Conte Sua História de São Paulo: minha baioneta caiu da janela

 

Carlos Gati
Ouvinte da CBN

 

 

Em dezembro de 1968, quando o marechal presidente Costa e Silva, promulgou o Ato Institucional número 5, eu fazia cursinho da USP, trabalhava como redator do Jornal O Dia e morava na Rua Paim, na Bela Vista, com um irmão e um amigo.

 

Tive a infelicidade de usar uma baioneta, sim, uma baioneta comprada irregularmente quando fazia o Tiro de Guerra para segurar uma cortina que nos incomodava com o vai e vem do vento. Parece que irritado, o próprio vento fez abaioneta despencar pela janela do do 20º andar do prédio, caindo quando na cabeça de um soldado.

 

— Tem terrorista por aqui — esbravejava o soldado. A polícia foi chamada e cercou o local. Eu estava almoçando na casa de um amigo quando o telefone tocou: — Carlão, estamos liquidados. Venha urgente pra cá que estamos sendo presos.

 

Cheguei e deparei com meu irmão descendo as escadas com as mãos pra cima: – é terrorista, é terrorista – diziam os moradores. Meu amigo já estava na viatura me aguardando. Fomos todos para o DOPS, ou melhor, para a OBAN — Operação Bandeirante, em um quartel no Ibirapuera. Lembro das sirenes soando alto enquanto o rádio da viatura tocava Tim Maia.

 

No interrogatório, disse que a baioneta era minha e os dois não tinham nada a ver com o caso — por isso foram soltos horas mais tarde. O policial à paisana, jovem como os demais, vestidos quase todos de calças jeans, passava a baioneta pelo meu pescoço e repetia: — como você foi entrar nessa? Vai ser muito difícil você sair daqui!”

 

Além do jornal, onde eu escrevia sobre artes, trabalhava também na rádio Record como locutor e pedi para telefonar na emissora e avisar que eu não iria trabalhar…

 

O sujeito deu uma solene risada. Disse que a partir daquele momento eu estava incomunicável e me levou para cela. Tinha apenas um colchonete para dois presidiários. Tiramos no palitinho para ver quem esticaria o corpo naquele colchão. Eu ganhei!

 

No dia seguinte, café com leite e um pão seco, que nem consegui comer. Levaram-me para um local e me fizeram a barba com navalha. Ufa!!! Pensei que iam me raspar a cabeça. Ou cortá-la, quem sabe… Nada de almoço. Até que a porta se abre e um sujeito manda eu pegar as minhas coisas e, ironicamente, diz que a baioneta ficaria.

 

Minha saída é que foi uma efeméride. Sem brincadeira! Não havia ninguém por perto. Uma viva alma naquele pátio. Pensei comigo: será verdade isso? Acho que alguém vai me dar um tiro se eu olhar para trás. Fui andando, andando, sufocado, apressando o passo e correndo. Quando percebi, quase fui atropelado por um ônibus no Parque do Ibirapuera. Entrei no primeiro coletivo, buscando distância daquele lugar.

 

Finalmente, livre… Ou nem tanto. Ninguém saía da mira da polícia mesmo depois de liberado como eu. Noivo, naquela época virou rotina ser revistado por policiais onde quer que eu fosse. Nem sei quanto tempo isso durou, mas, apesar de ter pisado na bola, marquei um golaço em meu prontuário.

 

Carlos Gati é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br

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