Conte Sua História de SP 467: dos passeios fotográficos ao olhar afiado no Skype

Por Claudio Lobo

Ouvinte da CBN

As ruas de São Paulo são o nosso cenário. Somos sete amigos apaixonados por fotografia. Nossos encontros são frequentes. Alguns do grupo se reúnem semanalmente para fotografar São Paulo. Quem vê as imagens que captamos logo percebe que somos adeptos ao estilo “street photography” —- fotografia de rua, já que estamos aqui conversando em paulistanês. Imagine manter esse estilo com a Covid-19 nos mandando para dentro de casa. Impossível, né. 

Algumas semanas de susto e pandemia foram necessárias para encontrarmos novos caminhos. A saída foram encontros promovidos pelo Skype. Desde nove de maio de 2020 nos reunimos todos os sábados das duas às cinco da tarde para apreciarmos e discutirmos fotografia.

No início tivemos alguns tropeços nessa caminhada digital. Com o tempo aprendemos a usar o Skype, como falar, compartilhar as fotos e resolvemos problemas de atraso de áudio e imagem. 

André, Aretusa, Eduardo, Maria Luiza, Norma, Rose e eu somos fotógrafos amadores — amador avançado — e decidimos trocar experiências. Cada um apresenta duas imagens para o debate. Os colegas sugerem melhorias aqui, um retoque ali, falamos de técnicas a serem usadas, recursos que podemos lançar mão. Também conversamos de livros fotográficos; fazemos a leitura de fotos de profissionais renomados —- uma espécie de engenharia reversa, identificando e desmontando a foto de modo a aprender com eles. 

Os encontros sempre remotos são regados de aprendizado, generosidade, companheirismo e muita, muita diversão. Agora, estamos como a fábula do lenhador que enquanto não está cortando lenha, está afiando o machado. Quando tudo se acalmar, voltaremos a nos encontrar presencialmente e sairemos às ruas para seguir nosso passeio fotografando São Paulo e sua gente.

Claudio Lobo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de SP 467: passei de ano com meu Arthur

Por Odnides Pereira 

Ouvinte da CBN

Nasci na Zona Norte da Capital em 21 de abril de 1959. E por aqui sempre morei. Quando estudante, frequentava a escola pública. Você haverá de saber que naquela época não existiam email, Facebook, WhatsApp, Twitter … nem mesmo computador.  Imagine o que foi se adaptar a essa nova escola. Meu neto,  Arthur, hoje com sete anos, mora comigo e minha esposa desde os dois anos de idade. Está no segundo ano fundamental do colégio Palavra Viva, aqui na Zona Norte.

Em 23 de março de 2020, ao levá-lo na escola, como faço todos os dias —- ou fazia —-, fomos avisados que as aulas estavam suspensas devido à pandemia. E o que acontecerá agora? Ninguém sabia dizer ainda.

As respostas a essa dúvida começaram a chegar no WhatsApp. 

Uma semana depois a mensagem recebida dizia que as atividades seriam virtuais e deveríamos esperar mais um ou dois dias pois ainda estavam concluindo o cadastramento dos alunos no Google Meet — Sala de Aula. 

Foi pelo WhatsApp também que fomos chamados na escola para buscarmos livros e cadernos a partir de um sistema de drive-thru organizado pela escola. Chegamos de carro, baixamos o vidro, um funcionário com máscara entregou uma caixa com todo o material do meu neto dentro e voltamos para dentro de casa.

Confesso, em um primeiro momento ficamos todos perdidos tal a transformação tecnológica em nosso entorno. Chegamos a ficar atrasados com as aulas por um semana —- algumas coisas que deveríamos fazer, nós perdemos. Os professores foram compreensivos e o conteúdo que havíamos deixado para trás foi recuperado.

Em casa nos adaptamos, também. Separamos uma mesa para todos os cadernos, livros e os demais materiais a serem usados na escola. Nas provas, Arthur dizia: — “Vô, vó, por favor, saiam daqui de perto, hoje tenho prova pra fazer.”. A gente obedecia.

As aulas virtuais foram de vento em popa. E nós começamos a aprender algumas coisas. Desde os primeiros dias observei o quanto os professores são pacientes e perseverantes. Nessa pandemia, eles estavam dentro da minha casa, viraram nossos parentes. Até sabíamos quando eles tinham algum problema familiar. E aproveitávamos para conversar pelo WhatsApp ou pelo próprio Google Meet nos intervalos de lanche.

