Conte Sua História de São Paulo: o Cine Bijou dos meus sonhos

Ailton Santos

Ouvinte da CBN

Fotógrafo Aurélio Becherini, Acervo da Casa da Image de São Paulo

Das montanhas de Minas para as “montanhas de luzes” de São Paulo, entrei de ônibus na Pauliceia, numa noite de janeiro de 1970. Deixava o curso de direito na federal, em Belo Horizonte, para fazer teatro. Só desafios. Tudo novo. Sem limites.

A primeira noite, sono agitado num hotelzinho perto da antiga rodoviária. Depois, a pensão de uma prima. Quarto com dois beliches e uma cama de campanha. Cinco primos cheios de sonhos. E muita agitação.

O dinheiro curto. No domingo, só almoço. E bananas e mais bananas para todos até o dia seguinte.

O primeiro emprego, na revisão de O Estado de São Paulo. Das dez da noite às seis da manhã. 

Só descobertas! Tumultos. E muito barulho. No jornal, no quarto, na casa, nas ruas. Como dormir? Quando dormir? Me pegava dormindo no ônibus, de pé, segurando o pegador que pendia do teto. O joelho falhava, eu quase caia. No elevador do Estadão, um vaivém do andar da revisão ao andar do restaurante. E eu dormindo, ainda em pé, pra baixo e pra cima, no intervalo da jornada.

Certa tarde, em desespero, com a dor aguda de semanas sem dormir, passei diante do Cine Bijou, na Praça Roosevelt. Filmes de arte, para driblar a ditadura. Que descoberta!

Sessões do meio-dia até a madrugada. “Gaviões e passarinhos”, de Pasolini. Nem pensei. Entrei. E mal joguei o corpo na poltrona vermelha, já estava de olhos fechados. Acordei no fim da primeira sessão. No meio da outra, com o personagem Totó caminhando por uma estrada sem fim, com uma gralha falante e um garoto. E de novo só despertei – dormido e descansado – antes da sessão das dez. Pronto para o trabalho.

Dias e noites, a penumbra encantada do Cine Bijou embalava meu sono e meus sonhos, até a hora de trabalhar. Não sem antes saborear o imortal sanduíche de pernil acebolado no bar de frente do jornal.

Outros filmes vieram, para salvar-me da tortura dos barulhos da pensão. E do mundo. Continuei fiel ao berço do Bijou. Até que Carlitos  recebeu-me com as luzes encantadas do seu “Circo”. A angústia de Totó dá lugar ao lirismo de Carlitos, dançando na sala de espelhos, perseguido por um policial. 

Durmo, sonho. E acordo ainda sonhando com aquela magia. Dias e noites. Noites e dias. Até hoje.

Agora que o cinema foi reinaugurado, reacendeu suas luzes, espero reencontrar Totó e Carlitos nas telas do Bijou ou caminhando pelas calçada da Praça Rosevelt. Porque eu continuo a sonhar. Agora com o sono (e os sonhos) em dia.

Ailton Santos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer texto, visite meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: a dança do Tonhão na terra de Padre Reus

Aimoré 1×2 Grêmio

Gaúcho – estádio Cristo Rei, São Leopoldo-RS

Rodrigues comemora o gol, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

São Leopoldo fica logo ali. Coisa de meia hora, ou um pouco mais, de Porto Alegre. Cidade de Padre Reus, o quase santo de quem somos devoto por parte de pai. Todo ano, visitávamos em família o santuário onde o corpo de João Batista Reus está enterrado. Forma de agradecer pelas graças alcançadas.

Foi lá a partida desta noite pelo Campeonato Gaúcho. Não no santuário, é claro. No Cristo Rei, estádio do time da cidade, em que cabem cerca de 14 mil torcedores. Local acanhado como costumam ser os estádios em que são disputados os jogos no Rio Grande do Sul. De gramado descuidado e esburacado, incapaz de aceitar que a bola role de forma natural. 

Para este cenário, o Grêmio levou tive misto. Para não dizer reserva. Deixou alguns titulares no banco, que poderiam ser chamados em situação de emergência. A emergência se fez depois de tomar o primeiro gol. Bastou colocá-los em campo e o talento superou a marcação pesada e o gramado impróprio para jogo.

O primeiro gol foi de uma perfeição rara. Benitez, com qualidade no passe e visão de jogo, colocou a bola entre os marcadores e ao alcance de Nicolas, o lateral esquerdo, que foi à linha de fundo e cruzou na cabeça de Villasanti. Nosso volante paraguaio estava dentro da área. Teve o trabalho precioso de cumprimentar e fazer o gol.

O segundo gol veio novamente pela esquerda. Mais uma vez pelos pés de Nicolas, que cruzou para aproveitar a presença de Diego Souza. Nosso goleador não tocou na bola, mas foi fundamental ao levar com ele a marcação de dois adversários, abrindo caminho para Rodrigues dominar e marcar. 

Sim, Rodrigues, o zagueiro temido por muitos e acreditado por Vagner Mancini, que decidiu aproveitá-lo pela lateral direita, posição em que pode impor seus prazer de chegar ao ataque. Cá entre nós, nunca vi um zagueiro que gosta tanto de atacar como ele. Vamos lembrar que foi de Rodrigues, o gol que nos classificou na fase de grupos da Libertadores de 2020. 

