Times têm limites. Podem ser técnicos; podem ser financeiros — em geral, o segundo leva ao primeiro. Há limites físicos, também. De talentos. E de visão estratégica. Dentro desses limites, cada time oferece o que pode ao seu torcedor. Às vezes, vai além de suas capacidades. Se supera. Surpreende o adversário. Alcança o impossível. O futebol nos dá essa oportunidade.
O Grêmio por muitas vezes foi além do que era capaz. Se superou. Da superação fez história e ao escrevê-la ganhou o apelido de Imortal. É essa história que nos faz gremista. É na lembrança de títulos improváveis; de resultados imprevisíveis; e de jogadores que conseguiram ser muito maiores do que eles próprios imaginavam que alimentamos nossa esperança a cada ano que se inicia.
Na atual e acidentada temporada de 2020, que só se encerrou neste primeiro domingo de março de 2021, fomos campeões gaúchos —- tri —-; avançamos bem na Libertadores, até o tropeço das quartas-de-final — muito mais dolorido do que poderia ter sido; fizemos um Campeonato Brasileiro mediano —- bem aquém das nossas possibilidades; e chegamos à final da Copa do Brasil.
Esperar muito mais do que isso —- e a gente sempre espera —– é esquecer dos limites deste time e do seu caixa; dos percalços fora de campo que limitaram a recuperação física de jogadores importantes, especialmente Geromel, um pilar da nossa defesa; e do desempenho abaixo da crítica de alguns talentos nos quais depositávamos confiança.
Semana passada já havia compartilhado com você, caro e raro leitor desta Avalanche, que considerava a manutenção de Renato no comando da equipe a maior vitória que estava ao nosso alcance. O risco de uma temporada ruim, sem título nacional ou sul-americano, era jogar fora tudo que se construiu ao longo do tempo. Este erro poderia custar muito caro na temporada que, lembremos, já se iniciou com partida no meio da semana passada pelo campeonato estadual e terá decisão na quarta-feira próxima, na pré-Libertadores.
Renato terá, e sabe disso, que renovar a equipe, mudar peças chaves, abrir mão de alguns jogadores que levantaram troféus nos últimos quatro anos e meio, chacoalhar garotos que têm talento mas parecem amortecidos em campo e soltar a rédea daqueles que vêem da base e pedem passagem. Terá ainda de contar com contratações muito bem calculadas, que caibam no caixa do time e façam diferença em posições estratégicas.
Em 2021, mais uma vez nosso desafio é superar os limites.
A desordem traz um pouco a sensação de que as coisas podem ser diferentes, eu posso fazer diferente; é aí que eu começo a trabalhar o ‘como vou fazer para ser melhor’ e ‘como vou construir um mundo melhor’”
Marco Ornellas, consultor
As empresas precisam de um novo desenho organizacional para enfrentar a complexidade e o caos que imperam neste momento de pandemia. Não apenas neste momento, pondera o consultor Marco Ornellas, entrevistado do programa Mundo Corporativo. Dedicado a cuidar de desenvolvimento organizacional, Marco lembra que as transformações veem ocorrendo há algum tempo, especialmente com a inserção da tecnologia nos processos de trabalho:
“A complexidade e o caos sempre fizeram parte de alguma forma da nossa vida, hoje de forma mais intensa. A pandemia fez acelerar os processos. Os contatos, os relacionamentos, e as formas de comprar e de trabalhar, tudo isso foi alterado e confirmou o surgimento de uma nova ordem”
A nova ordem é a desordem, diz o psicólogo por formação e professor por dedicação. Foi essa discussão que o inspirou a escrever o livro “Uma nova desordem organizacional”. Marco identifica três grandes movimentos que devem ser feitos pelos profissionais de uma maneira geral:
Desapegar … de ideias, de objetos, de coisas velhas; as coisas não têm mais valor. O que vale é o que somos;
Se doar … devemos nos entregar às coisas que fazemos e isso tudo precisa fazer sentido para mim. Se doe para o outro, se doe nas relações, se doe para o seu entorno;
Descobrir … com as mãos e com os pés, andar por caminhos que não estou andando, por redes que não vimos, por lugares desconhecidos
A nova ordem organizacional é responsabilidade de todos dentro da organização, segundo Marco Ornellas:
“Todo mundo vai ter de cuidar dessas questões. As organizações do jeito que estão estruturadas não vão sobreviver dessa maneira, precisarão se reorganizar —- é preciso um novo desenho organizacional. Novos modelos de trabalho, de relacionamento, de gestão e de interface. Em um primeiro momento todo mundo é responsável por fazer um novo desenho organizacional olhando para fora e para o futuro, que está aí, presente na nossa realidade”
Com a pandemia, muitas empresas começaram a rever o modelo de trabalho. Algumas já entregaram seus escritórios porque vão investir no trabalho remoto. Outras mantém espaços menores e seus colaboradores que ocupavam o local cinco vezes por semana talvez só voltem a se encontrar uma única vez. Para Marco Ornellas é preciso buscar uma forma flexível de trabalho, investir na troca de experiência entre os diversos setores e transformar o escritório em uma espécie de co-working.