Pela tecnologia e o esforço dos professores, foi possível ao meu neto ter recebido todo o conteúdo do ano, da mesma forma que se estivesse na escola. E, felizmente, encerramos o ano letivo. Meu neto Arthur, a vó dele e eu passamos de ano.

Odnides Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo em homenagem aos 467 anos da nossa cidade. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br e curta outros capítulos da nossa cidade no meu blog miltonjung.com.br ou no podcast do Conte Sua História de São Paulo

Lágrimas pela vacina

Enfermeira é primeira brasileira vacinada. FOTO: Paulo Guereta/Photo Premium/Agência O Globo
FOTO: Paulo Guereta/Photo Premium/Agência O Globo

Morei em um sobrado, na Saldanha, em Porto Alegre. Em cima, ficávamos nós. Na parte de baixo, Seu Juvenal e Dona Mulata. Eles estavam lá desde antes de a minha família se mudar para o Menino Deus, assim que nasci. Eram os padrinhos do meu irmão mais novo; ele era um senhor com ar divertido, ela, enfermeira. Atendia em um hospital e nas horas vagas, acudia a gente, especialmente quando tínhamos de tomar injeção.

Apesar de serem vizinhos de teto, a mãe nos levava pela mão, pois sabia que se tivéssemos oportunidade sairíamos em disparada —- você haverá de concordar comigo que injeção nunca foi do agrado das crianças. Ficou na memória o cheiro do álcool e da água fervendo, usados para esterilizar a seringa e a agulha em um caixa de metal. Naquela época, era comum as famílias terem um equipamento próprio, que passava de pai para filho, de um irmão para outro. Aplicada a injeção, lavava-se, esterilizava-se e … próximo. Fazia o máximo para ficar por último na fila, sob a ilusão de que pudesse adiar a sessão para outro dia. Não tinha como escapar, era cerrar os dentes, sentir a lágrima escorrendo no rosto e aguentar a picada da agulha.

Como a família segue morando na mesma casa, em Porto Alegre, quando vou visitá-la e entro no corredor do andar de baixo, onde viviam Seu Juvenal e a Dona Mulata, o cheiro característico da injeção exala da minha memória. O mesmo cheiro que transpassou minhas narinas na tarde desse domingo, enquanto assistia à cena mais desejada desde o início dessa tragédia que vivemos. A agulha aplicada no braço esquerdo de Mônica Calazans, enfermeira, como Dona Mulata, negra e voluntária nos testes da Coronavac,  abria uma célula de esperança em cada um de nós que sonhamos em nos ver livre dessa desgraça que se transformou o Sars-Cov-2.

As vacinas de agora não são mais aplicadas em seringas e agulhas reaproveitáveis; a caixinha de alumínio foi substituída pelo plástico e virou peça de antiquário; o cheiro de álcool e água fervendo é dispensável; e a tecnologia disponível nos laboratórios para produzir remédios injetáveis está centenas de vezes mais desenvolvida do que na minha infância. Se naqueles anos havia negacionistas, não circulavam na minha casa. Meus pais sempre tiveram a preocupação de nos oferecer o que havia de mais apropriado para proteger nossa saúde —- doesse a quem doesse. 

Lembro porém de anúncios na televisão para convencer às famílias a participarem das campanhas de vacinação. Sujismundo, o moço de cara simpática e maus hábitos dos comerciais produzidos pelo Regime Militar, era o protagonista e aparecia na tela dizendo que “não quero tomar espetadas inúteis, afinal não estou doente”. Era convencido pelo filho, pelas palavras do médico e pela lei imposta pelo Governo que suspendia o salário-família se as crianças não fossem vacinadas. Isso mesmo, os militares daquela época —- mesmo diante de todas as atrocidades cometidas e de crimes contra os direitos humanos —- eram a favor da vacinação, faziam campanha publicitária e obrigavam as pessoas a tomar a injeção.

Com um mês de atraso, em relação aos principais países do Mundo, o Brasil iniciou hoje a vacinação contra a Covid-19 —- ainda temos poucas doses e apenas um tipo de vacina, apesar de a Anvisa também ter aprovado o uso do imunizante de Oxford/AstraZeneca. Como você, caro e raro leitor deste blog, já deve saber, o Governo Federal —- leia-se Jair Bolsonaro e General Pazuello —  foi incompetente para colocar a vacina à disposição dos brasileiros e mesmo com acesso a Coronavac, importada pelo Instituto Butantan, vai guardar os frascos para iniciar seu programa de vacinação na quarta-feira, nas capitais brasileiras. “Não entendo essa ansiedade”, deve pensar com os botões de seu pijama o General da Banda.

