Grêmio 2 x 4 Cruzeiro Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)
Villasanti em lance de ataque Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Acordei neste domingo em João Pessoa, a ensolarada capital da Paraíba. Logo depois do almoço, peguei a estrada rumo ao interior do estado, em direção a Campina Grande, a capital mundial do São João (que nenhum vivente de Caruaru, em Pernambuco, esteja entre os caros e raros leitores desta Avalanche, ao menos hoje). Mais de três mil quilômetros me separam de Porto Alegre, onde o Grêmio jogou essa tarde. Não foram suficientes, porém, para me poupar da sofrência.
A dor que o Grêmio provoca na alma de cada torcedor não diminui com a distância. Maltrata nossa paixão tanto na Arena quanto aqui, de longe, ao vermos o time se desconstruir ao longo de uma partida que seria difícil por natureza, mas que chegou a oferecer alguma esperança de vitória.
É lamentável ver até mesmo nossos ídolos serem tragados pela mediocridade que empurra o Grêmio para a beira do precipício — e, agora, para dentro dele.
A história de Kannemann está sendo exposta. Por mais que nosso capitão lute bravamente, já não consegue impedir a derrocada. Diante desse cenário, perde o controle e acaba expulso, como aconteceu hoje. Haverá quem o culpe pelo resultado. Quem fizer isso ainda não entendeu o que está acontecendo com o Grêmio.
Estou longe do Grêmio. Mais distante ainda, porém, está o Grêmio da própria história. Até aqui, não conseguiu vencer uma só partida fora de casa. E jogar diante da torcida também não tem feito tanta diferença, como mostram os dois últimos jogos na Arena: o empate desesperado no clássico e a virada trágica deste domingo. As estatísticas ainda apontam resultados melhores em casa, mas não faz muito tempo que os adversários tinham medo de jogar na Arena.
A distância que me separa do Grêmio não me preocupa. Hoje, onde eu estiver, consigo assistir aos jogos — mesmo com o sinal ruim de internet no hotel em que estou. O que me deixa desconfortável é perceber quão longe estão os demais adversários a cada rodada do Campeonato Brasileiro.
O Grêmio, ao contrário, parece andar na direção oposta. Não é a distância entre João Pessoa e Porto Alegre que dói. É ver o time se afastar, jogo após jogo, daquilo que já foi — e daquilo que seus torcedores ainda esperam que volte a ser.
O primeiro turno terminou e deixou muita gente surpresa. É natural tentar entender o que as urnas disseram. Talvez a gente também precise olhar para o jeito como a política fala. E para as palavras que escolhe.
Há um dado que me veio à cabeça. O Globo analisou cerca de 600 mil falas de deputados e senadores desde o início deste século. A reportagem publicada em 2024 aponta que os discursos ficaram 39% menores e os parlamentares também passaram a usar menos palavras diferentes. A fala encolheu no tempo e no vocabulário. A pesquisa não prova, por si só, que a política ficou mais pobre; mas ajuda a dimensionar uma mudança que percebemos no debate público.
Na entrevista com o parlamentar que “bombou” nas urnas, percebe-se que as respostas são incapazes de ir muito além de uma frase feita, tirada de um post do instagram. Basta a tréplica para o discurso perder consistência.
A comunicação mudou, eu sei. Políticos falam diante de câmeras, gravam vídeos verticais, disputam segundos de atenção e transformam frases em peças que precisam sobreviver ao corte, à legenda e ao compartilhamento. Seria ingênuo esperar que a linguagem permanecesse intacta. O problema começa quando a concisão deixa de ser escolha e vira incapacidade de nomear o que acontece.
Um erro vira corrupção. Um tropeço vira escândalo. Uma discordância vira traição. Adversário é inimigo. Parece mais fácil falar assim. Só que, quando tudo recebe o mesmo nome, fica mais difícil entender o que de fato aconteceu. E se toda palavra se parece com um grito, o diálogo emudece.
A política vive de frases fortes. Nas redes, quanto mais curta e mais indignada a mensagem, maior a chance de ela circular. Não é só culpa dos políticos. Nós também compartilhamos o que nos irrita, o que confirma o que já pensamos, o que cabe numa frase de efeito.
