Unidade do Telex em Ponta Grossa, no Paraná. Museu Nacional dos Correios
Aos 19 anos, eu precisava arrumar um emprego para ter minha independência financeira. Eu já queria alçar voos mais altos e morar sozinho. Ao passar pelo centro da cidade, vi uma placa no prédio dos Correios: “Precisa-se de funcionário para fonegramia, mesmo sem experiência”
Criei coragem. Falei com a recepcionista sobre a vaga e logo ela me levou ao primeiro andar do prédio. Era uma sala gigantesca com vários terminais e muitas pessoas. Um barulho infernal de telex.
O funcionário que me atendeu perguntou se eu pretendia fazer um teste e se falava outros idiomas, além do português. Disse que falava inglês e italiano fluentemente e estava disposto a fazer o teste. Ele me levou para um terminal e começou a ditar um texto em português. Eu precisava traduzi-lo para o inglês e o italiano. Estava bem nervoso, mas respirei fundo e cumpri a árdua tarefa. Encerrado o teste, esperei meia hora até o funcionário retornar e dizer que eu estava contratado.
O serviço era atender os telefonemas de clientes que queriam enviar um telegrama fonado. Naquela época só nos Correios existiam telex. Era a única forma de mandar telegramas para dentro e fora do país. Passei uma semana em treinamento com outras pessoas que também foram aprovadas no teste. Fiz muitas amizades e sem sem perceber o tempo passar, ganhei meu terminal para começar a atender os telefonemas.
Foi muito bom aprender a mexer com telex. A máquina imprimia fitas amarelas perfuradas que depois iam para central de transmissão. Foi uma primeira experiência de trabalho fascinante, levando em conta que o “telegrama fonado” era o meio de comunicação mais moderno da época — uma profissão que acabou com a chegada do fax.
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Giuseppe Nardelli é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 272 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Em 2026, marcas serão cobradas não apenas por presença, mas por relevância, eficácia e vínculo real com as pessoas. Esse foi o tema do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, apresentado no Jornal da CBN, ao abrir o ano com uma leitura atenta das tendências que devem orientar decisões em marketing e branding.
A inteligência artificial deixou de ser promessa e passou a interferir diretamente no consumo. Segundo dados citados no programa, cerca de 25% dos consumidores já recorrem a ferramentas de IA para escolher produtos. Cecília Russo chamou atenção para o novo papel dos gestores de marca nesse ambiente: “As marcas precisarão estar presentes nos modelos de inteligência artificial, porque hoje a IA dirige muitas vezes o próprio consumo”. Isso muda a lógica conhecida de busca e exige adaptação às recomendações geradas por essas plataformas.
Ao mesmo tempo, o avanço tecnológico não elimina o fator humano. Cecília reforçou que personalização e reconhecimento ganham ainda mais peso. “As pessoas querem ser lembradas, bem tratadas, vistas como únicas”, afirmou, ao destacar a valorização de ações dirigidas, ofertas customizadas e relações menos automatizadas.
Outro ponto levantado foi a necessidade de pertinência. Estar em todos os lugares deixou de ser sinônimo de acerto. Marcas que não identificam seu nicho, sua comunidade e o espaço onde fazem sentido correm o risco de falar sem ser ouvidas.
Jaime Troiano destacou que 2026 também será um ano de cobrança por resultados. “Será o ano de prestar contas, de mostrar a eficácia por trás de todos esses conteúdos gerados, quem gera valor e quem faz apenas espuma”, disse, ao tratar da produção de conteúdo e da necessidade de métricas claras.
Num calendário marcado por Copa do Mundo, eleições e muitos eventos, captar atenção exigirá mais do que criatividade isolada. Jaime resumiu o desafio como um “olhar duplo”: ideias consistentes, conectadas ao que a marca representa para as pessoas.
Ele também alertou para a construção de marcas dentro dos marketplaces, onde o produto muitas vezes se sobrepõe à identidade. “Noiva não se escolhe no altar”, lembrou, ao defender que o vínculo com a marca precisa ser criado antes da decisão de compra, mesmo quando a venda acontece em grandes plataformas.
