Avalanche Tricolor: que toquem as cornetas

Grêmio 1×2 Sport

Brasileiro — Arena Grêmio

 

Foto LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Acordei bem cedo alertado pelo incomodo som das cornetas que chegava até aqui, onde aproveito o fim da minha folga, trazido pelo vento sul que sopra na montanha, antes de o sol se aprochegar pelo leste. Conheço bem essas cornetas, seus tocadores e o que os motiva. Cinquenta e sete anos de vida e muitos deles passados nas arquibancadas do saudoso Olímpico, deixam os ouvidos calejados. 

 

O Grêmio teve 74% de posse de bola, finalizou 30 e tantas vezes e fez 55 cruzamentos para dentro da área adversária. Fez apenas um gol e levou dois —- nos dois únicos lances de ataque do adversário, se não perdi algum.

 

Ninguém saiu de campo feliz. Dos gandulas —- aqueles que são gremistas, e muitos somos —- a jogador; de segurança a diretoria; do porteiro da Arena aos comentaristas. Todos viram que mesmo com todo o domínio que se pode ter, fomos incapazes de chegar à vitória, mais uma vez.

 

O Grêmio já havia dominado o Corinthians e o Flamengo —- dois dos grandes do Brasil —- e voltou a fazê-lo contra o Sport, que era o lanterna da competição. O resultado não foi alcançado como merecíamos ou gostaríamos em nenhuma dessas partidas. Aliás, no Brasileiro, tivemos apenas uma vitória e mantínhamos uma enganosa invencibilidade com a sequência de empates que nos deixava no meio da tabela de classificação. 

 

Evidentemente que quem pode mudar esta situação sabe o que está acontecendo e está batendo cabeça para tentar resolver as peças em campo, engrenar o passe, ajustar o chute a gol e achar uma saída para este momento. Tem jogadores em falta e outros desconsertados pelo baixo desempenho.

 

No jogo da noite de ontem, as vaias não ecoaram na Arena porque o DJ era clubista (mais até do que eu) — apesar de já ter assistido à cena nos espetáculos da NBA em que acordes da marcha fúnebre soaram diante de um resultado negativo do time da casa. Houvesse torcedores presentes, haveria as vaias individuais, voltadas para um ou outro jogador; os que ofenderiam o time por inteiro; e os insanos que gritariam “Fora Renato”.

 

O silêncio das críticas na Arena migrou para as redes sociais, onde as hipérboles negativas sempre ganharão mais força pela forma como ecoam nos diversos perfis de gente incomodada e indignada —- tivessem esse mesmo incomodo e indignação com o que estão fazendo com o Brasil talvez as coisas melhorassem mais rapidamente por aqui.

 

Longe de mim reclamar de quem reclama; ou dizer que o torcedor deve aceitar o resultado ruim de boca calada. Somos assim, amamos e odiamos em questões de minutos. Aplaudimos e vaiamos quase ao mesmo tempo, conforme o resultado final do drible e do chute. E os resultados não têm sido bons especialmente após a volta da pandemia.

 

Eu, na frente da televisão, também faço das minhas; mas há muito tempo, abri mão do meu desejo de vaiar; prefiro sofrer calado a espera da vitória —- que, convenhamos, nos últimos anos tem aparecido com frequência. Vai ver que é meu instinto de solidariedade, pois como você — caro e raro leitor desta Avalanche —- deve saber, sou alvo de vaias, críticas e ofensas diariamente, por jornalista que sou.

 

Agora, acordar logo cedo nesses dias de folga e ler o que li, me deu um certo fastio. Fracasso, teimosia, preguiça, desastre e até quem já enxergue no horizonte a queda para a Segunda Divisão, como maldição do titulo Gaúcho. Fora os que acusam Renato por tudo de errado que esteja acontecendo. Temo que em breve haverá quem reivindique a derrubada da estátua dele, na Arena. 

 

Há os que analisam de cabeça fria para entender a queda de rendimento —- e isso é importante; os que pesam na tinta por torcedores que são —- e o coração fala mais alto; e, claro, tem os inimigos de plantão, que nunca aceitaram que Renato chegasse onde chegou. E o Grêmio voltasse a ser um campeão com futebol bem jogado e elogiado pelo Brasil.

 

Esse coro faz parte do futebol e pode ajudar se for ouvido como um sinal de alerta.

