Conte Sua História de São Paulo 467: depois de sofrer com a Covid-19, a alegria com as “Amigas da Consolação”

Rita Amaral

Ouvinte da CBN

Assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Meninas da Aclimação é como nos identificamos até hoje. Atualmente somos seis amigas. Há muito tempo, fomos meninas. Hoje, somos as Senhoras da Aclimação. Perdemos uma das meninas no ano passado.  Sou da Aclimação desde os anos de 1950 quando mudei com a família para a Rua Baturité.  O jardim que leva o nome do bairro já foi chamada de Jardin d Aclimatacion, um belo espaço de Paris que inspirou o dono dessas terras, Carlos Botelho, a criar um zoológico e um local para aclimatação de espécies exóticas. Fica no centro de São Paulo. 

O Jardim estava a uma quadra de distância da nossa rua. Era seguro ir até lá com as meninas. No parque, minha mãe me levava para tomar sol e encontrar outras crianças. Na calçada da rua, brincávamos de amarelinha; pulávamos corda e nossas bonecas nos divertiam. Às seis horas, com o fim da tarde, a mãe de uma de nossas amigas nos chamava para entrar e ouvir no rádio “A benção do Padre Donizete.” Ao lado do rádio, nos esperava um copo de água benzida.

Na adolescência, nos encontrávamos nos bailes de garagem. O som de Ray Conniff, Nat King Cole e Elvis Presley na vitrola foi testemunha dos primeiro namoros — que eram motivos de trocas de informações constantes entre as meninas. Delas fui a última a me casar. 

As meninas da Aclimação tiveram filhos e isso mudou o tema das nossas conversas. Não havia mais bailinhos para os encontros, então nos reuníamos nas festas infantis. Algumas fizeram suas primeiras viagens para o exterior. 

Nossos filhos casaram. Somente duas de nós continuamos morando na Aclimação. Mesmo assim nos encontrávamos em algum restaurante da cidade, sempre próximo do fim do ano. Havia trocas de presentes, de histórias e memórias.

Em 2020, fiquei quatro meses internada em estado muito grave devido a Covid-19. Ao me recuperar, procurei as meninas para encontros virtuais no Zoom, no Google Meet, em alguma dessas plataformas. Ninguém tinha e-mail. Ainda bem que descobrimos as chamadas de vídeo no WhatsApp. E desde lá, há cinco meses, toda terça-feira, às cinco da tarde —- antes da Benção do Padre Donizete —- nos reunimos. Até mesmo uma das meninas que hoje mora no Chile, mas adaptou sua agenda para estar com a gente.

Conversamos sobre nossas famílias, netos, receitas. e cuidados Compartilhamos nossas aflições e nossas conquistas. Em 2020, duas de nós ficaram viúvas. A despeito da pandemia, estamos mais próximas. Nosso encontro de fim de ano agora é toda semana graças as chamadas de vídeo. 

Assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Rita Amaral é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, viste o meu blog miltonjung.com.br ou assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: Deus me livre!

Inter 2×1 Grêmio

Brasileiro – Beira Rio, Porto Alegre/RS

A bola está no alto e a frente de Ferreirinha, do Grêmio, enquanto Nonato, do Inter, empurra o gremista pelas costas dentro da área
Será que o VAR viu esta foto do LUCAS UEBEL ?

 

Nem omelete comi neste domingo para não arriscar que o ovo caísse fora do prato, o que —- como o caro e raro leitor desta Avalanche sabe —- é determinante no resultado do futebol dominical. Já falamos disso aqui. Caso seja necessário posso me estender no assunto … ok, deixemos para outra oportunidade. O que interessa é que o meu cuidado neste domingo era não permitir que nenhum fator externo interferisse no resultado do jogo. Preferi até ir à missa mais cedo em vez de deixar para o fim da tarde quando a partida já tivesse se encerrado. Não me perdoaria. Não que ao me ajoelhar, eu reze pela vitória gremista, porque —- também já disse a você — é melhor não preocupar Deus com essas coisas comezinhas. Mas sabe como é que é … vai que o Homem resolvesse me puxar a orelha. 

