Tudo muito estranho para mim, confesso. Até no uniforme. A camisa é a recém-lançada, que deveríamos ter usado pela primeira vez naquela competição que você-sabe-qual. Pelo que percebo, a atual é baseada em um modelo dos anos 20 —- a retrô está no memorial aqui de casa, ao lado da camisa autografada por Danrlei e Geromel. A combinação com o calção branco ficou estranha. Sem marca. Sem alma. O que não tem a menor importância, eu sei. Uniforme não ganha jogo. Nem perde.
Senti estranheza, também, na figura ao lado do campo. Vou precisar me acostumar. Foram quatro anos e meio acompanhando Renato, suas caras e roupas. Tiago Nunes tem outro estilo — até no jeito de se vestir. Ainda é estrangeiro no ambiente tricolor, mesmo que tenha se esforçado para revelar intimidade nas primeiras palavras como técnico do Grêmio. Nada que o tempo e os resultados não superem.
O que mais me preocupou foi a estranha marcação dentro da área a cada cobrança de escanteio. Todo mundo parecia deslocado, sem saber qual função exercer, enquanto os adversários desperdiçavam gols atrás de gols.
Ouvi os entendidos na televisão dizerem que Renato gostava da marcação individual e Tiago quer marcar por zona. Que zona foi aquilo?!?
Ver a estatística no intervalo da partida e descobrir que o adversário teve 60% de posse de bola também foi esquisito —- especialmente porque nos últimos anos assistimos ao Grêmio jogar com a bola de pé em pé, às vezes além do necessário. Espero que tenha sido apenas circunstância do momento e quando o time entender o que o técnico quer, volte a dominar o campo de jogo. Ou será que eu também vou ter de me acostumar com isso?
Nada mais estranho, porém, do que a partida em si, na qual fizemos um jogo mediano e conquistamos a vitória em cinco minutos, após um pênalti bem cobrado (mesmo que mal assinalado), uma patacoada do goleiro adversário (e a gente não tem nada a ver com isso) e um belo chute de Vanderson que colocou o Grêmio com uma ótima vantagem no primeiro tempo: 3 a 0. Tão boa vantagem que mesmo a sequência de erros no segundo tempo não nos tirou a liderança do Campeonato Gaúcho ao fim de mais uma etapa classificatória.
Aliás, se tem coisas que não me causaram estranheza na noite deste sábado, foi ver o Grêmio, tricampeão, chegar como líder ao mata-mata do Campeonato Gaúcho, e saber que, ao fim de 66 partidas disputadas, os finalistas da competição são as duplas Gre-Nal e Ca-Ju. Estranho é saber que insistimos nessas fórmulas desgastantes para alcançarmos praticamente os mesmos resultados.
Em 1977, fiz concurso público e iniciei minha carreira bancária. Na época, tinha de anotar manualmente, nas fichas individuais de cada cliente, os débitos dos valores dos cheques descontados no caixa. Tudo atualizado diariamente na parte da manhã.
Após poucos anos, chegaram os computadores, os disquetes, os sistemas, as planilhas —— motivos para muitos não tão jovens bancários se aposentarem. Havia medo da máquina, da nossa capacidade de domá-la, sem quebrar nada ou apagar coisas importantes. Naquele tempo, ouvi pela primeira vez de um técnico de informática que um dia trabalharíamos todos de casa. Foi desacreditado por nós.
Em 2020, com a pandemia instalada, trabalhei diretamente de casa atendendo meus clientes em todas as suas necessidades. Vimos que o homem se supera quando é desafiado.
Embora estejamos tendo dias difíceis, de medo pela perda da nossa saúde e dos entes queridos, sinto-me satisfeita por todas as oportunidades que tive dentro de casa, curtindo meus filhos já adultos, aproveitando minha sacada e sua paisagem de flores e pássaros. Ouvindo novos sons do meu bairro. Sons que sempre estiveram ali, mas nunca os havia registrado.
Sinto-me mais solidária com as pessoas. E percebi com a revisão da vida, que passei a maior parte da minha dentro de uma agência bancária.
A despeito do que este ano tenha feito com a gente, sempre sou grata por aquilo que me acontece.
Marlene Ayres Bicudo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo
“Existe uma dívida da sociedade e para transformar isso em oportunidade equitativas, só através de letramento. É dessa forma que nós vamos fazer: educar para mudar.”
Rachel Maia
O encontro era em um restaurante de luxo de São Paulo. Rachel Maia entrou e foi abordada por um dos funcionários, que a alertou que havia um outra porta de acesso para quem prestava serviços. Para ele, uma mulher de “pele preta, retinta” não seria frequentadora do local. Talvez se soubesse que Rachel era uma das maiores líderes empresariais do Brasil e até pouco tempo esteve à frente de algumas das principais marcas de luxo do mundo, o funcionário agisse diferente —- o que não significaria que fosse menos preconceituoso. O olhar de estranhamento, certamente, permaneceria no rosto daquele homem.
A cena descrita no parágrafo acima ocorreu há poucas semanas e foi compartilhada com os ouvintes do programa Mundo Corporativo pela própria Rachel que, atualmente, é CEO e fundadora da RM Consulting. Não foi a primeira vez que ela enfrentou essa situação na vida nem será a última. E uma das maneiras de vencer esse preconceito é não permitir que as pessoas digam quem ela é e o que ela pode fazer:
“Não é a ação do interlocutor que me define. Tenho de ter muita segurança sobre tudo que me formou. A minha base, a minha história, o meu conteúdo, tudo que me fez chegar até ali. Então eu não deixo essas ações muitas vezes me colocarem em um outro papel que ele está definindo”
Após aproximadamente 16 anos como CFO e cerca de 15 como presidente de empresas globais —- Pandora e Lacoste são dois exemplos —-, Rachel assumiu o desafio de transformar as empresas e a sociedade mostrando que o diverso deveria fazer parte não apenas da base, mas do topo da pirâmide. Para isso, criou a consultoria que traz suas iniciais, sua história e sua indignação:
“Desde o início, tento implantar essa ideia de uma forma educativa e nunca imposta; trabalho com a estratégia do letramento que é mostrar a realidade, contar a história de como foi feita a escravidão no Brasil e como foi a abolição, que largou na rua este povo que foi trazido para as terras brasileiras.”
Para que se entenda o tamanho da desigualdade de tratamento e oportunidade: apesar de mais da metade da população brasileira se identificar como preta e parda, no máximo 9% ocupa cargo de liderança. Rachel lembra que quando o olhar se volta para a presidência, os índices são ainda mais chocantes: em 2015, era de apenas 0,4% —- “ou seja, só uma pessoa negra ocupava esse cargo, a minha pessoa”.
No livro recém-lançado “Meu caminho até a cadeira número 1” (Editora Globo), Rachel Maia descreve a jornada de educação que se iniciou em escola publica da periferia de São Paulo, passou pelo ensino técnico, formou-se na FMU e, quando percebeu que sem o domínio do inglês não seria capaz de ascender na profissão, foi morar sozinha no Canadá:
“Conhecimento adquirido ninguém te tira, conhecimento adquirido é poder”
Além da consultoria, Rachel participa do conselho de administração de algumas empresas onde também tem a missão de mostrar a necessidade de se investir na diversidade. Se não for por razões sociais, que sejam pelas financeiras. Hoje, o tema faz parte de relatórios de ESG — Environmental, Social and Corporate Governance, que se referem às práticas ambientais, sociais e de governança de um negócio.
A discussão não deve se restringir ao setor de recursos humanos, precisa ser uma responsabilidade da alta gestão, estando todos abertos a se educar e a absorver o conhecimento que vai inspirar à pluralidade na captação de talentos, ensina Rachel.
Para quem está em busca de espaço no mercado de trabalho, a empresária recomenda:
“Convido você a sonhar. Sonhe de forma plena e absoluta. Você tem o direito a tal. Mas não fique só no sonho. Planeje. E ao planejar, você vai realizar. E muitas vezes você vai cair. E mais uma vez você vai ter de levantar, sacudir a poeira e procurar outras oportunidade. Preste muito atenção nas oportunidades que a vida traz”
O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, no site, na página do Facebook e no canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Mundo Corporativo, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Colaboraram com o programa: Izabela Ares, Bruno teixeira, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.
Gol de Diego Souza em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Foi o locutor oficial da transmissão de TV da Conmebol* quem disse que o Grêmio combina com Libertadores — e não tenho dúvida que os torcedores pensamos da mesma maneira. No entanto, os resultados deste início de temporada não nos deram a oportunidade de manter a escrita dos últimos anos —- ahh, que falta fez aquele gol mal-anulado e sem VAR da fase preliminar. Com tudo isso, tivemos de encarar nesta quinta-feira à noite a estreia na Sul-Americana.