 

Pelo que se conhece daqueles que lideram o Grêmio nesses últimos tempos, não tenho dúvida, o mesmo som que me acordou logo cedo, nesta sexta-feira, já passou das ruas e das redes, atravessou as arquibancadas da Arena e chegou aos ouvidos de quem está no vestiário. Experiente, criativo e talentoso, nosso maestro fará com que todos os demais instrumentos passem a tocar no mesmo ritmo e o som estridente das cornetas encontre o tom certo e se integre a harmonia de um futebol bem jogado, mais bem afinado. 

Influenciadores sempre existiram; no digital, explodiram!

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

Ilustração: Pixabay

 

Religiosos, políticos, cientistas e esportistas com capacidade de liderança influenciaram gerações passadas, delineando crenças,  usos e costumes. A fase do consumo influenciado por personagens não necessariamente famosos, foi provavelmente iniciada ao fim do século XIX, no ano de 1890, com a marca Aunt Jemima de ingredientes para panqueca, que estampava na embalagem a ex-escrava Nancy Green. Devido ao sucesso, Nancy assinou um contrato vitalício para ser a porta-voz da marca. Durou 131 anos e não sobreviveu ao assassinato de George Floyd.

 

A Disney, a partir de 1920, com o coelho Osvaldo, iniciou a histórica série de personagens que todos conhecem, perene até os dias de hoje.

 

Ilustração de Oswald the Lucky Rabbit

 

Durante seus anos de ouro, Hollywood produziu ícones influentes, representados pelos astros e estrelas de suas películas, através das atuações dentro das telas e seus estilos de vida fora dela.

 

As revistas, importante canal de comunicação, passaram a atender o segmento de Moda, Beleza e Comportamento nitidamente para influenciar o consumo. 

 

No Brasil, a revista Claudia foi pioneira ao iniciar sua atividade em 1961, com tiragem de 150 mil exemplares. E tão importante quanto o pioneirismo foi a influência exercida pela revista no comportamento do público feminino. Papel, que identificamos, tenha desempenhado e protagonizado por longo período. Iza Smith, editora da revista, testemunha e confirma a relevância da Claudia por longo período, pela qualidade e tiragem, com aproximadamente 400 mil exemplares. Iza vai além ao me subsidiar sobre as influenciadoras atuais, demonstrando total conhecimento do sistema vigente. Como se fosse uma editora do Marketing de Influência de hoje.   

 

Os anos 60 e 70 consagraram os protagonistas da música popular, entre espetáculos de Rock, como Woodstock; cantores, como Beatles e Rolling Stone; e os movimentos da Bossa Nova, com Vinicius e Tom, e Tropicália, com Caetano e Gil. Ao mesmo tempo o estudo do Comportamento do Consumidor tomou forma no mundo acadêmico, com uma série importante de estudos a respeito do processo de divulgação e interpretação dos seus desejos e preferencias.

 

Quando as mídias eletrônicas se desenvolveram, especialmente a televisão, os destaques da música e do cinema passaram a influenciar significativamente os consumidores em amplitude internacional. A Pepsi foi um exemplo.

 

Nos anos 80, a influência de garotos propaganda é evidenciada pela dupla Carlos Moreno e Bombril, atingido o recorde de quase 40 anos, e da C&A com Sebastian.  

 

Nos anos 80, a influência de garotos propaganda é evidenciada pela dupla Carlos Moreno e Bombril, atingido o recorde de quase 40 anos, e da C&A com Sebastian.  

 

A partir de 2005, O Marketing de Influência na era digital toma corpo, na medida em que as empresas identificam no blog uma oportunidade comercial.

 

Em torno de 2010 surgem mecanismos que permitem a relação direta entre as marcas e as plataformas – Google, Facebook, Tweet, Linkedin –  e também uma relação direta entre as marcas e os veículos de comunicação. 

 

Os influenciadores por sua vez usam diretamente as plataformas com áudio e vídeo, como o Instagram e YouTube.

 

Alice Ferraz Foto:divulgação

 

Quem teve a percepção e a antecipação deste cenário foi a então dona de agência de comunicação e assessoria de imprensa Alice Ferraz.

 

Alice, em entrevista ao Alô Alô Bahia, contou que percebeu que não estava convencendo com a mídia que era papel, e estava em Nova York em uma Semana de Moda, quando viu uma blogueira na primeira fila, e ao ler seu conteúdo, pensou: 

“É dessa forma em primeira pessoa que devemos apostar, para não ser distante. Não poderá mais ser a marca falando da marca, precisa haver uma experiência. Isso foi há 10 anos, quando nem existia o Instagram”.

 

Alice criou antes de existir o termo influenciador digital, a F*Hits —   primeira agência de marketing digital do mundo focada em influenciadores digitais. Hoje são 200 influenciadores digitais que atingem mais de 40 milhões de pessoas, num país de 210 milhões.

