Conte Sua História de São Paulo: com a cara de todos os povos

Por Maria Aparecida Baricca Ferreira de Sousa

Ouvinte da CBN

Photo by Toni Ferreira on Pexels.com

Conversando com minha afilhada Bia, contamos histórias sobre a convivência em Sampa nos anos 60, 70, 80 — época da minha infância à juventude. Ao relatar a diversidade de nacionalidades que havia na quadra da rua onde crescemos, ela falou: 

“Vocês viviam cercados de Embaixadas!”.

Como sabemos a cidade de São Paulo, no século XX foi se transformando em uma grande metrópole, a população explodindo, movimento intenso. São Paulo da garoa, São Paulo que não pode parar, São Paulo desvairada, São Paulo a locomotiva que move o país. A Sampa, de Caetano Veloso, uma cidade a ser traduzida, uma mistura de arranha céus, deselegância discreta.

A cidade sempre acolheu muitos imigrantes estrangeiros, que chegaram ao Brasil em diferentes momentos e motivos. Muitos brasileiros migraram também para cidade de São Paulo, em busca de melhores condições de vida. Meus pais, no fim dos anos 50, um casal com seis filhos, desejavam estar em uma cidade que proporcionasse estudo, saúde e oportunidade de trabalho. Eles só não sonhavam que teriam mais dois filhos, meu irmão Octavio e eu.

Uma característica de São Paulo é ter bairros com a cara do povo que ali habita. Bairro operário, bairros de italianos, de japoneses, de nordestinos, etc. 

A Vila Romana, na Lapa, era um bairro bem arborizado, com ruas de paralelepípedos, cheio de casas. Ao entrar no bairro, procurando a casa anunciada para aluguel, minha mãe não teve dúvidas que ali era o lugar onde deveria morar. O bairro próximo ao comercio grande, tinha indústrias, fabricas, oficinas. Ao mesmo tempo era muito acolhedor, com muitas escolas, igrejas, parques, transporte farto, segurança, padaria, armazém, mercados, feiras livres, cinemas e festas populares. Enfim, uma comunidade que favorecia criar uma família, vinda ela de qualquer lugar do mundo. 

Ali, fomos descobrindo famílias de várias nacionalidades e famílias de diversas regiões do Brasil. Partilhamos experiências culturais e habilidades diferentes. A amizade permitiu nos aproximar de cada uma delas, sem interferência na intimidade ou discriminações de credo ou raça, vejam:

A família de portugueses, “uma casa portuguesa com certeza”, arrumada na simplicidade e decorada com muito crochê feito pela matriarca. Educados, estudiosos e religiosos. Na época de natal havia uma mesa com rabanadas e vinho do Porto.

A família de alemães, o casal era bem discreto, 05 filhos, as regras da casa eram bem definidas e obedecidas pelas crianças (nem sempre, afinal criança apronta em qualquer nacionalidade). As crianças, além de estudar, também tinham que participar de alguma atividade física extra: ginastica, atletismo ou ballet. Faziam bolos de aniversários imperdíveis, para os convidados. 

Os descendentes de italianos, onde minha família está incluída, sempre foi uma turma mais barulhenta. Tendo sempre uma nona ou um nono para cuidar, mas também para mandar na gente. Muito almoço partilhado com quem chegasse e muita bebida para brindar.

Os sírios com seus olhos marcantes, pessoas bem-humoradas e afetivas, uma família mais patriarcal. Com uma mama que cozinhava muito bem. Uma culinária que parecia festa:  esfiha, Kibe, doces. Pessoas que podemos chegar e bater um papo bom até hoje.

Os mineiros com suas alegrias e também lutas, muita cumplicidade e amizade com todos.

Os alagoanos, família toda trabalhava, a criançada aproveitava para brincar na casa sem adultos.

Os pernambucanos, uma distração a parte, era divertido ver a arruaça que a mãe deles fazia. Não importava a idade da filha ou filho, o que estava fazendo e com quem, ia na janela da casa gritava o nome, dava uma bronca, soltava um palavrão e mandava entrar.

Aliás, naquela época a gente não esperava os pais mandarem entrar, pois você teria um problema. Todos sabiam o seu limite de rua e tratassem de obedecer. Ficar na rua brincando até tarde era igual a ficar no celular ou joguinhos hoje.

Também, conhecíamos os vizinhos pela profissão ou pelo jeitão:

D. Bem, “tudo bem? ”, essa era sua expressão. Uma criatura muito gentil para com todos os vizinhos. A Tereza costureira; D. Graça, espanhola, que vendia os sonhos mais gostosos do mundo. D. Lúcia, portuguesa, dona da mercearia, que se solidarizava com todos que precisavam de sua ajuda para concluir o almoço. O Aguiar do bar da esquina, que gentilmente cedia o seu telefone para recados da vizinhança. Seu Alípio, o barbeiro, um baiano com sorriso de orelha a orelha. O japonês da tinturaria, a lavadeira nordestina, eles foram os primeiros Delivery que conhecemos, ambos retiravam as roupas em casa e as devolviam limpas e passadas.  O dono da fabriquinha, a mulher do tricô, o mecânico, o advogado, o Del Nero do depósito de bebidas, dona Nenê, professora de datilografia.

Parte da nossa integração acontecia aos domingos, era um dia bem distinto. Logo de madrugada armava-se a feira livre. Na parte da manhã, tinha a vida religiosa, missa, cultos, etc., depois as compras na feira, o preparo do almoço e a tarde brincar na rua. Como era domingo apareciam mais criança, pois vinham visitar os parentes e assim conhecíamos os primos, sobrinhos e netos. As mães também tinham seu momento de convivência. Era uma relação sem combinar, espontânea, acontecia na porta de casa ou na varanda. 

As crianças aprendiam a lidar com as situações ou emoções que brotavam naquela convivência, uma pequena ofensa, um machucado causado por um empurrão. A intromissão dos pais só acontecia se essas coisas ultrapassassem os limites de uma boa convivência entre os vizinhos, um desrespeito grave, ou se quebrássemos algo dos amigos ou da vizinhança.

Posso dizer que sempre me senti muito grata por ter vivido num espaço tão diverso em cultura, recheado do propósito de trabalho, educação, cheio de brincadeiras e aventuras de juventude. Isso criou laços de amizades que duram até hoje. Foi uma grande oportunidade como “Ser Humano”. 

Realmente, vivíamos na simplicidade, mas como diplomatas de embaixadas.

Maria Aparecida Baricca Ferreira de Sousa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Envie o seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

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