De volta à tensão, à angústia e à alegria que o jornalismo sempre me proporcionou

Photo by Dmitry Demidov on Pexels.com

O jornalismo é profissão que nos proporciona as mais diversas experiências. Situações que nos põem diante de fatos que farão parte da história, mesmo que no momento em que relatamos o ocorrido não tenhamos ainda ideia do seu verdadeiro significado. Escrevo isso sem conseguir tirar da mente as cenas que descrevi, ao vivo, na CBN, de um avião cravado e em chamas entre os andares 93 e 99 do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001. Um suposto acidente de avião que se expressaria, em seguida, no atentado terrorista que marcaria para sempre o Século 21, recém-chegado.

Que outra profissão nos colocaria à frente das maiores autoridades do país ou nos ofereceria a chance de conversar com as personalidades nacionais e internacionais das mais diversas áreas, se não o jornalismo? Foi dela que me aproveitei para estar diante dos meus ídolos do futebol — sim, no início de carreira isso me satisfazia;  graças a ela, tive o prazer de ouvir, ao vivo, as palavras de Amir Klink, fascinado com sua trajetória nas travessias oceânicas — eu era um aprendiz de jornalista quanto pude entrevistá-lo por uma hora, em um programa de rádio, em Porto Alegre.

Na missão de melhor informar, deparei com pessoas influentes e poderosas, questionei os maiores mandantes do país, cometi o atrevimento de duvidar de suas palavras, assim como dei oportunidade para que gente comum se expressasse. Se nas Diretas Já era um estudante de jornalismo, no impeachment de Collor fui privilegiado em cobrir os fatos, ao vivo e a cores, em Brasília. De lá para cá, a vivência no rádio, em especial, me colocou diante dos postulantes a presidente da República. 

Na primeira eleição, após a redemocratização, em 1989, fui repórter; em 94, assisti à eleição de Fernando Henrique Cardoso, e repeti o feito em 98, durante sua reeleição. Foi em 2002, que estreie no comando de entrevistas com os candidatos ao cargo de  presidente. De lá até hoje, pelas mais diversas circunstâncias, participei de séries de entrevistas com candidatos a presidente, a governador e a prefeito. Sempre uma nova experiência. Sempre a mesma tensão. Sempre a mesma impressão de que nem tudo que deveria ter sido dito foi dito. 

Hoje, na CBN, abri mais uma série de entrevistas com os candidatos a presidência da República. A estreia foi com Ciro Gomes, a quem já havia entrevistado em situação semelhante, em 2002, quando concorria pela segunda vez ao cargo, e na eleição passada, em 2018. Os cabelos estão mais grisalhos e a voz mais envelhecida, mas não menos efusiva — me refiro a ele. As ideias seguem sendo apresentadas como definitivas. E o incomodo em ser questionado permanece, com a vantagem de se fazer mais controlado nos ataques aos entrevistadores — coisa da qual não escapei em 2018, quando me obriguei a pedir a ele respeito aos jornalistas que faziam parte da mesa de entrevistas.

Encerrei a conversa de uma hora com a mesma sensação das vezes anteriores. Muitos assuntos foram deixados de lado. Coisas importantes para o cidadão não foram debatidas com a devida profundidade. Registre-se: não é culpa do candidato. Nem dos entrevistadores. Tem muito mais a ver com a complexidade do país em que vivemos e a diversidade de problemas que precisamos enfrentar. Para Ciro, o principal é a miséria, e ele garante ter resposta — confira a entrevista que está no link abaixo deste texto. Imagino que não será diferente com os demais convidados. Essa é a grande preocupação do brasileiro.

O Brasil tem 11,9 milhões de desempregados, 4,6 milhões de desalentados e 38 milhões na informalidade. Uma precariedade vivida por 51 de cada 100 cidadãos brasileiros, mais de 33 milhões passam fome e boa parte tem cada vez mais dificuldade de pagar por um prato de comida. Dar resposta a essa angústia em apenas um hora de conversa é quase impossível, porque exige-se um plano amplo de desenvolvimento do país, com diversas frentes de atuação e, principalmente, muita coesão — algo difícil, considerando que boa parte dos agentes públicos coloca seu projeto de poder à frente do projeto do país.

Nesta quarta-feira, entrevistarei, ao lado da minha colega Cássia Godoy, a candidata do MDB, Simone Tebet; na quinta, André Janones, do Avante; e na sexta, Luciano Bivar, do União Brasil. A despeito da capacidade e interesse, assim como dos desejos e delírios de cada um, abrirei as entrevistas com a mesma sensação da primeira vez em que o rádio me colocou diante desses homens e mulheres que se propõem a comandar o país: tenso pela responsabilidade, angustiado pela falta de tempo para encontrar soluções e muito, muito feliz mesmo, pela profissão que escolhi exercer.

Ouça a entrevista completa com Ciro Gomes, candidato do PDT, no Jornal da CBN

Um comentário sobre “De volta à tensão, à angústia e à alegria que o jornalismo sempre me proporcionou

  1. Pingback: Dez recomendações para uma entrevista de excelência | Mílton Jung

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s