Para o consultor, não haverá espaço para empresas que mantém departamentos competindo entre si, que não revelam suas vulnerabilidades para não perderem espaço para outros setores:
“Temos um novo desenho do trabalho, uma nova relação da liderança dos colaboradores. De alguma forma, eu preciso trabalhar com mais autonomia e mais liberdade. Muitas áreas vão se integrar com outras. Por exemplo, os departamentos de recursos humanos e de tecnologia da informação”
O Mundo Corporativo pode ser assistido às quartas-feiras, às 11 hora, no canal da CBN no Youtube, no site da emissora e na página do Facebook. O programa vai ao ar aos sábados, às 8h10, no Jornal da CBN e pode ser ouvido em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e o Rafael Furugen.
Dançar sempre fez parte da minha vida … Melhor, sempre não. Parei de dançar quando me tornei mãe. A maternidade sempre foi um sonho e sou uma mãe feliz, mas é inegável que a agenda de uma mãe tem menos tempo. Cresci em São Paulo e quando criança, dancei balé clássico. Nos anos de 1980, dancei break. Lembra? Era moda. Fiz até um comercial de TV com meus tênis quadriculados como a época exigia.
De São Paulo fui para Jerusalém, onde vivi por vários anos e lá, também, fiz parte de um grupo de dança. Depois morei em Paris e me juntei à comunidade latino-americana. Fiz amizades com dominicanos e colombianos quando me encantei pelos ritmos caribenhos.
Fui morar em Londres onde fiz meu mestrado. Um dia, saindo da estação King’s Cross, vi um anúncio da BBC de que precisavam de dançarinos de salsa para uma novela. Lá fui eu para o casting e fui selecionada! Foi um dia apenas de gravação, era um capítulo de uma novela que se passava em Havana. Uma experiência interessante e muito diferente da minha rotina de estudante de economia.
De volta ao Brasil, em 2005, encontrei uma escola de dança com uma professora incrível! Foram três anos dançando com ela até que vieram meus filhos. Dois meninos: de 9 e 11 anos. Parei de dançar e, confesso, nem dei conta do quando me fazia falta esta arte. Até que 2020 chegou. Com isolamento, quarenta. E vida remota na tela do computador. Em um passeio pelo Facebook, encontrei o perfil de minha antiga professora. Descobri que ela estava dando aula pelo Zoom.
“Será que consigo fazer?”
“Aqui em casa?”.
“Com meus filhos fazendo barulho?”
“Uhhh. Sei não”
Tomei coragem, falei com ela, marquei uma aula, afastei os móveis, vesti roupa confortável, conectei o Zoom. … e foi mágico. Voltei no tempo. De repente, não estava mais na sala da minha casa. Recuperei aquela sensação que a dança sempre me ofereceu, a qual nem lembrava o quando me fazia falta aquela antiga arte na qual nos expressamos sem palavras, ue une a todos em uma linguagem universal — um esperanto de nossos primórdios.
Juliana Malik, a dançarina, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Quase um ano após uma sequência de sufocos, sofrimentos e empates, bem que eu merecia assistir à tranquilidade de uma partida como desta noite, que marcou a estreia do Grêmio no Campeonato Gaúcho de 2021. Sim, o ano de 2020 ainda não se encerrou —- domingo temos a final da Copa do Brasil — e o ano novo do futebol já se apresenta com a mediocridade de sempre das competições estaduais.
Neste ano ao menos não teremos o que reclamar do público que costuma só se apresentar nas partidas finais —- e com toda razão. Com a Covid-19 influenciando comportamentos e escalações, as arquibancadas seguirão vazias no Gaúcho. De resto, é aquele jogo de futebol sem o glamour das competições principais. Não tem bola no pedestal para a entrada dos times no gramado. Não tem banner com patrocinador fazendo cenário para a entrevista no intervalo. Não tem VAR para aliviar a culpa do árbitro. É futebol raiz, como costumam dizer.
