Conte Sua História de São Paulo: o sino azul tocou no coração da telefonista

Sílvia Pohiani dos Santos

(in memorial)

Aos dezoito anos, minha mãe, Diva Pohiani, deixou a cidade do interior onde morava para trabalhar na Companhia Telefônica Brasileira, em São Paulo. O mundo estava em guerra e ela deixou seus pais trazendo junto de si o salvo conduto — uma autorização especial que permitia que viajasse apesar de ser de origem italiana e, portanto, considerada inimiga por nosso país que apoiava os aliados.

Em São Paulo, na cidade que mais crescia no mundo,  ela se sentiu uma rainha. Com seus saltos altos, cabelos cuidadosamente arrumados trabalhava no setor mais moderno da nossa economia que era o de prestação de serviços. 

Ela era uma telefonista.

Fizera os testes e fora aprovada graças a sua boa dicção, capacidade de atenção e delicadeza no trato com o público. 

O trabalho exigia muita prontidão para realizar as ligações que eram pedidas quando as luzinhas vermelhas se acendiam no painel, além de muita discrição para não ouvir os diálogos que se iniciavam ou também para interromper, gentilmente, qualquer tentativa de conversa com os clientes mais ousados.

Durante o horário de almoço, ela e suas amigas visitavam o Parque do Trianon, já que trabalhavam ao lado do bairro do Paraíso. Lá faziam caminhadas e leituras —- liam, entre outras publicações, a revista Sino Azul, editada pela Companhia Telefônica Brasileira, entre os anos de 1928 e 1973. Leituras e passeios que permitiam que ela e suas amigas descobrissem uma fascinante cidade.

Foi no caminho do trabalho que foi marcado o primeiro encontro entre Dona Diva e Seu Joaquim —- Joaquim Henriques dos Santos, aquele que viria a ser o meu pai. 

Na Praça da Sé, no mais famoso relógio público da cidade, ela desceu do bonde no ponto final onde ele a esperava para acompanhá-la ao Paraíso —- digo, o bairro do Paraíso. Em plena praça, provavelmente pela emoção ou pelo salto muito alto,  ela caiu no chão. Seu Joaquim hesitou entre correr para auxiliá-la ou fingir que não tinha visto para não constrangê-la. Como minha mãe foi rápida em se levantar, ele optou pela segunda ideia.

Beijaram-se assim que se viram. Dona Diva jura ter ouvido sinos azuis. 

Casaram-se e minha mãe deixou o emprego tão querido, porque, por contrato, ela deveria trabalhar em diferentes turnos, com o que meu pai não concordava. Era preciso cuidar da casa e dos filhos que viriam a seguir. 

Apesar de sair da Companhia Telefônica, Dona Diva nunca esqueceu essa experiência profissional, naquele momento efervescente e glamouroso. Época em que ela, uma mulher independente e dinâmica, ajudava a escrever a história das comunicações de São Paulo.

Em sua memória também ficou a imagem e a companhia de uma gerente, chamada Sílvia, de origem alemã. Mulher elegante. Inteligente. Muito fina. Que orientava e tratava as jovens telefonistas de forma humana e com muita competência. 

Uma admiração que justifica meu nome de batismo, Sílvia, filha da Dona Diva — mulher corajosa e moderna que muito me ensinou e a quem lembro no momento em que faço aquilo que mais gosto: contar a história.

Diva Pohiani é personagem do Conte Sua História de São Paulo. O texto foi escrito pela filha da Dona Diva, Silvia Pohiani dos Santos, historiadora, que morreu há oito anos. Seu filho, Renato Santomauro, ouvinte da CBN, compartilhou com a gente um capítulo das histórias escritas por Dona Silvia. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto também para contesuahistoria@cbn.com.br E ouça outras histórias da cidade no meu blog miltonjung.com.br ou no podcast do Conte Sua História de São Paulo 

4 comentários sobre “Conte Sua História de São Paulo: o sino azul tocou no coração da telefonista

  1. Parabéns, Milton e Cláudio Antonio, a história escrita pela dona Silvia ficou um encanto.
    As histórias não deveriam morrer, não deveriam ser mortas antes da hora.
    Ouvir o Conte Sua História de São Paulo é um breve escape de toda essa fase densa que vivemos, obrigada.

  2. Milton obrigado por publicar a história da minha família e pela iniciativa do Conte Sua História de São Paulo. A somatória das histórias familiares, de um lugar e de um povo seguem nos constituindo a cada um de nós e à formação cultural da sociedade e portanto são essenciais.
    Viva a História!

  3. Fiquei emocionada ao ler a história do Sino Azul, porque fui amiga muito próxima da Silvinha, no seu tempo de adolescência e juventude.
    Ela era uma pessoa muito especial e filha de uma pessoa queridíssima a Dna Diva.
    Estudávamos juntas e todas as tardes Dna Diva nos preparava um lanche especial que perfumava toda a casa e me fazia sentir o calor de uma família repleta de amor e bondade.
    Os anos se passaram e lembranças inesquecíveis ficaram!
    Poucas vezes nos encontramos!
    Até que úm dia, ela já com os filhos moços e eu também, soube que ela se fora…
    Senti muito sua partida…
    DNA Diva e Silvia deixaram muita saudade s e como já disse lembranças inesquecíveis
    Senti-me muito feliz e sensibilizada ao ler esta história!
    Parabéns pela iniciativa e obrigada!

  4. A tia Diva,que era casada com o tio Joaquim,irmão da minha mãe e meu padrinho de batismo,formavam junto com os filhos Sílvia e Carlinhos,uma bonita família.Boas lembranças da tia Diva,Padrinho Joaquim e da Silvinha ,que já nos deixaram.

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