A marca do Sua Marca
Menos espuma e mais substância. Em 2026, marcas serão chamadas a provar valor, combinar tecnologia com sensibilidade e trocar presença dispersa por relações com significado.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
Avenida 0x4 Grêmio Gaúcho – Estádio dos Eucaliptos, Santa Cruz do Sul (RS)
Roger comemora o terceiro gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Aproveitei o primeiro fim de semana “útil” do ano para visitar amigos no interior de São Paulo. Não nos víamos havia alguns meses. No Natal, eles estavam fora do país, enquanto eu cumpria plantão. No Ano Novo, fui à minha cidade natal, justo quando retornavam ao Brasil. E durante o ano… bem, você sabe como a vida corre, atropela e afasta.
Ao longo do tempo, trocamos mensagens esporádicas. Reencontros, porém, servem para outra coisa: saber das novidades e recontar histórias antigas. Muitas já conhecidas. Mesmo assim, irresistíveis. Falamos também do que acreditamos que pode acontecer em 2026 — projetos de vida, viagens, possibilidades. E lamentamos a insanidade daqueles que insistem em atrasar nossas vidas.
Voltar é reencontrar. Não foi o poeta quem disse. Foi uma frase que me veio à cabeça quando estive em Porto Alegre. Em pastas antigas, usadas como guarda-arquivo, encontrei dezenas de papéis datilografados. Eram crônicas escritas por meu pai, Milton Ferretti Jung, lidas nos primeiros programas de rádio que apresentou, ainda na Rádio Canoas. Assinava como diretor de jornalismo — ao que sei, diretor dele mesmo. Havia poucos profissionais na emissora e menos ainda no departamento.
Entre os papéis guardados por meu irmão, dentro de um baú, descobri também uma coleção de cartas trocadas entre meu pai e o vô Romualdo, quando ele estudava em um internato, na cidade de Farroupilha. Chamou atenção a formalidade da escrita do meu avô. Mais ainda: referências ao futebol. Não me lembro de tê-lo ouvido falar de esporte com os netos, tampouco com meu pai. Ainda assim, lá estava o registro de uma partida do Grêmio a que assistiu no estádio — o que, pela época, deve ter sido no saudoso Fortim da Baixada, no Moinhos de Vento.
Caro e cada vez mais raro leitor, jamais imaginei que esta Avalanche, escrita desde janeiro de 2008, pudesse ser resultado de uma paixão e de um hábito passados de pai para filho desde os anos 1950.
Mas eu falava de reencontros. E, no sábado à noite, havia mais um marcado.
O Grêmio voltava aos gramados pouco tempo depois da despedida de dezembro. Reencontrá-lo, agora sob nova direção, foi uma surpresa agradável. Mesmo levando em conta o curto período de treinos e a fragilidade do adversário, a goleada na estreia fez bem. Aliás, placar semelhante ao da partida que encerrou o ano passado.
Assim como na conversa com os amigos, o Grêmio também apresentou novidades e reacendeu esperanças para 2026.
A presença de Roger e Tiaguinho, ambos com 17 anos, foi a principal delas. Os dois participaram de gols, mostraram personalidade forte, e Roger ainda fechou sua atuação com o terceiro gol. Mais do que o desempenho, o gesto de Luís Castro ao escalá-los como titulares alimenta uma expectativa antiga: investir, de fato, nos talentos da base. Confesso que já não suporto ver nossos protótipos de craques serem vendidos antes mesmo de estrearem no profissional.
É cedo para qualquer projeção. Uma partida não define uma temporada. Ainda assim, reencontrar o Grêmio com uma goleada e algumas boas notícias é muito melhor do que começar o ano apenas relembrando velhas glórias do passado — como aquelas que meu avô contava ao meu pai, nas cartas encardidas que pretendo ler com calma nos próximos dias.
Talvez a Avalanche nunca tenha sido só futebol. Talvez sempre tenha sido, antes de tudo, uma forma de reencontro. Com a família, com os amigos, com você, caro e cada vez mais raro leitor.
São Paulo era minha musa de concreto: poesias, contos e letras de música, enchiam as páginas dos meus cadernos. O amor pela metrópole estava em cada palavra, mesmo quando a abordagem tinha conteúdo crítico.
Na década de 1990 haviam os mesmos problemas de hoje — trânsito intenso, poluição, … — mas sendo paulistana apaixonada, sempre relevei os defeitos da cidade que aprendi a amar desde pequena, ouvindo minha mãe dizer: “Saí do interior da Bahia para nunca mais voltar. Adoro esta cidade que me deu trabalho, casa e estabilidade”
Ao compor a letra de um chorinho, eu necessitava de alguém para musicá-la. Na época pré-virtual, a opção foi colocar anúncio em um jornal. Um compositor entrou em contato comigo e marcamos um encontro na região da Praça Roosevelt. Ele e seu violão levaram poucos minutos para transformar a letra em um belo chorinho. Mas nada ficou registrado ou gravado. O tempo passou, acabamos perdendo o contato e o choro se transformou em lembrança. A letra foi publicada em impressos variados e, hoje, compartilhada com os ouvintes da CBN:
Cinza Agonia
Corta min’alma lhe ver
deixar a calma se perder
por entre carros apressados,
prédios frios,
corações dilacerados.
Ardem meus olhos em seu centro,
talvez pela fumaça ou tormento
que dão vontade de chorar
e bem alto gritar
pois estão lhe transformando
dia a dia,
pintando o seu corpo de cinza agonia
e progredir até parece algo sem valia
Se por isso perde-se a poesia.
Corta minh’alma lhe ver…
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Anita Costa Prado é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Acordei nesta manhã um pouco mais jovem. E não foi a sequência de exercícios, com musculação e bicicleta, a que tenho me dedicado nos últimos anos, que me concedeu esse prêmio. Nem a alimentação, que ainda precisa de um controle maior — desde que a Dra. Márcia não se atreva a mexer na minha taça de vinho. A juventude fora de hora me foi oferecida em formato de notícia.
Quando o dia está amanhecendo e estou à mesa de café da manhã, a Letícia Valente, produtora do Jornal da CBN, me envia pelo WhatsApp sugestões de assuntos para o bate-papo que faço na passagem do programa Primeiras Notícias para o Jornal da CBN. Uma das mensagens que chegaram hoje, publicada em O Globo, se destacava pela manchete: “Quando começa a velhice? Estudo indica marco biológico aos 78 anos”.
Sério? Faz uns dois anos que dizem que sou velho porque passei a marca dos 60. Agora vem essa novidade: velho mesmo só aos 78.
A reportagem fala de um estudo da Universidade de Stanford sobre o desenvolvimento biológico do envelhecimento. A conclusão dos pesquisadores veio da observação de mudanças bruscas nas proteínas plasmáticas, moléculas que circulam no sangue e indicam o estado geral de saúde do organismo. Essas proteínas são como ajudantes de bastidor: mantêm o equilíbrio de líquidos, carregam nutrientes, defendem o corpo de infecções. Quando mudam de comportamento — aos 34, 60 e 78 anos — sinalizam que o corpo virou a página e entrou em outra fase.
Se, do ponto de vista biológico, eu ainda não sou velho, do ponto de vista burocrático o sistema já me carimbou faz tempo. Ser 60+ nos oferece algumas vantagens: prioridade no recebimento da restituição do Imposto de Renda, gratuidade no transporte coletivo, meia-entrada em espetáculos, vaga privilegiada no estacionamento e fila preferencial nos serviços de atendimento (e no embarque do avião, também). Quem não gosta? Por outro lado, com o aumento dessa população — já somos milhões de pessoas acima dos 60 — tudo isso gera mais custos para quem concede essas vantagens.
Já assistimos a movimentos para que os direitos concedidos a idosos sejam limitados a pessoas um pouco mais velhas, tipo 65+. O estudo talvez possa ser usado para radicalizar ainda mais e convencer legisladores a adiar os benefícios apenas para aqueles que tiverem atingido os 78 anos.
A depender de mim, sem problema. Posso abrir mão de furar fila no embarque e no caixa — desde que os planos de saúde também abram mão de tratar quem tem 60 como se estivesse à beira do fim. Se biologicamente a velhice começa aos 78, a tabela de preços bem que podia acompanhar.
A lista de “Empregos em Alta” do LinkedIn para 2026 confirma algo que já percebíamos nas conversas com executivos e gestores: nenhuma carreira avança sozinha. Tecnologia, finanças, saúde e relações humanas dividem o mesmo palco e a comunicação atravessa todas elas.
As funções ligadas à Inteligência Artificial ocupam o topo da lista. Engenheiros, cientistas de dados e especialistas em modelos generativos passaram de promessa a necessidade diária das empresas. No outro extremo, profissões tradicionais seguem firmes: planejamento financeiro, enfermagem, engenharia de processos e segurança industrial continuam essenciais. A economia muda, mas não abandona suas bases.