Contra o Aimoré, é o segundo jogo em que Rodrigues é escalado nessa posição. Hoje, saiu jogando como zagueiro e portando a braçadeira de capitão. Não é pouca coisa. No segundo tempo, Mancini o deslocou para a direita e Tonhão, ops, Rodrigues não decepcionou. Já havia aparecido dentro da área outras vezes. Aos 41 minutos, quando Nicolas cruzou e Diego Souza arrastou os marcadores, foi ele quem surgiu para fazer o gol da vitória  e convidou o torcedor a dançar a dança do Tonhão.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: a síndrome do lateral esquerdo e outras reflexões

Photo by RODNAE Productions on Pexels.com

“When I get older losing my hair, 

Many years from now” 

John Lennon e Paul McCartney 

Das lições que a longevidade de algumas marcas nos oferecem a necessidade de darmos um propósito para o trabalho que realizamos. Da escolha do nome da sua marca a importância de estar bem posicionado no mercado. Jaime Troiano e Cecília Russo reuniram em livro 22 temas que ajudarão você a pensar sobre estratégias de gestão de marca.  Um conhecimento compartilhado, de graça, e no formato de e-book que você acessa no site da TroianoBranding

Uma das histórias publicadas em “Brandpedia Feliz Marca Nova, 22 reflexões sobre marcas e sociedade” faz do futebol analogia para se entender a necessidade de a marca ter identidade própria, bem definida, Jaime lembra dos garotos que chegam atrasados para jogar bola e a eles é reservada a lateral esquerda. Posição que, dizem por aí, é pouco querida pelos meninos.

“No mercado é exatamente assim. Se você não escolhe o seu melhor, mais adequado posicionamento, as outras marcas vão te empurrando pra um cantinho mental na cabeça dos consumidores. E você acaba sendo visto como a marca da “lateral esquerda”. Perde sua melhor identidade”. 

Jaime Troiano

O que diriam dessa tese Nilton Santos, Marcelo, Roberto Carlos, Júnior e Everaldo, dos maiores laterais esquerdos que o futebol já assistiu jogar? Deixa pra lá. Aqui, o importante é que você entenda a analogia e não permita que os outros decidam por você em que posição sua marca vai jogar.

Na conversa que tivemos sábado, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, falamos de futebol; e de música, também. Nesse último caso, foi Cecília quem arriscou cantarolar parte da letra “When I’m Sixty-Four”, de 1967, um dos tantos sucessos dos Beatles. Lennon e McCartney levam para a música o tema do envelhecimento em uma época na qual pessoas com 64 anos eram consideradas velhas. Hoje, nessa idade, estamos em plena atividade. Somos 30 milhões no Brasil com mais de 60 anos. Assim como a população é longeva, seja pela ciência seja por mudanças no estilo de vida, as marcas também podem ter vida longa”

“O mesmo acontece com as marcas, ou melhor, com aquelas marcas que, assim como nós seres humanos, fizeram boas escolhas para terem vidas longevas”

Cecília Russo

Ouça o comentário completo do Jaime e da Cecília, a seguir. E baixe o livro para conhecer as demais reflexões que eles propõem para que a sua marcas seja um sucesso:

Avalanche Tricolor: gracias, Benítez!

Grêmio 2×0 Guarany 

Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Benitez é destaque em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O lançamento de Thiago Santos, que provocou a trapalhada da defesa adversária e o gol de Janderson, aos três minutos, foi primoroso e merecia mais destaque da crítica esportiva – e me refiro apenas aqueles que tive oportunidade de ouvir falando da partida do Grêmio, neste domingo à noite. Talvez haja os que souberam apreciar o passe de longa distância assim como eu, apenas não os ouvi. Temo que alguns torcedores que torcem o nariz para Thiago também não tenham percebido a qualidade da jogada. Foi o caminho para desconsertar o sistema defensivo que já se desenhava fechado e aguerrido. 

A velocidade de Janderson e o esforço para alcançar a bola até confirmar que ela estaria dentro do gol também foram importantes para facilitar os trabalhos e nos confirmar na liderança do Campeonato Gaúcho. O guri de 22 anos, emprestado do Corinthians e que estava no Atlético Goianense, aposta de Vagner Mancini, já havia se destacado na partida anterior, na estreia do time principal na temporada. Com físico e tatuagem que lembram Everton Cebolinha, Janderson, além do gol, aproveitou bem as bolas esticadas pela ponta direita. Havia pensando em dedicar a ele, os parcos parágrafos desta Avalanche. Mas aí apareceu Benitez.

Com a lesão de Campaz, ainda no primeiro tempo, o argentino de 27 anos que esteve no São Paulo, ano passado, entrou em campo e logo mostrou seu cartão de visita para a torcida, especialmente àqueles que desconfiavam de sua consistência física: dividiu uma bola na intermediária, sem dó nem perdão de quem colocasse o pé do outro lado. Era só o início de sua participação no Grêmio. O que veio na sequência foi um repertório de passes rápidos e precisos. Com o lado de fora do pé, de calcanhar, de cavadinha e de primeira, colocou seus companheiros em condições de dar sequência para a jogada e no caminho do gol.

Foi por ele que a bola passou, no segundo e decisivo gol. Após receber um chute rasteiro que veio da defesa, com apenas um toque deslocou o marcador e encontrou Fernando Henrique livre na intermediária. O guri de 20 anos, que recém-havia entrado,  ajeitou a bola e o corpo, e meteu no pé de Diego Souza quase na entrada da área. Bem, aí Diego fez o que lhe cabe fazer. Carregou a bola, deixou o zagueiro de lado e estufou a rede, mais uma vez. A segunda em dois jogos dele na temporada.