O Twitter oficial da Conmebol também tinha um tom de “que-falta-você-faz”. E foi quem me alertou para o fato de que há nove anos não disputávamos essa competição. Neste 2021, porém, é a Copa que temos para jogar. E uma Copa que começa diferente porque trocou a disputa de mata-mata por uma fase de grupo bastante rígida, jque apenas o primeiro colocado segue em frente. Ou seja, já que é para jogar que seja a mais difícil de todas as edições.
E jogamos razoavelmente bem para um time que ainda precisa se acostumar com essa realidade e passa por uma transformação dentro e fora de campo. Thiago Gomes, com H, tem feito às vezes de treinador do time principal enquanto aguarda que Tiago Nunes, sem H, assuma o lugar que é de Renato Portaluppi —- não pense que usei o verbo ser no presente por acaso.
Thiago, com H, comandou o time em três partidas, duas delas pelo Campeonato Gaúcho e fez, hoje, sua estreia em uma competição sul-americana. Soube manter a equipe com o que tinha de melhor à disposição, usando os dois principais reforços deste início de temporada —- ambos escolhidos por Renato. E mantendo o estilo de jogo que nos colocou entre os melhores do Brasil e da América nos últimos anos.
Diego Souza marcando um gol atrás do outro, além de dar assistência —- como no segundo, feito por Paulo Miranda —- foi o melhor da partida, na escolha da equipe técnica da Conmebol que, confesso, não tenho a menor ideia de quem seja nem como faz sua escolha. O atacante que Renato buscou para o time no ano passado, apesar das críticas, cumpre seu papel, é o goleador do time e ainda nos acrescentou qualidade na bola aérea. Com os cruzamento de um cada vez mais destemido Ferreirinha por um lado e de Rafinha pelo outro, Diego Souza tem tudo para consagrar-se como o artilheiro que é, em mais uma temporada.
Aliás, Rafinha, outro nome da safra recente de Renato, que muitos entendiam que era desnecessário, já mostrou seu talento nas poucas partidas que disputou.
Com a braçadeira de capitão, apesar de recém-chegado, o que revela a personalidade do lateral direito, Rafinha deu qualidade na bola que vem de trás. E tem um cruzamento para área que chama atenção. Nossas cobranças de escanteio voltaram a nos dar esperança de gol —- há muito tempo deixamos a desejar e desperdiçamos essas oportunidades com bolas curtas ou lançadas sem rumo para a defesa cortar.
Outro nome a quem devo elogios é ao de Thiago Santos, com H. Volante de profissão, marca com precisão, combate o adversário e rouba a bola em quase todas as investidas. Ao contrário do que os detratores tentaram impor —- sim, fizeram campanha na internet e acusaram mais uma vez Renato de fazer más escolhas —-, sabe sua função dentro do time, é bastante útil para uma equipe que precisava retomar sua característica guerreira no meio de campo e servir de contraponto ao futebol leve que nos faz chegar com toque de bola no ataque.
Foi ao estilo Renato, travestido de Thiago Gomes, que conquistamos os três primeiros pontos na Copa, mesmo tendo que sofrer parte do jogo com um a menos em campo, a medida que Rodriguez foi, justamente, expulso. Agora, com o time líder no Campeonato Gaúcho e vitorioso na estreia da Sul-Americana, o bastão passa às mãos de Tiago Nunes.
Quanto a você, caro e raríssimo leitor desta Avalanche, se gremista for como eu, caberá se acostumar com um novo estilo de técnico. Assim como com essa competição que não era a que sonhávamos, mas é a que estamos disputamos. E se é o que temos, ganhemos!!!
Um dia você acorda e pensa: “e se eu tivesse aceitado aquela proposta de emprego e tivesse mudado de país?”. Ou então: “e se eu tivesse me casado com aquela pessoa por quem me apaixonei na adolescência, como teria sido a minha vida?”.
Temos a incrível capacidade de olhar para o nosso passado e, de certo modo, supor os rumos que nossa vida teria tomado caso tivéssemos agido de maneira diferente. Apesar desses pensamentos serem mera hipótese de uma vida não vivida e, por vezes, idealizada, o presente nos confronta com caminhos que exigem de nós uma escolha.
A tomada de decisão pode ser compreendida como a capacidade de escolher uma dentre as diversas opções possíveis, em situações que envolvam algum nível de risco ou incerteza. Entretanto, esse processo não é tão simples quanto parece e envolve a experiência de vida, a análise de custos e benefícios, bem como as consequências a curto e longo prazo para si e para outras pessoas.