Outro destaque é o crescimento dos cargos voltados ao relacionamento. Especialistas em contas e gestores de relações corporativas viraram peças-chave. São eles que evitam ruídos, alinham expectativas e protegem reputações em ambientes mais sensíveis.
Essas três frentes — tecnologia, finanças/saúde e relações humanas — revelam o mesmo padrão: as empresas precisam de profissionais capazes de transformar complexidade em clareza.
E é aqui que a comunicação volta ao centro da conversa.
O engenheiro de IA precisa explicar riscos e limites dos modelos que cria. O planejador financeiro deve traduzir jargões em orientações compreensíveis. O técnico de enfermagem lida diariamente com situações que exigem escuta atenta e empatia. O gestor de relações corporativas sabe que uma frase mal colocada abre conflitos desnecessários.
Comunicação é habilidade transversal. Defendo isso há anos nas palestras e nos livros que escrevo. Essa lista só reforça a tese. Não importa se você programa máquinas, trata pacientes, conduz investimentos ou negocia contratos: todos estamos sendo convocados a falar melhor, ouvir melhor e traduzir melhor.
O profissional de 2026 precisará unir técnica e clareza; análise e empatia; dados e narrativas. Vence quem conecta. Vence quem simplifica. Vence quem entende que comunicar não é só transmitir informações, mas criar sentido em meio ao barulho constante que nos atravessa.
Comunicar bem é estratégico para crescer na carreira, liderar equipes, tomar decisões inteligentes e navegar num ambiente em que a tecnologia corre à frente e nós tentamos acompanhá-la sem perder o rumo.
Há quem repita, quase como um refrão automático: “Deus está vendo tudo.” Mas se Deus fosse apenas um observador que assiste ao desfile interminável de injustiças, violências e misérias humanas, então Sua contemplação seria tão cruel quanto estéril.
Um Deus que apenas vê seria um Deus diminuído, reduzido a ídolo: um olhar distante pairando sobre um mundo em ruínas. Uma divindade assim não seria mais que um mito — um eco vazio projetado sobre o infinito.
Mas o Deus que faz sentido não é o Deus voyeur da dor alheia. É o Deus vulnerável, o Deus afetado, o Deus que sofre.
Se o prazer de Deus está na reciprocidade — na chama que se acende quando seres humanos se reconhecem, se ajudam, se amam — então a ruptura dessa ordem amorosa fere o próprio coração divino. O antagonismo do prazer é o sofrimento; onde o amor se rompe, Deus se dilacera.
Dizer que Deus “vê tudo” empobrece o drama divino-humanal. Deus não contempla de longe: Ele participa. Não paira em neutralidade: Ele se compromete. Não observa as dores do mundo: Ele as incorpora.
Se a marca dos discípulos está no mandamento do amor — amai-vos uns aos outros — então cada vez que odiamos, negamos, ferimos ou abandonamos, não é apenas o outro que sofre: é Deus que sangra através dele. O sofrimento humano não acontece à revelia do sagrado; acontece dentro de Deus.
Por isso, não é adequado imaginar um Deus que tudo vê. Esse Deus seria estático, impermeável, imóvel.
O Deus vivo, porém — o Deus que vale a pena ser chamado Deus — é aquele que, ao ver, geme; ao testemunhar a injustiça, se contorce; ao encontrar violência, se rasga; ao perceber a fratura entre irmãos, agoniza.
Assim, Deus não está simplesmente vendo tudo. Deus está sofrendo tudo. E talvez aí resida a maior dignidade de Sua divindade: Ele não se exime do peso do mundo; Ele o carrega consigo.
Um Deus que sofre não é um Deus derrotado — é um Deus que ama até o limite da dor.
Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.
Ataque dos EUA contra a Venezuela — Foto: STR / AFP
As luzes da árvore de Natal ainda piscavam quando as explosões iluminaram o céu da Venezuela. O brilho artificial da guerra ofuscou, mais uma vez, o olhar de esperança que a humanidade insiste em exercitar neste período de festas. Dias antes, fogos de artifício tinham marcado o que imaginávamos ser a passagem do velho para o novo ano — aquele instante em que nos convencemos de que somos capazes de fazer melhor, rever atitudes, nos reinventar se necessário. Ilusão. Pura ilusão. Foi o que revelou a ordem do presidente Donald Trump para atacar alvos venezuelanos.