O jogo em si não foi grande coisa. Ao Grêmio ainda serão necessárias algumas partidas para se saber o que teremos neste  2022. De qualquer forma, é bom sentir o sabor da liderança isolada nesta competição que vencemos nos últimos três anos. 

Mundo Corporativo: filhos são uma potência na vida profissional, defende Michelle Terni, da Filhos no Currículo

 

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Família é família, trabalho é trabalho. 

Não dá pra misturar. 

Cada coisa no seu devido lugar. 

Se tem “verdades corporativas” que foram desconstruídas nesta pandemia, com certeza essas que estão no topo deste texto entram com destaque na lista. Por anos, empresas, seus chefes e, também, funcionários acreditaram na ideia de que da catraca pra dentro, casamentos, filhos e famílias deveriam ser esquecidos – no máximo deveriam ser motivo de conversa na sala do cafezinho. Com os escritórios fechados, o trabalho invadiu o espaço da família e a convivência se fez necessária. Percebeu-se que apesar das diversas dimensões e realidades que vivemos, em todas essas circunstâncias somos apenas um, e a jornada diária precisa se organizar dentro dessa perspectiva.

“Não é ou filhos ou carreira. É filhos e carreira”. 

É o que defende Michelle Levy Terni, publicitária, formada em comunicação e com especialidade em equidade de gênero, que fundou, ao lado de Camila Antunes, pedagoga e advogada, a consultoria Filhos no Currículo. As duas se conheceram pelo Instagram, e se identificaram por serem mães de dois filhos. Após sentirem as dores que a maternidade gera no ambiente de trabalho, se encontraram em um projeto que acredita na possibilidade da construção de uma relação de vínculo e presença com os filhos sem a desconstrução da carreira. Além de investirem no desenvolvimento pessoal de pais e mães, provocam as empresas a repensarem as suas relações de trabalho e a eliminarem os vieses que limitam o crescimento de seus profissionais:

“Foi muito por nossa experiência pessoal que nasceu esse insight de compartilhar toda a nossa dor com o mercado de trabalho e ressignificar filhos como potência na vida profissional de pais e mães”.

Em entrevista ao Mundo Corporativo, que está completando 20 anos, Michelle explicou como o tema da parentalidade tem avançado nesses últimos tempos. Especialmente no caso das mulheres, ter filhos era visto como um custo a ser pago no crescimento na carreira – lamentavelmente ainda existem pessoas que enxergam dessa maneira. No entanto, hoje, já está bem mais clara a ideia de que ter filhos agrega no currículo profissional. Pesquisa realizada com o Movimento Mulher 360 mostrou que 98% dos pais entrevistados entendem que ter filhos os fez criar alguma habilidade, tais coo empatia, resiliência e liderança. 

“A gente muitas vezes é admitido por hard skills (habilidades técnicas) e demitido por soft skills (habilidades emocionais). E esses soft skills transbordam em quem tem filho”.

Michelle Terni, Filhos no Currículo

Ao longo da própria pandemia houve mudanças de olhar em relação a algumas questões. Se no início. o debate era como se adaptar ao trabalho em casa, ao lado dos filhos e da família, hoje, quando o retorno ao escritório ocorre de forma total ou parcial, a preocupação é como trabalhar distante dos filhos: 

“Essa é uma situação que trouxe para pais e mães uma herança de vínculo, de presença com os filhos. O que ouço de relatos nas consultorias com os clientes é essa alegria que surgiu pela possibilidade de conviver tão de perto (com os filhos). Voltar agora é quase uma impossibilidade. Eu percebo muito essa vontade de um equilíbrio”

Em consulta feita com mulheres, a Fihos no Currículo descobriu que 95% daquelas que são mães acreditam que o ‘home office’ veio para ficar, e 75% se identificam com o trabalho híbrido. Quanto às empresas, boa parte ainda avalia como serão os próximos anos, depois da experiência que a pandemia proporcionou. Michelle diz que, independentemente do que pensem em fazer, todas as organizações têm de ter consciência de que alguma coisa mudou e para trazerem os colaboradores para o presencial precisarão dar ao ambiente de trabalho uma missão, uma importância muito clara: 

“Esse lugar físico vai ser muito mais um lugar de colaboração, um lugar de experiência, de troca, do que necessariamente de sentar e trabalhar”.

Os líderes precisarão estar sintonizados com esse momento e desejo de seus colaboradores sob o risco de perderem talentos. A discussão sobre o retorno aos escritórios, o trabalho híbrido ou o ‘home office’ tem de ser colaborativa, ouvindo as prioridades e necessidades dos profissionais. A esses caberá também uma readaptação, abrindo diálogo com as crianças, porque pais e mães talvez não estejam mais 100% do tempo ao lado dos filhos. 

Outra realidade que ficou escancarada dentro do núcleo familiar – e a oportunidade de mudarmos isso é agora – é a percepção de como a economia do cuidado gera um sobrepeso nas mães. O cuidar da criança, preparar a lancheira e levar na escola são tarefas mais evidentes. Para realizar essas atividades, porém, existem várias outras que costumavam não entrar nesse cálculo: por exemplo, a compra de material, produtos e alimentos, que tomam tempo e geram desgaste de energia. Conversas difíceis tiveram de ser travadas dentro de casa que, se espera, tenham colaborado para reequilibrar as tarefas entre homens e mulheres. 