O resultado é uma conversa em que tudo parece urgente e definitivo. Se todo episódio é um escândalo, a palavra perde o peso. E, quando aparece algo realmente grave, já gastamos o espanto.
Simplificar faz parte da política. Um candidato precisa explicar suas ideias sem transformar cada conversa numa aula. Mas há diferença entre falar de um jeito simples e tratar o público como se não pudesse lidar com uma explicação mais completa. Uma coisa aproxima. A outra empobrece.
O resultado do primeiro turno contrariou expectativas e deixou muita gente tentando entender o país. Talvez valha começar pelas palavras que usamos para descrevê-lo. Nem todo erro é corrupção. Nem todo tropeço é escândalo. E nem toda divergência é uma guerra.
A política precisa encontrar um jeito de falar que chegue às pessoas sem reduzir tudo a um rótulo. Porque, quando faltam palavras para explicar o que vemos, sobra espaço para quem oferece respostas fáceis.
O atrito não é erro de percurso; é a própria mecânica do sistema. Se a dor é o gatilho biológico e anímico que torna a cura necessária, a angústia é a tensão estrutural que precede qualquer despertar genuíno. O problema nunca foi sentir o impacto da fratura, mas paralisar diante do diagnóstico.
A regra fundamental de operação da existência está gravada nessa modulação precisa: angustiai-vos, mas não desanimeis; irai-vos, mas não pequeis. O “mas não” é a linha exata de contenção. Não se trata de anestesiar a resposta nervosa nem de negar a força do choque exterior. O impacto chega, a pressão sobe, a noite pesa, mas a integridade do núcleo não se rende à corrosão.
O contraste é o que define a forma. Não há leitura de relevo sem sombra, assim como não há horizonte de águas tranquilas sem a travessia real do terreno acidentado. A felicidade desprovida da contraposição da angústia é apenas ruído branco, matéria oca sem tração. O vale é rota de passagem obrigatória, nunca ponto final de pouso. A promessa nunca foi a isenção de tráfego pela escuridão, mas a garantia de que a fenda tem extensão finita e saída mensurável.
Marx diagnosticou a fé como o suspiro da criatura oprimida, o ópio que anestesia a dor para perpetuar a inércia da exploração. Nietzsche foi além, denunciando a esperança metafísica como fraqueza de quem inventa um além para não suportar o peso trágico da terra. Ambos acertaram na anatomia do sedativo barato, mas erraram o alvo quando a esperança se recusa a ser fuga.
A diferença elementar reside no fato de que o ópio busca apagar a consciência para mascarar o corte, enquanto o princípio da fé opera na contramão: não dopa o homem contra a realidade, mas injeta tração na espinha para cruzar o vale sem ajoelhar diante dele. Não é a resignação dos fracos nem a negação do mundo material, mas o vetor de sustentação que mantém a estrutura de pé enquanto a têmpera é forjada no fogo.
A escuridão não é permanente nem soberana; é apenas a densidade necessária para calibrar os olhos antes que o sol quebre a linha do horizonte.
Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.
Carla Pistori no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN
“O líder nada mais é do que um espelho para o seu time.”
Uma empresa pode investir em publicidade, discursos e campanhas institucionais, mas sua reputação também será medida pela experiência de quem trabalha nela. Na Royal Canin Brasil, cerca de 400 profissionais convivem com a tarefa de transformar o propósito da companhia em decisões, comportamentos e informações que chegam ao público. A construção dessa coerência foi tema da entrevista de Carla Pistori, diretora de Assuntos Corporativos da Royal Canin Brasil, ao Mundo Corporativo, da CBN.
A empresa está no Brasil há mais de 35 anos, mantém uma fábrica em Descalvado, no interior de São Paulo, e oferece quase 200 fórmulas de alimentos para cães e gatos, distribuídas em aproximadamente 300 itens. Segundo Carla, a experiência do funcionário com a marca começa antes mesmo da contratação, durante o processo seletivo, e avança pela integração, pelo conhecimento científico e pela compreensão da missão da companhia.
“A gente costuma dizer que os nossos colaboradores são embaixadores da nossa marca, mas não só da marca, da nutrição e da importância da nutrição também”, afirmou. Para que isso ocorra, acrescentou, é necessário que os profissionais entendam o papel da alimentação na saúde, no bem-estar e na longevidade dos animais.
A reputação perde sustentação quando a orientação dada pela chefia não aparece em sua própria conduta. Carla resumiu essa responsabilidade com a expressão em inglês walk the talk, usada para descrever quem age de acordo com aquilo que defende.
“A liderança precisa estar muito alerta, porque não é só falar, mas é viver os princípios, os valores da empresa, as políticas. O líder é uma inspiração para o time”, disse.
Na avaliação da executiva, confiança e transparência precisam caminhar juntas. Ouvir uma demanda não significa prometer que ela será atendida. Significa dar espaço para a manifestação do funcionário, explicar o que pode ser feito e alinhar as expectativas. “Uma comunicação clara, transparente, com expectativas alinhadas e devidamente justificadas tem tudo para dar certo.”
Comunicação para diferentes perfis
A diversidade de idades, funções e rotinas impõe outro desafio. A mesma informação precisa alcançar quem trabalha no escritório, na fábrica, nos armazéns logísticos ou em campo. Também deve fazer sentido tanto para quem acabou de sair da faculdade quanto para profissionais com mais de 30 anos de empresa.
Além de newsletter, TV corporativa e ferramentas virtuais, a Royal Canin promove uma reunião mensal da liderança com todos os funcionários. O encontro reúne a apresentação das estratégias do negócio, o reconhecimento das equipes e uma “dose de conhecimento”: cerca de 15 minutos dedicados à nutrição de cães e gatos e ao portfólio da empresa.
A companhia realiza ainda duas pesquisas anuais. Uma mede a experiência dos profissionais. A outra procura entender como a informação circula e qual é a participação dos gestores nesse fluxo. Para Carla, os canais precisam ser adaptados aos diferentes públicos, e o gestor tem papel central porque conhece a maneira mais adequada de levar a mensagem ao próprio time.
O gestor é apontado por Carla como a primeira porta para dúvidas, reclamações e propostas. Quando essa conversa não encontra acolhimento, os funcionários podem procurar a área de relações com associados, ligada a recursos humanos, o ombudsman e outros canais internos.
A existência dos canais, por si só, não garante a escuta. O funcionário precisa confiar que poderá falar, e a liderança deve estar preparada para receber a informação e responder com honestidade. Essa relação não nasce em uma reunião nem se recupera com uma frase de efeito.
“O desengajamento não vem da noite para o dia. Existe uma jornada, existe uma trajetória no relacionamento desse profissional com a empresa”, afirmou. Diante de uma equipe desmotivada, Carla recomenda que o gestor comece conhecendo a história, os valores e as capacidades de cada pessoa, além de investigar como o trabalho pode contribuir para sua realização profissional.
Uma carreira construída em áreas diferentes
Formada em relações públicas e há cerca de 20 anos no grupo Mars, do qual a Royal Canin faz parte, Carla iniciou a carreira em vendas. Depois, passou por marketing, comunicação e assuntos corporativos. Ela considera a experiência comercial uma escola por aproximar o profissional da realidade dos parceiros, varejistas e consumidores.
O período que mais a tirou da zona de conforto, porém, foi a integração da Royal Canin à Mars. Na área de comunicação, participou do trabalho de apresentar ao time uma cultura e valores diferentes e explicar os benefícios da incorporação a um grupo maior.
Para quem decide entre a especialização e uma trajetória por áreas diversas, Carla não apresenta uma fórmula única. “Eu acho que o mais importante é a gente ser muito honesto com a gente, entender o que traz realização, o que traz satisfação.”
Ciência contra a desinformação
A comunicação científica tornou-se outra frente do trabalho. A executiva avalia que uma empresa, sozinha, não consegue conter a circulação de informações incorretas sobre a saúde e a alimentação de cães e gatos. A resposta exige a participação conjunta da indústria, de veterinários, entidades profissionais e organizações do setor.
Há cerca de dois anos, a Royal Canin passou a estruturar esse diálogo com conselhos regionais de medicina veterinária, o Conselho Federal de Medicina Veterinária, associações e representantes do mercado. O objetivo, segundo Carla, é ampliar o espaço de informações técnicas baseadas em evidências.
“A medicina veterinária precisa ser pautada em evidência, não em achismo e não em tendência”, afirmou. A frase também serve às empresas: reputação não se sustenta em discurso isolado. Ela depende da repetição diária de decisões coerentes, da qualidade das relações e da disposição para explicar o que se faz.
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
O Bolsa Família reduz a pobreza imediata, mas o desafio é fazer com que seus beneficiários encontrem condições para superar a vulnerabilidade de forma permanente. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, com Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Instituto Unibanco, e Fabio Giambiagi, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, o FGV IBRE.
Os dois especialistas reconheceram a importância do programa de transferência de renda. A divergência apareceu principalmente na definição das prioridades: de um lado, o fortalecimento das políticas sociais associadas ao benefício; de outro, o controle das despesas públicas, a revisão do cadastro e a criação de caminhos para a entrada no mercado formal de trabalho.
Ricardo Henriques afirmou que o Bolsa Família não deve ser avaliado apenas pela renda repassada mensalmente. O programa também condiciona o pagamento à frequência escolar das crianças e ao acompanhamento de saúde, o que pode produzir resultados no longo prazo.
Segundo Henriques, o principal desafio está no médio prazo. O Cadastro Único deveria ser usado para identificar as diferentes causas da vulnerabilidade de cada família e conectá-la aos serviços públicos necessários. Desemprego, dependência química, morte de quem sustentava a casa e dificuldade de acesso à educação exigem respostas diferentes.
“Responsabilidade fiscal e responsabilidade social devem caminhar juntas”, afirmou. Para ele, o equilíbrio das contas públicas é necessário, mas o ajuste não deve recair prioritariamente sobre o Bolsa Família. Henriques citou os subsídios concedidos a setores econômicos como uma despesa que também precisa ser revista.
O peso do programa nas contas públicas
Fabio Giambiagi concentrou sua análise na expansão dos gastos e no desequilíbrio fiscal. Ele lembrou que o Bolsa Família custava entre 0,4% e 0,5% do Produto Interno Bruto, o PIB, antes da pandemia. Após a ampliação do número de famílias atendidas e o aumento do valor do benefício, a despesa chegou a aproximadamente 1,5% do PIB. Atualmente, estaria entre 1,1% e 1,2%.
Giambiagi defendeu a manutenção do valor nominal do benefício por algum tempo, sem correção integral pela inflação, e a redução gradual do número de famílias atendidas, com base na revisão cadastral. Segundo ele, parte do crescimento registrado em 2022 ocorreu por meio da divisão artificial de famílias, que passaram a declarar duas residências unipessoais para receber dois benefícios.
“O atual governo, corretamente, fez uma limpeza desse cadastro para tirar essas situações”, disse. O número de famílias beneficiadas, que chegou perto de 22 milhões, caiu para aproximadamente 19,3 milhões.
Para Giambiagi, o programa deve preservar a proteção das pessoas que não conseguem obter renda suficiente, mas também precisa estimular a rotatividade. Algumas famílias dependerão do benefício por períodos mais longos. Outras poderão deixá-lo à medida que conseguirem qualificação e emprego formal.
O debate mostrou que a discussão não se resume a ampliar ou reduzir o Bolsa Família. O ponto central está em combinar proteção contra a pobreza, controle dos gastos, qualidade do Cadastro Único e políticas que ofereçam aos beneficiários oportunidades reais de autonomia.
Em tempo: pouco depois da realização do debate, no Jornal da CBN, o Governo Federal anunciou um reajuste de 15% no valor do Bolsa Família. E negou o viés eleitoral, apesar de ter sido feito a 17 dias das eleições e quando as pesquisas de opinião revelam maior dificuldade para a reeleição do presidente Lula.
“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.
Botafogo 3×2 Grêmio Brasileiro — Nilton Santos, Rio de Janeiro
Havia duas lendas no banco do Grêmio nesta noite no Rio de Janeiro.
Luiz Felipe Scolari, que conquistou alguns dos principais títulos da nossa história, entre eles o Campeonato Brasileiro e a Libertadores da América.
