Há 36 anos comecei a costurar esta colcha de retalhos feita de amigos, paixão e jornalismo

 

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Reprodução de foto do jornal Zero Hora, em dezembro de 1988

 

Foi há 36 anos. Tanto tempo assim faz de nossa memória uma colcha de retalhos em que pedaços são tecidos da vida real e outros, coloridos pela imaginação. Descrever agora o que aconteceu naquele 10 de agosto de 1984 talvez não condiga com a verdade dos fatos —- mas, tenha certeza, revela a memória autobiográfica que fui capaz de armazenar ao longo dos anos.

 

Foi meu primeiro dia de trabalho como jornalista ou aprendiz de jornalista, porque viria a me formar somente um ano depois. Era o início do estágio na profissão que escolhi por inércia, admiração e paixão.

 

O jornalismo fazia parte do meu cotidiano, não escapava dele nem nos almoços de domingo com a família. Filho de jornalista, afilhado de jornalista e sobrinho de jornalista, experimentei o ritmo das redação de rádio e jornal desde muito pequeno. Em minha defesa, o fato de meu irmão e minha irmão terem experimentado o mesmo ambiente e seguido por outros caminhos.

 

Minha admiração vinha da maneira como meu pai e seus colegas de trabalho eram recebidos nos locais que frequentavam. Havia um respeito em relação a eles que me deixava feliz e orgulhoso. O impacto que as notícias divulgadas no Correspondente Renner — do qual foi o titular por muito anos —- tinham na sociedade gaúcha, impressionava. A emoção que o grito de gol dele gerava no torcedor era indescritível.

 

Cheguei a me enxergar como professor de educação física —- a ponto de estudar na federal do Rio Grande do Sul —- mas havia alguma coisa no jornalismo que se expressava de maneira mais forte no meu coração.

 

A inércia, a admiração e a paixão construíram o jornalista que teve o privilégio —- pela influência do pai —- de fazer estágio em uma das mais respeitadas redações do radiojornalismo do Brasil, a da Guaíba de Porto Alegre. Era função não remunerada. Sem carteira assinada. O pagamento vinha em créditos para a conclusão da faculdade de jornalismo, realizada na Famecos, da PUC do Rio Grande do Sul. E em experiência pela convivência com alguns dos maiores nomes do jornalismo esportivo.

 

A arquitetura do prédio, que trazia características do século 19, sede da Companhia Jornalística Caldas Júnior, era imponente. Para subir os três ou quatro andares do Edifício Hudson, ao lado da Praça da Alfândega, usava-se um elevador com porta sanfonada e maquinário à mostra —- mantido assim, apenas com algumas adaptações, até ao menos a última vez em que visitei o local. Apesar da pompa e da circunstância, era como se estivesse entrando em casa. Do elevador aos corredores, das salas de redação ao bar —- que hoje não existe mais no segundo andar —-, tudo eu já havia explorado, embalado pela curiosidade de um guri de calças curtas, solto em um parque de diversões.

 

Naquele dia 10 de agosto, entrei no prédio ao lado de meu pai —- não mais de mãos dadas como fazíamos durante minha infância —-, vestindo uma uma camisa de mangas curtas, uma calça de abrigo esportivo e calçando alpargatas. Com ele fui até a sala do departamento de esportes que ficava ao fim do corredor, com janelas voltadas para a esquina da rua Caldas Júnior com a rua dos Andradas. Seria incapaz de reproduzir aqui qualquer palavra que o pai tenha dirigido a mim naquele instante; certo mesmo, pelo que conheci do velho, é que ele estava tomado pela alegria de ver seu filho dando o primeiro passo na profissão no lugar em que se consagrou como jornalista.

 

Fui apresentado ao Alexandre Pussieldi, produtor do único programa dedicado exclusivamente ao esporte amador do rádio rio-grandense. Hoje muito mais conhecido por ‘Coach’, pelos anos em que foi treinador de natação nos Estados Unidos e agora comentarista de natação da SporTV, Pussieldi foi um baita professor. Não bastasse ter sido o criador do programa em que sempre sonhei trabalhar —- afinal joguei basquete por 13 anos e, lembre-se, imaginei seguir o curso de educação física —, Alex Pussieldi foi meu mentor naquele início de carreira. Ajudou-me a construir fontes, escrever textos, produzir reportagens, fazer entrevistas e apresentar o “Esporte Amador na Guaíba”.

 

Do esporte amador para o futebol profissional; do departamento de esportes para o de jornalismo; da redação de rádio para a de jornal. Minha carreira seguiu em frente a ponto de me trazer para São Paulo. Aqui comecei pela televisão, trabalhei na internet e fui redescoberto pelo rádio. Ganhei reconhecimento e prêmios. Sinto-me privilegiado pelo espaço que me oferecem e pelo jornalismo que realizo.

 

Nestes 36 anos de profissão, em meio a tropeços e aprendizados, memórias afetivas foram construídas e alguns nomes foram essenciais para essa jornada. Assim como o pai foi o primeiro a me abrir a porta do elevador do Edifício Hudson, em Porto Alegre, teve o Alex e a Sandra que me acolheram; o Flávio que me levou para o jornalismo; o Afonso que me apresentou à vida; o Zezo que me trouxe para São Paulo; a Dina que me encaminhou para a Globo; o Montenegro que cuidou de mim na madrugada; o Marco que me aceitou na Cultura; o Everton, a Malice, a Maria e o Tato que moderaram meu ego; o Sérgio que foi minha referência como família; o Heródoto que me convidou para a CBN; o Juca que me inventou narrador na Rede TV!; o Toledo que me ensinou como funcionava a internet; a Mariza que apostou no meu talento. E, claro, a Abigail, que é o amor da minha vida.

 

Por mais distante que esteja de muitos daqueles que me ajudaram nesses anos todos —- e de tantos outros que sequer citei neste artigo —- quero que saibam o quanto os admiro pela paciência, experiência e conhecimento que compartilharam comigo. E que a colcha que minha memória está costurando desde aquele 10 de agosto de 1984, certamente, só se faz possível por sua causa.

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