Pode parecer exagero, mas cresci sabendo que Domingo de Gre-Nal não é um dia qualquer na vida dos gaúchos. Lá nas bandas da Saldanha, onde morei, em Porto Alegre, no meio do caminho do Olímpico Monumental e do Beira Rio, fosse onde fosse a partida, era dia de torcedor desfilar camisa nova do seu clube e bandeira ainda com vinco de tanto tempo dobrada. Pais passavam em direção aos estádios levando seus filhos pela mão, com peito em riste e contando histórias experimentadas em clássicos passados —- sempre daqueles em que saímos vitoriosos, é claro. Reveses? Deixemos que os outros contem. 

Ao longo da minha carreira de vida tricolor assisti a todo tipo de clássico e nas mais diversas situações. Posso até colocar nesta lista um que joguei: foi quando fazia parte do elenco do time de basquete do Grêmio e fomos ao Gigantinho fazer a espera do show dos Globetrotters, aqueles malabaristas americanos que encantavam crianças e adultos fazendo estripolias nas quadras pelo mundo. Ganhei (e ai de quem me desminta).

Fui a Gre-Nal no Olímpico, no Beira-Rio e em estádio pelo interior gaúcho. Fui com o pai, com amigos, sozinho, com cartolas e com a delegação de futebol. Fui torcer nas cadeiras, nas sociais, nos vestiários e nas arquibancadas. Acompanhei jogos das cabines de rádio, como repórter dentro de campo e até como gandula.  

Hoje mesmo, no início da tarde, por obra e arte do Edu Cesar, que mantém canal no Youtube, no qual preserva a memória do rádio esportivo, deparei com uma transmissão que há muito vinha procurando sem sucesso. A do único Gre-Nal em que trabalhei com meu pai, na rádio Guaíba de Porto Alegre. Era final do Campeonato Gaúcho de 1986, no Olímpico. Ele narrava e eu era um dos repórteres de campo, em uma época em que eu ainda atendia por Mílton Júnior. 

Assim que Osvaldo marcou o gol, no início do segundo tempo, ele correu em direção ao pavilhão da social do Grêmio, diante do qual eu estava com o microfone da rádio. Com os dois braços erguidos para o céu, o meio-campista gritava: “obrigado, meu Deus!”. Ao registrar seus gritos e ser chamado pelo pai para descrever o lance do gol, iniciei minha participação repetindo o agradecimento do jogador. Até hoje, há quem jure que Osvaldo nunca disse aquilo. Eu teria sido flagrado comemorando com o céu o gol que nos daria o bicampeonato gaúcho. Pura maldade (como você pode conferir no vídeo que reproduzo a seguir). Mesmo que seja justo imaginar que por dentro era o que fazia com meu coração tricolor saltando pela boca. 

Se já vivenciei todo tipo de Gre-Nal, evidentemente também sofri muito, chorei mais um tanto e sorri como nunca. Vencer o clássico é muito especial. Por isso, neste domingo em que mesmo com todos os cuidados que eu tomei aqui em casa e o time no campo, mesmo que estivéssemos melhor quando sofremos a virada e mesmo que o VAR estivesse de folga, assim que o árbitro deu o apito final —- sem direito a acréscimos depois de toda a parada do pênalti —, pensei cá com minhas camisas tricolores: não deve ter sido fácil a vida dos colorados que ficaram tantos anos e jogos sem vencer uma só vez o Grêmio. Deus me livre ter de passar por isso um dia (ops, desculpe, sei que o Senhor não tem nada a vera com isso: é só força de expressão)

Mundo Corporativo: “o melhor líder é o melhor ser humano”, diz a consultora Luciane Botto

