Publicidade do mandato não é proganda eleitoral

 

Por Antonio Augusto Mayer dos Santos

Vive-se num país democrático cuja regra básica para as atividades públicas está na transparência dos atos das autoridades. Por outra, é necessário enfatizar que os políticos, com ou sem mandato, não são iguais. Na condição de mandatários e sob uma perspectiva de distinção, tem não apenas o direito mas efetivo dever de prestar contas das suas atividades parlamentares e de suas ações políticas.

De acordo com a legislação eleitoral, especialmente com a Lei nº 12.034/09, os parlamentares no exercício do mandato podem divulgar os seus atos públicos sem que isto caracterize propaganda antecipada ou alguma espécie de abuso, desde que não se mencione a possível candidatura ou se faça pedido de votos ou de apoio eleitoral.

Neste cenário, a modalidade mais difundida é dos boletins impressos de atuação parlamentar. Se o informativo, ainda que ilustrado com fotografias, charges e declarações de terceiros não faz nenhuma referência sobre o pleito que se anuncia, se não menciona candidatura, propostas e não faz apologia do voto, requisitos indispensáveis à caracterização da propaganda eleitoral, não há que se falar em punição. Também a manutenção de site pessoal ou institucional hospedado no endereço eletrônico da Casa Legislativa contendo o currículo do mandatário federal, estadual ou municipal, não caracteriza propaganda vedada.

É que segundo várias decisões do Tribunal Superior Eleitoral, órgão judicial que interpreta e define esta matéria, “entende-se como ato de propaganda eleitoral aquele que leva ao conhecimento geral, embora de forma dissimulada, a candidatura, mesmo apenas postulada, e a ação política que se pretende desenvolver ou razões que induzam a concluir que o beneficiário é o mais apto ao exercício de função pública. Sem tais características, poderá haver mera promoção pessoal – apta, em determinadas circunstâncias, a configurar abuso de poder econômico – mas não propaganda eleitoral”.

Por outra, é incontroverso que ao divulgar as suas atividades, projetos apresentados, audiências públicas, etc, o parlamentar está se promovendo pessoalmente. Mais: é evidente que a propagação de seus trabalhos e atuação estão diretamente ligados a sua pessoa. Portanto, é inexorável ocorrer a projeção do protagonista. Contudo, não há que se confundir propaganda pessoal com propaganda eleitoral.

Se a um ângulo o tema é sutil e pode gerar polêmicas e mesmo processo, a outro existe um direito garantido de divulgação. Somente a análise das peças confeccionadas é que permitirá se concluir pela eventual ilicitude ou desvio de finalidade da publicidade.

Ainda que possa haver dificuldade de entendimento ou mesmo de aceitação por parte de alguns segmentos acerca deste singular permissivo, o próprio TSE já reconheceu que “Há uma distinção fundamental entre alguém que é deputado e concorre à reeleição e alguém que não tem notícia a dar porque não é deputado (…). São situações distintas, decorrentes do processo democrático. Ou seja: um parlamentar que desenvolveu um trabalho, bem ou mal, dentro da Câmara dos Deputados (…) noticia esses trabalhos, isso tem conseqüências eleitorais, nós sabemos, mas é parte do jogo, porque é uma maneira de informar o eleitor”.

Para concluir, transcreve-se uma breve consideração do Ministro Gilmar Mendes lançada num voto que proferiu junto ao TSE: “Um político que não possa dizer que está engajado em uma determinada atividade ou que defende certas idéias, sem dúvida, não é digno dessa atividade”.

Em síntese: a divulgação do mandato, observadas e obedecidas as limitações legais em vigor, é um procedimento lícito e elogiável que corresponde a uma modalidade de prestação de contas.

Antônio Augusto Mayer dos Santos é advogado especialista em direito eleitoral, e autor do livro “Reforma Política – inércia e controvérsias” (Editora Age). Às segundas, escreve no Blog do Mílton Jung dando publicidade as regras do jogo político

Foto-ouvinte: Amor ou ódio ?

 

Monumento às Bandeiras e o público

Escalar até o ponto mais alto do Monumento às Bandeiras e se divertir com a família. Cena comum na obra construída por Victor Brecheret instalada diante do Parque do Ibirapuera que causa diferentes sentimentos. O autor da imagem, o ouvinte-internauta e motorista de táxi Davi Francisco da Silva, se incomoda com este comportamento. Enxerga desrespeito e vandalismo onde outros veem uma forma de intervenção urbana.

Como você analisa este comportamento ?

