No diálogo do silêncio, uma lição de vida

Por Beatriz Breves

Era uma tarde de domingo quando fui visitar algumas senhoras muito idosas no Amparo Thereza Christina, instituição filantrópica fundada em 1924 para acolher a velhice desamparada. Acontecia um baile vespertino, onde um rapaz, tocando órgão eletrônico, cantava, convidando as senhoras a dançarem.

— Tem dias que dá uma dor no peito, que não dá vontade de fazer nada! Essas palavras vieram de Rosa. Disse e, assim como falou, calou-se em um silêncio profundo.

Sem saber o que fazer, afinal, eu nunca estivera com ela antes, coloquei minha mão sobre seu ombro. E fiquei ali.

O rapaz continuava a cantar músicas que, se não me engano, eram do tempo de minha avó. Algumas senhoras dançavam, outras apenas observavam, e algumas dormiam profundamente. Arrisco dizer que a média de idade era de 85 anos.

Depois de um tempo, Rosa voltou a falar, com um tom sofrido:

— Acho muito triste a cadeira de rodas

Havia várias senhoras em cadeiras de rodas. Mas, bem à nossa frente, uma delas chamava atenção: tão magra que era possível quase ver seu esqueleto. Devia ter mais de 90 anos.

Disse a Rosa que tudo dependia do ponto de vista: se não houvesse cadeiras de rodas, muitas daquelas mulheres estariam confinadas às camas. Acrescentei:

— E você não está numa cadeira de rodas.

Ela suspirou fundo:

— Graças a Deus!

Depois das palavras de Rosa, meus olhos não podiam mais se desviar daquela senhora à nossa frente. Com seus pouquíssimos cabelos brancos, faces “chupadas”, parecia mais um cadáver vivo. Aquela cena começou a despertar o sentimento de uma profunda dor no meu peito. Como uma pessoa tão magra poderia carregar um corpo tão pesado?

Senti que ela representava, em si mesma, a convergência entre a fragilidade de uma idade muito avançada e o peso de uma longa história de vida. E com a dor aumentando em meu peito, eu pensei: “o que é que eu estou fazendo aqui?” Era um domingo de sol. Sentia vontade de sair correndo, queria fugir daquele lugar.

Foi então que eu disse a Rosa:

— É… você tem razão, cadeira de rodas é muito triste e eu entendo a dor que você está sentindo.

Ela permaneceu em silêncio por um longo tempo, até murmurar:

— Às vezes tenho vontade de ir embora desse lugar!

Eu não consegui responder. Ela sentia o mesmo que eu. A diferença é que eu tinha para onde ir. Rosa, não.

Comecei a me projetar no futuro e percebi meu pânico: o medo de um dia estar daquele jeito. O pavor de perceber que, para não estar como aquela senhora, só havia uma opção: a morte.

Uma revolta tomou conta de mim. Que grande escolha a vida me oferecia: morrer ou ficar daquele jeito, um pedaço de carne viva. Que direito a vida tinha de exercer tamanho poder sobre mim? O que ela poderia fazer com meu corpo, minha alma?

Meu consolo era que, diferentemente de Rosa, eu ainda estava longe daquela situação. Ironicamente, a morte parecia uma sorte.

Foi então que compreendi: Rosa não se entristecia com a cadeira de rodas em si, nem com o lugar — limpo, acolhedor, cheio de cuidado e afeto. Ela falava da cadeira em que todos nós estamos sentados para assistir à nossa própria decadência na roda da vida. Falava do lugar humano que ocupamos dentro de nós mesmos.

E minha angústia aumentou, porque percebi que eu também não tinha para onde ir. Ir para onde? Eu poderia passar a vida inteira mudando de endereço, mas jamais poderia me mudar de mim.

A saudade tomou conta de mim diante do poder mágico e cruel da vida de transformar anos em segundos. Quando olhei para trás, minha história inteira parecia ter acontecido num instante. Então, seria apenas uma questão de segundos até eu estar daquele jeito..

Compreendi que o que eu projetava para o futuro, caso não morresse antes, não era o futuro: era o meu presente em poucos instantes; e mais, que não estava bem à minha frente, mas dentro de mim.

Para aliviar o que sentia, perguntei a Rosa quantos anos tinha.

