Conte Sua História de São Paulo: tocando o meu berrante no trânsito da cidade

 

Por Samuel de Leonardo

 

 

O trânsito caótico das grandes cidades é capaz de proporcionar fatos inusitados e porque não dizer surrealistas. Em São Paulo já não é mais possível fugir dos engarrafamentos, não tem como optar por trajetos para amenizar a situação, quer seja pela manhã quer seja à tarde.

 

Sofre aquele que usa o seu automóvel para se locomover, sofre quem se utiliza do transporte público. Padece o motociclista, padece o pedestre, se ferra o ciclista. Todos acabam punidos, todos. São muitos veículos para poucas vias de acesso.

 

No começo da noite, seguia pela Avenida Paulista na faixa central sentido Paraíso. Seguia é força de expressão: estava parado no trânsito e sem perspectiva de melhora. O semáforo abria, fechava, abria. Nada de sair do lugar.

 

Após minutos de espera conseguimos cruzar a Rua Augusta, eu e mais alguns carros apenas. Aí tudo se repete: anda um pouco, para, anda.

 

Confesso que eu não me estresso, aproveito o tempo e vou observando o comportamento de cada vizinho.

 

À minha frente dois veículos, nas faixas à minha esquerda e à minha direita também dois. Percebo que a que vai à minha frente, pelo balançar da cabeça, curtia um som. Pelo retrovisor observo um motorista com duas cabeças, indicando tratar-se de um casal apaixonado. O da minha esquerda cutuca o nariz, tira algo e faz bolinhas. Com um peteleco atira-a pela janela. O da direita acende um cigarro, dá uma longa tragada e com a cabeça para fora lança uma baforada que atinge o motoboy que teima em passar pelo estreito corredor. Uma motorista ao lado apresenta um espetáculo de malabarismo: na mesma mão, cigarro, celular e o dedo indicador apontado para o motoqueiro que acabara de esbarrar em seu retrovisor.

 

Abre-se o farol, não havia como prosseguir, mas o condutor do veículo à minha direita toca a buzina sem cessar insistindo para que os demais invadissem a faixa de pedestre. Ninguém se abalou. Verde, amarelo, vermelho, verde novamente e a situação permanece inalterada.

 

Uma vez mais o motorista do carro ao lado mostrando toda sua impaciência volta a acionar a bendita buzina insistentemente. Como da vez anterior, nenhum condutor dá a mínima.

 

Com um pouco de sorte conseguimos progresso. Cruzamos a Rua Peixoto Gomide — mais um quarteirão vencido. Outra rua está por vir e assim atingimos mais uma quadra.

 

A história já é sabida: espera, paciência e perseverança. Quando já nem lembrava mais das buzinadas, aquele sujeito regressa à cena, desta vez com mais vigor, dispara o som a toda, põem a cabeça para fora e grita feito um louco:

 

— Seus motoristas de merda, tartarugas, molengas.

 

Ao instante a porta do passageiro do automóvel à sua frente se abre, desce um sujeito de estatura alta, chapéu de caubói à cabeça, todo desengonçado, carregando em suas mãos um instrumento enorme feito de chifre de boi, se aproxima da janela do nervosinho e grita:

 

Neste trânsito errante, só mesmo tocando o meu berrante.

 

Com habilidade, assopra o instrumento emitindo um som alto que a todos contagia. Uma vez, outra vez mais. Como um boiadeiro que acalenta toda a manada.

 

O trânsito continuou na mesma toada, mas as pessoas o aplaudem e entre assobios e gritos, o nervosinho da buzina disfarça um sorriso cessando a sua fúria, tal e qual um animal xucro quando domado.

 

Samuel de Leonardo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu capítulo da nossa cidade e envie para contesuahistoria@cbn.com.br

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