As neurociências têm desenvolvido modelos que permitem melhor entendimento de como o sistema nervoso realiza esse processo de tomada de decisão, levando em conta a participação de algumas funções cognitivas, como a atenção, a memória e o papel das emoções, especialmente a interface entre as reações emocionais – processadas no sistema límbico – e o controle dos impulsos e racionalidade na decisão, realizados, principalmente, pelo córtex pré-frontal.
Os modelos sobre tomada de decisão se concentram, na grande maioria, nos benefícios passíveis de serem obtidos a partir das alternativas disponíveis. Nesses modelos, a pessoa teria todas as informações necessárias e, racionalmente, faria sua escolha; porém, pesquisas recentes apontam que muitas vezes essa decisão pode conduzir a resultados negativos. A escolha daquilo que nos satisfaça imediatamente, o medo do arrependimento e a avaliação com ênfase excessiva nas emoções atuais são alguns dos fatores que podem nos conduzir a decisões irracionais.
Por um lado, podemos nos deixar influenciar excessivamente por nossas emoções; por exemplo, se sentimos um aperto no peito, acreditamos que seja um sinal de que não devemos escolher a alternativa em questão. Por outro, superestimamos as consequências de uma situação, acreditando ser possível sentir absoluta alegria com, por exemplo, aquela promoção, como uma linearidade de sentimentos, de duração indefinida.
Algumas reflexões podem nos auxiliar no processo de tomada de decisão: analisar nossas emoções atuais e levar em conta se, caso o estado emocional estivesse diferente, faríamos a mesma coisa; considerar o que avalia como importante para a vida – não adianta conseguir a promoção dos sonhos e não conseguir viajar com a família aos fins de semana, se isso for muito significativo; focar na gratificação a longo prazo.
Não temos uma vida editada num roteiro. Se soubéssemos sobre o certo e errado em nossas decisões, bastaria seguir o script, o que convenhamos, roubaria de nós grandes surpresas que encontramos nesse caminho.
Olhamos em demasia para trás tentando enxergar como seria nossa vida e nos esquecemos que nossas escolhas – o melhor que poderíamos fazer naquele momento – construíram nossa história, nos permitiram ser exatamente quem somos.
No fundo, maximizar ganhos, minimizar riscos e analisar os custos e benefícios se resumem em um desejo: ser feliz. Na impossibilidade de sabermos exatamente onde a felicidade está, abandonar as justificativas excessivas sobre o nosso passado pode nos encorajar a buscar caminhos que nos levem a benefícios almejados, não pela precisão do resultado, mas pelo simples fato de termos coragem para seguir em frente.
Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung
Foram-se cinco dias, dois jogos, um empate ‘oxo’ e uma vitória categórica desde a última vez que estive com você, caro e raro leitor desta Avalanche. Pelo ritmo acelerado com que se disputam partidas de futebol em um país paralisado pela pandemia, para quem esteve acostumado a dizer o que pensa e sente assim que a bola para de rolar, a distância entre o texto da quarta-feira passada e este é uma eternidade.
Deixei o tempo fluir para ver se absorvia melhor a saída de Renato Portaluppi, técnico mais longevo do futebol brasileiro e prestes a completar cinco anos no comando da equipe. Na versão oficial, foi comum acordo. Alguns dizem que ele foi demitido. Há os que compraram a ideia de que ele se demitiu.
Como permito que a ilusão domine meus pensamentos quando o assunto é Grêmio, insisto em acreditar que Renato, do alto da sua majestade, sacrificou-se em nome do time do coração. Vendo que havia divergências internas na direção e externas na torcida, preferiu se afastar da Arena para que as diferenças não causassem uma cisão sem retorno no clube. Porque ele haverá de retornar.
Mesmo com a noção de que muitas das coisas que escrevo ou penso nesta Avalanche estão mais sintonizadas com os meus desejos do que com a realidade —- repito: aqui me dou o direito à ilusão —-, ninguém minimamente saudável da mente e da boa-fé há de negar o que Renato representa para o Grêmio.