Michelle lembra que oferecer oportunidades a pais e mães vai além de programas de licença de parentalidade ou de família. A empresa precisa criar uma cultura que permita que esses e outros benefícios sejam usufruídos na prática. E cabe aos líderes esse papel. Para que o ambiente de trabalho seja contaminado por essas ideias, a Filhos no Currículo sugere um metodologia aos gestores que se resume na palavra SETA:

S – SEGURANÇA: o líder é treinado para que crie um ambiente que transmita segurança; as pessoas só vão compartilhar seus desafios ao se sentirem seguras;

E – EMPATIA: é preciso entender e aprender como desenvolver esse olhar empático

T – Troca:  comunicação é via de mão dupla. É você falar e você ouvir. A escuta empática é habilidade socioemocional extremamente importante.

A – Autoresponsabilidade: o líder precisa fazer aquilo que ele fala; tem de ser a referência; se acredita que existe vida além da profissão, tem de saber se desconectar e, por exemplo, não marcar reuniões de trabalho na hora do almoço.

Por mais que ter filhos seja visto como uma potência na vida profissional, Michelle – que também tem de dividir o trabalho da consultoria, com família, filhos e afazeres domésticos – sabe que essa relação é difícil e instável. Haverá momentos em que o lado profissional se expressará mais e outros em que o pessoal pede passagem. O importante é que a escolha seja consciente.

Pra fechar a conversa, deixo o convite da Michelle Terni aos pais: coloque seus filhos no currículo e conte essa experiência nas suas redes sociais corporativas (#meufilhonocurriculo): 

“Desafiem outras pessoas a fazerem o mesmo”.

Assista agora à entrevista completa com Michelle Levy Terni, da Filhos Currículo:

O Mundo Corporativo teve a colaboração de Bruno Teixeira, Débora Gonçalves, Rafael Furugen e Renato Barcellos.

Conte Sua História de São Paulo: a minha Maurília

Sidnei Beneti

Ouvinte da CBN

Um postal do “Parque Trianon sem o Masp”

Maurília é uma das “Cidades Invisíveis” de Ítalo Calvino, inspirado nas narrativas de Marco Polo a Kublai Khan. Roberto Pompeu de Toledo, em “A Capital da Vertigem – Uma História de São Paulo de 1900 a 1954”, reporta-se a Calvino:

“O viajante é convidado a visitar a cidade ao mesmo tempo em que observa uns velhos cartões postais ilustrados que mostram como esta havia sido”. 

Cidades diferentes, a do presente e a da memória. São Paulo em minha memória extrapola em várias, desde que para ela vim de Ribeirão Preto, no início dos anos sessenta. 

Eram carros e bondes nas ruas centrais, indo até bairros, como para lá de Santo Amaro, passando por campos aflorestados. Ônibus fumacentos na São João, Paissandu, Largo de São Francisco, Praça das Bandeiras com o Teatro de Lata, de chanchadas e variedades. 

A Avenida Paulista era enfileirada de majestosos palacetes de rico estilo, bondes nos dois sentidos, belas calçadas largas e naturalmente arborizadas sem o a artificialidade de floreiras!  Parque Trianon sem o MASP e Ibirapuera de mais verde e raro asfalto.

No centro, Confeitaria Viena, Leiteria Americana, Restaurantes Itamarati, Ponto Chic, Churrasqueto, Gato que Ri, Giovanni, Almanara, e, muito caros, após combinar com a casa para comemorar o XI de Agosto, La Casserone, Hotel Terminus, Rubayatt.  Perto da Casa do Estudante, pela manhã uma “média”, café com leite, no copo, com pão e manteiga, e no almoço o saboroso prato do dia naquele bar muito honesto  cujo nome não sei até hoje. Na Alameda Santos, a Pizzaria Urca! E, é claro, os ”bandejões” do XI de Agosto na Rua do Riachuelo e da Faculdade de Economia, na Rua Dr. Vila Nova! 

Livrarias Francesa, Livro Italiano, Revisal alemã, Brasiliense, Teixeira, Francisco Alves, Mestre Jou, Kosmos, Forense, Revista dos Tribunais, Saraiva, perto da Faculdade, que vendia em prestações para estudantes que pagavam quando podiam e colecionava em arquivos implacáveis pendências de famosos a quem não cobrava nunca. E a Livraria e Editora Bushatsky, para a qual fiz a revisão de manuais jurídicos

O Mappin, com o chá e o restaurante muito chiques e uma escada rolante única nos prédios da cidade. Lojas Sears Roebuck, Casa Cosmos, Exposição Clipper, Mesbla, Casas José Silva, Old England , Picadilly, Los Angeles. 

Na Rua Sete de Abril ficava a Companhia Telefônica, com uma fileira de cabinas de telefones públicos. Comprava-se uma linha telefônica em prestações, esperava-se muito, custava caro, e as linhas eram declaradas ao Imposto de Renda.

Deslumbrante o Museu de Arte de São Paulo, ainda nos altos dos Diários Associados na Rua Sete de Abril. O Estado de São Paulo na Rua São Luís, antecipando manchetes luminosas em letreiros correntes. A Folha de São Paulo na Barão de Limeira, cuja redação frequentava, ajudando amigos na revisão de textos. 

A abertura da Galeria Metrópole das rodas de violão e do Chá Mun. Rua Direita, Rua São Bento apinhadas de gente apressada, de paletó e gravata, em cerrado fluxo de passantes em mão e contramão invencíveis. 