E Renato Portaluppi, protagonista das maiores conquistas já alcançadas pelo Grêmio, técnico mais vezes campeão pelo clube — ao lado de Oswaldo Rolla — e único a merecer, até agora, uma estátua de bronze na Arena.
Somados, Felipão e Renato conquistaram 17 títulos como treinadores do Grêmio. Acrescente mais cinco à conta de Renato como jogador, incluindo o Mundial Interclubes de 1983.
A imagem dos dois lado a lado, exatamente na semana em que o Grêmio completou 123 anos de fundação, era suficiente para acelerar o coração. A emoção tomava conta do torcedor e trazia uma tremenda saudade dos tempos em que a ideia da imortalidade se materializava nos gramados do Brasil e do mundo.
Iludidos que somos, apesar de todas as limitações que nos acompanham ao longo do ano, chegamos a imaginar que alguma energia vinda do passado contaminaria o time. Quem sabe resolveria nossos problemas, mesmo que por apenas uma noite.
O Grêmio saiu atrás no placar e conseguiu empatar ainda no primeiro tempo. Parecia o início da virada. A realidade, porém, se impôs. Permitimos que o Botafogo abrisse dois gols de vantagem e, mesmo assim, continuávamos olhando para o banco de reservas, à espera de alguma intervenção sobrenatural.
O gol milagroso até surgiu. A tecnologia, porém, impediu que ele se realizasse.
A realidade já não permite tamanho romantismo. Quando a bola começa a rolar, as limitações do elenco e a fragilidade tática ficam escancaradas. O time parece ter evoluído muito pouco desde o início da temporada. Faltam organização, segurança e capacidade de reagir sem depender de um lance fortuito ou de alguma lembrança gloriosa.
Felipão e Renato carregam uma parte fundamental da grandeza do Grêmio. Representam aquilo que fomos e tudo o que ainda desejamos voltar a ser. Só não podem entrar em campo. Nem suas histórias são capazes de marcar, organizar a defesa ou corrigir os erros de um time sem rumo.
Para escapar da situação em que estamos, será preciso muito mais do que a força mística de nossos ídolos. O passado pode inspirar, aquecer o coração e até alimentar a esperança. Quem precisa salvar o Grêmio, porém, está no presente.
E, por enquanto, o presente não está à altura da nossa história.
Quando cursava o quarto ano ginasial, em 1970, fui avisado por meus pais de que, no ano seguinte, como filho mais velho de três irmãos, teria de começar a trabalhar de dia e estudar à noite.
Era necessário complementar o orçamento doméstico. Meu pai era comerciário e seu salário era insuficiente para o sustento da família. Mamãe era dona de casa e cuidava de mim, da minha irmã Lu e do meu irmão Nando.
Assim que terminaram as aulas, matriculei-me em um curso intensivo de datilografia, em Pinheiros, onde morávamos. Em janeiro de 1971, consegui emprego de office-boy em um banco que não existe mais, na rua Boa Vista, no Centro.
A vida era puxada. Trabalhava durante o dia e, à noite, fazia o curso de técnico em contabilidade.
Meu chefe aproveitava meus conhecimentos para alguns serviços internos, mas eu não escapava das entregas pelas ruas de São Paulo.
E não havia Google Maps. O máximo que tínhamos era o Guia Quatro Rodas ou o boca a boca.
Saía do banco com fichas telefônicas da Telesp na maleta. Se fosse necessário, ligava para meu chefe de um dos inúmeros orelhões espalhados pela cidade. Só não podia voltar sem fazer a entrega e sem o protocolo devidamente assinado pelo destinatário.
Na maioria das vezes, almoçava no refeitório do banco. Quando o serviço estava tranquilo, dava até para ir de ônibus almoçar em casa. Tínhamos duas horas de intervalo e o trânsito de São Paulo ainda não era infernal.
E, afinal, nada era comparável à comidinha da mamãe.
Na volta, descia na esquina da rua Xavier de Toledo com a Sete de Abril e passava na banca de jornal do meu amigo Gabriel. Ele me deixava folhear, de graça, A Gazeta Esportiva e o Popular da Tarde para saber as últimas notícias da nossa paixão comum: o Palmeiras.
Era o time de Dudu, Ademir da Guia, Leivinha, Leão, Luís Pereira e companhia.