ONG vai divulgar voto de vereador sobre IPTU

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IPTU Imagem do site da prefeitura de SPA Sociedade de Amigos e Moradores de Cerqueira César (Samorcc) anuncia que vai acompanhar e divulgar o voto dos vereadores paulistanos no projeto do prefeito Gilberto Kassab (DEM) que aumenta o IPTU em até 60%, em 2010. A entidade que atua na região dos Jardins e Consolação teve forte atuação nos protestos contra a construção do corredor de ônibus na avenida Rebouças durante o governo Marta Suplicy (PT) e agora se mobiliza para impedir o reajuste no valor do imposto.

Leia a nota de repúdio a proposta da prefeitura de São Paulo que está em discussão na Câmara Municipal:

A SAMORCC, atendendo a solicitação de moradores da região de Jardins e Consolação – SP., manifesta através do presente, seu repúdio e descontentamento geral, em razão da proposta feita pelo Sr. Prefeito, para aumento do valor de IPTU, ressaltando que:

– Não tivemos aumento salarial ou de aposentadoria com a proporção proposta;

– Não tivemos o lucro empresarial em tal proporção;

– Não tivemos nem teremos qualquer benefício ou bolsa para auxiliar em nosso orçamento, já justo;

– Não temos qualquer perspectiva de lucro fácil ou comissões;

– Não tivemos vantagens econômicas com os serviços prestados pela Municipalidade, ao revés, nossas ruas estão esburacadas; nossas árvores sob risco; nossos bueiros entupidos, nossas ruas lotadas de lixo; nossas ruas escuras; nossos problemas urbanísticos e de incomodidades aumentaram;

– Não nos sentimos seguros ao ir e vir; não temos mobilidade urbana, não temos transporte público de qualidade, estamos bloqueados no trânsito e trancados em nossas casas, por falta de segurança segurança pública;

As únicas coisas que aumentaram, e muito, foi a publicidade do governo, em rádio, TV e jornais e o número de moradores de rua.

Já pagamos altas somas e não podemos permitir aumento do IPTU ou de qualquer outro tributo, superior à atualização monetária.

* Acompanharemos a votação de cada um dos Vereadores, divulgando à população o nome daquele que votou contra a sociedade paulistana e à favor do escandaloso aumento de imposto!

Pela NÃO APROVAÇÃO DA LEI PROPOSTA DE AUMENTO DO IPTU na proporção desejada!!!!

SAMORCC – SOCIEDADE AMIGOS MORADORES DE CERQUEIRA CÉSAR (Jardins e Consolação).

Vereador leva 2 meses para responder e-mail

 

adoteForam quase dois meses de espera, até que o vereador Francisco Chagas (PT) decidiu responder há algumas das questões apresentadas pelos irmãos Ana e Victor Fisch que mantém blog “Adotei Francisco Chagas!” para monitorar, fiscalizar e controlar o mandato do petista, na capital paulista. Eram questões que tratavam do comportamento do partido no cenário nacional e o do parlamentar no legislativo.

“Não tenho identificado sua presença muito ativa na Câmara no último mês”, escreveu em uma das perguntas Ana Fisch no e-mail enviado ao gabinete do vereador. Foi a oportunidade para que Chagas desfiasse uma série de ações que considera serem importantes e de autoria dele.

Trago este fato para mostrar a você que o cidadão tem o direito de cobrar dos parlamentares posições sobre os mais diferentes assuntos e que mesmo com a dificuldade imposta por alguns desses políticos, algumas vezes se tem sucesso. Há casos de vereadores/vereadoras que seguem se escondendo no gabinete, mas isto não pode ser motivo para que o eleitor se cale. Pelo contrário, use seu blog para denunciar este descaso e se lembre que pela internet ou com o acompanhamento do noticiário é possível encontrar informações sobre o vereador adotado.

Caso tenha interesse, leia as respostas enviadas pelo vereador Francisco Chagas (PT).

ONG que fiscaliza políticos pode fechar

 

A informação é de reportagem da jornalista Tatiana Conceição, publicada no jornal Diário do Grande ABC e se refere a ONG Politicus(e-mail: jornalista@politicus.org.br), mantida por dois irmãos, que tem como meta cobrar de parlamentares a opinião deles sobre diferentes temas. A ação facilita o acesso do cidadão com o político.

Há alguns anos entrevistei Hamilton e Ailton Tenório, no CBN São Paulo, curioso que estava sobre o trabalho que realizavam, a partir de sua “base” em São Caetano. Nosso contato ocorreu durante muito tempo por e-mail com troca de informações sobre os dados que levantavam. Por isso, me surpreende a notícia de que uma ideia séria como a deles tenha dificuldade para seguir em frente por falta de apoio.

Para conhecerem a ONG Politicus, reproduzo aqui trecho da reportagem do Diário:

“A ONG (Organização Não Governamental) Politicus, que se dedica a ajudar as pessoas a fazer contato com seus políticos, pode fechar daqui a alguns meses por falta de apoio, segundo Hamilton Tenório da Silva, 50 anos, microempresário, que mantém a entidade sem fins lucrativos junto com seu irmão, Ailton Tenório, 45, fotógrafo profissional.

Segundo Hamilton, a Politicus, que foi registrada como Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), surgiu no ano de 2000, em São Caetano. Na ocasião, a dupla pensou em fazer alguma coisa em prol dos seus filhos, sem precisar entrar na política tradicional.

O trabalho dos irmãos funciona da seguinte forma: eles selecionam um tema da atualidade para discussão e, a partir deste assunto, é divulgado um texto para os leitores cadastrados no site da Politicus, convidando-os a se manifestarem.

As manifestações são enviadas aos parlamentares, sem que o e-mail dos usuários cadastrados seja divulgado. As respostas dos políticos retornam para o sistema criado pela dupla, que depois redistribui as mensagens aos usuários.

Leia a reportagem completa aqui.

De linhas de fuga

 


Por Maria Lucia Solla

Ouça o texto De linhas de fuga na voz da autora

Vida e horizonte

Eu já tinha um assunto arquitetado para conversar com você, hoje. Ia falar da atitude de superioridade que muitas pessoas portam, como traje de gala, para circularem pela vida. Mas algo aconteceu, e decidi mudar o foco.

Mais uma criança morreu, esquecida no carro.

Sua idade não importa aqui. O local e o nome dos pais tampouco. O que grita é o modelo de vida que escolhemos, e que nos prende em suas teias e se alimenta de nós e de tudo e todos que amamos.

Crescemos nos preparando para a Vida, e nos preparamos tanto, e tão bem, que acabamos não tendo tempo de viver. Vida acaba sendo um sonho perseguido, mas raras vezes realizado.

Vida é vista como algo que está para chegar
para que a gente possa participar

E é lá que fica estacionada nossa atenção. Longe de nós, longe da vida de verdade. A que está acontecendo aqui, e da qual fazemos parte.

alô
é preciso prestar atenção
Vida não é só a que passa na televisão

Quando eu terminar este curso… quando tiver mais dinheiro, um carro… se ele me amasse… se eu pudesse… se eu fosse mais alto, mais baixo, mais gordo, mais magro, mais bonito, mais feio… mais rico, mais pobre… quando eu chegar lá… quando sair de lá…

é um eterno ensaiar
sem nunca no palco pisar
é uma lista interminável de sonhos
desculpa atrás de desculpa
de medo de participar

Objetivos são necessários, é claro. São pontos no futuro para onde dirigimos nossas linhas de fuga. Agora, é preciso esclarecer que linha de fuga não é roteiro de escape, mas um mapa para não perdermos a perspectiva. É a partir delas, das linhas de fuga, que desenhamos projetos e elencamos o que é preciso para a sua realização.

Tem mais, objetivo e plano de vida podem ser tão perigosos quanto úteis…

como a faca, o remédio, o amor
me prove o contrário você
se puder
por favor

Ouço aqui e ali, e certamente você também já ouviu, a frase: Quando me aposentar, vou morar na praia e começar a viver.

É triste. Muito triste.

E você, o que pensa disso?

Se não pensou ainda, pense; ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira, ministra curso de comunicação e expressão e escreve no Blog do Mílton Jung aos domingos. Ou seja, é protagonista desta Vida há muito tempo.

Morador de rua pede estátua de Zumbi

 

Por Devanir Amâncio
ONG Educa SP

Mãe preta 1

Ela não é santa, mas é venerada pelo povo simples. Ganha flores, velas, terços, moeda, e quase sempre, despacho de macumba. Dona Gilda, de 76 anos, depois de ter ido à igreja, toca a estátua da Mãe Preta e pede: “Me ajuda minha Mãe!” Quem não soube dizer o que fazia em cima da estátua, nesta quinta-feira, 19, no Largo do Paissandú, Centro, foi o morador de Rua Antonio de Categeró, que gosta de ser chamado de Negrão, apelido que ganhou na Vai-Vai. O sem-teto afirma ser um legítimo descendente de escravos, e protestou contra o fechamento da igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos no dia da Consciência Negra. Negrão, há muito tempo tem uma ideia: colocar no Largo do Paissandú uma estátua gigante de Zumbi dos Palmares, ao lado da Mãe Preta. “Mas tem que explicar direitinho, senão o povo vai continuar confundindo tudo, já existe a maior política aqui na praça entre a mãezinha (Mãe Preta) e a santinha” (Nossa Senhora dos Homens Pretos), disse Negrão.

Conte Sua História de São Paulo: Hoje eu vi um menino

 

Por Erony Marcellino
Ouvinte-internauta

Ouça o texto “Hoje eu vi um menino”, sonorizado por Cláudio Antoniop

Hoje eu vi um menino sozinho brincando na rua. Não deveria ter mais do que quatro anos.

O menino, lindo, estava sujo, imundo, nariz escorrendo, pés descalços, usava roupas maiores do que o seu magro corpo.

Hoje eu vi um menino brincando com o lixo jogado sobre a calçada numa rua localizada na zona “nobre”, ou “jardins”, na Capital de São Paulo.

Hoje senti bem de perto o quanto o abandono pode destruir um pequeno e indefeso ser humano.

Perguntei seu nome. Ele respondeu com naturalidade: “Não tenho nome”.

Insisti e falei, todos os meninos tem nome. A frágil criaturinha respondeu com voz de quase bebê:

“Minha mãe me chama de peste”.

Engoli em seco e perguntei: “Quer que eu brinque com você?”

Ele levantou os olhos por um instante e respondeu:”Sim”

Perguntei o que ele queria que eu fizesse. Pediu que o ajudasse a colocar um cone de papelão dentro do outro – muitos deles estavam misturados a outras espécies de lixo descartável. Em nenhum momento sorriu.

Passei algum tempo com o garotinho fazendo de conta que aquela brincadeira era muito interessante para mim.

E era. E foi. E será.

Hoje eu vi um lindo menino abandonado e sujo numa rua que não fica na periferia.

Hoje brinquei, com o coração machucado, com um menino que aprendeu a repetir que seu nome é “peste”.

Quando ele se afastou e foi procurar outra brincadeira, como faz qualquer criança de sua idade, me senti abandonada.

Perdi o rumo.

Hoje brinquei na calçada apoiando cones de papelão para valorizar um menino que desconhece seu nome.

Parada na calçada pensei, dentro de alguns minutos será noite: onde irá se abrigar o menino sem nome que tem como referência de identidade uma mãe que o chama de “peste”?

Neste bairro chamado “jardins”, nesta cidade denominada capital financeira de um país chamado Brasil, conheci um dos muitos brasileirinhos reféns da mais absoluta miséria física e moral.

Hoje eu vi um menino condenado pelo crime de ter nascido!

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. Participe enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br.

Foto-ouvinte: O Centro respira arte

 

Um centro vivo, tomado pelas cores do espetáculo “Os Estrangeiros” e pela criatividade dos brasileiros Os Gêmeos e dos franceses do Plasticiens Volans. Estas imagens, feitas nos dias 13 e 14 de novembro, no Vale do Anhangabau, em São Paulo, animaram os ouvintes-internautas Marcos Paulo Dias e Luis Fernando Gallo. Satisfeitos e acreditando em um dia ver o coração paulistano renovado, compartilham com os leitores do Blog do Mílton Jung alguns dos momentos que gostariam fossem permanentes.

A lição da Dona Anna do fusca

 

anavariani

Texto reproduzido do Blog MacFuca, com o título “Deus tem fuca, sim, só precisava de uma motorista”, assinado por Christian Jung:

Segunda-feira em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, partiu do convívio de todos a Dona Anna Variani com seus 98 anos. Conhecida como a “Vovó do Fuca” e por toda a comunidade devido sua atuação no Lar do Ancião e na Sociedade Beneficiente Santo Antônio.

Ano passado, com 97 anos, renovou sua carteira de habilitação e era inseparável do seu Fuquinha Laranja. Parou de dirigir no último ano por insistência da família.

Tive o prazer de com o meu trabalho de mestre-de-cerimônia conduzir a solenidade de entrega do Troféu Ana Terra, em março de 2008, na qual Dona Anna foi a oradora de uma turma de 25 mulheres. Pequena de tal jeito que o pedestal do microfone não baixava mais para alcançá-la, falou por um bom tempo prendendo a atenção de todos que calados assistiam ao que não era somente um discurso mas, sim, uma lição de vida, provando mais uma vez que o tamanho das pessoas não tem ligação nenhuma com a grandeza de sua dignidade.

Vai Dona Anna, descansa em paz e tenha a certeza de que a lição que nos deixa é a que a senhora nos ensinou em “segredo” revelado para a jornalista Ieda Beltrão, do Blog Mel e Girassóis:

“Você precisa saber de uma coisa: o segredo da vida é sorrir”.

Conheça a história de Dona Anna em entrevista a Jô Soares