 

Os números de Alice Ferraz são expressivos. Instagram 22 milhões de seguidores, YouTube 10 milhões de inscritos, Facebook 23 milhões de fãs. 

 

Segundo a Forbes, Alice Ferraz está entre as 20 mulheres mais poderosas do Brasil e entre as 500 pessoas mais influentes da indústria da moda no mundo.

 

Em quatro anos, 2014, os influenciadores evoluíram construindo suas audiências e sob controle próprio. E atraem a atenção dos grandes grupos de mídia, que passam a fazer parceria com eles, surgindo o modelo de parceria de conteúdo.

 

Em dois anos aproximadamente, 2016, nova evolução, quando as marcas percebem que há os microinfluenciadores, sem os milhões de seguidores daqueles, mas com seguidores suficientes para potencializar com dezenas e até centenas de outros microinfluenciadores.

 

Surgem ferramentas em 2017 para administrar “n” quantidade de microinfluenciadores e possibilitar que as grandes marcas potencializem as operações do Marketing de Influência. 

 

Nesse aspecto, quem chama muito a atenção para essa segmentação é Cris Tamer, ao classificar as microinfluenciadoras  como aquelas que têm até 100 mil seguidoras e as nanoinfluenciadoras com nichos de até 5 mil apoiadoras — com números baixos, mas significativos pela qualificação, com evidencia no mercado de luxo.

 

Reprodução Instragram @cristamet

 

Cris Tamer tem base no luxo. Em 2008 saiu da Daslu, onde exerceu função similar as de hoje ao trabalhar como produtora de conteúdo da loja e da revista, e criou um blog em sociedade com Sofia Alckmin.

 

O blog evoluiu e enveredou na trilha do luxo contemporâneo, quando cumpre o que considera essencial para uma formadora de conteúdo: consistência de postagem, coerência, fotos com qualidade, legenda com qualidade, comprometimento, seguidores naturais (comprar seguidores jamais), escrever sobre o que conhece, atender a todos, interagir com percepção dos maiores fãs.   

 

Sofia Alckmin se desligou há um ano, e Cris prepara uma equipe para atuar mais amplamente nas diversas áreas do conteúdo para Moda, Beleza e Comportamento, com base nos cuidados com o corpo humano — espiritualmente e fisicamente. Aplicará os conhecimentos obtidos no MBA Gestão do Luxo FAAP, na London Fashion Institute, na ESSEC Divisão de Luxo Paris, na Índia onde estudou Filosofia e nas melhores práticas das empresas Chocolate, GEP e Daslu. Está habilitada como uma comunicadora clássica tradicional, natural, e criativa, e usa a tipologia do London Fashion Institute.

 

No mercado brasileiro, a validação da função de influenciador fez com que surgissem muitos profissionais, e consequentemente uma demanda crescente de consultores e escolas especializadas.

 

Reprodução Instagram @danialmeida

 

Dani Almeida é um dos casos de sucesso: em 3 anos partiu de uma loja física mal localizada, mas com um e-commerce bem estruturado, e se transformou em loja virtual, influenciadora, consultora, treinadora e professora.

 

Dani está hoje no Instagram com 120 mil seguidores; no You Tube 150 mil; Telegram, 5 mil; WhatsUp, 5 mil; e já lecionou para 5 mil alunos. De julho de 2017 até hoje faturou R$1,6 milhão.

 

As premissas de Dani para se inserir na mídia social: aparecer no mundo digital como pessoa e não como logotipo; criar o perfil do público a atingir; definir os canais a utilizar considerando o perfil do público a atingir; traçar estratégia de conteúdo agregando valores aos produtos; planejar seu conteúdo; usar estratégia para crescimento de vendas e de seguidores.

 

Efetivamente os influenciadores do presente possuem recursos infinitamente maiores que os do passado, o que facilita e dificulta a sua escolha. O que simboliza o mundo presente, com mais acessos às informações, mas maior complexidade. Mais riqueza e mais pobreza.   

 

Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

A gratidão e os lírios do campo

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologia

 

“Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos…”

Beto Guedes

 

Em setembro inicia-se a primavera no hemisfério sul, simbolizando para muitos um novo tempo, momento de renovação e esperança. Depois do inverno, de dias cinzas e curtos, a primavera surge com as flores que nascem nos parques, nos campos, que dão colorido à vida e desabrocham indicando que um novo ciclo começa. Cerimônias para celebrar o começo das estações são  realizadas desde a antiguidade e, na primavera, os rituais eram forma de agradecer por tudo o que a terra oferecia aos povos e para pedir prosperidade para o novo período. O aumento da incidência de luz solar e a gratidão estão entre os fatores que acarretam estados de humor positivos. 

