Qual o papel do jornalismo em meio aos boatos da era digital? 

 

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Se me permite, volto ao tempo para começar esta história. Novembro de 1889. Quem dava as cartas era a Monarquia — ao menos é o que acreditava. Dom Pedro II porém era bombardeado por muitas frentes.

 

Os fazendeiros não estavam contentes com o fato de terem de liberar seus escravos sem receber um só tostão. Os progressistas reclamavam que o processo foi muito demorado. Na Igreja, havia descontentamento — as decisões do papa só podiam ser adotadas se autorizadas pelo Rei. No campo militar, a popularidade da monarquia era ainda menor.

 

Apesar da pressão dos republicanos, porém, o alagoano marechal Deodoro da Fonseca, que comandava o Exército, não demonstrava disposição para sair de casa e encarar um golpe de Estado. Mantinha alguma simpatia com a monarquia — o que provavelmente lhe garantia regalias e convites para as festas mais importantes; e sofria de falta de ar —- o que lhe mantinha muitas vezes na cama, como naqueles dias que antecederam a Proclamação da República.

 

A incomodar Deodoro, porém, havia a possibilidade de um desafeto, dos tempos em que serviu no Rio Grande do Sul, Gaspar Silveira Martins, assumir o o cargo de presidente do Conselho de Ministros do Império. Silveira Martins era advogado e político, costumava chamar Deodoro de “Sargentão” e o atacava em discursos na tribuna — rusgas que teriam se iniciado quando Silveira Martins ganhou o coração da Baronesa do Triunfo, que dizem ter sido uma viúva muito bonita e paixão não correspondida de Deodoro — bem, mas isso não tem nada a ver com a nossa conversa.

 

Ao perceber que o Marechal relutava em sair para a luta, o major Sólon — meu conterrâneo, nascido em Porto Alegre, Frederico Sólon de Sampaio Ribeiro — usou de sua rede de amigos e comparsas e espalhou boatos pelo Rio de Janeiro, de que a Guarda Nacional iria atacar unidades do exército e havia ordem de prisão contra Deodoro da Fonseca e Benjamin Constant — um republicano de primeira hora. O boato correu solto por ruas, bares e clubes do Rio até chegar aos ouvidos do Marechal que, então, achou atrevimento de mais. “Viva a República!” —- teria dito após convocar os soldados a derrubar a Monarquia e voltar para casa.

 

Perdão se me estendi nesta introdução que versa sobre o passado diante de pergunta tão objetiva e atual. Quis mostrar, porém, que se hoje estamos em busca de soluções para conter a influência do que se denominou ‘fake news’ — e sou contra o termo por motivos que explico logo à frente —, é importante perceber que esse fenômeno não é recente e foi usado em diversos momentos da história, no Brasil e no Mundo. Espalhar boatos, mentir, distorcer fatos e rever versões para mobilizar pessoas contra ou a favor de um causa são artifícios antigos que até hoje fazem parte da nossa sociedade. A grande diferença é que, atualmente, temos ferramentas que permitem o crescimento exponencial dessas informações fraudulentas, aumentando seus efeitos.

 

Quando questiono o uso da expressão ‘fake news’ para informações fraudulentas, o faço para mostrar que ‘fake news’ é falso até no nome, porque seu produto pode ser tudo menos notícia (ou ‘news’). Notícia é resultado de trabalho jornalístico que tem como base a busca constante da verdade possível — e ao dizer ‘possível’ o faço porque nem sempre a verdade absoluta se revela em um primeiro momento. Há casos que começam a ser contados por um caminho e acabam se revelando diferente à medida que a apuração avança.

 

Exemplo: em 11 de setembro de 2001, um avião se choca em um prédio, o mais emblemático de Nova Iorque; às câmeras transmitem a cena para o mundo e as emissoras de rádio levam à informação aos ouvintes. Assim como fiz de um estúdio em São Paulo, milhares de jornalistas pelo mundo noticiavam um acidente aéreo com dimensão ainda impossível de se identificar, mas relevante por todas as circunstâncias que tínhamos até aquele momento. Éramos todos produtores de ‘fake news’ dada a verdade que se revelou em seguida? Não! Estávamos apenas relatando a verdade possível até então, porque aquela era uma história que se construía ao vivo. Em nenhum instante, até percebermos a verdade que se escondia naquela imagem, após a soma dos acontecimentos que se sucederam ao primeiro avião que se espatifou no prédio, publicou-se algo com a intenção de ludibriar o público.

 

Buscava-se a verdade.

 

Eis aí o papel do jornalista em um ambiente no qual os fatos e versões se sucedem e são construídos pelas mais diversas fontes; em um momento, em que as pessoas recebem, por dia, um volume de informação cinco vezes maior do que há 30 anos; e em um cenário no qual essas mensagens são transmitidas em altíssima velocidade e nós temos cada vez menos tempo para gerenciar esse conhecimento — ou para refletir sobre esse conhecimento.

 

Buscar a verdade exige apuração, construção de uma rede confiável de fontes, curiosidade para descobrir os fatos que compõem a história, desconfiança para não ser vítima de versões fraudulentas, observação atenta ao ocorrido e humildade para não ser refém do erro.

 

Nessa busca, leve-se em consideração, também, o que aprendi com Zuenir Ventura, jornalista e escritor de mão cheia: “jornalismo é apuração, investigação, é usar o saber do outro (…) no jornalismo você estuda. Quando você faz uma matéria tem uma hierarquia do saber, você se informa sobre a matéria, procura ouvir quem sabe mais do que você” — disse-me ele em uma entrevista na rádio CBN.

 

O jornalismo feito com liberdade é o melhor antídoto para as informações falsas produzidas propositalmente com o objetivo de atacar pessoas ou instituições. Isso não significa que não cometemos erros. O jornalismo e os jornalistas erram, sim, mas têm a responsabilidade de assumir seus erros e pagam por eles. Identificada a falha, corrigem, pedem desculpas e conforme o prejuízo que tenham cometido podem ser acionados na Justiça.

 

É preciso que se entenda, também, que a produção de informações fraudulentas é uma covardia contra o cidadão — mesmo que essas surjam para confirmar sua visão de mundo, um dos motivos para essas mensagens ganharem dimensão muito rapidamente.

 

Na parte final do filme “The Post”, de Steven Spielberg, a atriz Meryl Streep, no papel de Kay Graham, a proprietária do ‘The Washington Post’, conversa com Tom Hanks, que faz as vezes do editor-chefe Ben Brandlee. No diálogo, Kay reproduz frase do marido dela, Philip Grahan, que comandava o jornal até a sua morte: “Notícias são os primeiros rascunhos da história”.

 

Os produtores de informações fraudulentas têm como objetivo escrever histórias falsas; os jornalistas têm como missão rascunhar a história até onde for possível em busca de sua versão final — a verdade. Isso faz uma baita diferença na vida do cidadão e da democracia.

 

Em resposta a Beatriz Lima, estudante de jornalismo, que realiza monografia sobre o tema “fake news”.

2 comentários sobre “Qual o papel do jornalismo em meio aos boatos da era digital? 

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