Perdão, não quero incomodar você neste momento com um discurso contra a insensatez, por mais relevante que seja. Quero reservar este domingo para agradecer a quem construiu essa história, pesquisou no laboratório, aprofundou seus estudos, compartilhou conhecimento e nos proporcionou uma vacina que reduzirá o risco de continuarmos diante desta mortandade que já nos levou cerca de 210 mil pessoas, apenas no Brasil. Quero guardar na memória — assim como o cheiro do álcool e da água fervendo — esse dia em que a vacina me levou mais algumas lágrimas — diferentes daquelas de uma criança medrosa, na casa da Dona Mulata. Lágrimas de alegria por ver que a riqueza e inteligência do ser humano ainda podem nos salvar; e de saudades por aqueles que se foram sem ter tido essa oportunidade.

Avalanche Tricolor: um empate que vale bem mais do que um ponto

Palmeiras 1×1 Grêmio

Brasileiro — Allianz Parque, SP/SP

Diego Souza comemora gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Diego Souza comemora gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Ninguém empatou tanto quanto o Grêmio. Ninguém perdeu tão pouco quanto o Grêmio. Assim como ninguém está tanto tempo invicto no Brasileiro —- são 15 jogos marcando pontos. Nada disso ainda foi suficiente para nos colocar na liderança ou próximo dela, assim como não nos garantiu aquela vaga que nos devolverá a Libertadores —  a despeito do fato de que vamos dormir nesta sexta-feira no G4 e se quiserem nos tirar de lá, os adversários que façam a sua parte.

O empate de hoje —- o décimo quarto na competição —- valeu muito mais pontos do que outros tantos. Bem mais do que o ponto somado na tabela e que nos deixou a seis do topo do campeonato. Foi um teste de resiliência contra aquele que será o adversário na final da Copa do Brasil, em fevereiro ou março — a data ainda está aberta. A derrota, da forma como estava sendo construída no primeiro tempo, seria acachapante no ânimo e no moral do time. Daria a impressão de incapacidade, o que nos derrotaria antes mesmo de disputarmos as decisões da Copa.

Ter resistido ao atropelo inicial e conseguido chegar ao intervalo com uma desvantagem pequena, permitiu que Renato reposicionasse o time, colocasse cada jogador no seu devido lugar e os fizesse entender que no gramado sintético a bola rola em velocidade diferente e oferece vantagem a quem está acostumado ao piso. 

Assim que voltamos do vestiário, era evidente que o Grêmio seria outro time. Os riscos diminuíram apesar de Vanderlei, gigante no primeiro tempo, ter voltado a brilhar quando exigido no segundo. Passamos a ter mais a bola e a nos movimentarmos com mais velocidade. Arriscávamos no ataque enquanto nossos zagueiros tinham de imprimir um esforço redobrado lá atrás —- o que Kannemann sabe fazer muito bem.

A entrada de Maicon, diante da lesão de Matheus Henrique, mudou o toque de bola. Se um prefere carregá-la próximo do pé, o outro privilegia o passe rápido e consegue enxergar com precisão companheiros mais bem posicionados. Foi em um desses lances que Maicon pisou dentro da área adversária e encontrou Luis Fernando correndo por trás da marcação na linha de fundo. O cruzamento foi na medida para Diego Souza cabecear e decretar o empate —- os gols de Diego deveriam valer dobrado na tabela de goleadores, porque é incrível como todo gol que ele marca é aquele que decide ou ajuda a decidir a partida; dificilmente faz gol em jogos já resolvidos.

Por pouco, muito pouco mesmo —- como diria José Geraldo de Almeida, antigo locutor esportivo —-, não levamos a vitória em um último lance da partida, no qual Diego Souza, sempre Diego, cobrou falta por cima da barreira e buscou o ângulo; e a bola só não chegou ao seu destino porque foi a hora de o goleiro adversário brilhar. 

Na maratona decisiva de Janeiro, evitamos a derrota contra um adversário forte e com pretensão de chegar ao título. Teremos ao menos mais três jogos que serão definitivos nas próximas rodadas. Por hoje, fizemos nossa parte, arrancamos um empate difícil e saímos de campo confiantes de que a Copa do Brasil está ao nosso alcance. Mérito de Renato que fez as substituições certas tanto quanto soube mudar o time no vestiário — como admitiram em entrevista Diego Souza e Victor Ferraz.