A ação americana, que resultou na morte de dezenas de pessoas e na prisão de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, nos empurra para um tempo que julgávamos superado. Um tempo anterior às grandes guerras do século XX. Um mundo em que Estados fortes usavam a força militar como instrumento rotineiro de política externa, sem freios jurídicos ou diplomáticos. Um século XIX reciclado, agora embalado por discursos contemporâneos.
Convém registrar desde já: nada disso transforma Nicolás Maduro em vítima histórica. Seu governo é expressão do mesmo atraso que este texto denuncia. Uma ditadura que sufocou instituições, perseguiu opositores, produziu êxodo, pobreza e violência. Ao impor ao próprio povo um regime anacrônico e sanguinário, Maduro também desrespeitou valores que o mundo diz defender desde o pós-guerra. Criticar a violação da soberania venezuelana não significa ignorar, muito menos minimizar, a tragédia política e humanitária construída dentro do país ao longo de anos. O atraso, neste caso, opera em duas direções.
Depois de 1918, e sobretudo após 1945, o planeta tentou impor limites à barbárie. Criou regras, tratados, organismos multilaterais. Não para abolir conflitos — ilusão maior ainda —, mas para contê-los. Para reduzir danos. Para lembrar que soberania nacional não é detalhe negociável. Quando um país decide agir sozinho, à margem dessas regras, não está apenas violando o direito internacional. Está ensinando o mundo a ignorá-lo.
Em entrevista ao Jornal da CBN, a ex-juíza do Tribunal Penal Internacional Sylvia Steiner ofereceu a imagem mais precisa desse momento histórico. Disse que o direito internacional não está falido, mas constantemente abalado. Um paciente em estado grave, que ainda respira. A metáfora é poderosa porque desloca o debate: o problema não é a inexistência das normas, mas a reincidência de quem insiste em testá-las.
O caso venezuelano expõe também a fragilidade do Conselho de Segurança da ONU. Criado para preservar a paz, tornou-se refém de uma composição congelada no pós-guerra. Cinco países com poder de veto. Pouca renovação. Menos ainda capacidade de reação quando um desses atores decide romper as regras. A própria Steiner admite ter poucas esperanças de que dali surja alguma sanção efetiva. A lei existe, mas tropeça no desequilíbrio de poder.
O alerta do secretário-geral da ONU, António Guterres, de que a operação americana cria um “precedente perigoso”, soa quase como nota de rodapé em meio ao barulho das bombas. Precedentes são perigosos porque ensinam. Hoje é a Venezuela. Amanhã, outro país. O método é antigo; só mudam os alvos.
Enquanto lia a cobertura sobre a prisão de Maduro e as reações internacionais, meus olhos cruzaram outra manchete no The New York Times (leitura disponível apenas para assinantes). À primeira vista, distante da guerra. Na essência, parte do mesmo enredo. Nos Estados Unidos, o secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr. decidiu reduzir drasticamente o número de vacinas recomendadas para crianças. De 17 para 11. Uma guinada que ignora décadas de evidências científicas e o processo técnico conduzido por especialistas do Centers for Disease Control and Prevention.
Vacinas são uma das maiores conquistas civilizatórias da humanidade. Salvam vidas silenciosamente. Não produzem imagens espetaculares. Talvez por isso sejam alvos fáceis do negacionismo político. Quando a ciência preventiva passa a ser tratada como opinião, e não como evidência, o retrocesso deixa de ser abstrato. Ele ganha corpo. E rosto. Muitas vezes, infantil.
O elo entre essas duas notícias — guerra e vacina — é mais forte do que parece. Em ambos os casos, instituições incomodam. No direito internacional, porque impõem limites à força. Na saúde pública, porque exigem rigor, método e responsabilidade coletiva. Quando a política atropela essas instâncias, o que se perde não é apenas eficácia. É civilidade.
Wálter Fanganiello Maierovitch, em O Mercado da Morte, lembra que a primeira vítima da guerra é o próprio direito internacional. Talvez possamos ampliar a frase: a primeira vítima do poder sem freios é sempre o conhecimento acumulado. Seja jurídico, seja científico.
Mudamos o ano no calendário. Mas seguimos resolvendo conflitos com ferramentas gastas. Questionamos vacinas. Relativizamos soberanias. Desconfiamos das regras que nós mesmos criamos para nos proteger de nós mesmos. A essa altura, talvez o brinde mais honesto não seja ao novo, mas ao passado que insiste em governar o presente.