 

Diversos estudos têm mostrado a associação entre a maior incidência de luz natural e o aumento da produção de serotonina — neurotransmissor associado à regulação das emoções e do humor —, bem como a importância da gratidão na redução dos sintomas de depressão e ansiedade, promovendo mudanças a longo prazo na atividade cerebral.

 

A gratidão pode ser compreendida como uma emoção positiva após alguém ter feito algo por nós ou ter nos presenteado. Porém, numa perspectiva mais ampla, a gratidão é considerada como uma emoção, uma atitude e um estilo de vida. Oferece oportunidades para nos apropriarmos das experiências de maneira positiva, reconhecendo a qualidade das coisas, das pessoas e de quem somos.

 

Há quem pergunte: ser grato é fechar os olhos para as coisas ruins? Claro que não! As coisas ruins realmente existem –- e muitas para as quais infelizmente não conseguiremos ser gratos. Mas não é apenas sobre julgar algo como bom ou ruim. É sobre reformular as experiências que poderiam ser negativas, identificando as suas dimensões positivas, com foco naquilo que se considera importante, significativo.  A máxima do copo meio cheio…

 

Na obra “Olhai os lírios do Campo”, Érico Veríssimo narra a história de Eugênio, para quem a felicidade estaria associada aos bens materiais. Ele se envergonhava da família ao invés de ser grato pelas oportunidades que ela o oferecia. Abandonou a possibilidade de um amor em troca de prestígio e de dinheiro. Com o tempo, após conquistar tudo aquilo que um dia julgara relevante, percebeu que, ainda assim, não era feliz, uma vez que sua verdadeira felicidade residia nas coisas simples e cotidianas que já possuía, como a sua filha e o seu trabalho.

 

É isso… A gratidão não está relacionada com o que se tem. Mas como se vive. Não é uma busca por ter mais, mas é cultivar o que se tem. É cuidar dos relacionamentos interpessoais e ter consigo um relacionamento menos crítico, menos punitivo e com mais autocompaixão.

 

Que a chegada de setembro nos permita, como propôs Beto Guedes, inventar uma canção que venha trazer sol de primavera. Assim como faziam os nossos antepassados, que possamos celebrar um novo ciclo, sendo gratos pelo o que a natureza nos oferece, pelos nossos, por nós mesmos. Distantes da busca excessiva por coisas insignificantes, estejamos mais próximos daquilo que nos é essencial. Talvez assim possamos ver como crescem os lírios do campo.

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França. Ao lado de Abigail Costa é responsável pelo Canal no You Tube “Dez por cento mais”. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.

Eleições 2020: ajustes e novidades

Por Antônio Augusto Mayer dos Santos

 

Plenário da Câmara Municipal de São Paulo, em foto AdoteUmVerador/Arquivo

 

 As eleições deste ano foram transferidas do dia 4 de outubro para 15 de novembro. O adiamento tornou-se a medida mais apropriada frente à pandemia. É verdade que alguns buscaram prorrogar os mandatos estabelecidos em 2016 para coincidir com os embates de 2022. Todavia, a legalidade e a harmonia entre os poderes prevaleceram e o pleito ocorrerá conforme o ordenamento constitucional prevê, ou seja, na periodicidade dos quatro anos.

 

 Diante da linha do tempo, o certame de 2020 será o nono municipal desde a Constituição de 1988 e o décimo segundo disciplinado pela Lei nº 9.504. A periodicidade nas urnas somada à estabilidade da norma jurídica faz com que as agremiações estejam cientes de direitos e deveres como pré-campanha, propaganda, gastos e prestação de contas. Nesse quesito, as convenções partidárias em formato virtual para a escolha de candidatos e formação de coligações majoritárias deflagram as novidades introduzidas.

 

Relativamente ao delineamento das combinações ou tramas políticas, sobreveio uma mudança de impacto substancial: estão vedadas as coligações para as disputas das 57.931 vagas de vereador nos 5.568 municípios brasileiros. O resultado líquido dessa restrição é que as agremiações deverão formar listas completas para as câmaras municipais.

 

Na medida em que o objetivo é a conquista de cadeiras nos parlamentos, há necessidade de critérios no mínimo mais refletidos para a seleção dos nomes a serem apresentados ao eleitorado. Aqui, em função dos quocientes legais, aquelas cadeiras tradicionais obtidas por coligações estrategicamente repetidas pleito após pleito, tendem a ser oxigenadas.