Conte Sua História de São Paulo: de véu, grinalda e flor de laranjeira

Ivani Dantas 

Ouvinte da CBN

Das lembranças que trago da infância quase nada se parece com os dias de hoje. Foi um tempo tão transformador que me parece razoável contá-lo no formato “ Era uma vez!…“.

Quando os códigos morais e éticos valiam igualmente para os mais e para os menos abastados, pessoas circulavam com a mesma elegância e dignidade pelas ruas, bondes e pelas largas avenidas de São Paulo. O trânsito de automóveis era de se contar nos dedos.  A vida corria lenta e os acontecimentos eram muito mais esmiuçados, o que muitas vezes era mesmo cuidar da vida alheia. 

As  Marocas (personagem fofoqueira das tirinhas de jornal), tinham um “cuidado especial” com as jovens casadoiras! O estado civil era notado não só pela aliança brilhando na mão esquerda, mas também pelas roupas, de colorido mais sutil, e comportamento mais contido.

Moças subiam ao altar de véu e grinalda, conduzidas, até a igreja, por um carro, decorado com rendas e rococós (corríamos ao portão para ver passar).  E, chegavam o altar, pelas mãos do pai, feliz ao som da marcha nupcial. A noiva, vestida de branco – pureza, véu, grinalda e flor de laranjeira.

Outros tempos! Os namoros e noivados eram vigiados pela família e… vizinhos. Casar uma filha era um bem disfarçado alívio! Teria, agora, um marido que dela cuidaria “para sempre”. 

O bairro, a paróquia, toda a vizinhança se punha a contar os meses que levaria para surgir o rebento… que algumas vezes chegava “prematuro”, mas muito parrudo…

Tudo tão distante, mas as recordações permanecem… 

Pois é,

Era uma vez…

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Liguem suas câmeras, desliguem seus microfones, vamos dar início à solenidade e sejam bem-vindos ao novo mundo

Por Christian Müller Jung

Evento virtual do Governo do Estado do Rio Grande do Sul
Pelo celular, cerimônia oficial é transmitida pela internet, respeitando protocolos de saúde (foto: Christian M. Jung)


Em Atenção ao protocolo, desta vez é o Respiratório”, artigo que escrevi em 11 de março de 2020 — data em que a pandemia foi decretada pela Organização Mundial da Saúde —- já abordava as regras que impactariam nosso cotidiano e viriam a se transformar em uma obrigação para quem vive em sociedade. As autoridades de saúde alertavam para a  maneira correta com que deveríamos agir para reduzir o impacto do que chamávamos de novo coronavírus — que agora, mais íntimo, a ponto de entrar em nossas casas e contaminar nossa família, atende pelo nome de Covid-19.


Passados um ano desde a primeira morte registrada na China e dez meses desde aquele artigo, os protocolos não mudaram, foram reafirmados: limpeza frequente das mãos, uso  constante de máscaras, distanciamento social —- aglomeração é crime, festas devem ser evitadas e preservar a vida é obrigação, protegendo especialmente os idosos e com saúde fragilizada.


Ainda que estejamos assistindo ao aumento na velocidade com que o vírus se dissemina e o registro de mortes se assemelhe ao pico alcançado em agosto do ano passado, a notícia de que vacinas estão prestes a serem aprovadas no Brasil é muito bem-vinda —- isso não muda a necessidade de mantermos os protocolos. Fora brigas políticas e birras infantis que colocam em xeque a capacidade da sociedade científica, ainda teremos de assistir à discussão que nos inclui e não nos cabe. Aliás só nos atinge. 


Questionar quem trabalha com a ciência é como discordar do diagnóstico do seu médico. É decidir que comer tomate à exaustão vai aplacar o impacto do seu câncer de próstata, em lugar de se submeter à quimioterapia. É tomar decisões que atendam as suas crenças, a despeito do que dizem pesquisadores e doutores que dedicaram a vida e a carreira aos estudos com a intenção de prolongar o seu tempo de existência no planeta Terra —- que não é plano, registre-se.


Tem muita gente tocando tambor pra louco —- como dizem aqui nos meus costados — e proferindo teorias negacionistas que em nada ajudam a reduzir a sobrecarga que tem esgotado os profissionais de saúde. E dê-lhe praia e dê-lhe festas, como se nada do que assistimos no mundo fosse verdade.