Com dificuldade e constrangimento, respondeu:

— Não estou escondendo minha idade de você. Eu realmente não sei quantos anos tenho. Eu perdi a minha idade.

Aquilo me desconcertou. Ela não dizia que havia esquecido, dizia que havia perdido. E o que significava perder a idade? Como aquilo tudo doía dentro de mim..

Concluí que, um dia, todos começamos a perder a nossa idade. E isso começa devagar, no instante em que a memória parte levando consigo nossa história. Ah, meu Deus, como isso dói.

Os meus sentimentos fervilhavam quando Rosa, após um longo silêncio, virou-se para mim e disse:

— Estou começando a colher o que você plantou!

Perplexa, perguntei o que eu havia plantado. Ela apenas sorriu e não respondeu. Poucos minutos depois, levantou-se e foi dançar. Percebi então que, apesar da tristeza, ela estava viva, e por isso também podia se alegrar.

Quando voltou a sentar-se ao meu lado, minha mão começou a formigar. Contei a ela. Generosamente, começou a friccioná-la para fazer a circulação voltar.

Entendi que, assim como algumas senhoras dormiam profundamente, eu tentava adormecer meu corpo para não enfrentar a dor de estar ali. Mas Rosa me mostrou que, abrindo espaço interno para sentir, mesmo que fosse apenas um sentir sensorial, como o da senhora na cadeira de rodas, ainda era possível, apesar de tudo, sentir alegria e dançar ao som da vida.

E então percebi o quanto eu estava sendo cega ao olhar aquela senhora como um pedaço de carne viva. Eu nunca olhei para um bebê assim. A diferença é que um bebê desperta a ilusão dos meus sonhos; aquela senhora, a desilusão deles. E só por isso ela me assustava tanto.

Ela vibrava nos semitons da vida, contrariando meu desejo de que a vida tocasse apenas na escala principal. E só por isso me assustava tanto.

Aquela senhora ainda poderia me ensinar muito, se eu estivesse disposta a aprender.

Descobri que aquela conversa não acontecia a duas, mas a três: eu, Rosa e a senhora da cadeira de rodas. E que não era só eu quem havia plantado algo. Nós três plantamos e colhemos, uma na outra, um dos sentimentos mais profundos do ser humano: a solidariedade.

Aprendi que não adianta fugir da possibilidade da minha velhice avançada. Naquele dia, conheci um pouco mais de mim mesma, do respeito e do amor. E isso foi muito bom.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

A relação entre os sentimentos de orgulho e autoestima

Por Beatriz Breves

Foto: Bruno Bueno Pexels

Os sentimentos de orgulho e autoestima caminham lado a lado. Ambos falam sobre como nos enxergamos, como nos reconhecemos e como atribuímos valor à nossa própria existência. O orgulho pode ser entendido como o sentimento que mede o grau de reconhecimento que temos de nós mesmos — uma espécie de termômetro interno que revela o quanto nos identificamos com nossas conquistas, nossa história e nossa identidade. Já a autoestima expressa o quanto de valor atribuímos a nós mesmos. É o sentimento que sustenta a forma como nos percebemos.

Um ponto essencial é que ninguém vive sem autoestima. Ela pode ser alta, baixa ou variar conforme diferentes áreas da vida, mas sempre existe. Mesmo quando alguém parece não ter autoestima alguma, ela está lá — talvez muito baixa, quase imperceptível, mas presente.

Quando a autoestima está elevada, a pessoa tende a reconhecer suas qualidades, valorizar suas conquistas e sentir satisfação com quem é. Surge então aquele orgulho gostoso de sentir de si mesmo, que pode ser direto — voltado para a própria pessoa — ou indireto, como o orgulho que pais sentem pelos filhos.

Mas quando a autoestima está baixa, o reconhecimento pessoal diminui. A pessoa passa a vivenciar sentimentos de inferioridade, menos-valia e incapacidade. Muitas vezes, evita situações nas quais não se sente competente, repetindo para si mesma: “ah, não dou pra isso”. São pessoas que, em geral, não aceitam críticas, sentem-se facilmente feridas e tentam ser o que não são, porque carregam um ideal interno de supervalorização que não conseguem alcançar. Como o orgulho mede esse reconhecimento, ele aparece enfraquecido. Para compensar essa falta de valorização interna, muitos recorrem, por exemplo, à arrogância ou à vaidade excessiva, criando uma espécie de defesa emocional.

