo fotografam o Brasil real

  1. Fantástico! Eu tinha acabado de escrever no meu facebook, junto com um resumo dos recados que foram dados na Sapucaí, que as escolas de samba mostraram, com muita arte, criatividade e competência, como se transforma ficção e realidade em samba, protesto e confiança no futuro; e que vieram para ficar e brilhar.

    • Ieda, aplausos para estas escolas de samba, cujo espetáculo obteve excepcional cobertura da imprensa nacional e internacional.
      Salve o carnaval como manifestação cultural, social, política e ética.
      Obrigado pela sua manifestação.

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