Ainda bem que em meio a esta pandemia, quando imaginamos que a humanidade vai se afundar e se esforça para sextavar uma roda que girava livre e solta, temos bons exemplos: seres humanos que estão mais preocupados em realmente achar uma solução, sem temer que a vacina vai transformá-los em jacaré.


Dito isso, voltemos aos protocolos e aos eventos que fazem parte do mercado ao qual estamos inseridos, nós mestres de cerimônia e produtores. E vamos pensar no que podemos aprender em meio a essa onda negativa que fez com que muitos profissionais tivessem de encerrar suas atividades, fechar as portas e, com muita tristeza, até suas próprias vidas —- sim,  infelizmente tivemos pessoas que chegaram a esse ponto. \


Em meio ao caos estabelecido, nos vimos obrigados a destravar sistemas tecnológicos que, convenhamos, já estavam à nossa disposição, mas que  ainda não tinham sido incorporados ao nosso cotidiano. Aprendemos a desvendar os protocolos da área de forma empírica — testando, errando e acertando —- porque a comunicação é necessária e a disseminação da informação imprescindível.


Em uma função na qual o respeito ao protocolo do cerimonial é primordial, logo absorvemos os protocolos de higiene ou respiratórios, como caracterizei em artigo anterior. Em seguida, os profissionais do setor tiveram de desvendar os protocolos de rede —- dessa teia que nos interliga.

Como ensina o Wikipedia:

“…. o protocolo (em ciência da computação) é uma convenção que controla e possibilita uma conexão, comunicação, transferência de dados entre dois sistemas computacionais. De maneira simples, um protocolo pode ser definido como “as regras que governam” a sintaxe, semântica e sincronização da comunicação”

Nesse ponto que queria chegar.

Empurrados pelo caos, descobrimos em lives, videoconferências, cerimônias online tanto quanto em plataformas como o Zoom, Google Meet e Skype que, mesmo impedidos da mantermos a presença física, teríamos como acessar as pessoas de forma virtual. Entendemos o que é ter qualidade na conexão de internet, em casa ou no trabalho; que, independentemente da infraestrutura oferecida, o “delay” (prefiro chamar mesmo de atraso) faz parte do diálogo; que ao nos conectarmos de casa ou de nossos escritórios com o mundo devemos nos esforçar para criar um ambiente harmônico; que nosso olhar tem de mirar a lente da webcam e não a tela do computador; que nosso equipamento —- computador, notebook, celular ou câmera —- deve estar na mesma altura do nosso rosto, evitando que pescoço, nariz ou testa fale mais alto do que nosso conteúdo.


São detalhes e informações que já estavam à disposição, muitos até conheciam, mas que por falta de necessidade e diante de tantas outras preocupações pertinentes à época, preferimos deixar para depois  aprender —- “quando precisar, meu filho me explica”, pensamos .


Fomos empurrados em direção a um penhasco não para nos espatifarmos pela falta de oportunidade, mas pela necessidade de continuarmos, de seguirmos trilhando esse universo das solenidades, dos eventos, do aprendizado com o outro e da necessidade que temos de nos enxergarmos como cidadãos do mundo.

Enquanto ainda enfrentamos esse período triste que não nos permite o contato físico e o olhar instigante dos que participam de cerimônias, congressos e convenções, agregamos essas tecnologias que a partir de agora estarão presentes em praticamente todos os eventos, aproximando ainda mais as pessoas, mesmo que elas permaneçam em seus locais de origem, distantes umas das outras.

Apesar da expectativa —- e desejo —- de que voltaremos a nos encontrar e nos reunirmos em um mesmo espaço, essa infraestrutura que foi agregada às atividades permanecerá, facilitando o comparecimento daqueles que têm dificuldades para se deslocar, seja pelo acúmulo de compromissos na agenda seja pela carência de recursos financeiros.


Sendo assim, o que antes se iniciava com um “senhoras e senhores, bom dia …” agora se transformou em “senhoras e senhores, liguem suas câmeras, desliguem seus microfones, vamos dar início à solenidade e sejam bem-vindos ao novo mundo”. 

Christian Müller Jung é publicitário, cerimonialista, Mestre de Cerimônia do Palácio do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, colaborador do Blog do Mílton Jung, gremista e meu irmão.

Quem você vê quando se olha no espelho?

Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de michael.handsome.gaida no Facebook/Pixabay
Foto de michael.handsome.gaida no Facebook/Pixabay

No conto “O espelho”, de Machado de Assis, durante uma reflexão filosófica sobre a existência, Jacobina — o protagonista — revela uma situação ocorrida na sua juventude para elucidar suas concepções sobre o tema abordado, alegando que os seres humanos teriam duas almas: uma interior, que olha de dentro para fora e outra exterior, que olha de fora para dentro.