Independentemente das condições e do adversário, como disse na abertura desta Avalanche, eu e toda a torcida gremista estávamos mesmo precisando de um dia de calma. Com gol logo no início da partida e goleada antes de o intervalo chegar, respiramos aliviados mesmo com um time bastante modificado e a presença de vários jovens recém-saídos da base. Lucas Silva fez de pênalti, Ferreirinha de cabeça, Guilherme Azevedo só completou para as redes e Isaque eliminou qualquer risco de reação.
Para mim, por curiosidade que seja, nem era jovem nem marcou gols o jogador que mais se destacou: Pinares, chileno, prestes a completar 30 anos, que chegou com boa fama por ser titular da seleção do Chile, mas que teve poucas oportunidades na temporada, fez um partidaço, tomando conta do meio de campo, dominando a bola com qualidade e metendo duas assistências para consagrar os atacantes.
Nem Pinares nem outro de seus companheiros desta noite devem sair jogando no domingo quando decidiremos o título da Copa do Brasil de 2020. O time de Renato já está escalado e teve uma rara semana de preparação, avaliação de erros, correção de problemas e mobilização interna. O desempenho nessa estreia e a goleada conquistada, porém, são importantes para desanuviar o ambiente pesado dos últimos tempos. Assim como é motivador saber que, independentemente do que acontecer domingo —- e torço para que o melhor se realize —- Renato permanecerá no comando da equipe.
Ouço com tristeza que Porto Alegre, onde vivi minha juventude, está praticamente em colapso, a exemplo de outras cidades brasileiras. Um hospital já recorre a contêiner para armazenar cadáveres, e me pergunto se haverá valas coletivas em cemitérios? A que ponto chegamos.
Ao longo de 2020, procurei escrever artigos úteis sobre a necessidade de a população exagerar medidas de proteção, e de o poder público acelerar planejamento antecipando-se a etapas mais críticas. Infelizmente muitos nunca jogaram xadrez, ficam esperando as coisas acontecerem. Tivemos tímidas campanhas de conscientização, graças a meios de comunicação, esses que alguns atacam enquanto espalham mentiras por redes sociais.
Observei que após a comoção dos primeiros óbitos a explosão de casos acabou anestesiando a percepção popular, tornando as vítimas anônimas a cada nova estatística diária. Fiz “Lives” para estender palavra útil a confinados e confinadas. Gravei trilha musical para o poema “Canção Póstuma” de Cecília Meirelles recitado por Zezé Mottaem homenagem às vitimas de uma categoria profissional, advogados(as), um esforço para resgatar do anonimato dos números a memória de seres humanos.
Constatei como aquilo que identificamos como “mal” se esconde e se banaliza na tragédia, como nos ensinou Hannah Arendt. Indaguei se crimes praticados na pandemia terão algum tribunal futuro a lhes fazer justiça, à la Nuremberg. Detalhei como e porque se desenvolveu o escândalo de Watergate para reforçar a importância de ainda termos imprensa livre e sem censura. Discerni a política entre exercício de poder e convencimento eleitoral, à luz de princípios que são éticos e universais e valores que nem sempre são. Denunciei a distorção massiva de fatos e conceitos por redes sociais que visam a confundir inocentes, levando muitos a se apegarem a crendices.
Como orientar provou ser insuficiente, sugeri campanhas para assustar a população, como foi nos EUA contra o tabagismo, não custaria tentar. Alertei para o inevitável efeito-verão dos criminosos que “não querem nem saber”, “não estão ouvindo nada”, e mentem que se deve confiar em Deus e não na ciência, atitude nada cristã, reprovada pontualmente pelo Cardeal Odilo Scherer.
O perspicaz Comandante do Exército, General Edson Pujol, proclamou que estamos em guerra, e que os profissionais de saúde são nossa linha de frente. O governo federal não concordou, em nada se empenhou para um plano eficaz de combate nessa guerra, pelo contrário, negou a gravidade.
Se é estratégia eleitoral, seu único efeito para 2022 será prolongar a pandemia inibindo manifestações de protesto. Mas não adianta tratar isso como questão política, é mais além, é institucional, estrutural, cultural, é urgência de guerra.