E digo isso, ciente do que pensava dele no início de sua carreira como jogador, época em que sua posição não era incontestável e a pressão pela sua escalação como titular, em 1982, foi um dos motivos do afastamento de Ênio Andrade do comando do time. Seu Ênio foi campeão brasileiro, em 1981, e vice, em 1982, pelo Grêmio —- este título, aliás, foi o que levou o time para a Libertadores de 83, que nos rendeu a primeira conquista sul-americana e o Mundial. Era amigo íntimo do pai, a quem confidenciava coisas dos bastidores da vida e do Olímpico e dividia garrafas de whisky, no bar que ficava atrás do campo suplementar. Adotei-o como padrinho pela intervenção famíliar que fez em momento dos mais difíceis na minha vida escolar. A saída do Seu Ênio me entristeceu e fez maldizer os responsáveis pelo ato —- Renato estava na lista.
Alguns poucos anos depois, —- já incontestável e campeão do Mundo — Renato foi um dos responsáveis pelo rumo que tomei na carreira. Um dia conto de forma mais detalha esse caso se é que você está interessado. Pra resumir: foi diante de uma negativa dele em ser entrevistado e uma fuga dos microfones, flagrada e estampada no jornal Zero Hora, que me levou a rever o interesse pela cobertura esportiva. Dia seguinte, pedi para ser transferido do esporte para o departamento de jornalismo —- e isso mudou minha vida, não sem antes reforçar minha bronca com o ídolo.
O tempo nos ajuda a enxergar melhor o que aconteceu. A mente é seletiva e distorce nossas lembranças. Passamos a armazenar imagens que nunca se realizaram e histórias que não foram contadas. As transformamos em nossa verdade. Acreditamos no que que queremos acreditar. E, em particular, prefiro guardar no coração o que me causou amor e esquecer meu rancor — tomara que com você também seja assim, Renato.
Renato construiu sua história. Fez o Grêmio maior do que era. Não o fez sozinho, mas fez. E com o Grêmio se fez grande, também. Fim dos tempos de jogador — em que os pés, o corpo e o coração se expressavam com talento nos gramados ——, assumiu o papel de treinador — que exige inteligência e criatividade, méritos da mente. Na casamata, sempre que passou pelo time, deixou sua marca vitoriosa, revelando-se então completo.
Na primeira, em 2010, nos elevou de uma constrangedora posição na zona de rebaixamento para a disputa de vaga na Liberadores. Na segunda, em 2013, foi vice-campeão brasileiro. E na terceira …. bem, esta acho que você ainda não esqueceu. Conquistou todos os mais importantes títulos desta década, do Tri-Gaúcho a Libertadores. Foi campeão da Copa do Brasil, da Recopa Sul-americana e da Recopa Gaúcha. Além de troféus, criou uma nova maneira de o Grêmio jogar futebol —- indo muito além da paixão e do coração, que sempre o moveram —, que encantou os críticos pelo Brasil.
Um cara que nos deu a chance de ser transformado em lenda ainda em vida —- coisa rara nas relações efêmeras que costumamos ver na sociedade contemporânea. A estátua na esplanada da Arena do Grêmio, no Humaitá, foi apenas a materialização de algo que já estava construído no coração de cada gremista. Lá permanecerá como permanece na nossa memória a revolução que Renato causou sempre que esteve em campo ou ao seu lado, em nome do Grêmio.
Por tudo isso e por tantas outras coisas que não tenho habilidade para escrever ou memória para lembrar, para mim é difícil entender a saída de Renato neste momento, quando caberia a ele —- e poucos terão essa capacidade —- administrar o novo ciclo que estamos iniciando, após assistirmos à passagem da geração vitoriosa que conquistou a América.
A mudança que se faz necessária somente é possível com alguém forte o suficiente para resistir a pressão pelos tropeços inevitáveis no processo de reconstrução de um time. Quem assumir terá a mesma responsabilidade —- tenho dúvidas se terá a força de Renato diante da adversidade. Torço para que seja blindado pela diretoria, co-responsável pelo que vier acontecer. E que tenha a tolerância do torcedor, algo raro nesses tempos em que os intolerantes contaminam as relações com suas palavras de ódio.
A me consolar, a alegria que tenho até hoje na mente — e essa não esquecerei jamais —- de Renato ter comandado o time que me fez sorrir e vibrar abraçado aos meus dois filhos (guris, o que foi aquela noite em Al Ain, nos Emirados Árabes?!?); e me permitiu compartilhar com o pai nossas últimas comemorações em vida pelo Grêmio, clube que ele me ensinou a amar.
