Avalanche Tricolor: o Grêmio jogou como se prepara um chimarrão

 

São Luiz 0x0 Grêmio
Gaúcho — 19 de Outubro, Ijuí/RS

 

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Pepê vai ao ataque em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Chimarrão é bebida típica do Sul. Bebida para ser apreciada na calma que a alma pede. Do preparo ao sorver, sem pressa nem pressão. Apenas saboreando o curtir da cuia e o pó da erva-mate escorrendo até preencher dois terços do espaço interno, enquanto a água começa a esquentar no fogão.

 

Curva-se a cuia para dar movimento a erva e desenhá-la conforme manda o figurino. É preciso apuro no preparo da água, pois tem de chegar morna para não queimar o mate e não amargar o chimarrão. Com a erva banhada na água morna, todo cuidado é preciso ao posicionar a bomba que deve ter sua boca fechada com o dedo polegar enquanto afunda na erva — tô pra ti dizer que coisa ruim é chimarrão entupido.

 

Se o serviço for bem feito, basta esperar a chaleira chiar. É o sinal de que a água já bate na casa dos 64º Celsius e está no ponto para ser servida — não pode ferver porque queima a erva e tudo que se fez até aqui se desperdiça.

 

Hoje cedo, após a missa dominical, rezada pelo padre José Bortolini, meu conterrâneo e gremista, de quem já tratei nesta Avalanche, cheguei em casa e aproveitei o sol da manhã, em São Paulo, para preparar meu chimarrão.

 

Cevar o mate logo cedo foi tranquilizador em um dia no qual assisti a alguns amigos e conhecidos se digladiando nas redes sociais, como se a história da humanidade se resolvesse nesse espaço. Ou a história do Brasil ali pudesse ser reescrita.

 

Sozinho, já que a turma aqui de casa nunca se acostumou com este hábito próprio do Rio Grande do Sul, saboreei a erva-mate até a cuia roncar. Uma, duas, três, quantas vezes a garrafa térmica cheia de água permitiu.

 

O tempo passou fácil, o pensamento foi longe e o coração bateu mais leve — sequer parecia que ao fim do dia estaria diante da televisão para torcer pelo Grêmio em mais uma partida decisiva, dessas muitas que fazem parte do nosso concorrido calendário.

 

Por falar em Grêmio. Tive a impressão de que o time de Renato entrou em campo hoje à noite com a mesma disposição de quem prepara um chimarrão.

 

Não que tenha estado abaixo do ritmo que a disputa por uma vaga na final exige —- especialmente estando no campo de um adversário motivado com o feito que pode ser histórico. Longe disso.

 

Via-se que nossos jogadores se esforçaram para encontrar espaço para entrar na área ou quem sabe chutar de fora. Forçou por um lado. Forçou pelo outro. Forçou pelo meio. Arriscou-se em alguns momentos mas sempre transmitindo a sensação de que estava tudo sob controle.

 

Quando digo que o Grêmio parecia preparar o chimarrão é porque dava sinais de que sabia que o caminho à final dependeria do resultado das duas partidas, e a segunda e decisiva seria mesmo diante de sua torcida, na Arena.

 

Precisava ter calma, retomar a bola do adversário, mantê-la sobre seu domínio e esperar o momento certo para atacar. Talvez tenha apenas faltado um pouco mais de atenção com a temperatura do jogo —- sabe aquilo que falei da água do chimarrão? Tava morno de mais. Talvez tivesse de deixar esquentar, sem ferver. Como se faz no bom chimarrão.

 

O importante é que o empate nesta primeira partida da semifinal em nada vai tirar o sabor do que realmente nos interessa: a Libertadores, que volta na próxima quinta-feira com o desafio de vencermos fora de casa, no Chile. E lá, pelo que sei, servem chimarrão frio — que coisa mais sem graça, não!?

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