  Jacobina conta que fora nomeado alferes da Guarda Nacional, causando muito orgulho a seus familiares e amigos. Eis que é convidado a passar uns dias no sítio de sua tia, sendo solicitado que leve sua farda, recebendo inúmeras cortesias por conta do cargo ocupado. 

No entanto, a tia precisa viajar às pressas e, em seguida, há uma fuga dos escravos. Na ausência das bajulações, Jacobina olha-se no espelho e não se reconhece na imagem refletida: danificada, com contornos imprecisos. Somente tem a sua imagem integralmente refletida quando se veste novamente com a farda.

A astúcia – ou provocação – de Machado de Assis nos aproxima de inquietações sobre nós mesmos: quem realmente somos?

Essa questão que poderia ser simples, a princípio, já que temos uma série de informações a nosso respeito, torna-se desafiadora quando compreendemos que a nossa identidade é construída diariamente, ou seja, apesar de sermos a mesma pessoa, estamos em constante transformação.

A construção da identidade envolve aspectos permanentes, como nome, parentescos, nacionalidade; além dos subjetivos, que permitem a compreensão de si mesmo e a consciência enquanto ser único, tais como os pensamentos, sentimentos e valores.

Entretanto, nossa identidade não está limitada apenas a esses aspectos subjetivos; compreende a relação constituída entre a subjetividade e as interações sociais.

É no processo de socialização, no encontro com o outro, com a sociedade, com a cultura, que a autoimagem vai se consolidando, permitindo a construção da nossa identidade social. 

Somos as características biológicas herdadas, somadas e transformadas pelas experiências vividas, como as oportunidades sociais, a profissão, os relacionamentos afetivos… Numa combinação que promove mudanças constantes e que guardamos na memória para nossa autorreferência.

Poderíamos então dizer que somos as memórias que temos sobre nós? O professor e cientista Ivan Izquierdo costuma dizer: 

“Somos o que lembramos e o que decidimos esquecer”

As memórias pessoais ou autobiográficas, de certo modo revelam nossas experiências de vida e permitem essa construção da nossa imagem; no entanto, pesquisas têm mostrado que não acessamos ou usamos todas as memórias disponíveis ao criarmos narrativas pessoais. 

Selecionamos como memória pessoal aquilo que de certo modo se ajusta à ideia atual que temos de nós mesmos, numa fusão entre memórias de quem fomos no passado e quem somos no presente, envolvendo a autoimagem, necessidades e objetivos. 

Somos aquilo que está dentro de nós e aquilo que o outro nos permite ser. 

Não podemos apenas ser. Mas também não podemos vincular quem somos exclusivamente ao desempenho de papéis estabelecidos e de atividades desempenhadas, que por vezes nos sufocam, nos engessam em cargos, títulos e organizações. Como numa engrenagem, as duas partes constituem um mecanismo que permite um movimento coerente e contínuo. Se uma das partes falhar, não conseguiremos nos reconhecer. Nossa imagem estará distorcida em formas e contornos.

Machado de Assis estava certo! 

“Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro (…). Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência”.

Resolvo encerrar o texto e ir para o espelho… Quem será que vejo?

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O exemplo dos cidadãos de Santana de Acaraú na semana em que os bárbaros atacaram a democracia nos EUA

Na mesma semana que a maior e mais longeva democracia do mundo era atacada por bárbaros que, seguindo as ordens de seu grande líder, invadiram de forma violenta o Capitólio, bem distante de lá, aqui no Hemisfério Sul, um grupo de cidadãos ocupava seu espaço no Palácio Legislativo Vereador José Ananias Vasconcelos —- o  título de palácio soa exagerado diante do tamanho do imóvel que abriga a Câmara Municipal de Santana de Acaraú, apesar de sua fachada em pedras escuras que destoam do padrão na cidade, mas segue o protocolo político no Brasil em que as casas que recebem os três poderes  tendem a ser assim reconhecidas.

Santana de Acaraú fica ao Norte do estado do Ceará, distante 228 quilômetros da capital, Fortaleza, e bem mais próxima de Sobral. Por lá moram cerca de 30 mil pessoas que, em novembro do ano passado elegeram o prefeito e seus 13 vereadores —- todos já empossados e trabalhando. Foi na sessão de sexta-feira, dia 8, único dia da semana em que o parlamento se reúne, provavelmente para não atrapalhar as funções profissionais que os vereadores seguem exercendo, quatro cidadãos santanenses se apresentaram na Casa e pediram direito a fala.

De máscara —- não para se esconder; para cumprir o protocolo sanitário —- o professor da rede pública Paulo Roberto, escolhido para falar em nome do grupo, foi ao púlpito, sacou do bolso um roteiro feito em papel e usou da arma mais poderosa que ele e seus colegas têm à disposição: a palavra. Sim, foi com palavras ponderadas ao mesmo tempo que firmes, respeitosas mas sem serem subservientes, que ele apresentou aos parlamentares o movimento cidadão que planejavam implantar desde o fim das eleições em novembro.

Inspirados no Adote um Vereador, criado em 2008 na cidade de São Paulo, os santanenses —- 16 deles até aqui —- se reuniram e assumiram o compromisso de fiscalizar os vereadores desta legislatura que se inicia em 2021 e vai até 2024. A intenção é que, coletivamente, monitorem os projetos apresentados, discutidos e aprovados, cobrem a presença efetiva dos parlamentares nas sessões em plenário e nas reuniões das comissões permanentes, observem se os vereadores estão exercendo seu principal papel, que é o de fiscalizar o Executivo ou estão apenas se beneficiando do próprio; e fiquem de olho se o dinheiro do Legislativo está sendo usado ou abusado. Aplaudido pelos vereadores ao fim da fala, o grupo ouviu mensagens de apoio e colaboração com o trabalho que estão iniciando.

Foi um encontro amistoso, como se espera continue sendo a relação entre os legisladores e seus representantes. Moderação é uma das quatro virtudes que Platão entende que devem ser harmônicas para que a justiça seja alcançada. Aos integrantes do Adote, em Santana de Acaraú — os que estão com o grupo desde o início e os que ameaçam juntar-se a ele —,  caberá exercitar as outras três virtudes da mesma forma, para que superem os obstáculos que virão —- tenham certeza, eles sempre aparecem. Coragem, sabedoria e a própria justiça também serão necessárias para o momento em que o interesse fiscalizador do grupo entrar em choque com os interesses paroquiais de vereadores.

Digo isso, porque a reação inicialmente positiva dos parlamentares não deve iludir os integrantes do Adote —- nem em Santana de Acaraú nem em qualquer outro canto deste país. A medida que se começa a expor a maneira como os temas de interesse da cidade são debatidos e votados, as intenções que movem as escolhas feitas pelos vereadores e, principalmente, como eles se comportam no exercício da função, haverá de surgir represálias, críticas e tentativas de divisão. É do jogo político, no qual os profissionais da política conhecem bem as regras e as artimanhas. Nós cidadãos estamos em processo de aprendizado. 

Uma questão que poderia ser debatida na cidade do interior do Ceará —- e levada a todos os demais municípios —- é o vencimento dos parlamentares que por lá beira os 7 mil reais, levando a Câmara a gastar cerca de 96 mil reais por mês somente com a folha de pagamento dos vereadores, conforme levantamento publicado no site da casa. Esse valor está muito acima da média salarial da cidade e supera o PIB per capita do município, que é de R$ 6.550,00, de acordo com dados do IBGE. Se o assunto vai para a pauta ou não, é uma decisão dos cidadãos santanenses, mas é um bom exemplo de como nem sempre os interesses pelo que é melhor para a cidade e as pretensões dos parlamentares estarão sintonizados nessa jornada.

Moderação, coragem, sabedoria e justiça serão virtudes a serem praticadas  diariamente para que a política — não aquela só feita por partidos e poderosos — se realize em comunidade.  A presença do cidadão na “praça pública” que deve ser a Câmara Municipal sinaliza que podemos exercitar a política de uma forma diferente, distante da intolerância que tem dividido o Brasil e resultou na violência contra a democracia americana. O Adote um Vereador em Santana de Acaraú é um sopro de esperança a todos que acreditamos na ideia de que o homem não se basta a si mesmo, está destinado a viver em sociedade, porque somos animais políticos por natureza —- como nos ensinou Aristóteles.

Avalanche Tricolor: a disputa do título é agora!

Fortaleza 0x0 Grêmio

Brasileiro — Arena Castelão, Fortaleza/CE

Ferreirinha parte para o ataque em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Ferreirinha parte para o ataque em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Sabe aquele jogo que começa e você já sabe qual vai ser o resultado? A gente fica torcendo para estar errado, mas a cada minuto que passa aumenta a certeza de sua previsão inicial. Foi assim neste sábado à noite. O empate —- o décimo terceiro no campeonato —- foi sendo desenhando no chute para fora, no cruzamento cortado pela defesa, na falta (quase) bem cobrada, no contra-ataque que se perdeu em um passe errado e no gol que por milímetros foi anulado. A previsão de que seria empate tem muito a ver com o time que vai a campo —- éramos na maioria reservas e, claro, paga-se um preço quando tomamos essa decisão. No caso, dois pontos desperdiçados na disputa pelo título do campeonato. 

Verdade que outras vezes entramos em campo sem escalar os principais titulares e conquistamos a vitória mesmo assim —- mas, sei lá o motivo, assim que começou a partida deste fim de noite, tive a impressão de que não sairíamos do zero a zero. Impressão confirmada ao fim deste que foi o vigésimo-oitavo jogo gremista no Campeonato Brasileiro. Não que tenhamos jogado pelo empate. Longe disso. Tentou-se de um lado e de outro. Muitas vezes pelo meio. Chutou-se 12 bolas no gol  — pelo que anotei — e forçamos o goleiro adversário a fazer defesas difíceis. Esforço fugaz. 

Apesar de não termos saído com a vitória, que é o que todos queríamos, o empate nos mantém na disputa do título e entre os cinco primeiros classificados. O mais importante é que, independentemente do que acontecer no domingo, a ideia de que o campeonato será decidido em janeiro permanece. A partir de agora —- e aí entendemos a escolha pelo time reserva —- todo jogo será uma decisão direta pelo título. Nas próximas quatro partidas, o Grêmio terá de ser gigante porque enfrentará quatro adversários que estão embolados e disputando a liderança da competição. 

Seja o que os deuses do futebol quiserem!

Conte Sua História de SP: o desembarque na cidade após a Segunda Grande Guerra

Anna Maria Amato Nardelli

Ouvinte da CBN

 

Eu e minha família chegamos no Brasil, em São Paulo, vindos da Itália, em 1950, após a Segunda Grande Guerra Mundial. Tínhamos passado, por determinação de meu pai, cinco anos viajando por muitas cidades e vilarejos em busca de lugares menos perigosos e longe de bombardeios e de objetivos bélicos.

Acabada a guerra, em 1945, voltamos à nossa cidade Messina, na Sicília, encontrando-a quase totalmente destruída. Foi a cidade que mais recebeu bombardeios aéreos e navais, devido a sua posição geográfica estratégica.

A decisão de meu pai, então, foi buscar trabalho em outro país e como ele mantinha contatos no Brasil, não deixou escapar a oportunidade… Naquela época para entrar no país, somente com um prévio contrato de trabalho.  Chegamos aqui depois de 21 dias de viagem de navio, com muitas ilusões e sonhos: o Brasil era notadamente pacífico.                                 

São Paulo logo nos pareceu uma grande metrópole e não demorou para nos inserimos em um ambiente agradável: italianos, filhos e netos de italianos, “quatrocentões” — cujos filhos tinham estudado na Europa —  e outros descendentes de pais asiáticos.  

Povo alegre e colorido!

Eu, com 18 anos, observava que na maioria das vezes prevaleciam costumes afrancesados; de fato havia restaurantes franceses; a Aliança Francesa, muito frequentada que, além de cursos de língua, oferecia espetáculos teatrais. As lojas de moda de prestígio eram francesas. Ditava a moda, a tecelagem Francesa. Em vários programas de rádio eram tocadas música com cantores que faziam sucesso na França. 

Os colégios de freiras, mais conceituados, eram franceses; e  à época dos anos 1950-1960, numa São Paulo cosmopolita de mais de um milhão de habitantes, notava-se uma “média burguesia” em busca de afirmação e com uma boa bagagem intelectual.

Naqueles anos, a população contribuiu muito para o progresso de São Paulo por isso guardo no meu coração com carinho aqueles anos dourados cheios de promessas e ilusões.

Quando me perguntam se a pandemia de hoje se equivale a guerra que eu passei, respondo que esta é mais assustadora. Não obstante os cinco anos de perigo constante, nós conhecíamos o inimigo e suas estratégias. Agora, o vírus é um inimigo cruel, obscuro e imprevisível, mas tenho fé de que a humanidade vai conseguir desmascará-lo e superar este momento mesmo tendo pago um duríssimo preço..!  

Anna Maria Amato Nardellii é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.