Vila Buarque, Leiteria Little perto da FAU e da Faculdade de Economia. João Sebastião Bar com Leny Eversong e Claudete Soares frequentes e os grandes da Bossa Nova incidentais mas sempre havia algum. Praça Roosevelt linda na simplicidade da nenhuma construção no meio, com o Cine Bijou, de arte, levando Godard, Truffaut, Resnais, Glauber, Wells. Ali perto a Boate Zum-Zum, com Dorival Caymmi e Vinicius de Moraes apresentando a Suíte dos Pescadores. Na frente, atravessando o largo asfaltado, o Colégio Porto Seguro, que antes era o Colégio Alemão. Um pouco para lá da Avenida Consolação o Teatro de Arena.

Para outro lado, ali perto a TV Excelsior Canal 9, depois Teatro Cultura Artística e só um pouco mais distante, os Teatros – TBC,  Oficina, Cacilda Becker, Maria Della Costa, Nidia Licia,  com direito a ver em cena as próprias e tantos outros – para os quais não há como deixar de chamar de  “monstros sagrados” — daquele tempo e para sempre!  Para o outro lado, o Teatro Paramount, dos Festivais de Música da TV Record Canal 7, no Bom Retiro o Teatro TAIB! 

Cinemas enormes e cheios, com filas para comprar ingressos: Metro, Olido, Art Palácio, Cinerama, Ipiranga, Arouche, Regina, Paissandu, Marrocos. Como conseguiam construir e manter salas imensas com filmes em rolos que podiam romper e pegar fogo?

Na praça da Sé, os Restaurantes Gouveia e Papai. Da Praça do Patriarca ao Anhangabaú sem túneis, só, majestosos, os Viadutos do Chá e Santa Ifigênia, ia-se pela belíssima Galeria Prestes Maia, de paredes de mármore, pela Escada Rolante. Não havia a Avenida 23 de Maio, só um riozinho modesto, o Itororó com margens de mato a sumir no já canalizado Anhangabaú, ex-Saracura. Casa Bevilaqua na Rua Direita com pianos e partituras. 

O Theatro Municipal, da solenidade de minha formatura na Faculdade de Direito. Peruadas no centro, trote acadêmico com calouros obrigados a ir em “corrida de burros” pelo Viaduto do Chá até nadar na fonte da Praça Ramos de Azevedo. Aulas na Faculdade de paletó e gravata, também trajes para os cinemas e teatros. 

Também nas “peruadas” e “pinduras”, assim mesmo, com a letra “i”, nos restaurantes, e de dois tipos: as “diplomáticas”, com dia e hora gentilmente marcados, ou “primitivas”, com todo mundo correndo, muitas vezes presos e liberados após “sermões” de Delegados e Investigadores, que nos tempos de faculdade também haviam dado “pinduras”!

Estudante, trabalhei já no segundo ano de faculdade em Escritório de Advocacia, na Praça do Patriarca; lecionei de noite português, no Curso Roosevelt, na mesma praça; e estagiei no Escritório do grande Mestre, Professor Oscar Barreto Filho, ainda na Rua Maria Paula, logo mudando para prédio novo na Rua Santo Amaro. 

Por concurso, entrei a trabalhar no então existente 2º Ofício da Fazenda Municipal, no 11º andar do Fórum João Mendes Jr, que que terminava no 12º andar. Daí para cima só tinha  alguns tapumes a indicar que um dia chegaria às duas dezenas de andares de hoje. Trabalhava-se em dois períodos, de manhã e de tarde e, ao início, em meio período aos sábados.  

Almoços no restaurante do 6º andar ou nas proximidades – muita lembrança do restaurante API – Associação Paulista de Imprensa, logo ali perto! Na pausa para o almoço rápido, uma vez por semana,  o concerto de órgão na Catedral da Sé,  ainda ouço a Tocata e Fuga em Ré Menor de Bach, fazendo tremer os pilares de granito!

No Largo de São Francisco, a Faculdade de Direito de São Paulo, começada em 1964, e terminada em 1968. Política estudantil carregando o sentimento de mudar o país e o mundo para uma sociedade mais justa. Aquelas assembleias acirradas e intermináveis, na Sala do Estudante, na Rua Maria Antonia, no CRUSP e na PUC, e passeatas e protestos. Dias e noites, noites geladas de julho, em Faculdades na posse dos estudantes. Valentia e medo, em tempos de violência, sumiço e morte de verdade. 

Havia ainda o Estádio do Pacaembu e do Parque Antárctica, torcendo alviverde, as competições nos clubes Tietê, Floresta e Pinheiros!

O Centro Acadêmico XI de Agosto, na Rua do Riachuelo, Diretoria Cultural e de Apostilas e presidência do Diretório Acadêmico, com as aflições na representação na Congregação da Faculdade ocupada, às vésperas do Ato Institucional nº 5.

Andava-se a pé por qualquer lugar, a qualquer hora, sem medo e sem perigo. A noite era bela na São Paulo ainda frequentada pela garoa.

Um dia tiraram os bondes, cobriram de asfalto as ruas e os trilhos, inventaram calçadões, que expulsaram veículos e fecharam ou degradaram lojas, ruas, bares e livrarias. Demoliram-se edifícios monumentais para passar carros, caminhões e ônibus sob o fascínio dos novos veículos. As estações do Metrô somaram-se insensíveis na destruição – sobrando, por milagre de heróica resistência dos ex-alunos, o Colégio Caetano de Campos!. Felizmente foi poupada a Estação Júlio Prestes, que virou a magnífica Sala São Paulo!