 

  Isso, entretanto, não foi tudo. O financiamento público para as refregas paroquiais é outra metamorfose. Não que a presença ostensiva do dinheiro do contribuinte nos pleitos seja algo sensato num país da extensão e despolitização do Brasil. Pelo contrário. Contudo, embora dita inovação possa se traduzir em fôlego monetário aos concorrentes, a mesma não veio acompanhada de um fundamento legal garantindo paridade na distribuição dos valores gerenciados pelos dirigentes partidários. Esse vácuo poderá ocasionar fissuras internas no interior das siglas em função de eventuais privilégios nos repasses a determinados candidatos. Alea jacta est.

 

Antônio Augusto Mayer dos Santos é advogado especialista em direito eleitoral, professor e escritor. Autor de “Campanha Eleitoral – Teoria e Prática” (2ª ed. 2020, Verbo Jurídico). Escreve no Blog do Mílton Jung.

Sua Marca: é preciso humildade para ter o foco do cliente

 

 “Marcas somente existem porque dão um significado para a escolha que os clientes e os consumidores fazem” — Jaime Troiano

 

Foi com base em conhecimento trabalhado por um dos principais consultores de empresas do país, que o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso orientou os gestores a terem melhor resultado em suas estratégias. Jaime Troiano e Cecília Russo chamaram atenção para a necessidade de a empresa focar no que realmente interessa. E, conforme ensinou José Carlos Teixeira Moreira, da Escola de Marketing Industrial, em lugar de focar no cliente, é preciso explorar o foco do cliente.

 

“(focar) no cliente é quando a empresa e a marca querem colocar de forma imperativa o seu ponto de vista, ignorando quem está do outro lado, é uma visão autocentrada ou narcisista” —- Cecília Russo

 

Há um foco ainda pior que é quando o gestor foca em si mesmo, em seu próprio umbigo. Parece aquele sujeito que diz que está profundamente apaixonado por si mesmo e completa dizendo que sente que o amor é correspondido. O que deve inspirar o gestor da marca é o foco do cliente. Para tal, Jaime Troiano sugere:

 

  1. Tirar o bumbum da cadeira e encostar a barriga no balcão
  2. Conviver, observar e acompanhar os clientes e consumidores
  3. Bisbilhotar, conversar, ouvir com vontade de entender o cliente
  4. Calçar o sapato do cliente
  5. Ser atento e humilde para aprender.

 

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN e está à disposição em podcast.

Avalanche Tricolor: Renato é Trilegal

 

Grêmio 1(3)x(2)2 Caxias

Gaúcho — Arena Grêmio

 

Pôster Grêmio Tricampeão Gaúcho publicado pelo site GaúchaZH

 

Desde 2016, o Grêmio reserva ao menos uma data no calendário anual para comemorar um título. Naquele ano, vencemos a Copa do Brasil —- após 15 edições —-, que nos abriu a porta para o título de Libertadores, em 2017. Em 2018, 2019 e, agora, 2020, fomos campeões Gaúcho. No meio do caminho, colocamos na sala de troféus: Recopa Sul-Americana, Recopa Gaúcha e outras cositas más

 

Houve jogadores marcantes nestes cinco anos; gente que ressurgiu no cenário nacional como Geromel, dos maiores zagueiros que já vestiram a camisa gremista; que fez seu futebol se expressar pela liderança e talento, como Maicon — o capitão que ergueu todas essas taças dos últimos anos; ou que se consagrou e foi embora, como Luan, o Rei da América. E, recentemente, Everton.

 

Por mais importante que cada um seja (ou tenha sido) — e toda minha gratidão a eles —- foi o conjunto da obra, assinada por Renato Portaluppi, quem nos permitiu transformar títulos em rotina. Hoje mesmo se transformou no primeiro técnico, desde o feito de Oswaldo Rolla, em 1958, a conquistar o tricampeonato gaúcho. 

 

Costumam dizer que Renato tem estrela. Concordo que ele deixa tudo mais estrelado por onde passa. Discordo, porém, quando neste conceito vem embutida a ideia de sorte. Renato não é um cara de sorte. É inteligente da sua maneira. Sabe como poucos transformar pessoas. E o faz ao ser capaz de criar um espírito de grupo que está sempre disposto a agregar novos talentos e a abraçar jogadores que chegam com o desejo de provar suas qualidades.

 

A sequência de títulos chegou com Renato —- e isso não é uma coincidência. É resultado do amadurecimento que teve na vida. De como estudou —- apesar dele dizer que não precisa disso — a dinâmica do futebol contemporâneo e soube levar para campo. Da competência em entender a cabeça de jogadores e de ganhar a admiração dos torcedores. 