Uma verdadeira Academia!
Depois, perto do Mappin, parava alguns instantes para admirar o espetáculo diário do Guarda Luizinho. Com bom humor e educação, ele orientava pedestres e motoristas. Era gentil com todo mundo e conhecia muitos office-boys pelo nome.
Nas entregas, também não resistia às lojas da rua 24 de Maio, com seus aparelhos de som de última geração expostos e ligados. Sonhava em ter um daqueles em casa para ouvir Roberto Carlos e os Beatles.
O salário não era dos melhores, mas, de vez em quando, dava para comprar uma calça Lee legítima americana numa importadora da Praça do Patriarca. Todo mundo comprava as “becas” lá, apesar do elevador velhíssimo, que às vezes parava entre um andar e outro.
Outro sonho era ganhar na Loteria Esportiva e acertar os 13 pontos.
Vira e mexe fazíamos bolões. Só conseguimos os 13 uma vez: um colega, jogando no campeonato de futebol do Sindicato dos Bancários, levou treze pontos na canela.
No curso de contabilidade, tive aulas de Noções de Direito com o advogado Belisário dos Santos Júnior. Suas aulas fizeram nascer em mim o desejo de ser advogado.
Daí em diante, sempre que passava em frente à Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, dizia para mim mesmo:
— Um dia vou estudar aqui.
E estudei.
Entrei em 1977 e concluí o curso em 1981. Depois, passei a exercer a profissão em um grande banco, onde trabalhei até me aposentar.
O pouco que sou e que tenho devo ao meu esforço e ao de minha família, mas também a São Paulo.
A cidade onde comecei carregando fichas telefônicas da Telesp e protocolos dentro de uma maleta foi também a cidade onde descobri o que queria ser.
E, para terminar, parafraseio Tom Zé:
“São, São Paulo, quanta dor,
São, São Paulo, meu amor!”
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
José Antonio Braz Sola é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcas do Conte Sua Historia de São Paulo
Marina Zarvos lançará “Ponto a Ponto — crônicas do cotidiano” (Grupo Editorial Lê) no dia 10 de setembro, durante a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, realizada no Distrito Anhembi.
A autora receberá os leitores a partir das 14h30, no estande K-74, próximo à Arena Cultural.
Marina teve dezenas de textos lidos no quadro Conte Sua História de São Paulo. Segundo ela, essa experiência a incentivou a transformar suas histórias em livros. Antes de “Ponto a Ponto”, foi coautora, com Sonia Bittencourt, de “As duas pontas da vida” (Oficina do Livro).
Tive o prazer de escrever a orelha de “Ponto a Ponto”, texto que reproduzo a seguir:
Marina Zarvos é amiga de longa data. É daquelas pessoas que chegam contando histórias e, quando você percebe, já está dentro delas. Eu e o Cláudio Antonio, o Claudinho, a conhecemos desde 2014. Foi quando nos falou do “Seu Tacílio”, que consertava calçados em uma sapataria na Jamaris, em Moema. Logo percebemos que ela faz amizade com facilidade. Em um passeio pelo bairro, nos apresentou Dona Eva, 90 anos, sobrevivente da Segunda Guerra e ainda firme para enfrentar as batalhas de um pedestre na cidade grande. Noutra vez, nos encontramos no Ibirapuera. Marina buscava o relógio perdido da mãe — como se procurasse também o tempo que escapa e insiste em permanecer. Certa vez, sentamos à mesa de um bar que hoje funciona onde antes era a casa de uma amiga de infância.
Como faz amigos essa Marina! Quando você a conhecer, vai entender a razão. Ela observa o mundo com atenção. Vê o que muitos deixam passar. Escuta o que poucos têm paciência para ouvir. E guarda — em crônicas, contos, poesias e textos reflexivos.
Entre um encontro e outro, descobrimos uma paixão em comum: o rádio. Claudinho e eu trabalhamos nesse ofício há décadas. Ele é o maestro que sonoriza cada história. Eu sou o editor e narrador do Conte Sua História de São Paulo, programa da CBN que há 20 anos dá voz aos ouvintes. Marina é ouvinte fiel. Um dia, ouviu seu nome e um de seus textos no ar. O que não sabíamos é que aquela experiência ajudaria a revelar a escritora que ela cultivava no escuro de uma gaveta — embora parte de seus textos já tivesse encontrado o público no rádio.