Renato sai da casamata e abre espaço no vestiário para que alguém assuma a responsabilidade de manter no elenco e nos torcedores aquilo que ele resgatou logo que chegou em 2016: o prazer pelo futebol bem jogado e pelo título conquistado. Vai embora sem dizer adeus, porque de Renato jamais iremos nos despedir. No máximo, arriscamos um “até logo!”; quem sabe, “até breve”. Porque Renato não sai do Grêmio nem o Grêmio jamais sairá de Renato. Somos eternos. Imortais!
Você está no carro, parado no farol da avenida Nossa Senhora do Ó, ouvindo as notícias na CBN 90.5. Milhares de pessoas em São Paulo e no mundo estão ouvindo as mesmas informações. Um carro entra no posto para abastecer, o ônibus articulado sai do ponto, um caminhão dá seta e troca de faixa. Tudo parece organizado, sincronizado, programado.
Tem coisas para você não olhar: elas estão na sua frente, como o jato que passa no céu azul. Mas você esta distraído e não percebe. Nunca irá perceber. Pois não pertencem a sua vida, a sua realidade.
Você passa por centenas de situações todos os dias e muita coisa escapa da sua atenção. Sim, você vive num grande caos. E apenas em uma pequena parte dele, você consegue habitar e compreender, harmonicamente.
Talvez, devêssemos parar um pouco a nossa corrida diária, andar mais lentamente. Mudar os nossos trajetos habituais, olhar ao redor mais detalhadamente.
O mundo é muito maior do que podemos vivenciar, milhares de acontecimentos são registrados neste exato momento. Histórias maravilhosas, outras nem tanto, estão surgindo e desaparecendo.
Mas você perdeu tudo isto, de noite, assistindo ao Jornal Nacional. Ou esquentando alguma coisa no micro-ondas. O tempo passa por nós e deixa poucas lembranças.
Ouço uma buzina. O farol esta verde. Acorde! Vamos, você esta atrasado para o serviço, seu chefe vai olhar feio novamente e dizer: “muito bonito”.
Coloque os fones de ouvido para experimentar melhor os efeitos sonoros deste podcast:
Carlos Assis é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo
“Tem duas competências que são chaves: a accountability é uma; a capacidade de aprendizado contínuo e ágil é outra. Então a gente precisa se atualizar constantemente. A gente tem de ter prontidão para aprender.”
Armando Lourenzo, EYU
Ao assumir o cargo de liderança você descobre que para alcançar as metas propostas pela empresa dependerá das outras pessoas. Diante dessa realidade, muitos profissionais acabam centralizando as ações, acreditando que com o controle nas mãos a performance vai melhorar e os resultados serão alcançados. Ledo engano, pensa Armando Lourenzo, diretor da EYU no Brasil e América Latina, entrevistado do programa Mundo Corporativo da CBN. Para ele, ao agir dessa maneira, deixa-se de oferecer experiências aos colaboradores, e o líder não cumpre uma de suas funções: agregar valor às pessoas.
“Existe um mantra na sociedade de que ‘eu trato as pessoas como eu gostaria de ser tratado; eu não concordo com isso, eu acho que a gente tem de tratar as pessoas como elas gostariam de ser tratadas. Aí é você praticar a empatia. É você se colocar não no lugar da outra pessoas, mas entender como ela funciona”
Autor do livro ‘Liderança na prática — como liderar pela primeira vez’, Armando ensina que ter conhecimentos técnicos, tanto do próprio negócio como da função que exerce, são importantes mas não, suficientes:
“Para liderar equipes é crucial desenvolver soft skills. Assumir um cargo de liderança pela primeira vez será, provavelmente uma das fases mais desafiadoras da sua vida profissional”.
Imagine esse desafio sendo assumido em um cenário totalmente incerto e complexo como este imposto pela pandemia. Ao líder —- novato na função ou não —- as exigências são ainda maiores. Na EY, tradicional no setor de consultoria e auditoria, os 300 mil colaboradores foram trabalhar remotamente, em março de 2020. Segundo Armando Lourenzo, o braço acadêmico da instituição ofereceu programas de desenvolvimento pessoal para melhorar a produtividade do trabalho à distância, para resolução de problemas complexos e liderança remota:
“Você tem uma serie de aspectos que estão mudando. A gente está passando por um processo de transformação digital, com uma economia compartilhada, as pessoas querem mais flexibilidade no trabalho, as pessoas querem mais qualidade de vida. O ambiente é totalmente diferente. Se você tiver uma postura de chefe como no século passado, na década de 50, não consegue sobreviver nos dias de hoje”
Algumas sugestões que podem tornar o ambiente virtual mais produtivo e saudável, com base na experiência da EY são:
Gestão de emails, com seleção apenas daqueles que realmente devem ser respondidos;
Estabelecimento claro dos meios de comunicação por onde serão feitos os contatos
Agilidade no feedback, para impedir que ‘fantasmas’ apareçam na comunicação interna dos colaboradores —- o que antes era resolvido no bate-papo de corredor agora pode demorar e se transformar em uma crise em pouco tempo.
