Por Maria Lucia Solla
Olá,
A casa já estava em festa quando os netinhos chegaram. Vibraram com os cartazes, coloridos, que conduziriam a gincana preparada especialmente para a folia da caçada aos ovos e aos brinquedos que o senhor Coelho, gentil e invisivelmente, escondera em lugares estratégicos. O senhor Coelho, assinando com a pegada de uma de suas patinhas sujas pelas calçadas mal varridas e ainda úmidas pela chuva que tem lavado e inundado a alma da cidade, e a nossa, espalhou tarefas divertidas, pela casa.
Para a caçada aos ovos, as tarefas eram as seguintes:
1: Os netinhos devem beijar e abraçar muito a vovó.
2: A deve contar até dez e abrir a porta do móvel apontado pelo cartaz que traz o seu nome.
3: B deve subir numa cadeira, cantar Atirei o pau no gato, imitando um cantor de ópera, e depois ir até o tesourinho dos brinquedos, engatinhando e miando.
4: C deve fazer cinco polichinelos sorrindo, depois contar até dez em inglês (se necessário com a ajuda da vovó) e ir até a geladeira, pulando num pé só.
Para a caçada de mais presentinhos amorosos, ele determinou:
1: A deve pular como coelhinho, com os dentinhos da frente para fora, beijar os irmãozinhos e depois andar de costas até o sofá e procurar bem direitinho, seguindo as orientações do cartaz.
2: B deve fazer cinco abdominais ajudado pelo papai e depois, com as duas mãos nas costas, abrir a gavetinha do móvel do aparelho de som.
3: C deve subir seis degraus da escada, de costas, segurando bem firme no corrimão, usando só os calcanhares, sem colocar a ponta dos pés no chão, e olhar para onde estiver indicando o último cartaz.
Cansados e felizes pela folia, sentaram-se para um delicioso café da manhã e depois foram assistir aos novos devedês trazidos pelo senhor Coelho. Um enorme, fumegante e perfumado saco de pipocas, encontrando barriguinhas cheias, passou a atração secundária, frente a tantas aventuras e novidades.
A vovó então se recostou no sofá, com o coração mais repleto do que o estômago, os olhos marejados pela alegria de verem a alegria dos pequenos, desmanchou o coque que prendia seus cabelos na nuca, tirou os óculos que trazia pendurado estrategicamente na ponta do nariz, e cochilou. Teve sonhos lindos. Viu a si mesma, ainda no viço da juventude, rodopiando pelos salões, sendo cortejada pelos moços mais cobiçados, e sonhando em se casar e ter uma linda família que a amasse e se deixasse amar por ela. Sonhou em cores naquele dia. Lindas cores. Sonhou com enredo e tudo, com seu casamento, com o nascimento dos filhos, o casamento dos filhos e o nascimento dos netos. Se alguém olhasse para o seu rosto, naquele momento, perceberia que a pele se iluminava e as rugas se atenuavam. Ao ajeitar o corpo no sofá, acordou. Olhou em volta e deu-se conta do enorme vazio na sala. Não havia nada e nem ninguém ali. Sonhara que tivera um sonho e seus olhos, estranhamente marejados, permitiram o fluir natural das lágrimas.
Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro De bem com a vida mesmo que doa, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano