Conte Sua História de São Paulo: o dono da doceria do Brás era a cara do Tenente Rip Masters

 

Por Celia Corbett
Ouvinte da CBN

 

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A Rua Caetano Pinto na altura do Laboratório Fontoura, no Brás Foto: ouvinte CBN

 

 

Eu tinha quatro anos, em 1958, e morava com a família na Rua Caetano Pinto, uma travessa da Avenida Rangel Pestana, no coração do Brás. Meu pai Hélio, era escrevente de cartório; minha mãe Ottilia, dona de casa; e mais três filhos: Márcia, Carlos e eu… a Celinha.

 

Morávamos em um prédio, com quatro andares, que para a arquitetura que dominava as construções da região era muito moderno. Tinha um elevador que subia e descia ao meu bel prazer (e quando o Sr Quirino, o zelador, não via, né?).

 

Na Caetano Pinto, eu me lembro de que à esquerda era o Laboratório Fontoura, do famoso biotônico. A loja do Sr. Regis, que vendia porcelanas. E quase na frente do terraço do meu prédio uma doceria. O dono era a cara do Tenente Rip Masters, da série de TV Rim Tim Tim.

 

Meus irmãos me diziam que o Tenente fechava a doceria e corria para TV. Eu ficava na janela à espreita. Assim que o Tenente fechava a loja, eu ligava o aparelho de TV, que na época demorava a sintonizar —- tempo suficiente para Rip Masters aparecer no Forte Apache.

 

Santa inocência!

 

Seguindo, à direita eu tinha a IRFM – Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo. E lá trabalhava o meu nonno, Francisco Ferrari, Chefe de Almoxarifado. Eu ouvia o sonoro apito da fábrica todos os dias, que norteava o horário de muitos moradores do bairro.

 

Como esquecer a Paróquia de Nossa Senhora de Casaluce, que os napolitanos fundaram. Até hoje só existem duas no mundo dedicadas a ela: a de Nápoles e a de São Paulo. A festa da paróquia era incrível e o que mais me fascinava, além da comilança, era o “pau de sebo”.

 

Nos domingos, atravessávamos a Avenida Rangel Pestana e lá estava a casa dos meus nonnos na Maria Domitila, ao lado do Parque Dom Pedro II, do Gasômetro e da Assembleia, no Palácio 9 de Julho, palco de grandes atividades políticas.

 

Um pouco mais adiante perto das Avenidas do Estado e Mercúrio tinha o Mercado Municipal de São Paulo, que segundo contava meu nonno, sua primeira função foi a de armazém de pólvora e munições. Acredita?

 

Lindo mesmo era o Parque Dom Pedro II cortado pelo Rio Tamanduateí que nas suas margens tinham os “chorões” com seus galhos caindo para o leito do rio. Lá, também, tinha o delicioso Parque Shangai, um dos parques de diversões mais movimentados no Brasil, durante muitos anos.

 

Foi no Parque Dom Pedro II que o nonno Francisco, me ensinou a andar de bicicleta —- aprendi, mas claro que no dia em que retiramos as rodinha de suporte, levei um tombo que rendeu muitas lágrimas.

 

Em 1960, nós mudamos para Vila Mariana, em uma casa própria, e colocamos na nossa mala de recordações as lembranças daquela comunidade italiana, o sonoro apito da fábrica dos Matarazzo, as festas de Casaluce e o domingo no Parque Dom Pedro II.

 

Célia Corbett é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade.

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