Armando Lourenzo chama atenção em especial para os problemas de comunicação que devem ser atacados firmemente. Da mesma forma que é importante fazer cursos de oratória, aprender a se expressar e desenvolver a capacidade de se apresentar por meios virtuais, o diretor da EYU recomenda que se aprenda a escutar:
“Talvez seja o mais relevante a aprender. Muitas vezes, em uma reunião, todo mundo está falando e tem uma pessoa que observa a todos. É ela quem tende a fazer a pergunta que vai mudar por completo o rumo da reunião”.
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, pelo site e nas páginas da CBN no Facebook e no Youtube. O programa tem a colaboração de Juliana Prado, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti.
“A questão não é quantas vezes você cai mas quantas vezes você levanta”
Ouvi essa adaptação da frase de Rocky Balboa, personagem das lutas de boxes do cinema, de um dos meus filhos, no bate-papo do café da tarde, Sei lá porque surgiu o assunto, talvez premonição para o que aconteceria à noite. Provavelmente apenas coincidência. Com certeza, inspiração para essa nossa conversa marcada pela frustração de estarmos fora da Libertadores 2021 — fato raro na história gremista, especialmente nesta última década em que fomos campeões, em 2017, e por oito vezes disputamos a mais importante competição das Américas.
A queda não veio em um lance, por mais que os algozes de plantão queiram apontar o dedo para um ou outro jogador. Ela ocorre aos poucos. E é coletiva. Em um gol marcado e mal anulado —- refiro-me ao da primeira partida, lá no Paraguai. Em um, dois e três gols perdidos na cara do goleiro —- claro, que falo do que assistimos na partida de hoje. Na ausência de jogadores importantes ou na presença de outros tão importantes quanto mas sem a necessária condição física. Na dificuldade para montar um time com o talento que necessitamos.
Perde-se uma classificação até mesmo antes disso. A obra de hoje começou a ser construída na campanha claudicante do ano passado (que se encerrou apenas neste 2021). Na perda de pontos que nos colocariam facilmente na Libertadores, sem precisar passar por essa fase preliminar e perigosa, em que tivemos de disputar uma “final” em começo de temporada.
A derrota somente não será maior, se for pedagógica.
Semana passada escrevi que “na Libertadores é preciso até saber perder”. E o Grêmio, com todas as dificuldades (e, repito, um gol muito mal anulado) soube perder na medida certa — inclusive marcando fora de casa, o que lhe daria a classificação com uma vitória simples. Na Arena, começou na frente, dominando e superior em campo — mas não soube vencer. Jogou fora a vantagem que tinha e sucumbiu a qualidade técnica do adversário. E eis aqui mais uma lição a ser aprendida: admitir quando do outro lado havia uma força maior.
É preciso aprender com o revés deste início de temporada e lembrar que surge uma oportunidade rara que é a de ganhar tempo para treinar e se dedicar àquela que é a principal competição nacional, o Campeonato Brasileiro, vencido pela última vez, em 1996. Para isso, Renato terá de reestruturar o time, rever jogadores, investir em novos talentos, acreditar na juventude e encaixar as peças para que o futebol de 2017, que encantou o Brasil, volte a ser praticado em campo.
A tentação de zerar o jogo e começar tudo de novo, como se o que foi feito até aqui tivesse de ser esquecido é enorme. Ao mesmo tempo que perigosa. A ideia de terra arrasada só serve para satisfazer o fogo amigo, geralmente instigado por frustrações pessoais ou visão limitada diante da necessidade de um trabalho de longo prazo. Mudar tudo e todos tornará a derrota desta noite muito pior.
Cair, sentir o cheiro da lona, embrulhar o estômago com o sabor azedo da derrota faz parte da vida. Saber levantar-se e voltar a lutar à altura dos desafios que se impõe na jornada é para poucos. É para os Imortais. E nossa história já provou que somos. Vamos nos erguer!