A baixa autoestima também abre espaço para o orgulho ferido — aquele sentimento que surge quando alguém importante para nós não reconhece aquilo que acreditamos merecer. Quando isso acontece, o reconhecimento que temos de nós mesmos é vivido como ferido, provocando dor, frustração e uma série de outros sentimentos. A forma como reagimos ao orgulho ferido depende diretamente da autoestima: frente ao sofrimento, quem tem autoestima elevada irá refletir e seguir adiante; quem tem autoestima baixa tenderá a recorrer a algum tipo de defesa emocional.

A construção da autoestima, e, consequentemente, da forma como o orgulho se manifesta, começa desde cedo. Um bebê desejado, acolhido e amado sente essa atmosfera de bem-querer. O carinho dos pais, o olhar amoroso e o afeto constroem as primeiras bases desse sentimento. Embora essas primeiras marcas sejam fundamentais, elas não determinam tudo. Sempre existe a possibilidade de reparar equívocos e reconstruir a autoestima ao longo da vida. Todos temos potencial de valor e capacidade de sermos amados. O desafio é que, quando a autoestima está muito baixa, a pessoa pode não conseguir perceber a admiração do outro, mesmo quando ela existe.

E então surge a grande pergunta: como melhorar a autoestima e desenvolver um orgulho que nos torne saudáveis? Não existe fórmula mágica.

De nada adianta solicitar que alguém se permita ser amado ou admirado se essa pessoa não está aberta ao amor. Elevar a autoestima envolve conexão consigo mesmo, reconhecer qualidades e potenciais, aceitar-se como humano e compreender que todos têm defeitos e virtudes. Também exige entender que, na vida, sempre haverá quem goste de nós, quem não goste e quem seja indiferente; e isso é absolutamente natural.

Cultivar a elevação da autoestima e sentimento de orgulho de si é, acima de tudo, um processo de autoconhecimento, aceitação e gentileza consigo mesmo, uma caminhada que começa na pessoa e se reflete em tudo ao seu redor.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

O idadismo da “abominável classe média”: moradores não querem casa de repouso na vizinhança

Bengala de idoso
Foto de Mohamed Larbi Larouk no Pexels


Por Diego Felix Miguel

Prezada leitora e prezado leitor, peço que não me julguem pelo título deste texto — não antes de chegarem à última linha.

Minha reflexão parte do cruzamento de duas situações. A primeira evoca o célebre e controverso pensamento do filósofo Marilena Chauí, proferido em 2013:

“A classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética, porque é violenta, é uma abominação cognitiva, porque é ignorante.”

A segunda é a reportagem publicada na Folha de S.Paulo, em 25 de maio de 2026, sob o título: “Moradores pressionam a gestão Nunes e ocupas casas de repouso para idosos da Lapa”.

No vídeo publicado pelo jornal em suas redes sociais, moradores exaltados alegam que as instituições de longa permanência para idosos (ILPIs) ocupam uma área estritamente residencial e manter um serviço como esse retira a tranquilidade do local devido à circulação de ambulâncias e carros funerários — fatores que, segundo eles, desvalorizariam os imóveis da região.

Agressividade, falta de empatia e discriminação são ocorrências do dia a dia do idadismo — bem como as condições de saúde e sociais de pessoas que demandam cuidados de longa duração — emergem nos gritos histéricos de uma suposta elite que busca, a todo custo, higienizar o seu reino.

Essas mesmas pessoas manifestam-se posicionando suas casas de forma ostensiva, com música alta, para deliberadamente prejudicar o funcionamento das instituições. Interferem, assim, diretamente no bem-estar e no cuidado de pessoas idosas, principalmente daquelas que vivem com demências ou outras condições que comprometem sua autonomia e exigem um ambiente calmo, sem estímulos.

A filósofa aborda duramente isso quando conceitua a “classe média”.