Seguimos celebrando a virada com práticas antigas. O ano muda. O mundo, nem tanto.
Feliz ano velho — expressão emprestada, com respeito, para descrever um tempo que se recusa a amadurecer.
Apresentação importante no trabalho, festa de aniversário de um conhecido, evento social de um parceiro profissional, jantar com um amigo e amigos do amigo… A gente se pergunta: “Com que roupa eu vou?”
Existe normalmente uma preocupação, um cuidado com nossa aparência em situações sociais. Ideias como: “O que esse momento pede: vou mais formal ou mais casual? Como será que os outros estarão vestidos? Quero me destacar… ou passar despercebida?” pipocam na nossa mente, por esse desejo de agradar, de não errar, de ser aceita e bem-vista.
E como é desafiador, não? Ambientes diferentes, pessoas desconhecidas, expectativas não muito claras — são inúmeros os gatilhos que geram ansiedade e insegurança. A mente funciona “a mil”, querendo rastrear todos os riscos e todas as necessidades em poucos minutos e montar a estratégia perfeita! Pensamos juntos o quanto isso é exaustivo?
Muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo e pessoas diferentes para agradar… Combinação desastrosa, fadada a nos levar à frustração e à exaustão. Como gerenciar tantas demandas sendo uma pessoa só, para “dar conta” de tudo isso?
Vem aqui o convite: e se formos, de verdade, “uma pessoa só” ?!
Explico — e se escolhermos parar, perceber nossas características, definir nosso estilo (de vestir, agir, reagir, conduzir as relações e a vida) e, então, sair pelos eventos e pelo mundo sendo a pessoa que somos?
A tal autenticidade, tão famosa e pseudo-estimulada, é essa coragem de bancar quem somos e sustentar esse padrão único nas diversas situações. É definir como nos apresentar aos outros a partir do que temos dentro de nós, com a tranquilidade de estarmos sendo nossa melhor essência (nada perfeita, porém verdadeiramente nossa).
Cheiro de liberdade no ar. Redução das múltiplas dúvidas e inseguranças.
“Com que roupa eu vou?” — vou vestida de mim.
A Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.
Aprendemos cedo a estabelecer a vida em marcos: datas, prazos, ciclos.
Nomeamos os anos, os separamos em fases, criamos retrospectivas, numa tentativa de fazer a vida caber num calendário ou, quem sabe, de fazer o tempo, sempre escasso, caber na vida.
Na ilusão de controle, agimos como se viver pudesse ser mensurado, ordenado e arquivado.
Mas esquecemos de um detalhe essencial: a vida não acontece em estruturas pré-definidas. Ela se espalha.
Permeia os dias comuns, os encontros inesperados, as perdas silenciosas e os recomeços que nem sempre anunciamos.
A vida nos atravessa. Nem sempre de maneira clara, nem sempre passível de nomeação.
Ela permanece no que aprendemos sem perceber, no que nos alcança e, aos poucos, transforma o modo como olhamos o mundo e a nós mesmos.
Fica no que não coube na agenda, nem no planejamento, nem na lista do que precisava ser feito.
Ainda assim, insistimos em organizar a experiência para que ela exista. Como se sentir dependesse de registro, passamos a armazenar a vida.
Guardamos fotos, vídeos, textos, conversas. Salvamos memórias em dispositivos cada vez mais potentes. Por vezes dizemos: aí está a minha vida inteira!
Está aí mesmo?
E do lado de fora?
Como se viver precisasse ser comprovado para existir.
Há algo de curioso nisso: quanto mais tentamos armazenar, menos permanece.
Porque aquilo que fica não se captura num clique.
O que fica é aquilo que foi vivido com inteireza. Aquilo que atravessou o corpo, provocou emoção, alegria e dor, dúvida, silêncio e mudança.
É sobre viver a vida com presença. É sobre encontrar um modo de ficar.
Não na nuvem, nem nos arquivos eletrônicos, mas naquilo que nos transforma por dentro, de maneira profunda e humana.
Talvez o encerramento de um ano, e o início de outro, seja menos sobre revisar o que foi feito e mais sobre reconhecer o que ficou em nós.
Mesmo sem nome.
Mesmo sem foto.
Mesmo sem legenda.
Porque aquilo que se vive com sentido não se perde no tempo.
Não depende de agenda.
Não depende de registro.
Fica.
Feliz Ano Novo!
Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das fundadoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.