 

Depois de ter conquistado o Tri da Liberadores. Agora é Tri do Gaúcho. Renato, indiscutivelmente, é Trilegal!

Conte Sua História de São Paulo: a passageira do Uber

Por Henrique Ribas

Ouvinte da CBN

 

 

Viagem quase finalizada. Entro na rua Professor Picarolo. Nunca havia reparado no nome, apesar de sempre passar no local. Era ali o destino final do meu passageiro, um estudante da GV. Em mim, batia um certo cansaço tanto quanto a fome batia no meu estômago. Estacionei, desci do carro, alonguei o corpo, bati a sujeira dos tapetes. Troquei a estação do rádio da Alpha para CBN — é sempre bom ouvir notícias. Tânia Morales se despedia. Pena. Adoro ouvi-la falar de livros e outros temas.

 

Peguei a mochila com a merenda. Um iogurte, uma maçã e duas bisnaguinhas com queijo. Delícia! Deixei o vidro do carro meio aberto. A brisa era boa, o vento gostoso. A metrópole estava silenciosa a ponto de ouvir o barulho água correndo — era a fonte do Mirante Nove de Julho, deixando a água correr por sua silhueta bela, barroca, iluminada …

 

Lanche terminado, fio dental passado, álcool gel nas mãos, halls refrescando a boca, veículo Ok. Hora de voltar para as pistas. Em 30 segundos, o aplicativo anuncia: buscar passageira na rua dos Franceses. Cheguei lá e duas garotas se aproximam. Jovens, de mãos dadas. A menor de cabelos curtos e saia sensual, pede para eu esperar um minuto. Pelo retrovisor vejo as duas conversando. Devem estar falando palavras de despedido. Não ouço, mas leio seus olhos emitindo cumplicidade. Os lábios se tocaram com ternura, paixão e libido. Eu, culpado pela inconveniência, não consegui deixa de assistir àquele filme no meu retrovisor. 

 

A mais mocinha entrou no carro, com uma má vontade clara e pesada, acomodando-se no banco de traz à minha direita. Conferi o destino, iniciei a corrida e partimos. Destino: Pinheiros, Rua Francisco Leitão. Ela ainda deu uma leve olhada para trás. Viu seu amor parado, em pé na calçada, com o olhar fixo no meu Uber que se tornava cada vez mais distante. Encostou a cabeça no vidro da janela e, depois de alguns segundos, cerrou seusolhos languidos, meio úmidos. Como o amor entre as pessoas é algo que inebria. Fiquei enternecido por aquele clima que invadiu o carro. Duas garotas e um sentimento tão puro ao meu olhar. Como o preconceito torna certas pessoas cegas para aquilo que a vida nos oferece. Duas garotas que se amam. 

 

Passeamos na Paulista de vidros abertos. Início de madrugada, vento fresco que banhava levemente nossas caras. No cruzamento com a Peixoto, um biker curtindo sua magrela. À frente, um casal com sorrisos escancarados faz uma self, com o Trianon ao fundo. No farol seguinte, em frente ao Conjunto Nacional, uma galera trabalhava intensamente.

 

Cheguei ao destino: a mocinha, com a cara de quem um cochilo tinha tirado, disse um obrigado doce e me desejou boa noite. Retribuí por aqueles momentos tão especiais, apaixonados e particulares que vivemos naquele percurso. Ela pelo seu amor, deixado provisoriamente na Rua dos Franceses, eu, pela minha cidade. 

 

Henrique Ribas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. E ouça outros capítulos da cidade no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

“Me aceitei como negro aos 27 anos”; e nós com isso?

 

Milwaukee Bucks iniciou movimento de paralisação da NBA
Crédito: Kevin C. Cox/Getty Images/Site CBN

 

A ausência de jogadores da NBA nas quadras, na noite de quarta-feira, em Orlando, foi o gesto mais simbólico e de maior repercussão contra a violência aos negros, nos Estados Unidos, desde que policiais de Kenosha atiraram sete vezes e pelas costas no negro Jacob Blacke, no domingo, no estado do Winsconsin. O primeiro ato foi dos jogadores de basquete do Milwaukee Bucks seguidos pelos demais colegas da liga e se estendeu ao basquete feminino e ao beisebol, com a paralisação das rodadas da WMBA e da MLB.

 

A despeito de o presidente dos Estados Unidos Donald Trump ter feito comentário crítico e dito que é por isso que a NBA está perdendo audiência — o assunto ganhou espaço no noticiário esportivo, avançou pelas demais editorias dos jornais, destacou-se nas manchetes dos telejornais e de programas de rádio pelo mundo.

