Conte Sua História de São Paulo: o dia em que uma coincidência me salvou da enchente

Nina Campos
Ouvinte da CBN

Chove na Mooca
Foto: Álbum CBN SP Flickr da ouvinte Ana Lucia Vieira Santos

O ano era 1990, e eu cheguei a São Paulo para fazer cursinho e tentar entrar na faculdade. Embora nascida aqui, passei a infância e a adolescência no interior do Paraná. Minha animação e alegria eram imensas, afinal, sempre sonhei com a “cidade grande” — e que grande!

Fazia cursinho no Anglo da Consolação. Pegava ali o ônibus que me deixava no Largo da Batata, em Pinheiros. Ainda sem o menor conhecimento dos ritos e ritmos da cidade e quase quarenta anos antes dos alertas que hoje a Defesa Civil faz pelos nossos celulares, peguei o ônibus em um fim de tarde, debaixo de um enorme temporal, sem maiores preocupações. Afinal, era só chuva!

Aos poucos, porém, fui ficando assustada. O cenário no trajeto sinalizava algo diferente de tudo o que eu jamais tinha vivido: muitos alagamentos, carros parados, o ônibus seguindo apenas por conta de seu tamanho. No Largo da Batata, o motorista abriu a porta, e eu e mais dois gatos pingados olhamos para fora: a água batia no degrau do ônibus. Olhei para ele e, ingenuamente, disse: “Não dá para descer!”. Enquanto as outras duas pessoas nem pararam e mergulharam na água sem temor, ele respondeu: “Não tem jeito, aqui é o ponto final. Estou indo para a garagem”.

Sem outra alternativa, arregacei a barra da minha calça e, com um nojinho inevitável, comecei a caminhar em direção à minha casa, debaixo do temporal e com a água acima dos joelhos. Para quem se lembra de como era o Largo antes da chegada da Faria Lima nova, fui caminhando por aquela rua estreita, com casinhas dos dois lados, que seguia em direção à igreja da Cruz Torta, sem uma alma por perto. Em certo momento, percebi que precisava caminhar pelo meio da rua, onde a correnteza parecia menos forte e a água estava um pouco mais baixa.

A noite foi caindo. Só tive completa noção do perigo que estava correndo quando, um pouco antes do cruzamento da rua Coropé, jorrava do bueiro uma quantidade de água tão grande que parecia uma cachoeira invertida. Congelei. Olhava para todos os lados e não via ninguém. Obviamente, não passava um carro sequer. Não sabia se seguia ou se voltava quando, de repente, vi avançar uma caminhonete. Os dois faróis acesos, a água na altura do capô, feito o Mar Vermelho se abrindo, e eu, no meio da rua, à frente dela.

Não sei o que me deu. Em vez de sair da frente, estendi as duas mãos para o motorista e gritei: “Páaara!!!”. Ele parou. Abriu o vidro e gritou comigo: “O que você está fazendo aí? Entra já!”. Pois é, pessoal, imaginem onde foi parar o conselho “nunca entre em um carro com estranhos”. Já que estava em perigo, perigo e meio…

Então ele me disse: “Onde você mora, menina? Vou te levar”. E eu: “Na rua Costa Carvalho, fica pertinho daqui”. “Nossa!”, ele respondeu. “Eu morava nessa rua! Que número?”. E eu: “93”. E ele: “Não acredito! Na vila? Eu morava lá também! Que casa?”. E eu: “11”. Aí, pasmem, ele disse: “Não acredito mesmo! Eu morava nessa casa!”.

Pois é, pessoal. Qual a probabilidade de isso acontecer em uma megalópole como esta? Eu não sabia se admirava a coincidência ou se curtia o alívio de ter encontrado um anjo da guarda que, inclusive, sabia onde eu morava! Em poucos minutos, eu estava sã e salva em casa. Nessa vila que, aliás, teve sua fundação feita pelo meu avô, quando tudo por ali ainda se chamava Estrada da Boiada. Mas essa já é outra história desta cidade cheia de pessoas boas… e de boas histórias!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Nina Campos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Conte você também a sua história: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

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