Avalanche Tricolor: jogo em duplex é uma marca do rádio esportivo do RS

Atlético PR 1×2 Grêmio

Brasileiro — Arena da Baixada, Curitiba PR

Ferreirinha garante grito de gol do narrador Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

O domingo passou e a segunda já está terminando, mesmo assim decidi escrever esta Avalanche fora de hora. Nem tanto pelo jogo, que sequer tive o direito de assistir. Nem mesmo pela vitória, que parece ter acontecido por inércia do adversário. Escrevo para falar do que ouvi. Da saudade que senti.

Sem que nenhuma emissora de TV tivesse o direito de transmitir o jogo, meu celular se transformou em radinho de pilha; “sintonizei” a rádio Gaúcha na internet e em poucos minutos fui sugado pela memória. Com as partidas da dupla Gre-nal ocorrendo no mesmo horário, a emissora narrou no sistema duplex, uma fórmula típica do rádio esportivo rio-grandense. 

Desde que me conheço por ouvinte de rádio —- e isso aconteceu muito cedo por motivos mais do que óbvios —-, as emissoras não se arriscam a transmitir apenas um dos jogos da dupla Gre-nal. Deixar um dos dois principais times do Estado fora da programação ou se resumir a atualizar o placar e os lances, seria crime de lesa-pátria, daqueles de derrubar a torre de transmissão, queimar a sede e pendurar seus profissionais pelos pés em praça pública. 

Em uma época na qual jogava-se bola quase sempre nos mesmos horários, domingo à tarde e quarta-feira à noite, era inevitável a coincidência na programação. A solução era o duplex, com equipes de narrador, comentarista e repórter dedicadas a cada uma das partidas e disputando espaço na mesma transmissão para levar ao ouvinte os momentos mais marcantes do jogo ao mesmo tempo —- assim como ocorreu nesse domingo.

A bola começa a rolar em um estádio e o narrador descreve o lance até ela parar; o locutor do outro jogo toma a palavra e sai em disparada relatando o que acontece em campo. A palavra dele é roubada se tiver perigo de gol lá no outro estádio e será devolvida em tom de frustração se nada tiver acontecido de importante. Em meio a esse bate-bola, ainda tem de entrar os anúncios comerciais lidos ao vivo pelos narradores. O ponto certo para entrar é a respiração do colega. Atropelar é inevitável, mas se o atropelo for com convicção, estará desculpado. Às vezes, exagera-se na qualidade da jogada para justificar a chamada. Outras, fica evidente a tristeza de quem está diante de uma partida sem graça nem emoção. 

Imagine essa situação quando as equipes resolvem marcar gols ao mesmo tempo. A solução é esperar o fim do grito e arriscar um grito ainda mais alto. Tem jogo de ego, ciúmes e reclamações nos bastidores. Tem ironia, indiretas e brincadeiras no ar. Neste duelo quem tiver mais gogó leva vantagem.  Pra que nunca ouviu, parece coisa de louco. Para quem ouviu, temos certeza de que é, mas loucura que costuma dar certo, seja pelo hábito seja pela qualidade dos profissionais. 

Aprendi a ouvir futebol na Guaíba, que teve a maior e mais qualificada equipe do rádio esportivo no Sul do País. Para que minha afirmação não seja intepretada como a de um filho coruja, pergunte para qualquer um dos colegas do rádio de São Paulo que vivenciaram aquela época. 

Pedro Carneiro Pereira, Armindo Antonio Ranzolin, Milton Ferretti Jung, Samuel Souza Santos e Élio Fagundes faziam parte do time de narradores. Lauro Quadros e Ruy Carlos Ostermann eram comentaristas, entre outros nomes que certamente esqueço agora não para demérito dos esquecidos, mas do próprio ‘esquecedor’. Na reportagem tinha  Lasier  Martins —- esse mesmo que é Senador —- e o irmão dele, Lupi Martins; João Carlos Belmonte, que  comandava o grito da torcida para recepcionar o time que subia as escadas de acesso ao gramado; Edgar Schmidt e mais uma penca de gente boa. No plantão de estúdio, o insubstituível Antonio ‘Tem Gol’ Augusto —- pai de Antonio Augusto Mayer dos Santos, colaborador deste blog.

Jogos em duplex com esse time era um espetáculo. Quando chegavam na camionete da rádio nos estádios, especialmente no interior do Estado, eram cercados pelos ouvintes que queriam ver seus ídolos do rádio esportivo. Curti alguns desses momentos na adolescência, viajando com o time da Guaíba para assistir aos jogos do Grêmio. Quando fui repórter de campo na segunda metade dos anos de 1980 ainda havia um rescaldo de admiração por parte dos Guaibeiros —- que era como os ouvintes se identificavam —-,  mas a concorrência feita pela rádio Gaúcha já era bastante expressiva, inclusive tendo levado a maior parte dos grandes nomes da Guaíba.

Tudo isso me veio à mente enquanto ouvia os narradores da Gaúcha disputando o direito à palavra tanto quanto os times buscavam o gol. Quem narrava a partida do Grêmio saiu no prejuízo pela diferença de qualidade dos jogos jogados ao mesmo tempo. Sorte dele — a minha e dos torcedores gremistas, também —- que no segundo tempo entraram Pepê e Ferreirinha. Com estes dois correndo e driblando alucinadamente no ataque, o locutor não pode bobear —- nem os marcadores —- porque o gol está sempre prestes a acontecer.

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