
Por Álamo Oliveira
Ouvinte CBN
Vou chamar-te amazónia de betão
sem qualquer pudor lírico sobre teu santo nome.
não te invoco em vão, pois te acho linda
mega-cidade, madura de caju e abacaxi
perfumada a café e jacarandá.
vou chamar-te amazónia de betão
como se o não fosses de verdade e o poeta viesse
para te cantar selvagem ao anoitecer da vida
com seus versinhos na malinha de mão
como quem acaba de se despir à sombra
do teu casaco de pelúcia senhora da aparecida!
vou chamar-te amazónia de betão e pronto.
não quero perder a ternura como qualquer virgem
desprevenida e só ou ficar sem jeito
desembarcada de uma chalana
que nunca te acostou porque nunca partiu.
vou chamar-te… afinal sorvedouro impune
dos nomes feios que conheço: prostituta gigante
violada e sempre requentada meu amor eterno
criminosa inocente de todas as mortes e fomes.
na cama e que eu te quero macho ou fêmea de água
cavalo égua em galope até tapioga.
me pega o olhar e me leva aos teus seios
onde beba a caipirinha do destino
pelo copo amargo da tua beleza senhora desaparecida!
ai mulher grafitada dos pés à cabeça
como índio condenado a morrer de poluição progressiva
como terminar esta xácara sem bem nem mal
para são paulo – apóstolo ferido em carne-viva?
não sou bandeirante que te cubra as feridas
com a bandeira da inocência.
mas se gritar ainda me ipirango de amor.
Álamo Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
adorei .. porra demais !!! muito maravilhosa a poesia Milton !! Parabéns