Por Maria Lucia Solla
Olá,
Chego à conclusão de que, apesar de vivermos neste planeta há milhares de anos (falam em milhões, mas meu cérebro não alcança), nunca deixamos de ser uma raça de crianças mal criadas, em todos os sentidos, mimadas e birrentas, que não enxerga um palmo além do próprio umbigo. Uma raça que não cresceu. É só olhar em volta, ou no espelho, para constatar. Somos uma raça que se arrebenta, se corta, se enxerta, se pica, se mutila, vende literalmente a alma ao diabo, para lutar contra o desenvolvimento natural do corpo e contra o amadurecimento da essência, da alma, do espírito, do seu eu mais profundo, ou como queira chamar.
Somos uma raça egóica, que não aceita brincar se não ditar as próprias regras, e se não sair ganhando. Uma raça que acredita que os fins justificam os meios, e que agride com atitudes, gestos, palavras, tapas, surras, facadas e tiros, à mínima frustração. As agressões só diferem na diversidade das técnicas empregadas e das feridas aparentes. Somos uma raça infantil que brinca de gente grande fazendo de conta que é príncipe encantado, bruxa malvada, ali babá, peter pan, cinderela, marquês de sade, madrasta, lobo malvado, batman, robin, e o rei nu. Brincamos de fazer guerras e guerrilhas com gente de verdade, que morre de verdade, por Deus e pelo Diabo. Somos uma raça que não cria; basicamente procria. Uma raça que vive e revive o passado para não enxergar o presente, e ainda não sabe por que é que morre de medo do futuro. Uma raça que se corrompe de dentro para fora, e que já está purgando. Enganamos, chantageamos, roubamos e matamos. Sozinhos, em pequenos grupos, ou em bandos irrefreáveis.
Agora, o planeta Terra, que é hoje isso que a gente vê por aí, já foi sede do Paraíso. Era aqui mesmo, neste chão que pisamos; você e eu. Sei disso porque já fui além dos limites da cidade grande e dos relacionamentos pequenos, e vi pedaços dele, que sobreviveram até nós. Praticamente intocados.
Lá no início dos tempos, quando já havia conchavos e corrupção, cavamos nossa expulsão do Jardim do Éden por uma simples maçã, e pusemos a culpa no Criador. Depois, mal pusemos os pés na rua, começamos a construir o Inferno maior e melhor de todo o Universo e de todas as galáxias e nebulosas juntas. Uma das características da nossa raça. Logo depois do conchavo, da desobediência e da expulsão, passamos a procriar, desrespeitar pais e matar irmãos. Confesso que conheço muito pouco da Bíblia. Um salmo aqui outro ali não conta, mas ela fala de nós, não fala? Não é que fale de um povo longínquo do passado ou do futuro, e nem de personagens de um filme americano do século passado. Nossos pecados, alegrias e tristezas, ainda são os mesmos. Era após Era, são exatamente os mesmos. Muda só o cenário.
Atenção! Essa gente toda no jornal e na televisão somos nós. Você, eu, nossos filhos, netos, a parentada toda. Faço coro com a jornalista Eliane Cantanhêde: Salvattore Cacciola! Sinta-se em casa.
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.
Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro De bem com a vida mesmo que doa, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.