Aniquilaram-se cinemas e teatros e o centro tornou-se região marcada por gerações de abandonados sem trabalho, sem destino e sem porvir. Saiu a Estação Rodoviária da Praça Princesa Isabel. Surgiu a tristeza da “Cracolândia”.

Passou um monstro “Minhocão” de cimento por sobre a Amaral Gurgel e a Avenida São João, que vi ir se estendendo defronte à Casa do Estudante sem acreditar no que via. Sumiram as árvores e os casarões da Avenida Paulista, em que iam e vinham bondes fazendo o quadrado pela Angélica, República, Barão de Itapetininga, Líbero Badaró, Largo de São Francisco, Praça da Sé e subindo a Liberdade ou a Brigadeiro até a Paulista de novo!  Aqueles ônibus que para o tempo iam longe, com gente lendo livros e jornais. Penha-Lapa, Fábrica-Pompéia, Pacaembu. Os ônibus elétricos Machado de Assis-Cardoso de Almeida, incrivelmente ainda sobrevivendo.

Foi demolida a Maternidade São Paulo, de que saímos felizes a pé, levando a primeira filha, com um pacotinho de gente embrulhado em mantinha, e em que nasceram nossos outros dois filhos. Temos fotos, cartas, até um “Livro-Caixa” que controlava gastos de uma feliz vida modesta. Tudo era para sempre. Ainda uso, vestindo saudade, aquele colete de lã com cores que não fenecem jamais, comprado na extinta “Casa José Silva”, na Rua São Bento. 

São Paulo agora? Isso todos sabem. Basta ter olhos. A São Paulo atual de cada um será, no futuro, a sua Maurília de agora. 

Sidnei Beneti é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a intepretação de Mílton Jung. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br

Avalanche Tricolor: caras e carecas novas, e um goleador sobrevivente!

Grêmio 2×1 São José

Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Diego comemora o primeiro da temporada. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

É feriado em Porto Alegre, nesta quarta-feira. Dia de Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira da cidade. Tradição que vem dos Açores, de onde partiram os casais portugueses que aportaram mais ao sul do Brasil. Vieram de terras distantes e paupérrimas, de solo infértil, atendendo a demanda da Coroa Portuguesa, que buscava povoar regiões consideradas estratégicas. Tiveram o desafio de atravessar os mares, enfrentar as tempestades e se protegerem das pestes que atacavam os passageiros que se atreviam em viagens longas de navio. Sobreviventes!

Por coincidência e apenas por isso, 2 de fevereiro foi a data escolhida pelo Grêmio para levar a campo, pela primeira vez, o grupo de jogadores que acredita ser o ideal, até o momento, para encarar a travessia tempestuosa que nos aguarda, nesta temporada de 2022.

Faltam nomes ainda; tem gente lesionada e sem fôlego; é preciso ajustar o pé, os passes e as peças em campo. A partida dessa tarde, foi apenas o início da longa viagem que jamais quisemos navegar, mas para a qual fomos levados devido a improdutividade nos gramados por onde passamos no último ano.

Havia caras novas: Bruno Alves, Janderson, Nicolas e Orejuela – esse último uma cara meio nova, pois já esteve entre nós. Havia carecas novos, também (todos vítimas de trotes dos veteranos): Rildo, destaque no time de transição, e Gabriel Silva, guri de 19 anos, no qual se aposta alto – pelos dribles e chute no travessão que deu logo após entrar no time, no segundo tempo, uma aposta que pode dar ótimo resultado. Aguardemos!

Os outros eram velhos conhecidos. Alguns nem tão velhos assim, como Gabriel Gandro, que até agora não se sabe se será titular. Campaz, que fez um golaço de falta, abrindo os trabalhos na temporada, além de ter dado boa dinâmica ao ataque.  E Ferreirinha, o camisa 10 que esbanja talento pelo lado esquerdo e inicia o ano mais maduro, após tantos percalços dentro e fora de campo. 

Geromel, um ponto de exclamação para 2022; Thiago Santos e Lucas Silva, que tendem ser a dupla para enfrentar a dureza dos gramados e adversários que encontraremos pelo caminho; e Diogo Barbosa.

Deixei por último nesta lista Diego Souza. Não por acaso. Merece um parágrafo à parte (ou dois). Esteve fora dos planos no fim do ano. E de tanto procurar e não achar, a diretoria entendeu que ele ainda era a melhor solução para o comando do ataque. Foi o goleador do Brasil, em 2020. Foi goleador do Grêmio nas duas últimas temporadas. Foi goleador do Campeonato Gaúcho, nos dois últimos anos. E começou com o pé direito 2022, literalmente. Com a precisão e o aproveitamento de sempre, fez o gol que deu a vitória na estreia do time principal na competição estadual. 

Mesmo que não pareça, Diego demonstra ter fôlego para mais essa travessia no nosso barco. Após o gol, a televisão flagrou Vagner Mancini perguntando se ele queria ser substituído, como se já tivesse cumprido o papel para o qual foi mantido no grupo: marcar os gols da vitória. O goleador pediu para ficar em campo. Diego Souza é um sobrevivente!