Neste livro, Marina vai além de Moema e da nossa São Paulo. Amplia esse universo. Em uma travessia feita de memórias e afetos, nos leva às suas origens. A cultura grega, presente na família, surge como referência — nos mitos, nos nomes, nas ideias que atravessam séculos. Ao mesmo tempo, seu olhar ilumina mulheres que sustentam histórias, muitas vezes de forma silenciosa.
Os textos formam uma galeria de personagens. Cada um conduz o leitor a experiências de perda, descoberta, amor e reconstrução. Fragmentos que, costurados, revelam um percurso: o de alguém que escreve para compreender a vida enquanto ela acontece.
Marina é uma narradora de encontros. Este livro é um convite. Ao percorrer suas páginas, o leitor reconhecerá, em muitas histórias, traços da própria vida — porque são essas histórias, as dela e as nossas, que nos deixam em sintonia.
A profissão de office boy, na São Paulo de 1976, era ponto de partida para a carreira de muitos jovens da periferia que temiam ficar desempregados perto da época do alistamento militar.
Eu morava na Penha e todos os dias pegava o ônibus Parque Dom Pedro, onde os office boys da Zona Leste se encontravam. No centro, cada um seguia seu rumo. O meu era a rua 24 de Maio, onde ficava a Gelre, empresa em que eu trabalhava.
Vestia o uniforme da firma, um terninho um número maior do que o meu, e tênis no pé. Enfrentava filas nos bancos e me virava para dar conta de todas as tarefas. Solícito e apagador de incêndio que era, aceitava sem reclamar.
Graças a esse meu perfil, me transferiram para a avenida Paulista, para uma empresa onde nenhum garoto Gelre, como éramos chamados, queria trabalhar. Tinham medo da rispidez do chefe.
A empresa ficava no número 949, em frente ao prédio da Gazeta. Do outro lado da avenida, os estudantes do Colégio Objetivo sentavam na escadaria com seus óculos degradê, cabelos parafinados e blusão amarrado na cintura.
Eu, adolescente dos anos 1970, me apresentei na Celanese do Brasil cabeludo e com um camisão cor-de-rosa todo bordado nas costas.
Assim que pisei na empresa, me deparei com o senhor Natal, que foi logo avisando:
— A empresa recebe pessoas muito importantes e você terá que cortar o cabelo.
No segundo dia de trabalho, já com o cabelo cortado, recebi outra advertência. E uma verba para voltar ao barbeiro e cortar mais curto ainda.
Meu trabalho era percorrer a região da Paulista, Brigadeiro Luís Antônio, Consolação e Pamplona, passando nos bancos, pegando correspondências, levando malotes e enfrentando filas.
Certa vez fui entregar uma correspondência na Camargo Corrêa, na rua Funchal. Me perdi no meio da chuva e fui parar na Marginal Pinheiros, onde os carros passavam jogando barro em mim.
No dia seguinte, levei bronca do senhor Natal: o envelope chegara molhado e eu ainda o havia deixado na recepção, em vez de entregar em mãos.
A vida de office boy também tinha seu glamour. No meu aniversário e no fim do ano, o pessoal da empresa fazia vaquinha para me presentear.
Conheci gente famosa, como o ator Carlos Alberto Riccelli, que esteve na empresa na época em que interpretava Aritana, novela da TV Tupi. As secretárias não paravam de passar pela recepção para ver o galã.
Também conheci o ator João Paulo Adour, na subida da rua Pamplona. Ele me abordou para pedir uma informação. Afinal, não havia Maps nem Waze naquela época.
E teve uma despedida que ficou na memória.
Menino tímido da periferia, tremi que nem vara verde quando recebi um beijo de uma secretária lindíssima do Banco Francês e Brasileiro. Ela havia passado em um concurso para a Caixa Econômica Federal e não veria mais o “homem da Celanese”, como me chamava.
Era uma brincadeira com a propaganda da empresa, que dizia: “Chame o homem da Celanese!” e mostrava um homem voando pela janela.
Décadas depois, de certa maneira, o homem da Celanese também voou.