Essa subestimação negacionista foi e ainda é exemplo “que vem de cima”. Talvez explique porque para alguns a ficha só caia “quando o raio cair em casa”. Outro dia, após sobreviver à Covid-19, um moderado radialista retornou ao trabalho com um tom bem diferente: cobrou do poder público ações repressoras contra os que se aglomeram, incluindo uso de gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral, coisas que policiais às vezes utilizam em manifestações.
Fica a pergunta: por que a polícia não reprime tais atos, se representam ameaça a muitas vidas? Alguém alegou que “não adianta colocar lá meia dúzia de policiais diante de milhares”. Pois então que não se coloque meia-dúzia, e sim um contingente. Ah, mas a polícia não dispõe de suficientes soldados? Ora, que entrem então em ação as Forças Armadas, afinal elas existem para nos defender de inimigos. Assim mesmo, reprimir ajudaria mas não resolveria.
A pandemia nos ensinou que a sociedade prioriza mais a economia do que a vida humana. É compreensível a preocupação de trabalhadores e empresas com consequências do distanciamento social. Home office e serviços de entrega não são alternativas para todos. É imperioso que o poder público ofereça auxílio-socorro aos que necessitam, só que isso acaba tornando-se insustentável.
Origina-se daí a tese de se “flexibilizar”, mas desde meados de 2020 já prevíamos seu efeito de onda: cada flexibilização causa expansão da pandemia, que obriga a retomar restrições. Agora talvez nem tenhamos escolha: se não pararmos, os hospitais seguirão lotados, gente já morre em filas de espera. Ainda assim, nem um “lockdown” resolveria, apenas retardaria as consequências.
Esperamos meses e meses por vacinas, única esperança contra todo esse mal. Laboratórios mundiais dedicaram esforço sem precedentes, com prazo para “antes de antes”. O governo federal não se empenhou pela mesma causa, foi meramente protocolar, preferiu investir em medicamentos duvidosos, e perdeu chance de garantir doses da vacina que acabou sendo a mais eficaz de todas. Restaram os esforços heróicos do Instituto Butantã e da Fundação Oswaldo Cruz, que lamentavelmente viraram objetos de rinha eleitoral entre o Presidente da República e o Governador de São Paulo.
O Ministério da Saúde, em vez de médico tem um militar paraquedista, e da ativa. Assim mesmo, a logística conduzida por aquela pasta, convenhamos, não é nem de longe a logística de uma guerra. Falta pressa, lucidez e senso de emergência, e sobra então para a ANVISA a batata quente de ter que dar todo tipo de explicação para se esquivar diante da urgência de se acelerar a vacinação.
O Brasil precisa de socorro, S.O.S. ! Como socorrer, como atacar a causa e não apenas maquiar as consequências devastadoras ? Tecnicamente falando, talvez seja mais simples do que se imagina. Depende de entendimento para uma decisão administrativa e que não deveria ser política. Chegou a ser reivindicada mas, tímida, não prosperou. Agora, deveria ser retomada e com urgência, mesmo que demande emenda constitucional, pois é o caminho tecnicamente lógico: a aquisição de vacinas pelo setor privado.
É que contra todos argumentos normalmente sensatos, a velocidade da pandemia faz da atual vacinação pública uma peneira para tapar sol. Barreiras legais existentes à aquisição empresarial não se justificam mais nessa calamidade. É semelhante à chantagem que sofrem estados e municípios quando tentam agir diante do imobilismo federal, só que é ainda mais grave pois na prática funciona como obstrução à livre iniciativa.
É inevitável a discussão sobre estado versus iniciativa privada: economia não pode parar, estado não tem dinheiro e/ou é incompetente para vacinar. Não seria então a iniciativa privada mais eficiente ? Ora, a economia só não vai parar se as empresas não pararem, e para isso precisam urgentemente imunizar seus funcionários, não existe mágica.
Conclusão: na prática, Ministério da Saúde e ANVISA estão freando a economia. Deveriam autorizar, e logo, a vacinação empresarial, facilitando em vez de dificultar. Já se esperou tempo demais, e não se pode ficar à mercê dessa embromação que é o Plano Nacional de Vacinação. Alguém irá gritar “ah, mas aí os ricos vão comprar tudo e os pobres ficarão sem”. Claro que não, é só garantir estoques, questão de orçamento, matemática, cálculo, planejamento, estabelecer condições, será que nossos governantes não entendem dessas coisas ?
Está na hora de o empresariado ser menos contemplativo e assumir seu protagonismo, saindo em defesa de seus lucros, dos empregos que proporcionam e dos salários de seus funcionários. Parar as atividades temporariamente talvez seja inevitável a essa altura, e servirá apenas para ganhar-se tempo. O caminho é um só: vacinar para poder retomar atividades, em vez de flexibilizar sem vacina. E vacina tem ! Estados e municípios empobrecidos podem ter dificuldades, mas a iniciativa privada não, outro dia pagou-se 1 milhão de reais para um jogador de futebol entrar em campo.
Então, empresários, vão deixar as coisas assim como estão e assistir omissos? O que esperam ganhar com uma economia que nesse andar da carruagem continuará amarrada? O que esperam para retomar negociações com o governo? Que ao menos se associem aos esforços de vacinação dos estados e municípios.
Foi um dia intenso. De trabalho e de emoção. Tão intenso que só me despedirei da segunda-feira que se iniciou ontem, às 4h30 da manhã, assim que der o ponto final neste texto. E a entenderei encerrada neste adiantado da hora porque para concluí-la de forma justa era preciso antes agradecer a todas as pessoas que carinhosamente me escreveram ou gravaram depoimentos para marcar meus dez anos de Jornal da CBN.
Comecei na CBN em dezembro de 1998 e assumi o comando do principal jornal da emissora em 28 de fevereiro de 2011, em lugar de Heródoto Barbeiro. Uma baita responsabilidade. Não fosse apenas um dos fundadores da rádio, ainda era jornalista referência para meu trabalho e conduta.
Foi um dos meus filhos quem lembrou, em reportagem que foi ao ar nessa segunda-feira, o dia em que Mariza Tavares, diretora de jornalismo, me convidou por telefone para o cargo. Na cadeira do escritório coletivo que temos em casa, com o encosto jogado para trás e olhando para o alto, ao desligar contei a novidade. Ele, ainda bem jovem e diante da minha cara de espanto, perguntou: “e isso é bom, não é?”. Meu “sim” não passou confiança, segundo ele. Teria sido a primeira vez que me viu inseguro diante de uma decisão. Mal sabe ele.
Pouco tenho a reclamar das oportunidades que surgiram em minha carreira desde que a iniciei, em agosto de 1984, na rádio Guaíba de Porto Alegre. O destino me foi generoso. O primeiro passo teve influência do pai. Foi ele quem pediu para que me aceitassem em uma vaga não-remunerada de estagiário. Dali pra frente, foi por minha conta e risco. No Correio do Povo, no jornalismo do SBT, na rápida passagem na rádio Gaúcha e na vinda para São Paulo, quando fui contratado pela TV Globo. Por aqui, trabalhei na TV Cultura, na Rede TV, no portal Terra e na CBN.
Meu colega Marcelo Lins, na “Conversa de Primeira” de terça-feira, comentou que todo o profissional que tenha tido a oportunidade de estar por dez anos à frente de um mesmo produto jornalístico é merecedor de respeito. Confesso que nunca havia pensado nessa longevidade, talvez porque assisti ao meu pai permanecer por ao menos 50 anos apresentando o mesmo noticiário de rádio. O que significa uma década nesta linha do tempo, não é mesmo?!?
Fiquei feliz. Sensibilizado. Chorei. Talvez porque o tempo que vivemos nos deixe mais frágil —- a mim com certeza. Estou muito mais vulnerável. Não daquele jeito que me senti quando fui convidado para encarar o desafio do Jornal da CBN. Aquela vulnerabilidade —- do “será que serei capaz?” ou “se não der certo?”— é diferente desta que estamos experimentando. Aquela vem acompanhada pela satisfação profissional; a de agora, pela tristeza profunda das vidas perdidas na pandemia.
Verdade, também, que meu choro veio por motivos diferentes.
Nesses dez anos de Jornal da CBN, engoli seco para contar a história da tríplice tragédia no Japão, ocorrida dez dias depois de assumir o programa; solucei e sofri diante do microfone enquanto levávamos ao ar notícias do acidente de avião da Chapecoense; gaguejei durante os relatos do incêndio no Ninho do Urubu, no Rio; e tive de interromper minha fala quando anunciei a morte de José Paulo de Andrade.