 

Eram 5h50 da manhã, aqui no Brasil, quando o apresentador Frederico Goulart nos provocava a refletir sobre o feito, no quadro que fazemos ao lado de Cássia Godoy, no CBN Primeiras Notícias. Ressaltei que foi a jogada mais marcante do basquete americano já vista nas quadras — esporte que quando jogado é um espetáculo por si só. E foi a forma de revelar a força antirracista que se expressa nos Estados Unidos com protestos nas ruas e manifestações nem sempre pacíficas — porque pacíficos também jamais foram os atos contra os negros.

 

Voltamos em seguida, às 6h, no Jornal da CBN com o noticiário e as reações pelo Mundo, para ainda antes das 7 da manhã, ouvirmos Juca Kfouri comentar que o esporte americano encestou o racismo:

 

 

A notícia foi destaque a cada meia hora, no Repórter CBN e tema único do bate-papo com Dan Stulbach, Zé Godoy e Luiz Gustavo Medina, no Hora de Expediente, no qual sempre preferimos ser diversos e divertidos nas notícias abordadas.  Os três haviam conversado com Roque Júnior, ex-jogador de futebol, com títulos na Europa e campeão do Mundo pelo Brasil, na sexta-feira passada — oportunidade em que ele destacou as diferenças de reações contra o racismo que se tem nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil; e justificou que o campo reflete a sociedade da qual faz parte.

 

 

Ao longo do Jornal da CBN ainda lembrei de entrevista que gravei nessa quarta-feira, com Luana Génot, do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), que vai ao ar no dia 12 de setembro, no programa Mundo Corporativo. Ela e sua organização fazem trabalho de excelência na busca da diversidade e da igualdade racial nas empresas.

 

Sem spoiler — mesmo porque o vídeo da gravação pode ser visto no Facebook e no canal da CBN no You Tube –, Luana constatou que desde o assassinato de George Floyd, em Maio, e as manifestações que se seguiram nos Estados Unidos, aumentou o número de empresários brasileiros em busca de informações do ID_BR para entender como podem se transformar em agentes desta luta contra o racismo, que restringe a entrada de negros no mercado de trabalho e reduz as chances deles ascenderem aos cargos mais altos da hierarquia corporativa.

 

 

Chama atenção que este interesse de empresas e organizações foi impulsionado por atos de violência nos Estados Unidos quando aqui no Brasil a morte de negros alcança números vergonhosos — e todos os dias. O Atlas da Violência, divulgado hoje, mostra que os assassinatos de negros aumentaram 11,5% em dez anos e de não negros caíram 12,9% no mesmo período.

 

Reprodução G1

 

Isso não acontece só com líderes empresarias; nós da mídia também somos culpados por, na maioria das vezes, somente sermos alertados para a gravidade dessa injustiça racial quando o noticiário no exterior fala mais alto —- Luana também aborda essa questão no Mundo Corporativo. 

 

Nesse ciclo de crueldade, em que não se vêem representadas nos diversos espaços da sociedade, muitas crianças negras crescem na descrença de que são capazes de mudar esta história, com dificuldade até mesmo de se reconhecerem como cidadãos e negros. Foi o que me disse um ouvinte da CBN em e-mail que fiz questão de ler na íntegra durante o Jornal e compartilho com você, caro e raro leitor deste blog. 

 

Leia até o fim, pense sobre o assunto, busque outras fontes que se expressam sobre o racismo e leve essa discussão à frente. Se uma palavra sua inspirar uma outra pessoa a seguir na mesma direção, tornaremos essa jornada menos árdua. 

 

Foi o que Vitor Del Rey fez hoje e a ele agradeço pela generosidade da mensagem e pela sinceridade em compartilhar com o público da CBN que, frente ao preconceito e racismo estrutural que vivemos, só se aceitou como negro, aos 27 anos:

 

“Mílton, bom dia!

 

Acredito ser diferente no Brasil, porque, ainda criança, os negros americanos ouvem sobre Luther King, Rosa Parks, Malcoln X e tantos outros. Aqui no Brasil, ainda criança, nós somos condicionados a odiar a nossa cor. Quando cresce, o ideal  é ser moreno, não negro..

 

Eu me aceitei como negro aos 27 anos, mesmo sendo um negro retinto, ou seja, bem escuro. Na verdade, eu sempre soube que era negro, não tinha como não saber: a polícia jogava isso bem na minha cara. A questão é que eu não tinha estímulo nenhum para amar a minha cor. 

