Conte Sua História de São Paulo: a passageira do La Licorne no meu táxi

 

Por Nivaldo Vannuchi
Ouvinte CBN

 

 

Quero voltar no tempo quando criança — faz muito, pois estou agora com 68 anos –, escutando com minha mãe a rádio São Paulo, pioneira em rádio-novelas. Era tão bom escutar vozes interpretando histórias sem imagem. Eu poderia produzir os rostos que quisesse — delinear um rosto angelical às mocinhas e tornar os vilões os mais feios possíveis. Essa veneração pelo rádio cultuada por minha mãe em plena década de 1950, me contaminou por toda vida. Eu cresci, estudei pouco e fiz parte de uma geração que os pais diziam: — não quer estudar, vai trabalhar! Na verdade, só fui até o colegial por falta de grana, queria fazer jornalismo na Casper Líbero, mas era muito cara. Eu ia até a porta da faculdade às vezes espiar a entrada dos alunos, mas só tinha boyzinho, não era pra mim.

 

Passei a fase de office-boy e lá pela década de 1970 me tornei motorista de táxi, conseguindo através de uma despachante de nome Therezinha, lá do Cambuci, comprar um taxi VW 1.600 — o tal do Zé do Caixão — com ponto e taxímetro financiados 100% a um jovem de 21 anos sem emprego (até hoje não entendo o critério de crédito daquela época).

 

Fui pra rua, como dizia antigamente, bater lata. Ficava no ponto que me deram, lá na rua Oratório, sem ninguém pra transportar. Resolvi então rodar. Não funcionou. Senti que era hora errada e lugar errado. Até que numa sexta-feira com a prestação já atrasada, resolvi virar o dia: trabalhar 24 horas.

 

Fui em direção do centro de São Paulo e a porta traseira de repente bate com força: uma mulher morena muito maquiada, com um cabelo armado pavoroso, pede que eu toque para o La Licorne. Não havia entendido o nome e muito menos onde ficava. A mulher retrucou: — Tá mangando de mim, como você trabalha de noite e não conhece o Lali. Pedi desculpas e disse minha história, porque na verdade estava esticando a minha primeira noite. Ela sorriu generosamente e se apresentou: -— Meu nome é Marisa Bahiana, trabalho lá na viração. Fiz cara de desentendido e ela emendou: sou puta! Levei um choque, mas engoli devagar o engasgo.

 

Fomos em direção ao La Licorne, na rua Major Sertório, e ela me fez esperar na porta, Tinham também outros táxis, todos sem luminosos no teto. Olhares sorrateiros e desconfiados foram despejados em minha direção ao mesmo tempo. Esperei na porta por mais de uma hora. O movimento de entrada nos táxis, pela meninas e clientes, era  intenso.

 

Marisa sai com um homem que parecia ser gringo, vem na minha direção, abre a porta traseira e pede pra seguir até a cafetina Cristina, na rua da Consolação, atrás do cemitério. Era uma casa de muro baixo, escura, porta de madeira na entrada, com luz muito tênue. Fica aqui me esperando, não demoro — disse ela. Dito e feito. É o que hoje chamamos de rapidinha, ejaculou acabo. Hora de ir embora. Volta ao táxi, retornamos para o “Lali”. Na descida, ela me dá uma nota de 100 dólares, e mais 50 dólares para um trabalho extra. Tenho que retornar com o gringo já bêbado para o seu hotel, o Othon Palace, na Libero Badaró, próximo a majestosa sede dos Matarazzo. Tinha jeito de alemão, mas como eu não entendia o que falava, e muito menos ele, retornei ao “Lali” e fiquei sabendo, a partir daquela noite, o quanto representava a palavra “espera”.

 

Nivaldo Vannuchi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte também a sua história na CBN: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Um comentário sobre “Conte Sua História de São Paulo: a passageira do La Licorne no meu táxi

  1. Gosto muito de conte a sua história. Tenho 75 anos e vivi durante aqueles anos dourados que, alguns insistem em denominar de “ditadura”. Foram os melhores anos da minha vida e fico indignado quando ouço a Sra. Miriam Leitão afirmar que foi torturada. Será o que essa senhora aprontou? O que eu sei é que esses, que dizem terem sido torturados no Regime Militar, hoje ganham fortunas e todos se deram bem na vida. Algum dia ainda será feita justiça aos militares, pois livraram o Brasil de terroristas, tipo Miriam Leitão, Dilma, Pimentel, José Dirceu, José Gesoino, etc. E foi tão bom o regime militar que conseguiu transformar terroristas em jornalistas, advogados, deputados, ministros e até presidentes da república. Veja, por exemplo, a história de Nivaldo Vannuchi. Quem era honesto, trabalhador, sabe bem do que estou falando. Graças aos militares, hoje estamos aqui vivendo uma democracia e não numa ditadura, que esses terroristas tentaram implantar no nosso amado Brasil. O que aqui escrevo não se baseia em livros, mas em vivência. Pergunte para pais e avôs que trabalhavam honestamente. Não digo que não houve torturas ou excessos, houve sim, dos dois lados, pois quem entra numa guerra não espera receber flores. O governo militar apenas reagiu para defender nosso país desses anarquistas, terroristas, guerrilheiros, que sequestravam, assaltavam, torturavam e matavam sem piedade pessoas inocentes, para atingir seus objetivos. Eram financiados e treinados por Cuba. Creio que você sabe melhor do que eu, Sr. Milton, que esses militantes esquerdistas não são e nunca foram inocentes. Pena que os militares se acovardaram, caso contrário não teríamos que aguentar esses ditos “torturados” narrando mentiras a fim de receber “bolsa ditadura”. Todos nadando em dinheiro e criticando os altos salários dos funcionários públicos. Quanto hipocrisia!

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