Ao completar dez anos, chorei ao ouvir a voz de minha mulher e meus filhos, ao reconhecer a fala de colegas que respeito e admiro muito, de amigos que fiz nessa caminha. e ao ler mensagens de ouvintes generosos. Chorei por entender que a insegurança do início foi recompensada; me impediu que a arrogância se sobrepusesse; me fez querer aprender e corrigir; errar e pedir desculpas —- à audiência e aos companheiros de redação.
Chorei porque se aprendi alguma coisas nestes dez anos foi que não devemos ter vergonha de nossos sentimentos e desejos.
A todos que me ensinaram essa lição, e me ajudaram a percorrer esse caminho, obrigado!
Ouça a reportagem completa que a rádio CBN produziu para lembrar meus dez anos no Jornal da CBN.
Os filmes policiais geram grande suspense e são capazes de prender o espectador até o fim da trama. Em geral, o clima de mistério esconde nuances e detalhes que só permitem que o criminoso ou o desfecho da investigação sejam revelados nas últimas cenas. Normalmente, os finais são surpreendentes e nos fazem perceber que deixamos escapar alguns detalhes – propositadamente favorecidos pelo diretor – que impossibilitaram desvendar a situação ao longo do filme.
O que esses filmes têm em comum com a nossa vida?
Diante de situações que nos geram emoções intensas, como tristeza, raiva ou vergonha, em geral temos uma tendência a confiar excessivamente nos nossos pensamentos e desconsiderar diversos aspectos que poderiam nos permitir uma compreensão diferente ou alternativa.
Imagine a situação de uma pessoa que, no dia do seu aniversário, percebe que as pessoas que lhe são importantes não telefonam e não enviam mensagens. Essa pessoa até tenta ligar para um de seus amigos, mas a chamada cai na caixa postal. Inicialmente, o primeiro pensamento pode ser de que essas pessoas não se importam com ela. Possivelmente, diante disso, se sentiria triste ou decepcionada.
Ocorre que essa pessoa é presenteada com uma festa surpresa por esses mesmos amigos, motivo pelo qual não haviam falado com ela anteriormente. Nesse momento, provavelmente, essa pessoa teria uma mudança de perspectiva, uma mudança na forma de interpretar os fatos, experimentando, como consequência, uma mudança nas suas emoções.
Em geral, os pensamentos rápidos e precipitados acompanham as emoções, numa linha de raciocínio capaz de explicar o que se vive e o que se sente, deixando-se de levar em conta possibilidades alternativas que poderiam mudar a interpretação original.
Isso não significa que todos os nossos pensamentos sejam incoerentes ou infundados. Muitas vezes, os pensamentos negativos são compatíveis com situações difíceis que enfrentamos.
Buscar evidências ou informações adicionais que nos permitam criar raciocínios diferentes para o mesmo evento é chamado na psicologia de pensamentos alternativos ou compensatórios, o que não significa adotar pensamentos positivos: são coisas distintas.
Pensar de maneira alternativa é propor questionamentos aos próprios pensamentos. É adotar um pouco de ceticismo com o que passa pela nossa cabeça e analisar aspectos importantes que podem estar sendo ignorados.
Algumas perguntas podem nos auxiliar nesse processo:
o que estou deixando de considerar?
existe outra explicação para isso que está acontecendo?
se estivesse acontecendo com outra pessoa, o que eu pensaria sobre isso?
Nessa reflexão, muitas vezes descobrimos que nossos pensamentos são coerentes, racionais e que não estão sendo guiados pela emoção. Diante disso, precisaremos adotar algumas estratégias para resolver problemas reais, aceitar algumas condições ou mesmo avaliar o significado que atribuímos às situações.
No entanto, quando buscamos pensamentos alternativos para situações que são desagradáveis, podemos descobrir o quanto nossos pensamentos podem estar enviesados, distorcidos, restringindo nossas percepções e amplificando nossas emoções.
Nossos pensamentos são livres. Podemos pensar absolutamente tudo, mas pensamentos não são fatos. São apenas ideias, hipóteses.
Então, antes de dar muito crédito e agir de acordo com o que passou rapidamente pela sua cabeça, vale a pena se lembrar de que muitas vezes a vida também imita a arte e, assim como num filme, devemos assumir o papel de um bom detetive, desses que exploram detalhes e possibilidades. Não se trata de aniquilar as emoções, mas adquirir enfrentamentos mais saudáveis que mudem o roteiro e produzam desfechos surpreendentes.
Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung