Avalanche Tricolor: vamos com fé!

 

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Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Imagem do Santuário, em São Leopoldo no RS

 

A quinta-feira iniciou-se com o sino da Igreja, aqui ao lado, tocando mais forte e fora do horário normal. Anuncia, já sob o forte sol desta primavera, que os católicos vivemos data especial, pois, neste 12 de outubro, comemoram-se três séculos desde o surgimento da imagem da santa negra nas águas do Rio Paraíba. Aquela que ficou conhecida por Nossa Senhora Aparecida. Soube pelas notícias do rádio (é, caro e raro leitor desta Avalanche, ainda ligo o meu radinho logo cedo, mesmo quando estou de folga), que milhares de romeiros já se aglomeram na Basílica, em Aparecida, interior de São Paulo. Outros tantos viajantes estão parados em congestionamentos nas rodovias – uma parte a caminho da Santa e o restante doidos para aproveitar o santo feriado.

 

Curiosamente e com todo o respeito, se acordei com Nossa Senhora em mente, fui dormir com a imagem de outro santo … perdão, porque ao pé da letra ele ainda não pode ser considerado santo, pois está a espera do longo processo de beatificação que se desenrola lá no Vaticano. Apesar dos trâmites terem se iniciado em 1953 é possível que ainda tenhamos pela frente muita tarefa burocrática e minuciosa até a beatificação do Padre Reus. Paciência!

 

Sim, foi Padre Reus quem apareceu na minha mente, ontem, quase meia-noite, quando já havia se encerrado a partida do Grêmio por mais uma rodada deste, também, interminável, Campeonato Brasileiro. Aproveitando-me do fato de o feriado de Nossa Senhora ser motivo de folga para mim no dia seguinte, fiquei sentado no sofá até mais tarde e pensando sobre o que havíamos acabado de assistir em campo.

 

A primeira impressão era de angústia por causas mal resolvidas como aquele toque de bola incapaz de entrar na defesa adversária e abrir espaço para nossos atacantes terem alguma chance verdadeira de gol. Houve apreensão, também, após ver o nosso melhor jogador na atualidade – e me refiro aos que estão disponíveis para jogar – dividir uma bola no meio de campo e cair no gramado contorcendo-se de dor. Substituído em seguida, Arthur saiu manquitolando e deixou dúvida na cabeça do torcedor: aquele dedão dolorido seria suficiente para afastá-lo do jogo que realmente nos interessa? Que os Deuses do Futebol o mantenha firme e forte para a decisão.

 

No turbilhão de emoções e sentimentos que um jogo de futebol – especialmente quando somos derrotados – provoca, houve um momento da minha reflexão em que surgiu um alívio. Afinal, aquele resultado ruim talvez eliminasse de vez quaisquer resquícios de sonho e possibilidades de ficarmos com o título do Brasileiro. Ou seja, acabaria pressão e passaríamos a encarar cada uma dessas partidas restantes como treinos de luxo para algo realmente importante.

 

Nosso histórico recente não tem sido animador. Os gols escassearam, nos distanciamos das vitórias, perdemos posição, jogadores cruciais seguem com problemas físicos, Douglas que seria uma esperança não volta este ano, Pedro Rocha não volta nunca mais e Luan, o insubstituível, está sendo preservado: terá ritmo de jogo para a decisão?

 

Ei, calma lá: sobre quais resultados estou falando?

 

Porque naquilo que nós gostamos, vai tudo bem obrigado! Aliás, só nós vamos bem, aqui no Brasil, como único representante do País na semifinal da Libertadores. Mas quem somos nós? Aquele time que luta como ninguém, encanta até mesmo o adversário e está a quatro jogos do título sul-americano? Ou somos o time que caiu para quarto lugar no Brasileiro, sem inspiração, sem brilho e sem desejo?

 

Tenho fé em Renato e creio que ele e sua comissão estejam cuidando de cada detalhe. Ao fim da partida, não escondeu que muitos jogadores entraram para jogar o Brasileiro mas não param de pensar na Libertadores. E sem foco no que se faz, é claro que o resultado não aparece.

 

Sim, tenho fé em Renato, mas lembrei-me mesmo foi de Padre Reus. Ess padre que chegou da Baviera e se estabeleceu em São Leopoldo. Lá fez suas obras e descreveu suas visões. Passou a ser considerado milagreiro por fiéis e hoje tem seus restos mortais enterrados no Santuário Sagrado Coração de Jesus, principal ponto turístico da cidade gaúcha. Estive lá ao lado do meu pai na última vez em que fui ao Rio Grande do Sul. Ele é devoto de Reus e mantém em sua mão uma imagem do Padre sempre que assiste aos jogos do Grêmio. Quando somos atacados, aperta mais forte como se querendo lembrar ao nosso santo que está na hora dele intervir. Sempre que o gol sai, agradece com um beijo na imagem.

 

Já falei ao caro e raro leitor desta Avalanche que costumo não misturar religião e futebol. Cada coisa com sua crença, ou melhor, cada crença com sua coisa. Mas diante da proximidade da semifinal na Libertadores e dos tropeços recentes no Brasileiro, foi a lembrança do Padre Reus quem apaziguou minha mente na noite passada. Independentemente do futebol e jogadores recuperados, sei que a imagem dele estará acompanhando o pai no dia 25 de outubro.

 

Vamos com fé, pai!

Conte Sua História de SP: o meu milagre de Nossa Senhora Aparecida

 

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Por Rubens Salles dos Santos
Ouvinte da rádio CBN

 

Foram quatro dias debaixo de sol, três noites dormindo no mato, mais de 200 quilômetros de intensa caminhada e um chinelo de dedo que não teria sola para nem mais um passo. Estávamos nos primeiros dias de 1971. Enquanto as pessoas ainda tinham esperança em cumprir as promessas de reveillon, eu pensava em pagar uma que eu havia feito três anos antes. E não era uma promessa qualquer, era uma promessa a Nossa Senhora Aparecida. Se eu conseguia andar àquela altura, devia tudo à intercessão dela.

 

Imagine um encanador que tinha certeza de que nasceu para ser jogador de futebol. Era eu. Naquela época, eu morava com minha família no Bixiga, bem no Centrão de São Paulo. Já estava mais enturmado com a italianada que os próprios descendentes que moravam ali. Quem me conhecia nem fazia ideia que, na verdade, eu era filho de português.

 

Fim de semana era um evento a parte. A gente juntava a turma da Bela Vista pra jogar bola, naquele famoso “casado contra solteiro”, em que todo mundo se achava craque. Foi em uma dessas peladas que marquei o gol mais bonito da minha carreira de encanador metido a boleiro. Uma matada no peito na entrada da área, numa virada rápida, num “sem pulo”. O “sem pulo” fez a festa de quem assistia, mas foi o terror para o meu joelho. Caí naquele terrão já sentindo que boa coisa não era. O joelho inchou, a dor surgiu e o hospital era inevitável. Aquele lance, que de habilidoso não tinha nada, estourou meu menisco. Veio remédio e repouso, conseguia andar de novo, mas com dificuldade. A dor não passava.

 

O médico foi categórico: tinha que operar. Eu pensava na cirurgia e já imaginava o médico mexendo na minha perna como eu serrando cano, soldando calha e rosqueando registro. Não bateu medo nem temor, bateu paúra mesmo. Marcou o dia, fui pro hospital e, na hora de internar, resolvi recorrer àquela em quem eu sempre tive fé – desde menino. Juntei as mãos, olhei pro céu e pedi pra Nossa Senhora Aparecida me ajudar a melhorar do joelho, me livrar daquela cirurgia, que se eu curasse iria a pé até (a então) Aparecida do Norte.

 

 

Eu era devoto desde menino. Mas também, desde menino, era teimoso e levado. Saí fugido do hospital, sem o médico me ver, contrariando todas as ordens. Não mais que de repente, a dor passou. Voltei a minha vida normal, subindo em forro, me pendurando em prédios e entrando em esgoto. Nada de dor no joelho. Foi milagre da Mãe.

 

Levei três anos para tomar coragem e cumprir a promessa. Mas, como bom filho de português, pra mim promessa sempre foi dívida. Devo, não nego. Pago quando puder. E eu não tinha desculpas pra não cumprir. Era janeiro de 1971 quando virei pra Josefina, minha mulher, e disse que iria pra Aparecida do Norte. Na ocasião, meu filho Roberto tinha 6 anos e minha filha Sueli só 3 anos. Minha mulher ficou ressabiada, mas sabia que eu ia de qualquer jeito pra lá.

 

Logo a Bela Vista inteira ficou sabendo. Foi quando meu pai, que tinha uma venda no bairro, me falou que o José, que vendia batata na feira do Bixiga  todo fim de semana, também tinha feito promessa. Eu só conhecia ele de vista, nunca tinha conversado. Bati na porta dele, contei minha história e falei: parto no dia 23 de janeiro, do marco zero de São Paulo, da Praça da Sé. Voltei pra casa com a palavra dele de que iria, mas só saberia mesmo no dia. Se ele aparecesse, teria companhia. Se não, eu iria sozinho enfrentar os mais de 200 km.

 

Chegou o dia. Ainda era madrugada e eu já estava de pé. Cheguei cedinho na Praça da Sé, só tinha eu e os pombos. Começou a espera angustiante. Será que o José vai aparecer? Será que vou ter de ir sozinho? Vai que me acontece alguma coisa no caminho. Vai que eu me perco. Vai que… Não, Nossa Senhora está comigo. A fé tinha que ser mais importante que tudo. E foi. Não só pra mim como pro José, que pra minha completa surpresa apareceu. Não perdemos tempo, começamos a caminhada.

 

Fomos totalmente sem preparo, afinal, decidimos de uma hora pra outra. Levamos só uma mochila com dinheiro, água pro dia, um chinelo e toalha. Assim que chegamos na Dutra, percebi que minha sandália não ia aguentar. Não ia demorar pra aparecer bolha no meu pé. E a viagem mal tinha começado. Peguei o chinelo de dedo na mochila e calcei. Não tirei mais. O verão de 1971 castigou a gente. O asfalto parecia um mar de fogo. O sol pelo interior de São Paulo era coisa de louco.

 

Bom, não demorou pra gente achar que aquilo tudo era coisa de louco mesmo. Naquela época, mal tinha acostamento e pra achar posto de gasolina tinha que rodar muitos quilômetros.A água logo acabou e o dinheiro não servia, porque nem tinha onde comprar nada. O jeito foi começar a parar nos casebres que encontrávamos na beira da estrada pra pedir de beber. E foi assim que a gente seguiu. Fazendo as moitas de banheiro, a sombra das árvores de cama, os postos de gasolina de refeitório e as fazendas no caminho de ponto de água.

 

Mal passou o primeiro dia e percebemos que tínhamos de adotar uma estratégia. Do contrário, não chegaríamos nem à metade. Passamos a caminhar de noite e cochilar ao meio-dia, na sombra. E não dava pra parar muito tempo. Era reduzir o passo e as dores vinham. Doía canela, coxa, costas, pescoço, tudo. E o cansado se mesclava com o medo dos carros e dos caminhões. De noite, qualquer sombra que se aproximava era motivo de susto. O temor foi tomando conta da gente, a promessa parecia um fardo pesado demais, muito maior do que podíamos carregar.

 

Quando alcançamos a placa que indicava a metade do caminho, bateu um desespero. José era mais novo que eu, mas já estava esgotado. Dava pra ver nos olhos dele. Ele virou pra mim e disse: “segue com Deus, meu amigo, vai você porque eu não aguento mais”. Naquele momento, confesso que quase sucumbi à tentação de desistir. Foi quando novamente juntei as mãos, olhei para os céus e pensei firme em Nossa Senhora Aparecida. Era isso que nos faltava, a confiança de que a Mãe estava conosco. Não deixei ele parar, peguei pelo braço, puxei e assim seguimos. Na manhã do quarto dia, já avistávamos aquela cidadezinha pequena, mas tão abençoada.

 

Essa basílica que vemos hoje, gigante, ainda não existia. O que havia era a Igreja antiga, que guardava a imagem de barro encontrada no Rio Paraíba do Sul. Quando nos deparamos com a imagem da Mãe… Bom, nem consigo descrever. Foi, sem duvida, o momento mais emocionante em toda a minha vida. Agradecemos, rezamos, assistimos a uma missa e era hora de pegar o ônibus pra voltar.

 

Não tinha celular, não tinha internet, no máximo um orelhão que se achava de vez em nunca. Foram quatro dias sem dar qualquer notícia pra família. Quando cheguei de volta no Bixiga, nem ‘bom dia’ recebi. Afinal, ninguém me reconhecia. Justo eu, que andava pela Treze de Maio e encontrava um conhecido a cada passo. Parecia que tínhamos ficado anos longe. Imagine um cara barbudo, com as roupas sujas e rasgadas, uma sandália destruída, os pés em carne viva, com cara de esgotado. Minha mulher, a Josefina, não sabia se festejava ou se chorava quando me viu. Nem sei quantas horas dormi depois. Nem do José, que depois perdi contato e nunca mais tive notícia.

 

Os anos passaram, os filhos cresceram, saí da Bela Vista, os netos vieram, reduzi o futebol – não na arquibancada, mas no campo – e até parei de beber. Em cada vitória minha, da minha mulher, dos meus filhos e dos meus netos, uma certeza: Nossa Senhora Aparecida está conosco. Hoje, está até tatuada no meu peito.

 

Rubens Salles dos Santos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung.

Parque do Caxingui sucumbe a prefeitos e justiça: só resta o cidadão!

 

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

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Área onde deveria ser o parque linear

 

 

Uma área de 36 mil metros quadrados no bairro do Butantã, zona oeste de São Paulo, contendo bioma de Mata Atlântica e nascentes da Bacia Hidrográfica do Caxingui, está liberada para a construção de cinco edifícios residenciais de 25 andares.

 

 

A autorização foi dada pela juíza Maria Fernanda de Toledo Rodovalho, da 16ª Vara da Fazenda Pública. Para o desgosto dos moradores que defenderam a criação do Parque Linear do Caxingui com o intuito de preservar um pouco de mata verde dentro da cidade. E regozijo da Cury Construtora, braço da Cyrela. Parceira da atual administração municipal.

 

 

Essas terras foram classificadas como ZEPAM – Zona Especial de Proteção Ambiental, através do Zoneamento de 2016 conjuntamente com a criação do projeto Parque Linear do Caxingui. Entretanto, no fim daquele ano, no último dia de sua gestão, Fernando Haddad, conflitando com laudo da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, deferiu solicitação da Cury Construtora para edificação de cinco torres de 25 andares. Como proprietária de parte desta área e tendo doado à Prefeitura outro tanto, argumentava que o empreendimento não afetaria o verde existente.

 

 

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Como ficaria com os prédios construídos 

 

 

A administração Doria manteve a aprovação, gerando uma série de investigações sobre irregularidades em todo esse processo. Levadas ao Ministério Público, através do promotor Marcos Stefani, o empreendimento é objeto de ação civil pública movida pela Promotoria do Meio Ambiente contra a Prefeitura. Não houve liminar ainda porque a construtora garantiu à juíza Rodovalho que não iniciaria a obra até que houvesse decisão sobre o pedido apresentado pelo Ministério Público.

 

 

Surpreendentemente, a Juíza Rodovalho, sustentando que não há irregularidades aparentes no processo de aprovação do alvará que justifique o seu impedimento, liberou o início da construção. Ou, por enquanto, da destruição.

 

 

As máquinas já começaram a derrubar as árvores.

 

 

Fato que levou as entidades de moradores e ambientalistas, através do Movimento Parque Linear Caxingui a realizar hoje um ATO CONTRA A DESTRUIÇÃO DA MATA DO PARQUE DO CAXINGUI.

 

 

A jornalista Ana Aragão, uma das lideranças deste Movimento, juntamente com Lucila Knesse, e as entidades Associação Morumbi Melhor, Sociedade Moradores Butantã-Cidade Universitária e Sociedade dos Moradores do Butantã City, já perceberam que nesta tramitação, onde o interesse privado oprime o público, é preciso de mobilização para atrair cidadãos conscientes que contribuam para a defesa do progresso sem retrocesso.

 

 

Em resposta

 

(publicado em 15/10, 11h03)

 

Diante da mobilização de cidadãos que discordam da forma como o Parque do Caxingui está sendo ocupado – parte deles expôs aqui neste blog sua opinião -, o prefeito regional do Butantã Paulo Vitor Sapienza procurou lideranças do movimento. Em mensagem enviada a Wilson Donnini, diretor do Grupo 1 de jornais, inclusive do JORNAL DO BUTANTÃ, disse que está à disposição para uma reunião com objetivo de resolver esta questão. O pedido para que o encontro se realizasse foi feito pelo próprio prefeito João Doria. Aproveito para externar minha admiração a todos que se manifestaram neste blog demonstrando um espírito de cidadania exemplar.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras. 

O impacto da tecnologia e do populismo na produção jornalística

 

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Dia desses, convocado pela CBN para ancorar programa que comemorava os 26 anos da emissora, tive a oportunidade de conversar com algumas figuras que admiro muito no jornalismo. Reunimos no estúdio em São Paulo e Rio de Janeiro, e colocamos por telefone, comentaristas da rádio além de convidados. Sejam os da casa, sejam os de fora, todos foram motivados a falar sobre o rádio e o jornalismo, momento em que tratamos do impacto que a tecnologia e o populismo têm provocado no desenvolvimento do nosso trabalho.

 

Se você visitar os links que ofereço ao fim deste texto, terá a chance de ouvir o bate-papo com Arthur Xexeo, Renata Loprete, Luis Gustavo Medina, Pedro Doria, Zuenir Ventura, Eugênio Bucci e Thiago Barbosa. Cada um a seu tipo contou histórias relacionadas ao rádio, tenha este a forma do radinho de pilha, que acompanha o Xexeo em suas tarefas caseiras, tenha o desenho das caixas de sons mais modernas com capacidade de conectar todos os equipamentos, usadas pelo Doria.

 

Quero, porém, dedicar esta nossa conversa, caro e raro leitor deste blog, para tema que tem preocupado jornalistas e deveria estar na pauta de todo o cidadão interessado no fortalecimento da democracia: a profusão de notícias falsas, estas que correm mais rápido do que rastilho de pólvora, como dizíamos antigamente. Consta que muito mais rápido do que notícia verdadeira, como nos explicou Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicação e Artes da USP.

 

Embrulhado em nome novo – fake news -, a velha prática de inventar histórias para prejudicar desafeto ou promover amigo se potencializa nas redes sociais pela agilidade que esta nos proporciona, permitindo sua multiplicação apenas com um clique no botão de compartilhar ou com o acionamento de robôs que espalham o fato para computadores e celulares em todo o mundo – ou para regiões previamente estabelecidas, onde se pretende impactar a opinião pública.

 

Para dar o nome certo a esse fenômeno, Bucci recorre a outro mestre da comunicação e, tanto quanto ele, preocupado com a ética nas relações humanas: o professor Carlos Eduardo Lins da Silva. Para que ninguém tenha dúvida do que estamos falando, eles preferem transgredir a tradução natural do temo em inglês fake news. Em lugar de notícia falsa, usam notícia fraudulenta. E isso faz uma baita diferença.

 

 

A notícia errada é como uma peça estragada na linha de produção que surge de uma falha na sua execução. Pode ocorrer pela qualidade do material usado, pela manufatura, pelo descuido ou irresponsabilidade do profissional que realiza o trabalho. Causa prejuízos a quem consome e a quem fabrica.

 

A notícia fraudulenta é a peça que foi estragada com a intenção de boicotar alguém. É ato proposital. Erro baseado na má-fé de quem o executa. Que surge de autor desconhecido, escondido por mecanismos automáticos e uso de tecnologia e, por isso, prejudica apenas seu alvo.

 

Como jornalista, e jornalista de rádio, veículo que pressupõe a agilidade e velocidade na informação, o risco de publicarmos uma informação errada é imenso. Já aconteceu e, infelizmente, acontecerá outras vezes. Está lá no meu livro “Jornalismo de Rádio” (Editora Contexto), publicado em 2004, que nosso desafio é equilibrar agilidade e precisão na apuração dos fatos. Todas as vezes que abrimos mão da precisão em nome da agilidade, pagamos com o que há de mais caro na carreira do jornalista (e do jornalismo): a credibilidade. Por longo tempo, o rádio, pressionado pela ascensão da televisão, trabalhava com a ideia que o ouvinte queria a notícia em primeira mão. Demorou para perceber que o desejo dele era ter a notícia certa em primeira mão.

 

Reduzir os riscos de erro na cobertura jornalística é o desafio que se impõe e para tal é preciso respeitar a hierarquia do saber – conceito trabalhado por Zuenir Ventura em conversa que já havíamos tido há cerca de um ano na CBN. O jornalista é aquele que procura ouvir quem sabe mais do que ele, que sabe usar o saber do outro para esclarecer os fatos e apurar a verdade. Nossa busca constante é pela verdade possível, a verdade que somos capazes de construir naquele instante em que o caso é relatado. A verdade absoluta apenas o tempo nos oferecerá.

 

Se não vejamos: quando o primeiro avião se chocou no prédio do WTC em Nova Iorque, em 2001, noticiamos um acidente aéreo. Estávamos mentindo? Não. Contávamos a verdade daquele momento. Assim que um segundo avião se chocou na torre, um terceiro despencou sob o pentágono e um quarto caiu na Pensilvânia, outras verdades passaram a se revelar ao longo do dia.

 

 

Em meio a pressão oferecida pela revolução tecnológica que mudou comportamentos e quintuplicou o número de mensagens recebidas por uma cidadão, nos últimos 30 anos, e os interesses de grupos políticos dispostos a distorcer a verdade em busca do poder, o jornalismo tem obrigação de resistir e seguir o seu curso. Intensificar a checagem dos fatos, aprofundar a apuração e proporcionar o contato de posições divergentes, promovendo o diálogo entre os diversos atores de uma mesma cena.

 

 

Encerro essa nossa conversa lembrando frase dita por Eugênio Bucci no início de sua participação no programa da CBN:

 

“O jornalismo não pode faltar na sociedade democrática … e a maior ameaça para o jornalismo é o populismo”

………………………………………

 

Ouça a seguir, o Jornal da CBN especial, em comemoração aos 26 anos da rádio CBN:

 

 

 

 

Cláusula de desempenho

 

Por Antônio Augusto Mayer dos Santos

 

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Debate no  Senado em foto de  Luis Macedo / Câmara dos Deputados

 

Após meses de negociatas e sandices, o Congresso Nacional votou algumas alterações aplicáveis para o pleito de 2018. Uma das propostas, a denominada cláusula de desempenho, merece ser saudada e aplaudida.

 

A Emenda Constitucional que estabeleceu esse novo parâmetro para os partidos brasileiros foi promulgada no dia 4 de outubro. O seu conteúdo, convém esclarecer os leitores e eleitores, não veda a criação de novas agremiações no país. A sua finalidade precípua, a partir de três eleições consecutivas, é restringir o acesso indiscriminado aos benefícios constitucionalmente previstos.

 

Como efeito colateral, para evitar a desidratação de receita e nos espaços de poder, as agremiações precisarão reforçar as suas listas de candidatos e vitaminar o desempenho nas urnas. Afinal, os recursos do Fundo Partidário e a propaganda gratuita no rádio e na televisão, na legislatura seguinte às eleições já de 2018 somente serão possíveis para aquelas que comprovadamente obtiverem, nas eleições para a Câmara dos Deputados, no mínimo, 1,5% (um e meio por cento) dos votos válidos (excluídos os brancos e nulos), distribuídos em pelo menos um terço das unidades da Federação, com um mínimo de 1% (um por cento) dos votos válidos em cada uma delas; ou tiverem elegido pelo menos nove (9) Deputados Federais distribuídos em pelo menos um terço das unidades da Federação.

 

Para a legislatura seguinte às eleições de 2022, o cenário passa a exigir 2% (dois por cento) dos votos válidos, distribuídos em pelo menos um terço das unidades da Federação, com um mínimo de 1% (um por cento) dos votos válidos em cada uma delas; ou tiverem elegido pelo menos onze (11) Deputados Federais distribuídos em pelo menos um terço dos Estados.

 

Relativamente à legislatura posterior às eleições de 2026, o nível de desempenho passará a 2,5% (dois e meio por cento) dos votos válidos, distribuídos em pelo menos um terço das unidades da Federação, com um mínimo de 1,5% (um e meio por cento) dos votos válidos em cada uma delas; ou a eleição de treze (13) Deputados Federais distribuídos em pelo menos um terço dos estados.

 

O descumprimento desses requisitos estabelece uma barreira que inviabiliza o acesso partidário àquelas prerrogativas. Daí o nome mais comum da cláusula (de barreira).

 

Na prática, com a redução de siglas representadas no parlamento, a tendência é que a arquitetura política para a formação de governos (federais, estaduais e municipais) seja menos complexa e mais transparente. Afinal, negociar com 6 ou 7 bancadas é mais racional do que fazê-lo com 15 ou 20.

 

Este mecanismo vem sendo aplicado eficazmente por diversas democracias representativas do planeta, nos cinco continentes. A Alemanha, escaldada pelo nazismo, foi pioneira ao introduzi-lo em 1956. Argentina, Espanha, França, México, Moçambique, Coreia do Sul e até Moçambique foram algumas outras que trilharam o mesmo caminho fixando modelos similares, adequados às suas peculiaridades políticas e eleitorais.

 

O Congresso Nacional acertou nesta providência.

 

Antônio Augusto Mayer dos Santos é advogado especialista em direito eleitoral, professor e escritor. Autor de “Campanha Eleitoral – Teoria e prática” (2016). Escreve no Blog do Mílton Jung.

Mundo Corporativo: “cliente não presta, você tem de ter parceiros”, diz empresário Marcos Scaldelai

 

 

“Na minha vida nunca existiu cliente. Eu sempre fui atrás de parceiros, porque quem é cliente não presta, você tem de ter parceiro e parceiro é aquele que vai construir junto com você”. A afirmação é de Marcos Scaldelai entrevistado de Mílton Jung, no programa Mundo Corporativo, da rádio CBN. Ele lançou, neste ano, o livro “Vendedor Falcão – visão, velocidade e garra para vencer”, no qual defende a ideia de que o negociador tem de ser agressivo e consistente para ter resultados positivos com os seus parceiros. Porém deve-se levar em consideração que a negociação precisa ser um jogo de ganha-ganha, na qual as duas partes saiam satisfeitas.

 

Marcos Scaldelai é empresário, palestrante e escritor. Até recentemente foi presidente da Bombril e tem se dedicado a levar a experiência desenvolvida ao longo de sua carreira como líder e vendedor às mais diversas empresas no Brasil.

 

O programa Mundo Corporativo é gravado, às quartas-feiras, 11 horas, com transmissão ao vivo no site na página da CBN no Facebook. Vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 11 da noite, em horário alternativo. Colaboraram com o Mundo Corporativo a Juliana Causin, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

É Proibido Proibir?

Por Carlos Magno Gibrail

 

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O recrudescimento de ações radicais e extremas é uma preocupante realidade atual. Mundial e local.

 

Entre nós, precedidas recentemente por intolerâncias religiosas, vieram as manifestações sobre obras de arte, que abriram ataques de flancos liberais e conservadores.

 

O fechamento da exposição em Porto Alegre do “Queermuseu” e as manifestações em São Paulo contra a performance de Wagner Schwartz, no MAM, protagonizaram a atenção de ampla faixa da sociedade.

 

Estas ocorrências dominaram a mídia nos últimos dias. Fato é que em uma única edição na FOLHA encontramos Nabil Bonduki, Pablo Ortellado e Mônica Bergamo tratando deste mesmo tema.

 

Bonduki, em seu artigo intitulado como “Atacar a arte é uma tradição totalitária” lembra que o nazismo, antes mesmo de ocupar o poder, já desqualificava a arte que não seguisse os moldes clássicos. O preconceito na arte, que parecia distante daqui, chega com intensidade, levando o Santander a encerrar a exposição do Queermuseu, em Porto Alegre, um juiz interromper a exibição de uma peça teatral, em Jundiaí, uma pintura ser retirada de um museu, em Campo Grande, e um grupo de conservadores atacarem o MAM, em São Paulo.

 

Ortellado em seu texto “Polêmica no MAM não é sobre arte e não é sobre pedofilia”, afirma que é sobre política, pois os principais promotores da campanha foram o MBL, o Instituto Liberal de São Paulo, João Doria, senador Magno Malta, a família Bolsonaro e o senador Ronaldo Caiado.

 

 
Bergamo intitulou sua página “Vídeo sobre exposição gera tensão entre Doria e o MAM” para informar que o MAM esperava de Doria posição favorável ao museu, mesmo porque o fato que mais se destacou tem aspecto legal, que foi a menor acompanhada pela mãe tocar no corpo do homem exposto.

 

A estes relatos é importante destacar que na exibição de Wagner Schwartz o artista interpreta uma obra de Lygia Clark chamada “Bicho”, que é uma escultura de metal articulada que pode ser manuseada pelo público. Durante sua apresentação, ele convidou uma coreógrafa que assistia à exposição a participar, que junto com a filha que a acompanhava aceitou o convite.

 

Um aspecto significativo foi a posição de Milú Villela, presidente do MAM, que aos primeiros ruídos reuniu seu pessoal e decidiu que manteria a exposição.Bem diferente do Santander, que aos primeiros acordes dissonantes decidiu fechar a exposição do Queermuseu. Aliás, como já tinha feito antes, quando uma de suas diretoras publicou previsões econômicas desfavoráveis e foi demitida por pressão do governo Dilma.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras. 

Avalanche Tricolor: uma vitória importante para a Libertadores

 

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Brasileiro – Arena Grêmio

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Beto da Silva faz o primeiro gol dele no Grêmio (reprodução SporTV)

 

 

O Grêmio joga para a Libertadores. E por isso é importante que vença no Brasileiro, mesmo que o faça com placares apertados e sofridos. Pode parecer estranho como são estranhas muitas das coisas que escrevo nesta Avalanche. Mas é real.

 

Desde o desconserto sofrido pelo time com a venda de Pedro Rocha e as lesões de alguns jogadores importantes, especialmente Luan – uma exceção no futebol brasileiro -, Renato tem enfrentado o desafio de fazer com que a equipe volte a jogar o futebol de qualidade que deslumbrou a crônica e entusiasmou nossa torcida. No entanto, alcançar a excelência do futebol que apresentamos até agora há pouco exige muito entrosamento, jogadores posicionados corretamente em campo e confiança entre os companheiros.

 

O passe preciso que foi uma das nossas marcas não depende apenas de quem o executa, mas de quem se movimenta para receber. E nossa diferença até então era que o executor (ou o passador)  ao ter a bola sob seu domínio sabia que dois colegas estariam prontos para dar sequência à jogada. Havia opção. Havia entrosamento. Havia confiança. Recebia e passava com velocidade, entendia o movimento do parceiro de um lado e de outro. Às vezes, a passagem de um deles era por trás dos zagueiros em condições de chutar a gol. E a bola chegava até lá.

 

Hoje ensaiamos alguns desses lances na primeira parte do jogo, mas após um, dois, três erros todos preferem ser mais conservadores. E o conservadorismo inibe a criatividade, torna o jogo óbvio e facilita a vida do adversário que tem como único objetivo desarmar. As mudanças no Grêmio, a necessidade de adaptar jogadores  e reposicioná-los em campo, desconsertou o time e, assim como os bons jogos, os bons resultados rarearam.

 

A discussão no Campeonato Brasileiro não é mais se devemos jogar com titulares, reservas ou alternativos. Sequer se almejamos ou não o título da competição (registre-se: se ainda for possível, eu quero). O Grêmio joga o Brasileiro para remontar o time para a Libertadores, dentro e fora de campo. Os lesionados ganham tempo para se restabelecerem enquanto Renato testa jogadores e formações. E nessa fase de teste fora de época – mas necessária – os tropeços acontecem, o futebol fica escasso e a bola não rola mais com a mesma certeza.

 

Exceção aos primeiros momentos do segundo tempo, o Grêmio dominou a partida dessa tarde de domingo, correu poucos riscos, ficou com a bola no pé, tentou chegar ao gol, mas a falta de entrosamento e o conservadorismo atrapalharam a execução. Não me surpreende que um time que já havia feito 99 gols na temporada tenha tido tanta dificuldade para alcançar a marca dos 100 gols. Alcançamos, respiramos e ganhamos tempo.

 

Ao remontar o time, Renato deu chances a Christian, que não aguentou o tranco da primeira partida; Patrick, que tem de ganhar personalidade em campo; Jean Pyerre, que para mim foi uma grata surpresa; Jael, que está a espera de uma bola no pé; e Beto da Silva, que se revelou um oportunista.

 

Luiz Humberto Silva da Silva, o Beto da Silva, 20 anos, que cresceu em Porto Alegre, foi se destacar em Lima, passou pela Holanda e retornou ao Grêmio, soube aproveitar a única oportunidade de gol que surgiu naquele último quarto de partida. Uma bola que resultou do chute forte de Everton, amortecido nos braços do zagueiro adversário – o que foi desconsiderado pelo árbitro – e sobrou para ele dentro da pequena área. Do jeito que dava, enquanto o restante do time reclamava pênalti, Beto da Silva desviou a bola para dentro do gol. Ela entrou devagar, quase que desistindo no meio do caminho. Mas entrou. Era o gol que ele precisava. Que o Grêmio necessitava.

 

Escalar o que tivermos de melhor à disposição, encaixar novamente o time, apostar no surgimento de substitutos  – como é o caso de Beto da Silva  – capazes de ocupar a vaga deixada por titulares -,  e vencer todo e qualquer desafio, seja por quantos gols for, é o melhor que temos a fazer.

 

É no Campeonato Brasileiro que vamos encontrar força, entrosamento e confiança para ganharmos a Libertadores. 

#CBN26anos – A minha história do rádio

 

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Sou do rádio desde muito pequeno. Aventurei-me no jornal, escrevi em revista, editei, reportei e ancorei em televisão, e atuei na internet. Mas aí já era profissional do jornalismo. E como tal somos de todas as mídias. Temos de ser de todas as mídias para sobreviver. Foi o rádio, porém, que influenciou minha vida desde criança.


 

Lá em casa, em Porto Alegre, o aparelho ficava sobre o balcão, na sala de jantar. A mãe costumava levantar o som sempre que o pai fosse falar. Sim, meu pai é radialista e jornalista, também – como o caro e raro leitor deste blog deve saber. Ao menos o foi até que a falta de sensibilidade dos gestores de rádio o fez ir para casa e aposentar seu talento. Além de narrador de futebol, Milton Ferretti Jung, o pai, foi locutor de notícias. Mais do que isso: foi o melhor locutor de notícias do Rio Grande do Sul. Apresentou por anos o Correspondente Renner, síntese noticiosa da rádio Guaíba, na época uma potência.

 

Sempre que o noticiário estava para começar, era a oportunidade de a mãe por ordem na casa. Para calar a bagunça dos filhos e a “brigalhada” dos irmãos, ela levantava o som do rádio e alertava a todos: “se continuarem gritando, o pai vai ouvir e quando chegar em casa vocês vão se ver com ele!”.

 

Silêncio total na sala. Vai que o pai ouve.

 

Crescemos imaginando que o ouvinte podia ser ouvido pelo radialista. Houve um momento, não sei quando, em que percebemos que aquela interação não era possível, mas entendemos também que tudo que a mãe precisava era de alguns minutos de paz para ouvir o pai falando. Nós também queríamos saber o que o pai tinha pra contar: ele sempre trazia as notícias mais importantes do Brasil e do Mundo. Dava um baita orgulho saber que era o nosso pai que estava ali contando todas aquelas coisas importantes para o Mundo e para o Brasil. Sem exagero. Não tinha internet, mas nas ondas médias e curtas, a Guaíba às vezes era ouvida das partes mais distantes do planeta.

 

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Nem havia crescido muito quando conheci o estúdio de uma emissora de rádio. O pai fazia questão de nos levar à Guaíba, especialmente nos fins de semana. Acho que era para dar uma folga para mãe. Às vezes, enquanto ele lia o noticiário, os colegas nos distraíam proporcionando jogos de futebol no corredor da rádio, onde a bola era feita de papel das laudas de notícias embrulhadas aos montes por durex.

 

Demorou pouco para o pai cometer um sacrilégio: abrir a porta do estúdio da rádio e me permitir sentar ao lado dele, durante a locução do Correspondente Renner. Naquela época, o estúdio era lugar sagrado. Só os Deuses da Voz tinham o direito de permanecer lá dentro. Eu sequer para anjo servia. Mas fazia enorme esforço para não decepcioná-lo. Ficava ao lado dele em silêncio, total silêncio. Mal respirava durante os 10 minutos de duração do Correspondente. Ver o pai com os cotovelos sobre a mesa do estúdio e as mãos colocadas em formato de concha, enquanto pronunciava com precisão e expressividade cada palavra, me emocionava.

 

Havia dias em que o pai me deixava visitar a redação do jornal Correio do Povo, que ficava no andar de baixo, do mesmo prédio da rádio, onde meu tio trabalhava com editor-fechador da edição de domingo. Era ele quem tinha de atualizar as últimas informações e acompanhar o jornal rodando nas esteiras antes de começar a ser distribuído por todo o estado do Rio Grande do Sul. Tio Tito Tajes me deixava dedilhar nas máquinas de datilografia, pedia para recolher as notícias que chegavam na sala de teletipos – espécies de computadores da Idade da Pedra – e me levava a passear entre as rotativas do jornal. Foi lá naquela redação que conheci Mário Quintana, o poeta.

 

Era lindo, mas era o rádio que me fascinava.

 

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Meu primeiro estágio em jornalismo foi na Guaíba, por obra do meu pai, claro. De lá sai para trabalhar em outras mídias e retornei ao rádio quando já havia desembarcado, em São Paulo, há algum tempo. Vim para trabalhar em TV e foi na redação da TV que conheci Heródoto Barbeiro que, ao saber de meu passado e desejo, me convidou para apresentar programa na CBN, onde permanecerei até segunda ordem.

 

Tantos anos depois, descobri que minha mãe tinha razão quando nos mandava calar porque o pai podia ouvir. Era como se ela estivesse prevendo o que viria a acontecer. Hoje, os jornalistas de rádio trabalham com os ouvidos (e os olhos) bem abertos porque o ouvinte fala o tempo todo. Fala no e-mail, fala no WhatsApp, fala no Facebook e fala no Twitter. Ainda fala por carta. Fala quando encontra você na rua, no shopping, na Igreja, onde quer que você esteja.

 

Ai de você que não ouça o que ele pensa. Pode se livrar de algumas chateações, mas, tenha certeza, estará desperdiçando ótimas oportunidades de se desenvolver na carreira e realizar jornalismo qualificado, que atenda as demandas do cidadão. Sem contar que esses ouvintes que “falam” são, atualmente, fontes importantes de informação, que não podem ser desdenhadas.

 

Quanto ao pai, segue em Porto Alegre. Respeitado por aqueles que conheceram seu trabalho. Na memória dos que cresceram ouvindo os jogos de futebol e as notícias do dia. E na história dos que se preocupam em estudar a trajetória do rádio brasileiro.

 

Como disse lá no início, sou do rádio desde pequeno. E o pai tem tudo a ver com isso. Obrigado, pai!

Conte Sua História de São Paulo: para comemorar o aniversário do bairro do Limão

 

Mercedes Darós
Ouvinte da rádio CBN

 

 

Cheguei aqui em São Paulo no ano de 1969, na antiga rodoviária, bem cedo. Tomei um táxi para o bairro do Limão. Para chegar lá, passei pela ponte sobre o rio Tietê. Os terrenos laterais da Marginal eram um charco imenso, ouvia-se os grilos, os sapos e vagalumes, pareciam estrelas.

 

Vim pra cá para trabalhar no Colégio Padre Moye e fiquei até 2015, na maior alegria e realização. Adoro o campo da educação. Servi 23 anos no cargo de direção do colégio, que é de minha congregação religiosa. Todos daqui e arredores me conhecem como a Irmã Mercedes, do Colégio Padre Moye. Sempre abri portas e coração à população e recebi da Câmara Municipal o título de Cidadã Paulistana, que muito me honrou. Ganhei igualmente o Título de Cidadã Limoense.

 

Fui percebendo a falta de identidade dos moradores daqui e retomei a comemoração do aniversário do Limão, que é celebrado no dia 1º de outubro, a fim de criar estima, valorização e agregar as lideranças; pois historicamente, nosso bairro sempre foi considerado o “escoadouro da Zona Norte”, um lugar de passagem. Criamos então, com voluntários, a comissão “Pró Limão”. Assim, com pequenas ações, olhamos para o bem comum de todos. Não temos estatuto nem somos uma associação registrada. Damos presença, solidariedade às agremiações existentes.

 

Nossa Comissão Pró Limão assumiu zelar pela ordem e limpeza da Praça do Largo do Limão, tão descuidada. À noite eu vou, pois moro mais perto, e para não dar muito na vista, vou, tiro o lixo, folhas, galhos e plantamos mais pés de Limão, como árvore símbolo do Bairro, que lhe deu o nome.

 

Por curioso que seja temos aqui o bairro do Limão, o Jardim das Laranjeiras e a Rua das Tangerinas, chácaras cítricas, dos inícios… Mas em contra partida temos a Avenida Nossa Senhora do Ó e a Casa Verde… coitado de nosso bairro, tudo misturado.

 

Quando nosso bairro completou 80 anos foi demais… conseguimos pela primeira vez trazer a Câmara Municipal para fora dos muros do Viaduto Jacareí, com uma sessão solene, no bairro do Limão, no Colégio Padre Moye.
Neste ano, o Limão completa seus 96 anos.

 

Irmã Mercedes Darós é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também histórias da nossa cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br.