Conte Sua História de São Paulo: namorei a Mooca através dos namorados que tive

Adriana Yamamoto Christofolete

Ouvinte da CBN

FOTO: Viva Mooca (Reprodução)

Ouça aqui o texto completo, sonorizado por Cláudio Antonio e com narração de Mílton Jung

Contar a minha história em São Paulo confunde-se com a minha relação com a Mooca. Amor de longa data. 

Namorei a Mooca através dos namorados que tive. Um descendente de italiano, que não morava no bairro, mas falava com as mãos e comia macarronada no almoço de domingo, na casa da nona, perto da Praça Silvio Romero. Toda vez que visitávamos a avó, ao passar pela Radial Leste, dizia que o sonho dele era mudar-se para a Mooca. 

O namoro com esse rapaz se foi. De herança restou o gosto pelas casas de porta na calçada e vizinhança amigável.

Outro namorado da época da faculdade morava no Tatuapé, mas não curtia essa vida bairrista. Coincidência ou não, o namoro durou nadinha. 

Como já contei em outro capítulo do “Conte Sua História de São Paulo” casei-me com um mooquense, descendente de italianos. E, enfim, mudei para o bairro. Na Mooca criei filhos, trabalhei, fiz muitos amigos nascidos ali ou que se tornaram mooquenses por convicção — como um que conheço desde a faculdade que era de Itaquera e fez da Mooca seu lar com esposa e filho.

Como toda paixão, tive desilusões. Uns novos ricos invadiram parte do bairro e eu me fugi para o Tatuapé com medo de não ter vez no mercadinho da esquina, por não ser reconhecida pelo atendente da padaria, por me incomodar com os novos vizinhos.

Porém não consegui rir das mesmas piadas, mesmo sendo acolhida pelos vizinhos do novo bairro. E assim, jamais me desconectei da Mooca. E me mantive nos grupos de ciclistas e de caminhada, como o Pedal da Mooca, criado no início dos anos 2.000, e o Rapadura da Mooca, que promove acolhimento humano e socialização e surgiu juntamente com a Associação Mooca Solidária.

Ouça aqui o texto completo, sonorizado por Cláudio Antonio e com narração de Mílton Jung

Adriana Yamamoto Christofolete é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: a briga bilionária que redefine o futuro do entretenimento

A compra da Warner Bros. Discovery pela Netflix, em uma transação superior a 80 bilhões de dólares, não altera apenas o tamanho dos conglomerados que disputam o entretenimento mundial. Ela muda, sobretudo, a relação entre consumidores e marcas que moldaram a forma como assistimos a filmes e séries. É sobre esse movimento que Jaime Troiano e Cecília Russo conversaram com os ouvintes noSua Marca Vai Ser Um Sucesso, do Jornal da CBN.

A negociação coloca em evidência uma transformação que atravessa toda a indústria audiovisual: a migração das grandes salas de cinema para o sofá de casa, fenômeno acelerado por uma empresa que começou enviando DVDs pelo correio. Cecília Russo lembra que “a Netflix, uma empresa que começou como locadora de DVD no final da década de 90, hoje domina não só a indústria de filmes como também a forma como consumimos filmes”. Ela aponta que esse negócio confirma um padrão cada vez mais recorrente: a concentração de muitas marcas em poucas empresas, o que reduz alternativas para o público. “Se alguém não gostava da HBO e se refugiava na Netflix, agora ambas poderão pertencer à mesma família”, afirma.

Essa reconfiguração não trata apenas de estratégia empresarial. Envolve afetos cultivados por espectadores que criam vínculos com estúdios e canais. Cecília observa que fusões e aquisições deixam consumidores em posição passiva: “Há uma sensação de orfandade quando uma marca com a qual nos relacionamos sai de cena”. Ela recupera movimentos semelhantes — como Disney e 20th Century Fox, Universal e DreamWorks — para mostrar que o setor vive um processo contínuo de reorganização.

Jaime Troiano oferece uma leitura guiada pela memória de quem cresceu em salas escuras antes do streaming dominar as telas domésticas. “Ouvi essa notícia com uma certa tristeza”, diz. Para ele, a Warner representa mais do que um logotipo ou um catálogo: carrega um imaginário cultural construído ao longo de décadas. “De lá saíram grandes histórias do cinema como Casablanca, Cidadão Kane, Mágico de Oz, O Exorcista, Laranja Mecânica”, recorda. A Netflix, na avaliação dele, ainda é percebida principalmente como “uma plataforma de streaming que verticalizou a cadeia”, mesmo que tenha ampliado sua atuação para produção e distribuição global.

A junção dos dois universos cria desafios de gestão. Jaime alerta que, em algumas fusões, “a soma de 1 + 1 não chega a 2”, lembrando que preservar o valor simbólico das marcas adquiridas exige cuidado e tempo. A reorganização das propostas e dos portfólios será determinante para que consumidores não sintam que perderam referências construídas ao longo de gerações.

A marca do Sua Marca

O comentário destaca que movimentos de consolidação desse porte mexem com escolhas, expectativas e memórias do público. Para as empresas envolvidas, a tarefa principal é administrar a orquestração entre marcas diferentes, preservando atributos reconhecidos, mitigando a sensação de perda e mostrando, de forma clara, o que consumidores ganham com a mudança.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Mundo Corporativo: para Juliana Rios, da Latam, estratégia digital mudou a jornada do passageiro

Juliana Rios nos bastidores da entrevista online Foto: Prisicila Gubiotti CBN

“É muito importante manter uma missão clara e a gente buscava sempre com objetivos grandes? Então, a gente aspira ao 100%.”

Juliana Rios, Latam

A experiência de voo deixou de ser comparada apenas entre companhias aéreas e passou a disputar atenção com qualquer serviço digital que cabe no celular do passageiro. Foi a partir dessa percepção que a Latam Airlines decidiu redesenhar processos, reorganizar dados e usar inteligência artificial para mudar a relação com o cliente. Este foi o tema do Mundo Corportivo que entrevistou Juliana Rios, CIO da Latam Airlines.

Juliana lidera a área de tecnologia, dados e transformação digital do grupo. Ela conta que o ponto de partida foi reconhecer que o passageiro leva para a experiência aérea o padrão de usabilidade que encontra em outros serviços do dia a dia. “O desafio de trazer a tecnologia, na verdade, tinha que ter uma grande motivação. E a motivação que a gente usou é a experiência do cliente”, afirma. Segundo ela, “o cliente, quando vive a experiência aérea, ele não tem só a comparação com um concorrente ou uma outra aerolínia. Ele tem experiência digital que ele vive no dia a dia”.

A pergunta que passou a orientar a companhia foi direta: “Como é que a gente repensa a tecnologia e usa tecnologia no setor aéreo, na nossa companhia, para entregar uma melhor experiência ao cliente?” A resposta não veio de um novo sistema isolado, e sim de uma mudança de modo de operar.

Cliente no centro, tecnologia ao lado

Na avaliação de Juliana, transformação digital é, antes de tudo, um movimento cultural. “A primeira coisa pra gente falar sobre tecnologia, sobre transformação digital, é que na verdade é um movimento muito mais cultural, muito mais associado à maneira como se opera do que à tecnologia em si”, resume.

A Latam trabalha num setor altamente regulamentado, com processos e sistemas antigos que precisam conviver com novas ferramentas. A tecnologia disponível para empresas nativas digitais é, em essência, a mesma à qual a companhia aérea tem acesso. A diferença está no uso.

A mudança começou quando a empresa revisou passo a passo a jornada do cliente: “desde que você começa a pensar numa viagem, que você vem buscar opções de para onde voar, começa a entender preços, começa a entender o que fazer nessa viagem”; e passou a montar equipes que juntam quem entende de mercado, marketing e comportamento do cliente com quem desenvolve tecnologia.

Um dos objetivos estratégicos foi dar autonomia ao passageiro para resolver tudo pelo celular. “A gente tinha de dar a condição para que 100% do que um passageiro tenha necessidade de interagir ao longo da experiência de viagem, ele pudesse fazer desde o seu bolso – como a geste costuma dizer –, desde o telefone na sua mão.”

O resultado aparece nas métricas. A Latam acompanha o Net Promoter Score (NPS) da experiência digital – indicador de recomendação da marca em escala de 0 a 10. “O score que a gente tinha na época que a gente começou era um score de 20 pontos de NPS, para você ter uma ideia. Hoje em dia, a gente já ultrapassou a barreira do 70”, relata Juliana. Segundo ela, essa evolução está ligada ao fato de a experiência digital estar “cada vez mais completa”, com mais serviços disponíveis e mais autonomia para o cliente administrar a viagem e lidar até com imprevistos.

Do aplicativo à pista: dados em toda a operação

A virada exigiu, primeiro, arrumar a casa dos dados. “O primeiro desafio que a gente teve quando a gente começou em 2019 era um desafio de ter melhor acesso a dados”, conta a executiva. Era preciso organizar informações de códigos de reserva, tarifas, assentos marcados, programas de fidelidade e histórico de viagens para, no futuro, simplificar o acesso a tudo isso e até prever necessidades do cliente.

Com essa base, o uso de inteligência artificial ganhou tração. Um exemplo é o check-in, que passou a ser cada vez mais automatizado. Outro está no contact center. “A gente tinha uma capacidade de identificação de 10% dos passageiros”, lembra Juliana. “Hoje a gente consegue identificar 90% dos passageiros só de receber a chamada.”

Quando o passageiro liga, o atendente passa a ter na tela o histórico recente: se há voo em andamento ou programado, se existe reclamação em aberto ou dúvida não resolvida. “Tudo isso já aparece na frente do agente do contact center e esse agente com isso consegue imediatamente dar um melhor serviço”, explica. O efeito é redução do tempo da chamada e atendimento mais eficiente.

A inteligência artificial também foi aplicada ao monitoramento de filas e da operação em solo, em parceria com o aeroporto de Guarulhos. Câmeras permitem acompanhar o tamanho das filas de check-in, a necessidade de distribuir melhor equipes e abrir mais balcões, além de registrar dados para planejamento futuro. “A gente consegue usar não somente no momento como depois”, diz Juliana.

Nas áreas de apoio à operação, as câmeras ajudam a acompanhar a movimentação dos aviões na área externa ao terminal: se o abastecimento de combustível começou, se o caminhão de catering já chegou, se a limpeza foi finalizada. “Tudo isso a gente hoje em dia consegue através de uso de câmeras, conectados aos sistemas operacionais, levantar os flags e fazer também as validações de que o processo já avançou”, detalha. Não é necessário um equipamento sofisticado: “Não tem que ser câmeras muito sofisticadas. A tecnologia com câmeras simples, na verdade, a tecnologia que existe hoje em dia disponível, ela consegue capturar. O que você precisa é treinar um modelo que seja capaz de capturar essa imagem e traduzi-la em eventos.”

IA com cuidado em frente ao cliente

Quando o assunto é inteligência artificial diretamente na interação com o passageiro, Juliana adota cautela. “A gente está sendo muito cuidadoso de colocar a inteligência artificial nos processos em frente ao cliente”, afirma. Ela lembra que sistemas mal treinados ou mal modelados podem “sinalizar” errado e comprometer a experiência.

Por isso, a prioridade tem sido garantir que a IA acesse dados e documentos que representem adequadamente a Latam. Internamente, o uso já é intenso. Externamente, a empresa iniciou pilotos em outros países, com a perspectiva de levar esse tipo de interação para o aplicativo da companhia.

A executiva acredita que haverá avanço também na capacidade de diferenciar, pelo tom e pelo contexto, situações em que o passageiro prefere falar com uma pessoa. “A gente sabe, a gente tem identificado, em alguns casos, a gente consegue entender qual é o tom. Dependendo do tom e da situação ou de algumas casuísticas, a gente deriva diretamente a uma pessoa”, explica. Para ela, “a graça da tecnologia é você aprender. É a tecnologia aprender e você aprender com tempo para ter essa condição que a gente estava falando de ir melhorando essa experiência com tempo”.

Da área de negócios ao comando da transformação

A jornada profissional de Juliana também passa por uma mudança de rota. Foram cerca de 20 anos no mercado financeiro antes de chegar à Latam. Em 2019, ela assume a área de tecnologia, depois de ter construído carreira em marketing, serviços, segmentação e estratégia.

“Foi difícil sair dos meus 20 anos de carreira no mercado financeiro, no primeiro momento tomar essa decisão, para ir para um mundo totalmente diferente, que tinha desafios completamente distintos”, recorda. “Eu sempre fui, como a gente costuma falar, sempre fui do negócio.”

Ela conta que encarou a transição com curiosidade e descreve o papel que assumiu como o de tradutora. “O grande aprendizado para mim tem sido ser uma boa tradutora. Porque a tecnologia, ela muitas vezes tem dificuldade de se aproximar do problema”, diz. A tarefa, na visão dela, é aprender “a se apaixonar pelo problema, não pela solução”, já que a possibilidade de melhoria é constante.

Quatro pilares para a transformação digital

Da experiência acumulada na Latam, Juliana destaca quatro pontos como essenciais para qualquer empresa que queira avançar na transformação digital:

  1. Ambição e aspiração claras – “Ter uma ambição, ter uma aspiração, porque isso resulta depois em elemento estratégico.” É partir de um alinhamento sobre o que a empresa busca e para que existe.
  2. Modelo operativo integrado – É difícil falar em adoção de tecnologia se ela não está “sentada à mesa ao lado das pessoas que estão pensando na experiência, que estão pensando nos processos”. Na área que lidera, Juliana conta que deixou de trabalhar com metas específicas de tecnologia e passou a mobilizar a equipe pelas métricas de negócio, como resultado financeiro e satisfação do cliente.
  3. Talento e fluência digital – Há funções altamente técnicas, que exigem conhecimento especializado, e, ao mesmo tempo, a necessidade de elevar a fluência digital de toda a organização. “Num ambiente onde todo mundo entende de tecnologia, é muito mais fácil avançar com uma agenda e construir uma experiência digital”, afirma.
  4. Acesso a ferramentas adequadas – Ter boas tecnologias e plataformas que permitam construir e avançar mais rápido completa o conjunto.

Para Juliana, distribuir a tecnologia por toda a companhia é decisivo. “A Latam é uma companhia que no Brasil tem 20 mil funcionários e a gente falava: ‘Imagine o poder que teria se todos os funcionários tivessem a capacidade de uso de tecnologia no seu dia a dia’.” A estratégia, segundo ela, é fazer com que a tecnologia ajude as pessoas a “desfrutem mais do seu trabalho”, automatizando tarefas menos desejadas e liberando tempo para atividades de maior valor.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves, Priscila Gubiotti e Letícia Valente.

Dez Por Cento Mais: geriatra Vitória Arbulu diz como chegar com boa funcionalidade aos 80

Image by Mabel Amber from Pixabay
Image by Mabel Amber from Pixabay

“A idade cada vez quer dizer menos; quem determina como a gente vive é a funcionalidade.”

O Brasil está envelhecendo rápido, e a pergunta deixou de ser apenas “até quando vamos viver” para se tornar “como vamos chegar lá”. A cena é conhecida em muitas famílias: alguém que ainda tem muitos anos pela frente, mas já perdeu autonomia para tarefas simples como subir um lance de escada, carregar a sacola do mercado ou brincar com os netos no chão. Foi sobre esse ponto – viver mais sem abrir mão da capacidade de fazer as coisas do dia a dia – que a médica geriatra Vitória Arbulu concentrou sua participação no Dez Por Cento Mais, apresentado por Abigail Costa, no YouTube.

Funcionalidade no centro do envelhecimento

Na prática clínica, Vitória percebe que o foco deixou de ser apenas doença e passou a ser o jeito como a pessoa vive. Para ela, funcionalidade é a síntese do envelhecimento: “Se for pra gente ter foco em alguma coisa que a gente precisa prestar atenção, precisa trabalhar e precisa dedicar nosso tempo, é a funcionalidade”, afirma.

Funcionalidade, explica a geriatra, é a combinação das capacidades físicas e mentais em interação com o ambiente – casa, bairro, condições financeiras, contexto social e cultural. Não se trata só de exames “normais”, mas da pergunta concreta: essa pessoa consegue se movimentar, se vestir sozinha, lembrar compromissos, manter conversas, participar da vida social?

Aos olhos de Vitória, esse é um dos grandes marcadores de qualidade de vida na velhice: “É a funcionalidade que vai dizer se a gente vai conseguir se mover, interagir, ter nossas conversas, se lembrar e ter nossas memórias.”

O declínio começa antes do que se imagina

Quando se fala em envelhecimento, a imagem comum é a de alguém já idoso. Vitória puxa a linha do tempo para bem mais cedo. Ela lembra que sinais de problemas cardiovasculares podem aparecer ainda na infância e o auge da massa muscular e da força óssea costuma acontecer por volta dos 30 anos.

A partir dessa idade, se não houver atenção ao estilo de vida, o declínio funcional começa, mesmo que de forma silenciosa. E ganha novos “degraus” aos 60, 70 anos. Pequenas mudanças no humor, na irritabilidade, na paciência, na disposição para encontros em família, na perda de peso sem explicação, na dificuldade para ouvir ou se comunicar e, principalmente, nas quedas frequentes, são alertas que muitas famílias tratam como “coisa da idade”.

Vitória faz questão de corrigir essa percepção: “A gente acha que está associado ao envelhecimento normal e nada disso está considerado envelhecimento normal: nenhuma dessas condições é ‘normal’.

Entre os fatores que aceleram a perda de funcionalidade, ela lista as doenças crônicas mal controladas, como hipertensão e diabetes, o abandono do fortalecimento muscular, problemas sensoriais (visão e audição), além da redução da interação social.

O básico que muda tudo: sono, alimentação e força

Apesar da profusão de tecnologias e exames, a resposta de Vitória quando alguém pergunta “o que eu posso fazer?” volta sempre ao mesmo ponto: o básico.

A medicina está voltando para o básico: sono, alimentação e atividade física”, resume. A recomendação vale para todas as idades, inclusive para quem chega ao consultório aos 80 ou 90 anos.
“Não importa a idade, o paciente pode chegar para mim com 90 anos, eu vou tentar convencê-lo a começar uma prática de atividade física”, diz.

Vitória destaca que não basta “estar sempre em movimento” no dia a dia. Caminhar até o mercado ajuda, mas não substitui exercício estruturado. Há um componente de dose e de qualidade: número de passos, redução do tempo sentado, e, principalmente, fortalecimento muscular. “Musculação é essencial, inegociável e insubstituível”, afirma, ao falar do combate à sarcopenia – a perda de massa e força muscular que, quando avançada, vira doença e compromete até cuidados básicos, como levantar da cama ou ir ao banheiro.

Nesse pacote, a alimentação entra como aliada direta do músculo: “A sarcopenia tem tratamento. A base é atividade física resistida e alimentação, principalmente hiperproteica.

Histórias que mostram o que está em jogo

Ao falar de mudança de estilo de vida, Vitória recorre a histórias que ilustram o que está em disputa quando se fala em força, funcionalidade e autonomia. Uma delas é a da própria avó, hoje com 85 anos. Ela não tinha o hábito de fazer exercícios e foi convencida pela neta, aos 84 anos, a participar de uma atividade em grupo promovida pela prefeitura. Os números dos testes físicos melhoraram: mais velocidade para levantar, caminhar, melhor equilíbrio, menor risco de quedas. Só que, quando perguntada sobre o que mudou, a avó não menciona nada disso: “A única coisa que ela fala é que está conseguindo brincar com os bisnetos no chão e levantar sozinha”, conta Vitória.

Outra paciente, na casa dos 70 anos, chegou ao consultório com artrose avançada de quadril e resistência à atividade física. Depois de muita conversa, aceitou entrar em um grupo de exercício. Ganhou força, ampliou a rotina de movimento e, no meio do caminho, conheceu um parceiro na turma de atividade. “Ela começou a ter dor não mais por ficar parada em casa, mas porque estava fazendo trilha com o namorado”, relata a médica.

A partir dessa nova etapa de vida, Vitória encaminhou a paciente para prótese de quadril, confiando que, com reabilitação adequada, ela teria mais anos de vida ativa pela frente. Para a geriatra, essas histórias mostram que atividade física não se resume a “puxar ferro”, e sim a recuperar experiências: ir ao mercado sozinha, subir escadas, brincar com netos, encarar uma trilha.

Comparação, autonomia e saúde mental

A comparação com o outro aparece no consultório em todas as idades. E na velhice não é diferente.
A comparação faz mal em qualquer cenário”, diz Vitória, que desestimula frases como “os pacientes da minha idade”. Para ela, envelhecer é um processo profundamente individual: há pessoas acamadas aos 60 anos e outras escalando montanhas na mesma idade.

“Muito mais do que o número da idade, o que determina como a gente vive são o estilo de vida, as escolhas e a atenção com a própria saúde”, reforça.

Ela lembra que questões emocionais pesam. O Brasil figura entre os países com mais casos de ansiedade e depressão, e a população idosa não está fora desse quadro. Mudanças rápidas na sociedade, dificuldade de adaptação ao próprio corpo, distanciamento de filhos e netos, sensação de perda de utilidade após a aposentadoria e isolamento social compõem um cenário que exige cuidado com saúde mental, e não apenas com exames físicos.

O recado para quem ainda é jovem

Ao final da conversa, Vitória volta o olhar para quem ainda se considera “longe da velhice”. A mensagem é direta: o futuro do corpo está sendo construído agora. “Não importa se você tem cinco, 10, 50 ou 100 anos, a atenção à própria saúde o quanto antes é melhor”, afirma.

Ela defende que atividade física deve ter o mesmo peso de hábitos óbvios como escovar os dentes e beber água: “O nosso corpo precisa de atividade física e isso não está no nível de querer ou não querer, de gostar ou não gostar”, diz.

Além do movimento, Vitória destaca o cuidado com a alimentação em um ambiente de alta industrialização, agrotóxicos e microplásticos, e propõe um compromisso mais gentil consigo mesmo: priorizar a própria saúde física e mental como condição para cuidar dos outros.

Na síntese que deixa para o público, Vitória resume o “mínimo essencial” para chegar aos 80 anos com boa funcionalidade em três pilares:

Se eu tivesse que escolher uma só coisa, seria a musculação. Mas não tem como deixar de lado o que a gente come e o jeito como a gente gerencia o estresse.”

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Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: quando a brasilidade move o mercado

Brasil

Marcas brasileiras têm ocupado cada vez mais espaço ao adotar referências culturais do próprio país para se comunicar com o público. Uma transformação em relação ao mimetismo que, historicamente, nos fez reproduzir em terras tupuniquins o que se ensinava pelas bandas do Tio Sam. É esse o tema do comentário Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, apresentado por Jaime Troiano e Cecília Russo.

Jaime observa que esse movimento “não se trata de um verde-amarelismo ingênuo”, nem de alinhamento político. Ele descreve um processo mais amplo, construído ao longo do tempo, em que as marcas passaram a reconhecer que durante décadas houve “uma assimetria cultural que povoou nosso marketing e comunicação”. Segundo ele, a influência de grandes multinacionais moldou estilos que não dialogavam com a realidade brasileira. Agora, sinais concretos mostram uma virada: “Quem entra numa loja da Farm sente que está no Brasil ou no Rio de Janeiro em particular”, afirma. Ele cita também a Hering, que incorporou traços da cultura nacional em suas lojas, como exemplo dessa reaproximação.

Cecília amplia a reflexão e lembra episódios recentes quando o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnic, disse que “é preciso consertar o Brasil”. Ela aponta que esse tipo de visão desconsidera caminhos próprios construídos aqui. Em contraste, lista marcas que transformaram identidade brasileira em valor estratégico. A Dengo, no chocolate, reforça vínculos com produtores de cacau. Melissa leva um estilo “urbano, com toques tropicalistas”. No segmento de bebidas, Guaraná Jesus e Cajuína preservam raízes regionais mesmo sob o guarda-chuva de empresas globais. Há ainda casos como a Ypê, que “dialoga de uma forma muito brasileira com as consumidoras”, em um mercado dominado por gigantes internacionais.

Essa escolha não rejeita influências externas; apenas equilibra paisagens culturais. Como resume Jaime, “estamos vendo uma redução da assimetria cultural”, movimento que valoriza o repertório local e amplia a autenticidade da comunicação.

A marca do Sua Marca

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso sustenta a ideia de que marcas brasileiras ganham força quando assumem a própria origem. Cultivar comunicação, produtos e experiências inspirados em referências nacionais cria vínculos mais sólidos com consumidores e reduz a dependência de modelos importados.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Ninguém entende

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

Você escolheu mudar — de casa, cidade, emprego, relacionamento, aparência.
Você emagrece — está demais; você engorda — precisa se controlar.
Quer outra carreira — está enlouquecendo? Vai desperdiçar tudo o que já fez?
Decide dizer não para uma relação — está pensando o quê, que encontrará algo melhor?

Há coisas que ninguém entende. Decisões que ninguém apoia. Atitudes extremamente solitárias.

Pessoas têm seus temperamentos, traumas de vida, experiências prévias — e, a partir desse baú todo, constroem opiniões e conceitos, inclusive sobre “o que é certo e errado”.

Quando se forma um grupo de pessoas que convivem em um espaço, chamamos de sociedade. Surgem opiniões e conceitos do grupo — as regras sociais.

Carrinho de bate-bate: muitas vezes, suas percepções e suas vontades, como indivíduo único que é, baterão de frente com essas regras sociais. Choques e mais choques. Você estará sozinho.

É… ninguém entende. Há coisas suas que ninguém entenderá. E o dilema aparece: eu entendo, mas estou sozinho nessa. O que fazer?

Há momentos que nos exigem coragem. Coragem de reconhecer e assumir nossos desejos e sonhos, apesar de.

Apesar de os outros não gostarem, não concordarem, pontuarem problemas nas suas escolhas e ações.

Não é sobre ser ofensivo ou rebelde. É sobre poder ser você, em toda sua verdadeira e única essência.

Sustentar sua autenticidade tem um preço.
Não sustentá-la tem outro preço.

Ninguém entende.
Você, sim.

A Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Avalanche Tricolor: pela volta às manchetes 

Sport 0x4 Grêmio
Brasileiro – Ilha do Retiro, Recife/PE

Foto de Rafael Vieira/GrêmioFBPA

Os jornais do dia, que insistem em sobreviver na banca do Vilela, na Vicente da Fontoura, ou na do Largo dos Medeiros, mais ao centro de Porto Alegre, vão estampar na manchete principal o livramento do co-irmão. Escapou do rebaixamento na rodada final e teve de contar com o revés dos adversários diretos. Ao Grêmio, com sua vaga garantida na Copa Sul-Americana, restará a segunda dobra da primeira página. Ao Juventude, quiçá uma linha fina. Ao descrever esse cenário, não faço crítica alguma à hierarquia construída pelos editores; fosse eu o responsável pelo jornal, faria o mesmo.

Muitos porto-alegrenses que ainda preservam o ritual da leitura do impresso talvez sigam ao trabalho, nesta segunda-feira, com a camisa do clube. Nós, gremistas, celebrando a goleada que encerrou a temporada — mesmo sabendo da fragilidade do adversário — e o fato de terminarmos o campeonato na primeira página da tabela, com um lugar assegurado em competição sul-americana.

Outros torcedores comemorando como se fosse épico escapar na rodada final, passando 90 minutos de ouvido colado no que acontecia nos estádios alheios. Devem ter chegado em casa aliviados e repetido a velha frase: “time grande não cai”. Esquecem que já caíram, assim como tantos outros.

Não critico editores, tampouco os excessos de paixão. O futebol nos empurra para um território em que todos os sentimentos sobem ao topo da tabela, enquanto a razão amarga uma vaga cativa no banco de reservas.

O fato é que aquilo que testemunhamos no fim desta temporada deveria preocupar quem acompanha o futebol do Rio Grande do Sul. A rivalidade que, durante décadas, nos impulsionou para cima perdeu o fôlego. Ganhar campeonatos estaduais deixou de ser medida de grandeza. Diante do tricampeonato brasileiro do adversário, o Grêmio apontou para horizontes maiores: tornou-se tricampeão da Libertadores, conquistou o mundo. A contratação de um craque de um lado exigia resposta imediata do outro. Um estádio mais moderno chamava outro ainda mais robusto. Era uma disputa que elevava o nível.

Nos últimos anos, e neste em particular, deixamos a ambição escorregar e adotamos a mediocridade como parâmetro. A tabela do Brasileiro e a ausência de clubes gaúchos nas decisões das competições relevantes dizem por si.

O futebol do Rio Grande do Sul não nasceu para ser nota de rodapé. Nesta última Avalanche do ano, deixo o desejo de que voltemos a ocupar a parte mais nobre das manchetes — não pelas circunstâncias, mas pelos feitos.

Conte Sua História de São Paulo: … mas é a minha cidade!

Por Osvaldo Martinez D Andrade

Ouvinte da CBN

Maltratada, cinzenta, com as marquises dos prédios no calçadão do Centro Velho, forradas por papelões, trapos, cobertores e ocupadas por moradores de rua, como único refúgio para se protegerem da chuva, frio, mas é a minha cidade.

Uma cidade que acolhe sonhos ao mesmo tempo que oferece pesadelos, mas é a minha cidade.

Uma cidade que tem um viaduto que não tem chá, mas tem batedores de carteira e de celular e uma rua direita que não é direita, mas é a minha cidade.

Uma cidade que tem a Sé que não é de sede, mas de igreja com sua catedral gótica e bizantina e suas palmeiras imperiais, que chorou pelas diretas já em 1984 e aplaudiu a fuga dos fascistas na revoada dos galinhas verdes, em 1934, mas é a minha cidade.

Uma cidade que prende mais negros do que brancos, mais pobres do que ricos, mais mulheres do que homens, mas é a minha cidade.

Uma cidade que assiste com espanto à terceirização da saúde e educação, numa tabelinha perfeita com o estado incompetente, que aparecem em letras garrafais nas manchetes dos jornais pendurados nos varais das bancas, e na ida para o trabalho dos que ainda têm emprego, diminuem os passos e param para dar uma espiadinha, mas é a minha cidade.

Uma cidade com 6% de desempregados, que assiste ao prefeito e aos nobres vereadores aumentarem a contribuição dos aposentados e não se envergonham de aumentarem ainda mais seus salários, mas é a minha cidade.

Uma cidade que assiste do sofá a um policial jogar um motoqueiro rio abaixo e a polícia em trajes de guerra jogar bombas e mais bombas, distribuir cassetetes e gás de pimenta em homens, mulheres e crianças, que ousam ter o sonho do barraco próprio, serem retirados à força em um dia chuvoso e sem saberem para onde ir, são empurrados para a rua, e quem se opõe e luta contra essa barbaridade são presos, enquanto os ladrões engravatados continuam sorrindo e morando muito bem, mas é a minha cidade.

Uma cidade onde 6 homens têm a mesma riqueza que 100 milhões de brasileiros juntos, mas é a minha cidade.

Uma cidade que tinha o Bar das Putas que não tem mais putas que consola, mas que fica na Consolação, que mudou para Sujinho e não sei mais o nome que se dá e tem o bar Brahma na São João com a Ipiranga, que nos oferece o chopp Brahma, mas é a minha cidade.

Uma cidade que tem o minhocão do Maluf que mudou de nome, mas precisa ser demolido, e que tem pancadão, funk, pagode, sertanejo que agora é universitário, blues e muito Rock and roll, samba e a campeoníssima Rosas de Ouro, meu tricolor do Morumbi, mas é a minha cidade.

Uma cidade que tem a República da Moóca, berço da luta sindical e popular, da  jornada de trabalho de 8 horas, do fim do trabalho infantil, de salário, saúde, educação e moradia digna para todos, da primeira greve geral no Brasil, do presídio Maria Zélia, o presídio político na época de Getúlio Vargas, a Hospedaria dos Imigrantes que recebeu meu Pai e meus Avós que embarcaram num navio em Portugal, atracaram em Santos, subiram a Serra e ali se alojaram, antes de seguirem para São José do Rio Preto (SP), e tem o Juventus vendido para uma SAF – Sociedade Anônima do Futebol, mas é a Minha Cidade.

Essa é  a cidade que me acolheu quando aqui cheguei recém-formado em 1982, para estudar, trabalhar, morar, ter filhos, viver, continuar sonhando, amando e sendo amado, até a vida me levar.

É a minha cidade, a minha São Paulo de 471 anos, a cidade que era da garoa e não tem mais e agora tem tempestades e inundações e um dia espero, seus espaços públicos sejam ocupados pelos que aqui moram, vivem, sonham e trabalham.

É a minha cidade, a melhor, a maior, a capital cultural da América Latina, que tem de tudo e esperamos que um dia seja de todos.

Meus sonhos irão comigo, até meu calendário acabar. Mas sonhos não morrem e vou continuar sonhando trabalhando e me indignando com as injustiças sociais.

Certamente outros haverão de continuar a luta por uma São Paulo igual para todos.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Osvaldo Martinez D Andrade é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: Raphael de Lucca, da Iberia, diz que incerteza regulatória impacta investimento de companhias aéreas

Raphael de Lucca em entrevista online Foto: Priscila Gubiotti/CBN


“O Brasil tem poucas companhias ainda, tem um potencial de ter mais companhias trabalhando no Brasil e esse ambiente de insegurança acaba afastando em alguns momentos esses investimentos.”
Raphael de Lucca, Iberia

A expansão das rotas internacionais e o aumento de conexões aéreas passam por um obstáculo central no Brasil: as incertezas regulatórias. Projetos sobre cobrança de bagagens, disputas judiciais frequentes e decisões que fogem do escopo técnico da aviação vêm afetando custos, planejamento e o interesse de empresas estrangeiras em ampliar suas operações no país. A despeito deste cenário, Raphael de Lucca, gerente regional da Iberia no Brasil, entrevistado do Mundo Corporativo, da CBN, diz que enxerga enormes oportunidades para a companhia área espanhola no Brasil.

Regulação técnica e intervenções legislativas

De Lucca afirma que o ambiente regulatório brasileiro se tornou um desafio constante para companhias que operam rotas internacionais. Ele cita, em especial, as discussões no Congresso sobre obrigar empresas a incluírem bagagem despachada e marcação de assento na passagem. “Estamos vivendo uma (discussão) agora que é a Câmara dos Deputados querendo legislar sobre a inclusão de bagagem cortesia e marcação de assento, o que no nosso ponto de vista é uma ameaça até ao livre-mercado”, afirma.

O executivo reforça que a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) já possui autoridade técnica para criar regras de tarifa e flexibilizar produtos. “Não é papel do poder legislativo legislar sobre produtos. Isso a ANAC poderia fazer e a ANAC já tem dado autorização para que nós tenhamos produtos mais flexíveis”, diz.

Ele exemplifica com a própria experiência como passageiro. Em viagens curtas, sem necessidade de bagagem, a tarifa menor atende melhor o consumidor. “Eu mesmo posso ir para Madri passar apenas dois dias sozinho e eventualmente eu não preciso levar bagagem. Eu mesmo não levo. Então, para que eu vou precisar comprar uma passagem que já me inclua? Porque, óbvio, esse custo estará lá.”

Além da instabilidade regulatória, De Lucca destaca o peso da judicialização no setor — processos que responsabilizam companhias por situações alheias ao controle operacional. “A companhia aérea é penalizada, às vezes, por efeitos de natureza”, afirma. Ele menciona casos em que empresas foram condenadas por atrasos provocados por mau tempo, situações em que o pouso é tecnicamente inviável.

Segundo ele, esse cenário cria insegurança e desestimula investimentos. “O Brasil tem poucas companhias ainda, tem um potencial de ter mais companhias trabalhando no Brasil e esse ambiente de insegurança acaba afastando em alguns momentos esses investimentos.”

Estratégia de expansão da Iberia

Após tratar dos entraves regulatórios, Raphael de Lucca descreve o movimento de expansão da Iberia no Brasil. A companhia encerra 2025 com o maior número de assentos da sua história no país e mira nova ampliação em 2026.

O plano inclui duas novas rotas diretas para Madri, saindo de Recife e Fortaleza. As operações começam com três voos semanais em cada cidade.

Segundo o executivo, o interesse no Nordeste combina potencial turístico e demanda crescente do passageiro europeu. “O nosso grande objetivo não é só conectar o passageiro brasileiro à Europa, mas também o passageiro europeu ao Brasil. O Nordeste ganha um protagonismo muito interessante”, afirma.

A troca de aeronaves e o que muda para o passageiro

A operação dessas rotas será feita com o Airbus A321 XLR, aeronave de corredor único — o que o setor chama de narrow body —, mas configurada para oferecer o mesmo padrão de conforto dos aviões maiores usados em São Paulo e Rio. De Lucca explica: “Ela é uma aeronave de um corredor só, com capacidade para 182 passageiros. Mantivemos a mesma qualidade que o passageiro encontra em aviões de fuselagem larga, com dois corredores.”

Esses aviões de dois corredores são conhecidos como wide body. A escolha do A321 XLR permite voos mais frequentes, com menor número de passageiros por trecho, e custo operacional mais baixo. Segundo ele, essa eficiência ajuda a manter tarifas mais competitivas.

A expansão tem outro pilar: o uso de Madri como hub, termo que designa um aeroporto-base para distribuição de voos. A Iberia conecta o Brasil a mais de cem destinos europeus a partir da capital espanhola.

Um recurso utilizado para fortalecer essa conexão é o stopover — a possibilidade de o passageiro permanecer alguns dias na cidade de conexão antes de seguir viagem. “A gente tem um programa de stopover de até 9 dias, com benefícios em museus, transporte e hotéis”, explica o gerente regional.

O perfil do turista brasileiro

Raphael de Lucca descreve o passageiro brasileiro como alguém que busca novos destinos e tem altos padrões de expectativa. “O turista brasileiro é muito exigente”, resume. Isso inclui detalhes como cardápios, anúncios e atendimento em português — prática que a Iberia já adota.

Outra peça central na estratégia comercial é o agente de viagens, que deixa de ser apenas vendedor para assumir o papel de consultor. “Ele entender toda essa demanda e criar oportunidades para o passageiro”, diz o executivo. A empresa mantém oito profissionais dedicados a esse relacionamento no Brasil.

A Iberia tem investido em produtos específicos para empresas de diferentes portes e vê no segmento corporativo um motor importante. Parte desse esforço é oferecer conexão de alta velocidade durante o voo. “Nós acabamos de fechar para ter internet de altíssima velocidade em todos os nossos aviões já no próximo ano”, afirma, destacando que o serviço será gratuito até o fim de 2026. Para destinos como Madri, com viagens de dez a onze horas, esse recurso se torna decisivo: “O passageiro corporativo precisa estar conectado.”

Prioridades e novas oportunidades no Brasil

Para os próximos três anos, o foco é consolidar as novas rotas do Nordeste e avaliar a entrada em uma quinta cidade brasileira. Ainda não há definição, mas o mapa de possibilidades existe. O executivo afirma que a decisão vai depender da estabilização da operação em Recife e Fortaleza e da leitura da demanda.

Ele também incentiva os profissionais do turismo a explorarem as oportunidades do setor. “O principal do turismo é a conexão entre pessoas, de culturas distintas”, afirma. Segundo ele, essa convivência é um dos grandes atrativos da carreira. “É um segmento que cresce muito, não só no Brasil, mas na economia global e abre-se muitas oportunidades de crescimento profissional.”

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves, Priscila Gubiotti e Letícia Valente.

Avalanche Tricolor: essas mal traçadas linhas

Grêmio 1×2 Fluminense
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Era para sair de campo com os três pontos, manter viva a fantasia da Libertadores e encerrar a temporada ao lado do torcedor com algum alento. Talvez até encontrar uma trégua nessa relação instável, cheia de tropeços, que sustentamos com o futebol gremista ao longo do ano. Uma vitória ajudaria a apagar, ainda que por alguns instantes, os reveses causados por nossas próprias falhas, pelos azares que cruzaram o caminho e pelas arbitragens que nos tomaram pontos valiosos — especialmente, embora não exclusivamente, neste Campeonato Brasileiro.

Acreditava, com uma boa dose de teimosia, que esta Avalanche — escrita tarde da noite, para desespero de quem madruga — pudesse trazer linhas firmes, bem desenhadas, celebrando o renascimento de um time e a promessa de um ano novo mais generoso. A temporada, porém, insiste em esfregar no rosto a realidade que temos evitado encarar. E ironicamente me faz lembrar Lulu Santos, como aquele amigo que aparece na hora errada com uma verdade desconfortável: “nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia”. Sigo acreditando que será, sim. Só não será agora.

O Grêmio mostrou lampejos de um futebol mais organizado na segunda metade do campeonato. Redescobriu o talento impressionante de Arthur, que precisa ser mantido no elenco se quisermos, em 2026, voltar a ser competitivos. Encontrou também um centroavante eficiente, Carlos Vinícius, cuja ausência por suspensão pesou demais neste jogo.

Há outros jogadores que, recuperados fisicamente, podem contribuir nas competições que começam já em janeiro. E existe a expectativa — sempre ela — de contratações capazes de elevar o nível do time e do grupo.

O placar desta noite, no entanto, praticamente fechou a porta por onde ainda passava uma réstia de sonho: uma combinação improvável de resultados até a última rodada que nos levasse a Liberadores, esperança demais para quem produziu de menos ao longo do ano. A atuação, hoje, nem foi ruim, embora tenhamos sucumbido a um adversário mais consistente na temporada. E ainda apareceram os acasos, sempre prontos para cumprir seu papel de protagonistas — como aquelas mal traçadas linhas que validaram o primeiro gol do Fluminense.

De minha parte, quem sou eu para julgá-las? Se já me vejo às voltas com a dificuldade de desenhar melhor as próprias linhas desta Avalanche, imagine querer analisar as linhas traçadas pelo VAR.