Conte Sua História de São Paulo: o tijolo na fila do açúcar

 

Por Eliana Colagrande
Ouvinte da CBN

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto de Eliana Colagrande baseado na história contada pelo tio dela, Sr. Olivio Segatto:

 

Em 1946, minha família morava na rua Sete Barras, no bairro do Piqueri. Eu tinha 10 anos. A II Guerra Mundial havia terminado, mas as consequências pelo mundo afora ainda permaneciam. Na nossa cidade ainda tínhamos racionamentos de alimentos.

 

Por outro lado, meu pai havia conseguido comprar um rádio, um presente maravilhoso para nós! Aprendi a ouvir as muitas informações, especialmente pelo “Repórter Esso” – o primeiro a informar as últimas notícias. Ouvia radionovelas e, sem dúvida, as transmissões de futebol.

 

Quando chegou o Natal daquele ano, ganhei um patinete azul, um grande companheiro que me transportava para onde eu pretendesse ir. Além das brincadeiras com o meu pequeno veículo, tinha também obrigações a realizar: pequenas compras ou levar recados nas casas de parentes e vizinhos. Uma de minhas tarefas, dia sim, dia não, era comprar o “açúcar preto” em uma
padaria da região. Cada consumidor tinha direito a ½ quilo diário — era o substituto do adoçante branco que estava em falta.

 

Em um domingo, logo cedo, fui fazer a compra, pois a procura pelo produto era grande e, como sempre, havia muita espera na fila até ser aberta a panificadora. Em dado momento chega um amigo de brincadeiras e… conversa vai, conversa vem, elaboramos um plano genial. Como ainda teríamos um bom tempo de espera, fomos brincar numa rua próxima, mais apropriada ao patinete. Mas para não perder o lugar na fila, me ocorreu uma brilhante ideia. Peguei um tijolo que estava num mato e disse ao senhor que estava atrás de mim que iria brincar um pouco, e que aquele tijolo me asseguraria o lugar. O homem sorriu — até hoje fico imaginando o significado daquele sorriso…) Eu e meu amigo fomos brincar. E foi ótimo!

 

Quando me lembrei do açúcar, o sol já brilhava forte. Meu amigo foi comprar algo em uma quitanda próxima e eu, dirigindo o patinete, retornei à rua onde estava aquela fila enorme. Fiquei surpreso pois não havia mais ninguém, e chegando no balcão o produto tinha acabado. Voltei à rua, já temendo a sova que me aguardava ao chegar em casa.

 

Mas que fique bem claro. Todos da fila se foram, mas eu e o meu querido patinete azul testemunhamos uma lealdade. Lá estava ele de plantão onde eu o deixei: o tijolo.

 

Olivio Segatto é personagem do Conte Sua História de São Paulo em texto escrito pela sobrinha Eliana Colagrande. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

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