“Um líder cada vez mais, além de pensar em resultado, tem de pensar nas pessoas. E conseguir fazer este equilíbrio entre o resultado, a técnica, a ferramenta, o processo, as pessoas … conseguir trazer o time junto é o que cada vez mais a gente precisa dentro das nossas organizações”

Luciane Botto, consultora

A alta competitividade dentro das organizações, a busca incessante de resultados e a insegurança quanto aos cenários que se desenham nesta pandemia potencializam os desafios impostos aos líderes. É preciso coragem e sensibilidade para as tomadas de decisão, além de consciência do impacto que seus atos terão sobre as pessoas com as quais tem relação. Para a consultora Luciane Botto, que se dedica ao desenvolvimento de lideranças e realiza consultoria organizacional, quanto mais nos desenvolvemos como seres humanos íntegros, responsáveis e autênticos, mais efeitos tendemos a nos tornar como líderes e mais plenamente seremos capazes de viver nossas vidas.

Em entrevista ao programa Mundo Corporativo, da CBN., Luciane falou da necessidade de os profissionais trabalharem com o conceito de liderança integral:

“Um líder cada vez mais, além de pensar em resultado, tem de pensar nas pessoas. E conseguir fazer este equilíbrio entre resultado, a técnica, a ferramenta, o processo, as pessoas, conseguir trazer o time junto é o que cada vez mais a gente precisa dentro das nossas organizações”.

Em “Liderança Integral — a evolução do ser humano e das organizações”(Editora Vozes), Luciane e seus colegas José Vicente Cordeiro e Paulo Cruz Filho, identificam cinco atitudes para quem pretende exercer na plenitude o seu papel de líder:

  • Propósito — “.. a razão pela qual algo é feito ou criado, ou para a qual algo existe.”
  • Accountability —  “… assumir sua responsabilidade pelos resultados produzidos em sua organização e na sua vida.”
  • Integridade — “… dar o máximo de nós mesmos pelas nossas causas, mas sem ir contra os nossos valores pessoais e os das organizações.”
  • Humildade — “reconhecer que aquilo que vemos lá fora não são fatos absolutos e, sim, nossas interpretações do que acontece no mundo”….portanto devemos “permanecer abertos às interpretações dos outros acerca do que está acontecendo.”
  • Veracidade  — “…ser sincero consigo mesmo e com os outros.”

O exercício dessas atitudes permite que se identifique forte conexão da equipe de trabalho e se melhore o ambiente da organização, mesmo com alguns setores da economia mantendo seus profissionais atuando à distância, desde o início da pandemia. Líderes incapazes de exercerem esse papel tendem a ser responsáveis pela criação de empresas tóxicas, segundo Luciane. Estudo da Harvard Business School com mais de 60 mil funcionários mostra que o ambiente ruim desanima as equipes e afetam os resultados. Quando o gestor é muito grosseiro, diz a consultora, 80% das pessoas se sentem descomprometidas, 38% reduzem a qualidade do trabalho e 25% transferem essa frustração ao cliente.

“Se o melhor líder é o melhor ser humano, ele tem de estar preocupado não só em ser um excelente gestor, mas também ser um colega que compartilha informação, que está disposto a ensinar, a aprender, a dar o seu melhor, a muitas vezes pedir ajuda, a ter humildade suficiente para falar que não tem todas as respostas, que não é o super-herói”

O programa Mundo Corporativo é apresentado pelo jornalista Mílton Jung, pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, no Canal da CBN no Youtube e no Facebook, e é reproduzido aos sábados no Jornal da CBN. O Mundo Corporativo tem a colaboração de Débora Gonçalves, Juliana Prado, Bruno Teixeira e Rafael Teixeira.

Conte Sua História de SP 467: a Ingrid me mostrou que dava

Luciana Henn S. Castro

Ouvinte da CBN

“O que é o palco, onde ele está, do que ele é feito?

O palco é uma dimensão espiritual, simbólica, o palco é seu próprio coração. […]

O coração tem o calor pra alma, para nos animar.

E durante a pandemia realmente foi nossa ânima que fez o mundo girar”. 

Gilberto Gil em especial para “Amor e Sorte”

 

Foi um pouco antes da pandemia que nos conhecemos, na Casa da Amizade, no Paraisópolis. E assim que tudo na rua virou silêncio, recebi a mensagem dela: “Você pode continuar me dando dicas sobre redação para o vestibular? Acabei de escrever um texto, posso te mandar pelo zap”? Com meu “sim, claro”, se abriu um portal de possibilidades impensadas. 

Confesso que, quando a escola em que trabalho como professora foi fechada, em 18 de março, nutri a esperança de que aquela situação duraria no máximo um mês. E ainda que continuasse orientando os alunos remotamente, eu era daquelas pessoas que achavam impossível realizar o trabalho docente em “home office” pela própria definição do termo: não existia “home classroom”. 

A Ingrid me mostrou que dava. 

Enquanto eu me ajustava às inéditas demandas da escola particular onde trabalho, alimentando plataformas com aulas, eu cultivava, por causa da Ingrid, a energia de lecionar. Ela me mandava a redação, eu a corrigia, identificava pontos fortes e a melhorar. Buscava na internet — até aquele momento, um lado escuro da lua, ainda tão cheio de possibilidades inexploradas — os tópicos que poderiam ajudar a Ingrid a se sair bem no vestibular. 

O calendário desfolhava rapidamente e estávamos às vésperas de organizar o Concurso de Redação da Mostra Cultural de Paraisópolis, para alunos de escolas públicas. Eu, ainda entorpecida pela mudança de rotinas doméstica e profissional, pelo enclausuramento, pelo medo, pelas incertezas propostas pelo governo federal, pensava em cancelar o concurso, mas a experiência com a Ingrid me mostrou que era possível. 

Chamei uma reunião, via internet, com a equipe organizadora para trocarmos ideias e contar, por exemplo, o quanto eu começava a dominar os diversos aplicativos que poderiam viabilizar o evento: desde a inscrição dos candidatos à sua preparação pelos professores nas escolas; da criação à aplicação da proposta de redação, com seus textos motivadores, bem aos moldes do ENEM; da maneira de coletar essas redações à entrega delas, sem identificação nominal, à equipe de corretores; do modo como publicar as notas de forma fácil e confiável. 

Fizemos isso em tempo recorde e de maneira totalmente remota, promovendo o encontro de todos os atores. Um viva à informática e à nossa sinergia! 

A adesão ao Concurso foi menor do que nas edições anteriores —- para muitos participantes, o celular era o único dispositivo disponível, e você pode imaginar a dificuldade em ler os textos motivadores e escrever a redação numa tela do tamanho da mão, torcendo para o sinal não cair bem no meio da operação. 

Enfim, conseguimos!!! E, no melhor estilo “live”, a XV Mostra Cultural de Paraisópolis aconteceu, as 10 melhores redações receberam seus prêmios via correio e a celebração dos vencedores foi feita por transmissão virtual. 

Toda essa experiência me mostrou que o palco, também na educação, é o coração! É o coração que traz o calor para a alma e nos anima, para continuar fazendo essa comunidade girar! Para continuar, enfim, sinalizando aos jovens que a Educação ainda é um passaporte para uma vida melhor e que estamos aí para nos reinventar, nos apropriando das tecnologias para criar novos mundos, menos desiguais, mais fraternos e empáticos. 

Luciana Henn Castro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de SP 467: meu presente foi o talento de minhas amigas

Elisabete Parra

Ouvinte da CBN

Gosto de comemorar meu aniversários sempre no sentido do agradecimento e de abertura para que o universo conspire e eu perceba que posso continuar fazendo diferença. Tem sido assim principalmente após os 50 anos —- quando revisitei lugares de nascimento e da primeira infância. 

Apesar da pandemia e diante dela, não poderia me render quando fosse completar 64 anos em 4 de setembro de 2020. Os aniversários em lives estavam em alta, mas achava aquilo meio sem graça —- várias pessoas falando ao mesmo tempo, cumprindo um protocolo, longe de uma comemoração. 

Foi, então, que tive a ideia de propor às minhas amigas: “seu talento é meu presente”. Entrei em contato com algumas 20 mulheres, as mais chegadas, e propus a brincadeira. Algumas acharam que não tinham nada a oferecer .… tenho certeza que todas as pessoas são talentosas, muitas vezes não sabem, ou não identificam suas habilidades. O resultado é que tive o aniversário mais lindo, inesquecível e solidário nos meus 64 anos de vida.

Foram vários presentes: música, leitura de textos, depoimentos e retrospectivas por aquelas que diziam não ter talento. Fizeram até sorteio. Com talentos que umas ofereciam as outras: terapia, tarô, numerologia … 

O mais marcante foi a união de algumas das amigas que gostam de cozinhar ou sabem trabalhar com decoração para organizarem um aniversário na sede de uma ONG que atende moradores de rua, Mãos que Abençoam, em São Caetano do Sul. No dia do meu aniversário, eles se responsabilizaram pelo almoço das pessoas atendidas pela ONG, prepararam a decoração e cantaram o ‘parabéns à você’. Tudo gravado e reproduzido durante a live. Nem preciso dizer que não conseguia parar de chorar. 

O maior legado: estamos todas ajudando a ONG descoberta por acaso, quando minhas amigas procuravam uma instituição para oferecer os seus talentos.  O que mostra que o universo conspira e presenteia quando você está aberta a dar e receber.

Elisabete Parra é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos da nossa cidade, viste o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de SP 467: o direito de ser dançarina

Cida Serafim

Ouvinte da CBN

Estou com 33 anos. E recuperei o direito de dizer que sou dançarina contemporânea. Eu explico. Atuei nos palcos por dez anos. Nos últimos quatro, não dançava mais nem praticava qualquer atividade física. Depressão, lesões, autocrítica exacerbada e a certeza de que a arte aqui estava fadada ao desmonte.

Eu não tinha forças para qualquer luta coletiva ou mesmo segurança para expor o que eu acreditava ser minha expressão. Minha voz estava muda. Dores simbólicas e concretas me assombravam há muito tempo. Ao entrar 2020, após quatro anos trabalhando com produção de eventos e sofrer uma estafa gigantesca, decidi que só trabalharia no ramo de alimentação: restaurantes, cafés. Tinha alguma experiência e bastante jogo de cintura. Era o plano perfeito. Mas lá no fundo uma tristeza gigante me consumia.

Com a pandemia e o isolamento, tive um crise de dores na coluna que me deixou na cama. Um mês isolada e quase imóvel; tempo que levei para reunir forças e pedir ajuda. Um WhatsApp aqui. Uma ligação ali. E numa dessas um amigo me indicou o trabalho de um fisioterapeuta que fazia teleatendimento com artistas do corpo. Teleatendimento em fisio?  Sim!

Semana a semana, ideias equivocadas sobre o corpo, reabilitação, dores crônicas e lesões persistentes foram desconstruídas. Perdi os 10 quilos que acumulei no isolamento. Ganhei confiança. Tomei coragem. Gravei vídeos no Instagram. Retomei contato com as parceiras de dança. E meu corpo respondeu tão bem aos estímulos, ao apoio e a generosidade de Leandro Fukusawa, o fisioterapeuta, que decidi voltar à dança.

De modo quase inexplicável, a vida mostrou meios e caminhos para que isso fosse possível. Hoje, tiro do papel e do campo das ideias, um projeto que vai justamente olhar para essa história de superação através do movimento.

Nunca imaginei que a tecnologia abriria a porta para minha reabilitação, que eu voltaria a dançar e contaria essa história para não ter dúvida de que mesmo em meio ao caos e à falta de esperança, a vida ainda pulsa. E dança. 

Cida Serafim é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Avalanche Tricolor: que voltem as vitórias

Grêmio 1×1 Atlético MG

Brasileiro — Arena Grêmio

Maicon, o Criador em campo, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

“Vamos para mais um empate”, foi o que disse quando sentei ao lado de meu filho-torcedor, para assistir ao segundo tempo da partida desta noite. O primeiro, vi de revesgueio, porque tinha de atender ao compromisso assumido com meu amigo Luiz Gustavo Medina, o Teco. Havíamos marcado para hoje uma conversa, ao vivo, no Instagram, sobre cuidados financeiros que devemos tomar em busca de um equilíbrio na vida. Por descuidar o calendário de jogos e não prestar atenção na agenda, enquanto o Grêmio estava em campo, eu me divertia no bate-papo. Mesmo assim pude ver pela tela do computador o pênalti convertido contra nós e a falta de criação no ataque.

O segundo tempo —- contou-me o companheiro de torcida —- começou da mesma forma que o primeiro: sem troca de passe, sem profundidade e sem chutes a gol. Até que os criadores entraram em campo. Não foram necessárias muitas tentativas —- se não me engano a que entrou foi a única bola que havia sido chutada em direção ao gol até aquele momento, quando já havíamos jogado 85 minutos.

A bola rodou de pé em pé, e passou pelo de Maicon, o Criador; Ferreirinha usou de seu talento para driblar; Diego Souza dividiu dentro da área; e na sobra Everton, o Improvável, encontrou um chute capaz de passar em um espaço estreito entre os marcadores, o goleiro e a goleira. Era o empate que eu havia previsto, não porque sou adivinho ou tenho bola de cristal, apenas porque tem sido esta a lógica gremista no Campeonato Brasileiro. Foram 15 empates na competição e uma sequência de 16 partidas sem derrota. Uma série invicta que nos fez subir em direção ao topo da tabela, mas que não nos aproxima da liderança da competição. 

Se a derrota está fora de opção e o empate se torna a saída para jogos nem sempre bem jogados, que a vitória volte quando for realmente necessária. Domingo será.

O livro “É proibido calar!” ganha arte e resumo no projeto reLeitura

Com arte, criação e produção de Renato Avanzi e sua equipe,“É proibido calar! Precisamos falar de ética e cidadania com nossos filhos” foi apresentado na série reLeitura, com um resumo dos principais pontos abordados no livro que lancei em 2018. Falo da construção de uma relação saudável entre pais e filhos para que possamos criar um ambiente ético na sociedade. Assista ao vídeo, compre o livro agora e depois deixe a sua opinião aqui no Blog

Conte Sua História de SP 467: o grupo de WhatsApp que mexeu no meu bom retiro

Por Betty Boguchwal

Ouvinte da CBN

“Os quadros e as obras de arte marcam

a presença dos moradores numa casa.

Digo isso porque a decoração

podemos encomendar a um profissional,

mas a arte nós que escolhemos”.

Maurício Boguchwal

 

Dentre os inúmeros grupos de WhatsApp e reuniões via plataformas digitais que movimentam e atenuam o isolamento social e, também, diversificam o cotidiano e cenários desta interminável quarentena, seleciono o grupo Bom Retiro — um coletivo com lotação máxima de 256 pessoas com larga faixa etária, comprovada vivência neste bairro — condição sine qua non para marcar presença nesse “hospício”, como é carinhosamente chamado. Daí o slogan:

— Você sai do Bom Retiro, mas ele não sai de você!

O dito bairro carece de uma revitalização digna da história de seus antepassados para, atualmente, marcar a presença da comunidade judaica em São Paulo. Na primeira reunião, agendada para às oito e meia da noite de uma quarta-feira, excepcionalmente eu estava on time. Sabe, com tantas reuniões no Zoom, eu criei um lugar, melhor dizendo, puxo uma mesinha que expõe antiguidades, substituo um telefone quadrado de disco, bege com dourado, pelo meu fiel companheiro notebook Dell, e arrasto a referida mesinha em frente ao sofá, onde me sento sempre no mesmo lugar, óbvio, na esquerda.

Ora, esse tipo de reunião em plataformas digitais tem as mais diversas demandas, com um anfitrião muitas vezes desconhecido, além de muitos outros convivas, que abre a sala Zoom, Google Meet, etc, com uma lista de convidados e agregados. E com esse convite você acaba entrando na residência, local de trabalho, enfim, lugares diversos de pessoas que invariavelmente você irá conhecer ou não, com tudo e todos dispostos na tela vertical. A propósito, a pauta dessa reunião era a revitalização do Pletzl — maneira carinhosa de chamar a esquina da Rua Correia de Mello e Rua da Graça, cercada pelo comércio atacadista, uma sinagoga histórica, hoje convertida no Museu Judaico do Holocausto, e bancos, onde nossos pais, avós se encontravam e sabiam das novidades, negócios e fofocas.

E não é que em meio aos “boa noite”, Mauro me faz uma pergunta bem peculiar:

— Este quadro aí atrás é muito bonito, ele é original?

Olho para trás e respondo:

— Não, este é uma reprodução, afirmei.

— Ah, mas ele é tão lindo, que nem pude identificar que fosse uma cópia, complementou.

De fato, Mauro tinha razão. Trata-se de um Alfredo Volpi. 

Caramba, com tantas reuniões sentadas neste mesmo lugar, como vem este Mauro com esta observação singular?

Pois é, tanto a sala, como o apartamento  inteiro estavam com muito pó, e embora isto não fique visível no Zoom, ele involuntariamente passou um aspirador não somente em todo o imóvel, como também na minha cabeça. No dia seguinte, ele me moveu a um ato, já ensaiado há um considerável tempo. Desembalei todo o acervo de quadros, esculturas, obras de arte, enfeites que vieram da residência da minha mãe, desde sua partida final, há um ano, e que estavam escondidos da minha visão.

Em outra parede, pendurei uma autêntica mulata de Di Cavalcanti. E que mulata! Aos poucos, fui selecionando com a Márcia, a co-herdeira, outros quadros e objetos, os quais, prazerosamente distribui no meu novo ambiente e ela, respectivamente, fez o mesmo no seu. Ou seja, eu simplesmente revitalizei a sala com diversas e singulares imagens em fortes cores. Ah, incluí a presença dos meus pais na minha casa, à minha moda.

Quanto ao objetivo do grupo, revitalizar o Pletzl, a prefeitura se encarregou da obra física e elegemos Artur Lescher, escultor, para criar a obra que contemplará o espaço histórico. 

Betty Boguchwal é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Animais terapêuticos: de um sorriso no rosto ao aumento da empatia

Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Luke faz festa ao ver a família

 

Uma das coisas que eu mais admiro no meu cachorro, o Luke, é a sua disposição. Se na sua chegada em nossa casa isso causou um reboliço na dinâmica doméstica por conta da sua energia e poder de destruição – comia de rodapés a roupas –, hoje é algo que me causa certa inveja. Me explico: O Luke pode ter dormido pouco ou estar cansado, mas quando ouve o barulho das chaves anunciando que alguém chegou, se levanta e vem prontamente, abanando o rabo, feliz por estar conosco. Não existe cansaço que o impeça de se alegrar na nossa presença.

 Todas as manhãs, ele vem animado, chega pertinho, pede um afago, como se não nos víssemos há tempos. Não existe mau humor, desânimo, indiferença. Busca um brinquedo para que a gente corra atrás dele. Chego a pensar que faz isso por nós… pega o brinquedo e nos distrai, nos diverte, acreditando que aguardamos por esse momento (e no fundo aguardamos).

  Fontes históricas revelam que a interação entre os humanos e os animais acontece há milhares de anos. 

Quando o homem assumiu o sedentarismo, começou a domesticar animais numa tentativa de ter uma fonte de alimento mais acessível, já que se alimentava basicamente de caça e de alguns frutos. Aos poucos essa relação foi se modificando, e alguns animais também assumiram a função de ajudar na preservação da espécie humana, protegendo mulheres e crianças.

Evidências arqueológicas registram a relação entre os humanos e os cachorros. No sul da França, foram encontradas pegadas de uma criança que caminhou ao lado de um cão, há aproximadamente 26 mil anos. No Egito, pinturas encontradas na tumba de Ramsés retrataram o Faraó com seus cães de caça. Os cães eram enterrados com seus donos para fazer companhia aos faraós após a morte. Na Grécia Antiga, os cães eram criados para companhia, proteção e caça. Na Roma Antiga, o cachorro não apenas protegia as pessoas de animais selvagens, mas era visto como capaz de afastar ameaças sobrenaturais.

A relação entre humanos e animais evoluiu para funções afetivas, capazes de promover, inclusive, benefícios terapêuticos. 

Diversos estudos demonstram que a utilização terapêutica de animais promove ganhos em diversas condições clínicas, como transtornos mentais, com benefícios no bem-estar, na saúde física e mental, na socialização e nos aspectos cognitivos.

Um estudo realizado por pesquisadores do Espírito Santo mostrou que sessões semanais de Terapia Assistida por Animais (TAA) com idosos institucionalizados promoveu maior controle da pressão arterial, além de momentos de alegria e relaxamento naquele grupo.

Em dezembro de 2020, foi publicado um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Missouri, nos Estados Unidos, indicando que a adoção de gatos por famílias com crianças autistas promoveu uma melhora nas habilidades sociais, com aumento da empatia, e redução da ansiedade de separação nessas crianças. Esse estudo também chama a atenção para o fato de que crianças com autismo podem ter problemas sensoriais, sendo mais sensíveis a ruídos altos, sendo o gato um animal reconfortante, especialmente se tiver um temperamento mais calmo.

Muitas pessoas têm histórias incríveis para contar sobre seus animais. Permita-me revelar um pouco a minha: durante muitos anos eu senti um medo inexplicável por animais. Não conseguia me aproximar ou conviver com eles. Isso me rendeu situações de vergonha, especialmente quando eu visitava pessoas que tinham animais. Eu desejava conviver com os ´´pets“, mas não conseguia. 

Um dia, ouvi da minha filha que era muito difícil, por mais que desejasse, modificar um comportamento, adotar uma nova postura e superar uma condição que lhe causava muito sofrimento. Eu estava pronta para dizer que sempre podemos mudar e superar uma condição, mas me vi ali, aprisionada pelos meus medos e com dificuldades em enfrentá-los. Imediatamente perguntei: você acha que seria possível eu superar o meu medo de cachorros?

Fiz-me essa mesma pergunta várias vezes. 

Foram alguns meses elaborando a ideia, me aproximando dos animais – não sem sofrimento.

A chegada do Luke foi planejada, desejada e calculada. Não exatamente nessa ordem. Os primeiros dias foram difíceis. Não por ele, mas pelo meu medo que ainda insistia em se fazer presente. Mas eu não desisti. Insisti e não resisti ao amor que ele ia despertando em mim, numa proporção que eu não imaginava ser possível.

Luke foi terapêutico, não apenas para mim, mas para todos em casa. Ganhamos em conversas, em risadas, em momentos de recreação em família.

Não tenho mais medo de animais. Não apenas do Luke, mas dos outros também. Às vezes olho para ele e penso: sorte a minha, Luke! Sorte de todos aqueles que podem sentir um amor tão genuíno que um animal de estimação nos é capaz de oferecer.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung