A construção do envelhecimento

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa 

Foto: Pixabay

 

A redução das taxas de mortalidade em todo o mundo tem promovido um aumento da expectativa de vida, resultando no crescimento da população idosa. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2000 a população idosa com mais de 60 anos era de 14,5 milhões de pessoas. Atualmente, esse número passa dos 29 milhões com projeções de que em 2050 tenhamos uma população de 50 milhões de idosos em nosso país.

O envelhecimento, apesar de ser muito associado ao conceito de perdas físicas ou deterioração do corpo, compreende um processo singular, heterogêneo e influenciado por aspectos socioculturais, cujas definições foram sendo modificadas ao longo da história da humanidade. 

Nas sociedades antigas os idosos eram valorizados, por conta de sua experiência, auxiliando os mais jovens em suas atividades diárias e transmitindo seus conhecimentos adquiridos no transcorrer da vida. Na Grécia, o envelhecimento era compreendido a partir da classe social pertencente. Os idosos da elite tinham o poder político, econômico e cultural e eram reconhecidos como sábios. Por sua vez, os idosos que pertenciam às classe sociais inferiores representavam a invalidez, a doença e a morte. Na sociedade romana os idosos detinham uma posição privilegiada, dotados de autoridade, o que geralmente provocava conflitos com as gerações mais novas.

Na Idade Média, atingir a longevidade era algo raro e a velhice era compreendida como a fase na qual o indivíduo não era mais capaz de trabalhar. No renascimento houve uma valorização da juventude e da beleza.

No fim do século XVIII, com a industrialização e o surgimento do capitalismo, o poder econômico se centralizou nas pessoas mais jovens e os idosos, por sua vez, passaram a ser vistos como mendigos, em virtude da dificuldade de conseguir um emprego. Isso favoreceu uma associação da velhice com a incapacidade física, acentuando a perda da importância social do idoso, que ficou marginalizado na sociedade.

No século XX, novas regras de aposentadoria e pensões reduziram a associação da velhice com a incapacidade de produzir, uma vez que todas as pessoas, a partir de uma determinada idade, foram dispensadas da necessidade de trabalhar.

Novas mudanças aconteceram e ao fim do século XX o idoso recebeu maior atenção da indústria do consumo, englobando também o lazer e o turismo. A busca por um modelo de envelhecimento ideal, fez surgir o conceito de “melhor idade” vinculado à ideia de se ter um envelhecimento saudável, no qual se manteria a autonomia, a liberdade, a tomada de decisão e comportamentos capazes de preservar a saúde. 

Ser idoso e estar na “melhor idade” passou a exigir um repertório de atitudes que contemplassem a capacidade de manter-se fisicamente ativo, ter uma alimentação saudável, fazer treinos cognitivos para exercitar o cérebro, controlar os sinais de envelhecimento físico, como a utilização de cosméticos ou cirurgias estéticas. 

Se houve um tempo no qual à margem da sociedade estavam aqueles que não eram produtivos, a culpabilização passou a recair sobre os idosos que não adotassem o estilo de vida capaz de “retardar” a velhice e suas consequências. Numa sociedade marcada pelo consumo e pela negação das situações mais incômodas, como adoecimento ou morte, deixar a vida seguir seu ritmo passou a soar como passividade, beirando a irresponsabilidade.

Isso não significa que não se possa construir um envelhecimento mais saudável e com qualidade de vida. Pelo contrário, há muito a ser feito. Mas esse processo dever começar muito antes do envelhecimento.

Diversos estudos apontam que envelhecer de forma saudável envolve fatores genéticos e uma série de comportamentos adotados ao longo da vida, como controle da pressão arterial, dos níveis de açúcar no sangue, evitar o tabagismo e o etilismo, manter uma prática regular de atividades físicas e intelectuais. 

Atualmente, diversas pesquisas procuram compreender a importância da  reserva cognitiva no processo de envelhecimento, como um fator de proteção para o cérebro.  Reserva cognitiva compreende a capacidade de ativação das redes neuronais em resposta às diversas atividades realizadas. Essas atividades intelectuais desenvolvidas durante a vida, como leitura, cálculos matemáticos e aprendizagem de idiomas, aumentam a reserva cognitiva e, de certo modo, permitem que tais competências cognitivas se mantenham em idades mais tardias, minimizando as manifestações clínicas de doenças neurodegenerativas, como as demências. Além das atividades intelectuais, atividades físicas, sociais e de lazer também estão envolvidas na construção da reserva cognitiva. 

Apesar desses fatores de proteção, a velhice trará consigo as perdas funcionais e estas serão progressivas. Portanto, as atitudes adotadas para uma vida equilibrada e saudável não devem ser concebidas como uma batalha contra o envelhecimento, mas como facilitadoras para que essa fase se desenvolva de maneira tão natural quanto nascer e crescer, de modo ativo e com propósitos. 

Envelhecer de forma saudável não é sinônimo de juventude. Envelhecer saudável é envelhecer com dignidade, com políticas públicas que se preocupam com a população desde idades mais precoces, favorecendo medidas que promovam a saúde física e mental, que garantam a escolaridade, ocupação e renda aos cidadãos. É a promoção de atenção, cuidado e proteção à população idosa de maneira acessível a todos e não um privilégio de poucos. 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

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