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: as lições que aprendemos do caso Djokovic

O tenista Novak Djokovic. (Foto: OSCAR DEL POZO / AFP), no site CBN

“A marca está associada diretamente ao atleta, e não se pronunciar é usar tapumes e esconder o problema”

Cecília Russo

Rafael Nadal transformou-se recordista de títulos de simples em Grand Slams, que reúne as quatro maiores competições do tênis mundial, nesse domingo, ao conquistar o Aberto da Austrália. Além da marca de 21 títulos e dois mil pontos no ranking da ATP, a conquista em Melbourne rendeu ao espanhol pouco mais de R$ 10,8 milhões.  No uniforme do super campeão estavam estampadas as marcas Nike e Babolat, que nada têm a reclamar sobre o valor que o espanhol agrega a história de cada uma delas.

O mesmo não pode dizer a francesa Lacoste que, apesar de estar em destaque no uniforme do russo Daniil Medvedev, que perdeu a final para Nadal, se viu envolvida na polêmica provocada por seu principal patrocinado, o número 1 do mundo do tênis, Novak Djokovic – com quem mantém contrato em torno de U$ 9 milhões ou R$ 49,7 milhões. O sérvio foi impedido de entrar na Austrália por não ter se vacinado contra a Covid, além de ter apresentado documentação falsa na tentativa de burlar a regra do país. 

A encrenca causada por Djokovic é tema de reflexão entre os profissionais do branding, e foi assunto no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, desse sábado, no Jornal da CBN. Jaime Troiano e Cecília Russo já alertaram, em comentários anteriores, sobre os cuidados e riscos de marcas se associarem a figuras públicas – estratégia bastante comum, especialmente no esporte.  

“A primeira coisa a se pensar, e já demos essa dica aqui no programa, é sempre escolher muito bem as parcerias e as pessoas as quais sua marca vai estar junto”

Jaime Troiano

O caso Djokovic mostra o quão complexa é a tarefa de definir essas parcerias. Ele é dos maiores tenistas que o mundo já assistiu a jogar; lidera o ranking atual; tem o maior número de títulos individuais da ATP; e soube como poucos aproveitar o aumento das premiações por vitórias no esporte: com 34 anos, faturou US$ 154,76 milhões em prêmios.

Por outro lado, além de se negar a tomar vacina contra a Covid, doença que matou mais de 5,6 milhões de pessoas no mundo, já se envolveu em outras polêmicas ao defender teses no mínimo questionáveis, para não dizer absurdas: acredita, por exemplo, que com o pensamento positivo pode limpar a água contaminada; e apoio sua mulher quando ela usou o Instagram para divulgar uma teoria de conspiração envolvendo a tecnologia 5G e a pandemia. 

“É primordial que exista sintonia entre marca e parceiro, assim, o consumidor não vê com estranheza a parceria” 

Jaime Troiano

A despeito das polêmicas, Djokovic está muito bem servido de patrocinadores: além da Lacoste, tem contratos milionários com Hublot, Peugeot, Asics e Head, marcas com enorme exposição entre quem acompanha o tênis. De todas, apenas a marca francesa de roupas se pronunciou, mesmo assim para dizer que iria sentar e conversar com o tenista. Até hoje, não divulgou o resultado desta conversa – se é que ocorreu. 

“A marca está associada diretamente ao atleta, e não se pronunciar é usar tapumes e esconder o problema, e já repetimos aqui a frase famosa: marca não é tapume”. 

Cecília Russo

A exposição que as marcas têm e a pressão que sofrem, especialmente nas redes sociais, tornam necessárias respostas precisas e transparentes em relação aos fatos que podem afetar sua imagem. Nem que seja para fazer uma avaliação ou até mesmo para assumir que errou, porque o público tende a ser mais condescendente diante de um posicionamento honesto da marca. 

“É importante que a marca tenha um conhecimento profundo da sua própria identidade, assim, fica mais fácil escolher parcerias com pessoas que compartilhem das mesmas crenças”

Jaime Troiano

No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Jaime Troiano e Cecília Russo lembram de outros casos envolvendo atletas de renome como o do ciclista Lance Armstrong, envolvido em um escândalo de doping, e o jogador de futebol Robinho, condenado por estupro, na Itália.

Ouça o comentário completo, com sonorização de Paschoal Junior:

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar no Jornal da CBN, aos sábados, às 7h55 da manhã.

Avalanche Tricolor: a Elias o que é de Elias

Brasil 1×1 Grêmio

Gaúcho – Estádio Bento Freitas, Pelotas/RS

Elias cobrando pênalti. Foto de Victor Lanner | Grêmio FBPA

Coube a Elias mais uma vez marcar o gol do Grêmio na segunda rodada do Campeonato Gaúcho. Havia feito os dois, na estreia, um deles de pênalti. Da mesma forma que no primeiro jogo, sofreu o pênalti ao receber a bola em velocidade dentro da área e provocar a falta do adversário. Também cobrou com segurança e colocou a bola no fundo do poço. Fez mais: demonstrou ter repertório variado na cobrança. No meio da semana bateu forte, no alto e do lado direito do goleiro; desta vez usou a força, chutou rasteiro e do lado esquerdo. 

Elias é destaque da base há algumas temporadas. Chegou a Porto Alegre em 2018, depois de surgir no Guarani de Campinas, cidade em que nasceu. Começou jogando pela ponta, aproveitando-se da força e velocidade. Passou a ser usado no meio da área. Foi goleador e campeão brasileiro de aspirantes, em 2021. A fama chegou aos olhos do torcedor que passou a pedir a presença dele na equipe principal. Teve poucas chances. Jogou nove partidas no ano passado e marcou dois gols. 

