Conte Sua História de São Paulo: o barco que eu construí na minha casa

 

Por Eduardo Coelho Pinto de Almeida
Ouvinte da CBN

 

 

Em 1948, eu tinha 12 anos, morava na Simão Alvares, em Pinheiros, uma travessa da Teodoro Sampaio, onde passava o bonde número 29/Pinheiros. Os trilhos vinham em fila dupla, uma de ida e outra de volta, desde a praça Ramos de Azevedo até a Rua Fradique Coutinho. Dessa esquina em diante, até o largo de Pinheiros só havia trilho para um bonde, tanto para ir quanto para voltar. Quando um bonde
ia descer até o largo, ligava uma luz no poste indicando que já havia um
bonde lá e não poderia entrar outro.

 

Nessa ocasião, estava sendo construído um grande numero de prédios de 3 ou 4 andares, nos terrenos que tinham sido ocupados pela Hípica Paulista, que havia se mudado para a Rua Quintana, no Brooklim. Quando eu estava voltando da escola, encontrei junto às obras uma grande quantidade de retalhos de madeira jogados fora pelos carpinteiros.

 

Eu havia visto na vitrine da loja Elite, da praça da República, em frente à minha escola, a Caetano de Campos, um barco tipo Sandolin, todo feito de sarrafos de madeira e recoberto com lona.  Peguei uma quantidade que julguei necessária e pus mãos à obra, por muitas semanas. Até que terminei a estrutura, que, modéstia à parte, ficou bonita, principalmente para um garoto de 12 anos de idade.

 

Uma noite, o Dr. Francisco Samarro Neto, dentista, que tinha o consultório ao lado do de meu pai, na Praça Ramos de Azevedo, foi jogar buraco em minha casa e vendo o esqueleto do barco admirou-se e perguntou: O que falta agora? Eu expliquei que faltava cobrir com lona, mas que nunca seria feito pois custava muito caro.  Mais tarde o Dr Samarro falou: — amanhã, quando você sair da escola dê uma passadinha no meu consultório.

 

Quando eu cheguei lá, ele disse: — gostei muito do barco que você está
fazendo; tome este dinheiro que é o que você falou que custaria a lona e
termine seu barco.

 

Era dia 13 de Agosto, sexta-feira, de um ano bissexto, 1948. E eu pensei: “estes adultos não entendem nada sobre dias de azar; o dia mais feliz da minha vida, uma sexta-feira, 13, de ano bissexto, e eles dizem que é dia de azar!”

 

Esse barco teve muitas histórias, mas está eu conto em outra oportunidade.

 

Eduardo Coelho Pinto de Almeida é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br

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