Chauí não limita esse termo a uma condição meramente econômica, mas sim a uma postura política e existencial. A polêmica de sua fala, de 2013, ecoa, finalmente, no absurdo da Geriatria e da Gerontologia — e no ativismo pelos direitos humanos da pessoa idosa — neste ano de 2026, servindo como um exemplo didático e doloroso da postura que ela denunciava.

Testemunhamos ali o autoritarismo do fascismo social, que desconsidera a convivência democrática, o respeito às diferenças e a valorização da vida. Presenciamos a abominação ética que violenta, por meio de palavras e atitudes, pessoas vulnerabilizadas que necessitam de suporte especializado — sabendo-se que a complexidade logística e assistencial de uma ILPI é enorme e que uma mudança intempestiva, sem planejamento e investimento, pode trazer transtornos gravíssimos e riscos à saúde dos residentes.

Por fim, vemos a abominação cognitiva: a ignorância que banaliza a vida, colocando o valor patrimonial e o metro quadrado acima da dignidade humana, incomodada pela mera passagem de uma ambulância que socorre ou de um carro funerário que acolhe a finitude.

A questão aqui tratada não é burocrática ou sobre a regularização dessas instituições; é sobre a forma violenta e desumanizadora como a situação é posta, sem qualquer respeito à longevidade. Prosperar economicamente não é um problema — quem dera todas as pessoas tivessem as condições necessárias para transformar suas realidades —, mas a arrogância e a violência legitimadas pelo poder socioeconômico, sim, são problemas crônicos. São posturas que acentuam a exclusão de grupos historicamente minorizados e silenciados pelas políticas públicas que, quando finalmente se tornam visíveis, são tratados como um estorvo urbano a ser arremessado para além da linha abissal.

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, especialista em Gerontologia pela SBGG e presidente do departamento de Gerontologia da SBGG-SP.

Avalanche Tricolor: nem sorte, nem juízo

Grêmio 0x1 Flamengo
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Brasileirão - Grêmio x Flamengo - 10/05/2026
Noriega disputa a bola. Foto Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Dona Ruth costumava dizer que eu tinha mais sorte do que juízo, sempre que me encontrava diante de uma daquelas situações em que a enrascada teria sido grande não fosse alguma ocorrência fortuita que me livrasse da tragédia. Neste domingo de Dia das Mães lembrei dela, lógico. Não pela frase em si, mas por tudo que representou na minha vida, mesmo tendo tido a oportunidade de conviver com ela muito menos do que gostaria. Esteve na minha memória na missa matinal, no almoço em família e nas conversas com os parentes que se reuniram nesta data.

A frase, por sua vez, me veio à mente durante a partida desta noite, na Arena. À medida que o adversário acumulava passes, dribles, cruzamentos e chutes a gol, a máxima da Dona Ruth se fazia presente. Por sorte, uma bola deu no travessão; a outra foi chutada para o alto. Em seguida, foi nosso goleiro quem nos safou de um placar aberto ainda nos primeiros minutos. O primeiro tempo inteiro foi assim. Por sorte.

A ausência de juízo nos fez dar espaço para um dos times mais talentosos do campeonato. Permitimos que seus armadores tocassem a bola com maestria, sem a marcação aguerrida que o jogo exigia. Mesmo com três zagueiros na área, dois volantes diante dela e alas mais recuados, faltavam harmonia e ajustes. E isso oferecia ao adversário um espaço privilegiado. Nas poucas vezes em que a bola esteve nos nossos pés, faltou discernimento para chegar com perigo ao gol.

Voltamos para o segundo tempo sem tirar nem pôr. Nem na escalação nem no comportamento. E, para tamanha falta de juízo, não haveria sorte capaz de nos salvar. Aos 23 minutos da etapa final, levamos o único gol de uma partida que tinha tudo para se transformar em goleada a favor do adversário. Não bastasse isso, ainda amargamos uma combinação de resultados que nos deixa naquela zona-você-sabe-qual.

Ah, Dona Ruth! Depois de tudo, volto a lembrar da senhora. Que falta me fará amanhã cedo, quando estarei de volta ao trabalho. Nos nossos tempos em família, lá em Porto Alegre, eu acordava nas segundas-feiras pós-derrota e, ao sentar para o café da manhã, alegava dor de barriga, algum mal-estar, talvez um princípio de gripe. E a senhora, compreensiva, me permitia voltar para a cama, ficar embaixo das cobertas para não precisar encarar a flauta dos adversários na escola.

