Fernando Dezena
Ouvinte da CBN

queria ouvir os sons da cidade
mas a cidade não fala
a cidade não grita
a cidade fica silenciosa
pelo meu caminho
deito à noite – quarto de hotel
e não ouço a cidade
o que me vem é lembrança
de um som que se apagou
mas não era o som da cidade
na rua andando
ouço ônibus em disparada
ouço buzina atormentada
ouço gritos do louco perdido pela rua
(eu?)
mas é o som do ônibus
o som do carro
o som do louco agora na calçada
não ouço a rua
e esse desejo de ouvir tijolos sobrepostos me consome
e esse desejo de ouvir os paralelepípedos enterrados me alucina
piso sobre eles como querendo ouvi-los gritar
eles não gritam
eles se calam
e transformam em angústia as respostas que não tive
mesmo no cemitério da cidade
(introspecto – quarta parada – última na brincadeira do taxista)
ouço vozes
uma sorrindo, outra cantando, outras pedindo clemência a Deus
mas dos muros do cemitério nada se ouve
as lápides, as esculturas
pedra, bronze, marfim
nada dizem
quietas observam a eternidade
talvez nas construções restauradas
na demão de tinta
no parque preservado
ouça algum barulho que não da vida
(de agora)
mas da vida silenciosa que construiu a metrópole
talvez
auscultando
as paredes
com outro timbre
possa ouvir ruídos de histórias
talvez
talvez um menino que correu pela praça
talvez a prostituta em gozo pela noite
talvez o professor
talvez o poeta que nada quis além do menino da mulher e do aluno
talvez um poeta possa ouvir
mas não o que canta a cidade
aquele que tente ouvi-la
surdamente questiona
ouvi-la para quê?
qual o sentido de ouvir a cidade
qual o sentido de petrificado ante ao Theatro municipal gritar
– o que me tens a dizer!
não te procurei
não te procurei
não te procurei
três vezes te nego
e sei que jamais serei absolvido em teu silêncio
o meu pai aqui pisou
minha mãe andou por tuas ruas
andou em teus bondes
ouviu as pessoas
contou tantas histórias
sei de coisas que podem me levar ao engano
de dizer
– ouvi a cidade
mas meu pai morreu com o pulmão cheio de nicotina
não das fumaças de tuas ruas
minha mãe morreu de tanto amor que tinha
traiçoeiramente
não em tua traição
meu irmão Toninho morreu no alto da Paulista
meu irmão Tarcísio viveu no alto da Paulista
meu sobrinho canta pelos teus bares
meus sobrinhos andam por tuas ruas
meu irmão tem casa nesta cidade
pensei que poderia ouvir-te dizer
ao menos
bom dia.
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Fernando Dezena é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Esse texto foi adaptado para você ouvir aqui no rádio. A poesia completa você lê no meu blog miltonjung.com.br. Seja você também um personagem dos 470 anos da nossa cidade: escreva agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos acompanhe o podcast do Conte Sua História de São Paulo