Conte Sua História de São Paulo: o charme da gente simples nos tempos da minha Oscar Freire

Por Yip Cho Paul

Ouvinte da CBN

Vivi grande parte de minha infância, dos seis aos 13 anos, na rua Oscar Freire. Não na Oscar Freire das butiques cheias de glamour e da gente elegante. Na Oscar Freire da gente simples e das casinhas singelas. Elegantes — que eu me lembre, e que me marcaram — só havia mesmo dois lugares: o antigo ateliê de Clodovil Hernandes e o restaurante Frevinho — este ainda lá, embora não exatamente no mesmo local. Passava por eles sempre que ia à Rua Augusta. Essa sim, famosa e imortalizada pela música de Ronnie Cord, da Jovem Guarda. Era repleta de lojas, e com bondes subindo e descendo. Visitava com frequência uma loja de armarinho, onde tínhamos o costume de comprar lã; e, também, sempre passávamos em frente à loja Zogbi.

Cursei os dois primeiros anos do primário em uma escola de freiras, a Madre Maria Eugênia. Ia a pé com minhas irmãs, sempre tomando cuidado para atravessar a perigosa Avenida 9 de Julho. A escola tinha um amplo bosque e, nesse bosque, uma pequena gruta com a estátua da Virgem. Toda segunda-feira havia missa e nós, alunos, atravessávamos o bosque para chegar à igreja ao lado do colégio Assunção. O colégio, particular, ainda existe, já a minha antiga escola foi vendida em meados de 1970 para ser demolida e, com outros prédios, dar lugar ao supermercado Eldorado, depois Carrefour e atualmente Shopping Pamplona. Na época, os pais reclamaram do absurdo de uma escola dar lugar para um supermercado. Coisas do progresso? Pelo menos a estátua da Virgem foi conservada quando o supermercado foi construído. Hoije, já não sei o que foi feito dela.

Naquela tempo, andava-se muito. Não raramente tínhamos que subir ladeira acima até a Paulista para chegar na agência de Correios. 

Quem já viu a ladeira da Rua Ministro Rocha Azevedo deve saber da dificuldade de se subir até o espigão a pé! Mas, felizmente, havia a ladeira da Rua Padre João Manuel, um pouquinho menos íngreme, ainda assim, árdua! Coitado do meu irmão que estudava no Dante Alighieri e tinha que escalar o morro todos os dias! Haja pernas e fôlego! Sorte que para ir ao supermercado não se precisava andar muito. Ficava logo na esquina. Hoje, o supermercado Hispania deu lugar ao Pão de Açúcar.

Quanto à casa em que eu morava, era geminada, tipo “linguiça”, muito estreita, com cerca de quatro metros de largura e 40 de profundidade. Fuçando os documentos  — sim, na época eu já gostava de fuçar! —, descobri que a casa tinha história: fora construída por um imigrante, doceiro, de nome David Kopenhagen! Quem diria! Pena, a casa não existe mais. Como muitas outras foi vendida para empreendimento imobiliário e, em 1976, mudei-me para o Brooklin. Mas aí  já é outra historia.

Yip Cho Paul é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para  ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

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