Quando o ouvinte é o personagem, o rádio cresce e a entrevista esclarece

No rádio, às vezes, uma pergunta vale mais do que uma resposta longa e cheia de números.

Hoje, ao entrevistar Régis Dudena, secretário de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, sobre o Desenrola 2.0, escolhi começar a conversa criando um personagem. Um brasileiro que ganha cerca de oito mil reais, tem parte da renda comprometida com consignado, está enrolado no cartão de crédito, no cheque especial e atrasou contas da loja onde costuma comprar.

Era um personagem fictício apenas no nome. Porque, na prática, ele representa milhares de pessoas que estavam ouvindo o rádio naquele instante. Aliás, milhões de brasileiros sufocados por dívidas e que podem se beneficiar das regras anunciadas pelo Governo Federal.

Sempre gostei desse tipo de entrevista. Ela transforma um assunto técnico em uma conversa possível. Sai o economês. Entra a vida real.

Quando o ouvinte consegue se enxergar dentro da pergunta, ele entende melhor a resposta. A entrevista deixa de ser apenas uma prestação de serviço e passa a cumprir uma das funções mais bonitas do rádio: criar companhia, identificação e acolhimento.

O rádio tem essa força. Ele fala com milhões, mas preserva a sensação de conversa individual. Como se cada pergunta fosse feita da mesa da cozinha, do volante do carro ou no caminho para o trabalho.

Talvez por isso eu goste tanto do rádio e dessas entrevistas. Elas nos lembram que comunicação não é despejar informação. É construir pontes para que a mensagem faça sentido na vida de alguém.

Quanto à entrevista com o secretário do Ministério da Fazenda, Régis Dudena, que teve o mérito de ser didático nas respostas e ajudar o ouvinte a ficar mais bem informado, você pode acompanhar o vídeo disponível neste post.

O eleitor busca candidato independente mas vota na polarização, analisa Felipe Nunes, da Quaest

A pesquisa Genial/Quaest mais recente, feita em dez estados, que mediu a opinião do eleitor para as disputas estaduais trouxe um dado curioso. Mesmo com a polarização forte na disputa nacional, o eleitor demonstra cansaço desse ambiente dividido.

Segundo Felipe Nunes, sócio-fundador da Quaest, que entrevistamos hoje pela manhã, no Jornal da CBN, há uma preferência por governadores mais independentes, menos ideológicos e focados nos problemas locais. Um desejo que nem sempre se transforma em voto.

Tenho a impressão de que essa dissociação entre o que o eleitor diz ao pesquisador e o que decide na urna tem a ver com uma frase muito usada pelo meu colega e especialista em branding Jaime Troiano: o consumidor diz o que pensa e faz o que sente.

O entrevistado garante que vai escolher um produto mais saudável ou mais sustentável. Na hora da decisão, porém, leva para casa aquilo que desperta desejo, hábito ou confiança. Diante do entrevistador, a pessoa defende o consumo de produtos que respeitam o meio ambiente; na gôndola, leva aquele que cabe no bolso, a despeito dos ingredientes usados.

Ao ouvir Felipe Nunes não resisti à comparação. Quando exposto a pergunta se prefere um candidato ao governo do seu estado mais lulista, independente ou bolsonarista, a maioria fica na coluna do meio. Foi assim em São Paulo, Rio Grande do Sul, Goiás, Rio de Janeiro, Minas, Paraná e Pará. 

A pergunta que fica é: será que é isso que ele fará?

A política tem uma particularidade que a diferencia do consumo. No supermercado, a prateleira está cheia de opções. Na eleição, o cardápio é limitado. Quem escolhe o que está disponível não é o eleitor — são os partidos, explica Nunes E, até aqui, eles seguem oferecendo opções fortemente alinhadas aos polos tradicionais.

Esse desencontro entre desejo e oferta cria um ruído interessante. O eleitor declara preferência por um caminho mais moderado, mas pode não encontrar uma alternativa viável que represente essa escolha. Diante disso, tende a voltar ao conhecido. Não necessariamente por convicção, mas por falta de opção.

Há também o fator emoção, que não pode ser subestimado. A identidade política, o sentimento de pertencimento, a rejeição ao adversário, tudo isso pesa na decisão final. Muito mais do que a resposta racional dada ao pesquisador.

Na política, a metáfora ganha outra dimensão. O eleitor pode afirmar que quer equilíbrio, mas, diante da urna, pode ser guiado por lealdades, medos ou expectativas que não aparecem com a mesma clareza na pesquisa.

No fim das contas, a frase que nasceu no marketing parece dialogar bem com o cenário eleitoral: o eleitor diz o que pensa. Resta saber o que ele vai sentir na hora de votar.

E, principalmente, se haverá, de fato, uma opção que permita transformar esse desejo em escolha real.

Avalanche Tricolor: um ponto fora de casa e algumas fatias de torta

Athletico-PR 0x0 Grêmio
Brasileiro – Arena da Baixada, Curitiba PR

Athletico-PR x Grêmio
Gabriel Mec em jogada de ataque. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Um ponto ganho ou dois perdidos? Para quem ainda busca estabilidade na temporada, ponto fora de casa deve sempre ser comemorado. Sobretudo diante de um adversário que tem sido imbatível quando está frente à sua torcida. A maioria dos que passam por lá sai de bolso vazio. Não tem o que festejar.

A lamentar, o fato de não sabermos, mais uma vez, usar a nosso favor a superioridade numérica. A expulsão de um dos jogadores adversários poderia ter sido mais bem aproveitada. Luis Castro preferiu ser conservador e manter a principal novidade na escalação: três zagueiros. Ao menos conseguiu conter a força ofensiva do time da casa. Não arrisco dizer que foi esse o motivo que nos impediu de vencer.

Em um raro momento da minha jornada de torcedor, não pude assistir à partida de hoje. Uma amiga querida estava aniversariando, e estar ao lado dela para comemorar esse momento me parecia mais apropriado. Entre conversas divertidas, companhia de amigos e comida de qualidade, fiquei de olho nas atualizações que piscavam na tela do celular. Teria sido a ansiedade que me levou a comer tantas tortas, quitutes e docinhos?

Sem assistir à partida, contentei-me com os melhores momentos quando cheguei em casa. Mas esse resumo do jogo nem sempre está à altura do desempenho de uma equipe. Tanto esconde falhas como pode omitir momentos de qualidade. Fui ler alguns comentários em redes sociais e reportagens. Pouco ajudou. A incerteza sobre a performance gremista nesta noite de sábado ficou mais confusa que o nosso meio de campo sem Arthur.

Consta que Tetê fez sua melhor apresentação desde que retornou à equipe. Por outro lado, houve quem reforçasse as críticas ao nosso atacante. De minha parte, quero crer que ele ainda desencantará e se tornará um jogador decisivo na temporada. Lembre-se: meus níveis de glicose e insulina estão altos neste momento — a torta de chocolate estava deliciosa.

Por mais que ainda estejamos perseguindo três pontos fora de casa, voltar a Porto Alegre com o empate nos mantém praticamente na mesma posição da tabela. Pode ser que seja apenas reflexo da minha felicidade por ter estado com colegas e amigos — e por não ter visto o jogo jogado por nosso time —, mas vou dormir com a sensação de que o ponto conquistado tem seu valor e merece ser comemorado. Entre a mesa cheia e o placar vazio, fico com a sensação de que o empate encontrou seu lugar.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: quando o consumo atravessa fronteiras e amplia identidades

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As marcas deixaram de caber em um território. Basta observar um movimento que já faz parte da sua, da minha rotina: compramos de fora, estudamos fora, investimos fora — e, muitas vezes, sem sequer perceber de onde vem aquilo que consumimos. Um desafio aos gestores de marca, como alertaram Jaime Troiano e Cecília Russo na conversa que tivemos neste sábado, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso.

Outro dia, navegando por um site de compras, me dei conta de que aquele produto que parecia tão próximo vinha, na verdade, de outro continente. Não era exceção. É regra. Como resumiu Cecília Russo: “o consumo hoje não tem mais um endereço único”. A frase parece simples, mas carrega uma mudança profunda. O endereço deixou de ser geográfico e passou a ser simbólico.

Entramos em uma loja física no Brasil e levamos para casa algo produzido na Ásia. Abrimos um aplicativo e encontramos a etiqueta “compra internacional” com a mesma naturalidade de quem escolhe entre tamanhos e cores. A origem já não é o fator decisivo. É o desejo que fala mais alto.

Esse movimento vai além do carrinho de compras. Está nos jovens que buscam intercâmbio ainda no ensino médio. Está nas famílias que reorganizam a vida para estudar fora. Está nas plataformas que conectam estudantes a universidades estrangeiras. Nesses casos, não se compra apenas um serviço. Compra-se um projeto de vida.

Há também o dinheiro que atravessa fronteiras. Contas em dólar, investimentos fora do país, novas formas de proteger o patrimônio. Você haverá de lembrar quando uma viagem ao exterior exigia uma visita à casa de câmbio e nos obrigava a levar um maço de dinheiro estrangeiro na bolsa. Cecília sintetiza bem: essas empresas “vendem mais do que uma conta. Elas vendem tranquilidade, segurança, a ideia de expansão”. No fundo, vendem a sensação de que o mundo ficou maior.

Jaime Troiano ajuda a entender o que está por trás desse comportamento. Ele fala de algo que não aparece na etiqueta do produto. “Há um sentimento por trás de que eu não tenho limites, que o mundo é todo meu”. É quase um jogo de conquista. Quem já brincou de War entende a metáfora.

A curiosidade também entra em cena. Experimentar o novo. Sair do conhecido. Testar sabores, culturas, experiências. Nem todos se jogam com a mesma intensidade, mas a possibilidade está aberta. E isso já muda a relação com as marcas.

Há ainda um elemento silencioso: o desejo de pertencer. Consumir algo que vem de longe pode sinalizar a entrada em um grupo mais restrito. Lembro do que significava jogar basquete com um tênis All Star cano longo nos meus tempos de adolescente. Ter um daqueles pares de tênis dava a impressão de que jogávamos muito mais do que realmente éramos capazes. Para comprá-los, precisávamos da colaboração de algum conhecido que viajasse aos Estados Unidos. Eu tive de me contentar com um Charrua, comprado na fronteira do Rio Grande do Sul — mais acessível.

Como em toda escolha, existe o cálculo. Preço, oportunidade, proteção do dinheiro. “Há sempre alguma coisa ligada à ideia de fazer um bom negócio”, lembra Jaime. O racional acompanha o emocional. Caminham juntos.

No meio desse cenário amplo, uma pergunta se impõe: se tudo pode vir de qualquer lugar, o que mantém a relação entre marca e consumidor?

A marca do Sua Marca

Quando o consumo atravessa fronteiras, a confiança precisa ser o ponto de ancoragem. Produtos circulam, serviços se deslocam, experiências se multiplicam. O que permanece é a segurança de que aquela escolha vale a pena.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após as 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: quando o dia vence e a noite escapa

Palestino 0x0 Grêmio
Sul-Americana — La Cisterna, Chile

Conmebol Sul-Americana - Grêmio x Palestino-CHI - 29/04/2026
Tetê busca jogada no ataque. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA


Dia cheio e diverso. Assim foi essa quarta-feira que terminou diante da televisão assistindo ao Grêmio. Começou cedo como sempre começam os meus dias. Atualizar o ouvinte com as notícias mais relevantes foi minha primeira missão. 

Antes mesmo de encerrar essa jornada cotidiana, já estava a postos para outra tarefa: mediar discussões sobre como podemos inovar e tornarmos as cidades mais inteligentes. A noite chegou e eu estava no palco de uma festa beneficiente para ajudar a construção da matriz da igreja que frequento. O clima era de tango e comida argentina.

Agenda intensa. Nem por isso distante do jogo.

Quando consegui me conectar à partida, Carlos Vinícius já havia entrado para a história — daquelas que ninguém deseja protagonizar. Três cobranças de pênalti, três erros, hat trick. Rapidamente, surgiram comparações apressadas. Citaram Palermo, que desperdiçou três pênaltis em um jogo da Argentina contra a Colômbia, em 1999. Referência fora de lugar.