Internamente, a avaliação era que o atacante oscilava na qualidade de suas apresentações. Nos dois jogos, em que marcou os três gols gremistas, demonstrou que ainda precisa aprimorar o passe. É melhor recebendo a bola do que devolvendo-a aos colegas. Revela boa visão dos companheiros mas tem de melhorar na execução. A despeito disso, tem o faro do gol, como se dizia em um tempo em que Elias sequer havia nascido. O guri acabou de fazer 20 anos. É de novembro de 2001.

Está pedindo passagem. E, certamente, será mais bem aproveitado por Vagner Mancini. Talvez não saia como titular, mas tem tudo para ser esta a temporada da consagração de seu futebol. 

Mundo Corporativo: mulheres, negros e LGBTQIA+ têm de se apropriar do conhecimento, diz Adriana Carvalho da ONG Generation

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“Para resolver esse problema a gente tem que melhorar desde o ensino básico, das construções sociais, mas a gente precisa dar chance real para quem já tá formado ou já tá aí ou já tá em idade de trabalhar, de se apropriar desse conhecimento”.

Adriana Carvalho, Generation Brasil

Este 29 de janeiro é o Dia Nacional da Visibilidade de Travestis e Transexuais. No planejamento das entrevistas do Mundo Corporativo, nossa agenda coincidiu com o calendário nacional que reserva datas para destacar a luta de pessoas que sofrem discriminação, são desrespeitadas e têm seu potencial esquecido pela sociedade. Neste sábado, levamos ao ar entrevista com Adriana Carvalho, CEO da ONG Generation, instituição internacional que, há três anos, atua no Brasil, com a intenção de qualificar quem vive em situação de vulnerabilidade: jovens, negros, pardos, mulheres e, sim, pessoas LGBTQIA+.

Disse que foi uma coincidência. Mas não que foi uma surpresa. Já que temáticas relacionadas a essa multiplicidade de gêneros não são raras no Mundo Corporativo. Tornou-se um propósito nosso pautar entrevistas que ofereçam soluções para que a diversidade se transforme em realidade no ambiente de trabalho. Nesse sentido, é interessante conhecer a metodologia desenvolvida pela Generation que mapeia as necessidades das empresas e cria cursos voltados para pessoas em vulnerabilidade que possam prepará-los para as vagas disponíveis:

“A gente começa sempre falando com o mercado. Então, a gente vai criar o curso entendendo o que é necessário para aquela pessoa ir naquela posição de entrada, e não só na parte técnica, mas na parte comportamental, também. Nas habilidades socioemocionais”.  

Adriana Carvalho diz que a ideia é desenvolver cursos no setor de tecnologia da informação porque os empregos que têm surgido estão nessa área. Enquanto milhares de vagas desaparecem no mundo todo, empresas buscam e muitas vezes não encontram profissionais de TI. 

“84% das pessoas formadas conosco estão trabalhando hoje”

Por ser um setor bastante dominado por homens, uma das metas da Generation é ter até 50% das vagas dos cursos ocupadas por mulheres, e 60% de não brancos – por enquanto esses percentuais estão em 40% e 55%, respectivamente. Quanto a orientação sexual, Adriana calcula que cerca de 25% das pessoas que estão sendo capacitadas são da comunidade LGBTQIA+.

A despeito de todas as dificuldades que o tema da diversidade enfrenta, Adriana percebe mudanças consideráveis nas empresas no sentido de se tornarem mais plurais. Lembra que há cinco anos, iniciativa do Pacto Global das Nações Unidas com a ONU Mulheres tinha a adesão de 50 empresas, hoje são mais de 500; o Fórum de Empresas LGBTQIA+ saltou neste período de 20 para 120 empresas; e a Rede de Inclusão Social Pelo Trabalho das Pessoas com Deficiência está com mais de 100 empresas.

“A gente muitas das empresas multinacionais e grandes empresas brasileiras nessa pauta e cada vez procurando mais a gente .. mas a minha

provocação é que para mudar esse Brasil ,onde 94% dos empregos estão nas pequenas e nas médias, precisamos de muito mais empresas apoiando essa causa”.

E aí vai um ponto importante no trabalho da Generation: da mesma forma que se dedica a capacitar pessoas em situação de vulnerabilidade, capacita as empresas a receberem essas pessoas. 

“É fundamental que essa iniciativa seja olhada de uma maneira mais ampla. Que a empresa faça um diagnóstico de como está a sua força de trabalho; de como está a sua cultura, que  trace indicadores, metas; que olhe a contratação dessas pessoas nessa perspectiva maior. Assegure que elas não são ‘café com leite’; não estão sendo contratadas para ficar ali de canto. Que elas vão ter realmente um plano de desenvolvimento”

A diversidade vai influenciar no serviço e no produto oferecido pela empresa de várias formas, explica Adriana. Seja na funcionalidade de um celular seja no desenho de um carro seja na solução tecnológica que será oferecida. Por exemplo, se a empresa tem majoritariamente homens, brancos, que vivem em áreas urbanas de classe média e alta, tende a oferecer respostas para as demandas que estão no seu meio e desperdiçam as oportunidades que existem em locais e experiências que desconhecem. 

“É um ganha-ganha. É bom para as empresas. É bom para as pessoas. É bom para a sociedade”.

Entre aqui para saber como se beneficiar dos projetos da ONG Generation Brasil.

Assista à entrevista completa com Adriana Carvalho, CEO da ONG Generation

Colaboraram com o Mundo Corporativo: Bruno Teixeira, Débora Gonçalves, Rafael Furugen e Renato Barcellos.