 

Daí, conheci a EDUCAFRO, que além de me trazer a possibilidade do ensino superior me entregou algo bem maior: a oportunidade de conhecer a minha história, os heróis reais que nós temos, e a lutar por igualdade.

 

Hoje, sou formado em Ciências Sócias pela FGV, faço mestrado lá. em Administração Pública, trabalho com o ex-ministro da Educação Jose Henrique Paim e tenho um instituto: Instituto GUETTO — Gestão Urbana de Empreendedorismo, Trabalho e Tecnologia Organizada. Sou ponta de lança no combate ao racismo no Brasil e no mundo.

 

Paz!!

 

Vítor Del Rey

Presidente do GUETTO”

Avalanche Tricolor: histórias do futebol às vésperas de mais uma final

Caxias 0x2 Grêmio

Gaúcho — Centenário, Caxias/RS

 

Everton comemora seu primeiro gol, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O caro e raro leitor deste Blog talvez estranhe a história que vou contar por aqui. Nem tanto pela história, mas por ter sido protagonizada por clubes e jogadores sobre os quais não costumo falar em uma Avalanche dedicada — e merecidamente — ao Grêmio. E por história do passado que é, considere que posso cometer falhas de memória — sou muito ruim de guardar nomes e épocas.

 

Foi em um dia qualquer das minhas andanças pelos estádios de futebol do Rio Grande do Sul, quando trabalhava como repórter setorista, e um dos técnicos de plantão falava do sucesso de Paulo César Carpegiani, no Flamengo, clube que não estava com essa bola toda quando o contratou, em 1977. O jogador havia saído de um Internacional, que ganhava quase tudo naquela época — sim, isso foi muito antigamente — e onde havia formado um dos melhores meios de campos do Brasil, o que lhe rendeu convocação à seleção brasileira. Diziam em Porto Alegre que Carpegiani estava com problemas físicos, algum tempo antes havia feito cirurgia no joelho.

 

No Rio, os astros se alinharam em favor dele e do Flamengo: estava surgindo um menino chamado Zico, e Carpegiani teve ainda como companheiros Adílio, Tita e Nunes. Ele se tornou um dos lideres das campanhas vitoriosas daquele time. Sobre a suspeita de Carpegiani não dar mais conta do recado, o técnico, contador da história, disse que o pessoal do Flamengo costumava brincar : “sempre que tiver um aleijadinho como esse pode mandar pra cá”.

 

Lembrei da história quando pensava como iniciar esta Avalanche, escrita um dia depois da vitória que colocou o Grêmio em vantagem e mais próximo de outro título gaúcho. Nestes tempos modernos, você sabe: é o Grêmio quem ganha tudo (ou quase tudo). O um a zero saiu cedo, com o jeito de o Grêmio jogar e com um jogador que leva muito jeito: Pepê. Não me surpreendeu. Nosso atacante está pronto para assumir a vaga de Everton — o que saiu.

 

O dois a zero, sim. Esse demorou mais e me chamou muito a atenção. Porque foi resultado de uma bola de rebote na entrada da área, que estufou a rede após um chute tão difícil quanto fulminante de Everton — o que chegou. Trocado por Luciano, o meia-atacante deixou São Paulo sob a descrença de seu clube e chegou a Porto Alegre sob a desconfiança de alguns torcedores.

 

“Só eu sei o momento que estava passando antes de começar aqui. Acharam que estava desacreditado, mas o pessoal aqui acreditou em mim”

Everton, camisa 11

 

Everton — o que chegou — tende a ser mais um desses casos de jogadores que entram no elenco gremista tendo de ouvir críticas à boca pequena. Precisando provar a todo o instante a sua qualidade. E preparado para se transformar em destaque, ao passar pelas mãos mágicas de Renato. O mais recente deles foi Diego Souza: barrigudo, sem força, ultrapassado — foram alguns dos adjetivos que o acompanharam até se apresentar ao time do qual hoje é o goleador.

 

Para não me estender muito nos casos, termino esta Avalanche lembrando Maicon, que trocou o São Paulo pelo Grêmio, em 2015. O que mais ouvi por aqui quando a transferência ocorreu, é que estávamos levando um jogador lento, cansado e que não tinha jeito. Nosso capitão é, sem clubismo, dos jogadores que mais sabem tratar bem a bola, distribuir o jogo e comandar um time em campo, no Brasil. Ver o que é capaz de fazer com a bola nos pés é como estar diante de um globetrotter do futebol.

 

Que estes relegados estejam todos de volta ao campo, ao lado de nossos jovens e promissores talentos, no próximo domingo para comemorar mais um título na história gremista — esta, sim, uma história que eu adoro contar nesta Avalanche.