Carlos Vinícius perdeu o terceiro. Os dois primeiros foram defendidos após irregularidades que exigiram nova cobrança. O detalhe faz diferença.

Chama atenção a pressa com que parte da torcida encontrou um culpado. Nas redes sociais, não faltaram críticas a Luis Castro por manter o atacante como cobrador. Há um traço comum nesses julgamentos: ignoram o contexto. E tenho a impressão de que há um esforço em punir o técnico, sem justificativas.

O centroavante é o principal nome do ataque. Tem histórico, confiança e responsabilidade. Tirá-lo da cobrança naquele momento seria mais gesto de insegurança do que de estratégia. O jogador foi quem bancou a decisão de seguir na cobrança. E tem crédito.

O futebol, como a vida, costuma testar convicções.

Carlos Vinícius chegou a marcar um gol que poderia mudar a narrativa da noite. Recebeu fora da área, driblou o marcador e finalizou com precisão. Lance de atacante completo. O árbitro, porém, identificou irregularidade de Tetê na origem da jogada e anulou o gol. Não era a noite dele.

O Grêmio deixa o campo com um ponto. Queria três. Poderia ter três. O resultado não compromete o cenário, mas cobra atenção. A equipe segue com chances de liderança no grupo, mas precisará resolver um problema recorrente: vencer fora de casa.

O calendário ajuda. Restam dois jogos na Arena e apenas um como visitante. A conta é clara.

Antes de se deixar levar pelo ruído que domina parte do debate esportivo, vale ouvir o próprio protagonista. Carlos Vinícius resumiu bem: há dias — e noites — em que nada dá certo.

A frase serve para além do futebol.

Enquanto o resultado em campo frustrou, o dia fora dele foi produtivo. Houve troca de conhecimento, contribuição para uma causa relevante e encontros que justificam a correria.

O futebol não deixa esquecer: nem sempre o esforço entrega o placar esperado. A vida, por sua vez, lembra que o jogo não se resume ao resultado.

Caminhando com beleza moral

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

Foto de cottonbro studio on Pexels.com

Júlia estava com o olhar perdido sobre a mesa de trabalho. Passou o dia todo assim. Marcelo percebeu e, ao fim do expediente, lhe trouxe uma xícara de chá: “Espero que fique tudo bem”.

Antônio foi enganado e prejudicado por uma pessoa que considerava próxima, a quem admirava, e ainda foi apontado como desonesto. Em nome do respeito a essa pessoa, optou por calar-se — para não causar sofrimento a outros, para não propagar o ciclo de dor.

Ana esteve ao lado do ex-marido no momento do adoecimento dele e fez o melhor que pôde para suavizar a angústia de quem um dia já partilhou tantos momentos bonitos com ela.

Beleza moral.

Existem atitudes humanas que causam encantamento, fascínio, espanto. Há pessoas que caminham pelo mundo com harmonia, encaixando-se onde são necessárias gentileza e atenção, demorando-se onde o cuidado pede tempo e um olhar atento aos detalhes.

Beleza moral arrepia. Ela materializa a honestidade, a coragem, a justiça, a generosidade, a magnanimidade. Conecta-se com algo que temos dentro de nós, uma essência que pulsa e se expande quando presencia atos de bondade e ética.

E por que esses atos têm nos causado espanto e encantamento?
Descrevendo assim, parecem tão simples. É que o simples já não vale tanto. A tecnologia, a vitrine nas redes sociais, a fama, o dinheiro, os bens materiais, “a diferenciação” — tudo isso abafa o simples.

A beleza moral parece não encontrar mais terreno onde crescer. Ela acontece, poucos veem. A pessoa desiste ou, quando não desiste (ainda bem!), caminha quase só, com pouca força para gerar grandes movimentos de mudança. A sociedade segue sem ver, sem valorizar.

Repare:: em um tempo em que reclamamos tanto de solidão, grosseria e egoísmo, não cairia bem uma boa dose de beleza moral?

Precisamos caminhar.
A vida se constrói no movimento. Agora, a pergunta é: como estamos caminhando? Que rastros cada um de nós deixa para trás ao passar?

E se alternássemos o grupo de corrida, o grupo de futebol ou os encontros com amigos com o Grupo de Caminhada da Beleza Moral?

— Vamos juntos?

Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.