Fui para a área de tecnologia da informação. Na memória ficaram aquelas ruas, os malotes, as filas dos bancos, o terninho grande, o cabelo cortado por ordem do senhor Natal e as lembranças de uma São Paulo que se transformou com a tecnologia.
A mesma tecnologia que transformou o mundo do trabalho e hoje me permite trabalhar em home office.
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Rubens Batista Rodrigues é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite meu blog, miltonjung.com.br, e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Grêmio 3×1 Internacional Copa do Brasil — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)
Carlos Vinícus marcou duas vezes Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Eram 56 mil pessoas lotando a Arena nesta noite mágica de quinta-feira. Uma multidão majoritariamente gremista tomou conta das arquibancadas. O 3 de setembro de 2026 entra para a história como a data do maior público desde a inauguração do estádio — sim, esta Arena é verdadeiramente nossa.
O recorde dá a dimensão do Gre-Nal que estava em disputa.
Não valia apenas uma vaga na semifinal da Copa do Brasil. Não valia somente mais uma vitória para as estatísticas dos 454 clássicos disputados desde 1909. Valia muito mais.
Os dois maiores clubes do Rio Grande do Sul entraram em campo para defender a própria sobrevivência no futebol.
Uma derrota, naquele momento, diante do arquirrival, poderia representar o fim de uma história de glórias. A derrocada definitiva. A pá de cal sobre um clube que enfrenta enormes dificuldades financeiras. O risco de ver ruir um legado vitorioso, construído por gerações e transformado em motivo de orgulho para seus torcedores.
Era isso que estava em jogo.
E, se a disputa era pela sobrevivência, não bastava ser Gigante. Era preciso ser Imortal.
Empurrado pela torcida, o Grêmio correspondeu com eficiência e bravura. Marcou com firmeza, ocupou os espaços e contra-atacou ainda melhor.
O primeiro gol nasceu de um escanteio e terminou nos pés de Carlos Vinícius, o atacante redivivo. Havia oito partidas que ele não marcava. Nesta noite, matou a fome. Insaciável, voltou a balançar a rede 20 minutos depois.
O segundo gol foi resultado de uma jogada veloz, construída com passes precisos e a participação de Amuzu pelo lado esquerdo. O ponta belga, que ainda devia uma atuação à altura das expectativas, também renasceu com a camisa do Grêmio. Puxou o contra-ataque e deu a assistência para Carlos Vinícius ampliar.
Amuzu guardaria sua melhor contribuição para o segundo tempo.
Aos 23 minutos da etapa final, Tetê avançou pela direita e tabelou com o belga. Dentro da área, Amuzu deu um passe à la Ronaldinho Gaúcho: olhou para um lado e tocou para o outro. Encontrou Krovinović, que driblou o marcador e bateu para fazer seu primeiro gol desde que chegou ao clube.
Sim, o croata também escolheu um Gre-Nal para começar a escrever sua história com a camisa do Grêmio.
O time soube sofrer. Weverton voltou a se destacar. Kannemann e Walace foram valentes na defesa. Diego Caito superou a dor provocada por uma lesão no ombro. Noriega dominou a frente da área. Villasanti manteve a firmeza nos desarmes.
O Grêmio de Luís Castro jogou como há muito tempo o torcedor exigia. Com organização, coragem e entrega. Cada jogador pareceu compreender que não estava em campo apenas para conquistar uma classificação. Lutava para impedir que uma parte da história do clube se perdesse naquela noite.
Um feito dessa dimensão, em um clássico que contrariou os analistas empenhados em prever um jogo mal jogado, aconteceu justamente no aniversário de Luís Castro.
O treinador português comandou a equipe quase sempre sob a desconfiança do torcedor. Corria o risco de deixar o clube sem construir vínculos nem deixar saudades. Nesta quinta-feira, também ele renasceu. Luís Castro nasceu para o Grêmio em um Gre-Nal.
A vitória não resolve todas as dificuldades. Não apaga os erros. Não faz desaparecer as dívidas nem garante o futuro. Apenas nos lembra que há clubes que atravessam a história pelo tamanho que alcançaram.
E há outros que sobrevivem porque se recusam a morrer.