Presidente do Senado em foto de Jefferson Rudy/Agência Senado
Em algumas semanas, a despeito do esperneio do Governo, teremos a CPI da Covid como protagonista da cena política e dividindo espaço com o mal que lhe deu origem —- refiro-me a doença e não a quem disparou o gatilho do vírus. Hoje, a temos apenas instalada, o que significa pouco apesar do muito esforço que senadores de oposição tiveram de fazer para convencer o STF a obrigar o presidente do Senado a cumprir a lei. Decisão do ministro Luis Roberto Barroso ratificada pelo plenário do tribunal.
Para que a CPI se inicie é preciso que partidos e blocos indiquem seus representantes —- são 18 no total dos quais 11 são os titulares —- em até dez dias. Feito isso, os membros sentam-se à mesa para decidir quem ocupará o cargo de presidente e de relator da comissão. Uma decisão que é tomada em público mas negociada no particular. Em seguida, começam os trabalhos propriamente dito: levantamento de informações, coletas de provas, apuração de fatos e a convocação de depoentes.
Na entrevista desta quarta-feira no Jornal da CBN, o senador Humberto Costa (PT), indicado por seu partido para ser membro da CPI, já deu a dica: o primeiro convidado tem de ser o atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. Convidado é forma gentil de falar, porque convidado pode declinar do convite. Em CPI, você vai por bem ou por mal. Queiroga deve ir por bem até porque ao assumir o cargo o estrago já havia sido feito. Estará na CPI para dizer qual a estrutura da pasta, as carências, transmitir dados oficiais e tentar driblar as perguntas mais capciosas que serão feitas para colocá-lo em contradição com o presidente.
Falamos na entrevista também do desafio desta comissão de tocar os trabalhos mesmo com as restrições sanitárias que recomendam o afastamento e o “mandato remoto”. O fato tem sido usado pelos governistas para empurrar a discussão com a barriga —- para ser mais exato: com a vacina.
O líder do Governo no Senado Eduardo Gomes (MDB) teve o despudor de sugerir que a comissão começasse somente quando todos estivessem vacinados. Por favor, caro e raro leitor, não entenda mal: quando o Senador diz todos não inclui você ou eu, ele se refere a ele e a seus colegas senadores: “enquanto a CPI não tiver condição de funcionar com pessoas imunizadas, que não possa funcionar presencialmente”. Ou furamos a fila oficialmente pelo bem do Brasil ou não temos CPI para o bem do presidente Bolsonaro, deve ter pensado em sua intimidade.
Marcos Rogério (DEM), outro dos senadores governistas, disse que “os atos da CPI impõem a presença física. O depoente deve estar presencialmente na comissão para não ser orientado; para não ser constrangido; para não ser ameaçado; e até para decretar prisão, em flagrante” —- será que ele está disposto a dar ordem de prisão ao ex-ministro Pazuello, por exemplo? Seria um escândalo, não!
Argumentos frágeis: desde o início da pandemia, nós assistimos a sessões de julgamento online, em diversos tribunais no Brasil —- com direito a gafes e inconfidências cometidas por juízes, promotores, advogados, réus e testemunhas. Até agora não se viu nenhum advogado de defesa convencer os tribunais de que seus clientes estão tendo o direito cerceado ou estão sendo coagidos porque prestam depoimento à distância. Há inúmeros instrumentos de controle à disposição. Basta boa vontade.
Além disso, nada impede que o “convidado” vá depor presencialmente no Senado e tenha na sala apenas a presença do presidente e do relator da CPI, além de assessores mais próximos —- todos devidamente mascarados. Os demais integrantes da comissão tocam os trabalhos de casa mesmo, via internet.
Quanto a mandar prender, não parece ser um problema, já que a polícia do Senado permanece de prontidão na casa. É só enviar um WhatsApp: “teje preso”! — expressão que entrou para o folclore político das comissões parlamentares de inquérito quando foi usada pela senadora Heloisa Helena (PSOL), contra o presidente do Banco Central, Chico Lopes, durante a CPI dos Bancos, em 1999.
Apesar de que os senadores devem tomar cuidado, muito cuidado: a Lei Contra o Abuso de Autoridade, em vigor desde janeiro do ano passado e aprovada por eles como retaliação ao comportamento do Ministério Público, em especial aos da Lava Jato, pode ser acionada se algum dos depoentes se sentir desrespeitado pelos parlamentares. Pau que bate em Chico, bate em Francisco, ensina um ditado da terra da ex-senadora Heloísa Helena.