Por Maria Lucia Solla
Olá,
Nos anos 70, tive um dos encontros mais emocionantes e significativos da minha vida, mas hoje percebo que a emoção e o significado desse encontro continuam a se revelar, como se revelavam as fotos Polaroid. Tudo vai lenta e magicamente tomando forma, e eu vou me dando conta da imagem que se forma. Dos seus contornos, que nunca se completam definitivamente. Diferentemente do sistema Polaroid, as imagens na vida nunca terminam de ser reveladas. Aí reside a magia.
Foi preciso adiantar minha partida para Roma, onde iria morar e estudar, por alguns meses, porque tinha recebido um dos melhores presentes da minha vida; um encontro com o guru dos Beattles. Foi com esses termos que o presente me foi desembrulhado. Congelei e incendiei ao mesmo tempo. Meu coração não sabia se batia ou se apanhava. Nunca fui boa com bagagem. Fico tão embasbacada na frente do guarda-roupa, da biblioteca e do armário do banheiro, quanto na frente do maître, quando me entrega solenemente o cardápio. No entanto, minha alma veio em meu socorro e acabou dando tudo certo.
Quanto ao meu coração, hoje compreendo porque, durante a estadia num dos hospitais da cidade, semana retrasada, exames e médicos não conseguiram decodificar sua cadência. Imagino que desde o encontro com Maharishi Maheshi Yogi ele nunca mais foi o mesmo. Num lindo prédio antigo, uma senhora me recebeu, dizendo que ele aguardava na sala ao lado. Eu devia entrar. Bati, e ele disse, entre! Fechei a porta atrás de mim. A sala era enorme, e ele estava sentado de costas para a porta, num grande sofá de três lugares. Só podia ver seus longos e despenteados cabelos negros. Comecei a caminhar em sua direção e ele disse, pare! Levantou a mão direita e acompanhou com gestos quando disse, venha, e pare, por mais duas vezes. Sempre de costas para mim. Não titubeei. Obedeci. Andei e parei, segundo o seu comando. Ele procurava ouvir o meu ser, antes de olhar para mim. Queria ter certeza do que havia dentro do pacote, antes de abrir o embrulho. E disse que eu era música. Ficamos mais de uma hora, sentados de frente um para o outro e ele me falou de mim e da vida, segurando as minhas mãos. Transmitiu-me uma doçura e firmeza que eu não sabia pudessem andar lado a lado.
Anos depois, no início dos anos noventa, fui levada à prática da Meditação Transcendental, por um problema de saúde, e só então me dei conta de quem era aquele ser, e de sua real importância. Eu voltava para ele, através dos seus ensinamentos, que nada mais eram do que fechar os olhos, aquietar a mente e ouvir meu verdadeiro ser. Como fizera comigo.
Ontem fui meditar no Templo Zulai, um templo budista, e pensei nele. Reforcei minha crença de que não há fronteiras na busca do divino. Rótulos estabelecem limites e deflagram guerras, e a meditação, está no extremo oposto de qualquer tipo de guerra. É só olhar para dentro, na quietude, e perceber que nossa origem e nosso destino, de todos nós, são os mesmos.
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.