Avalanche Tricolor: O passe, esse danado

 


Grêmio 4 x 0 Atlético PR
Brasileiro – Olímpico Monumental

Era guri ainda e sonhava em jogar futebol. Com acesso facilitado no gramado principal do Olímpico, assistia a quase todos os treinos dos profissionais. Ficava por ali pensando como seria legal um dia correr atrás da bola, marcar, driblar e fazer gols. Em meio a este deslumbre, ao fim de um treino, ao lado de meu pai, ouvia a conversa dele com o técnico Telê Santana. O “mestre”, ao me ver por ali, jogou a bola em minha direção e me desafiou: “vamos ver se você joga mesmo”. Pensei que ele iria pedir para fazer embaixadinhas, testar um drible ou coisa parecida. Telê pediu apenas para eu passar a bola com o lado de dentro do pé. Foram três, quatro, talvez cinco trocas de passe, até que, entusiasmado, resolvi mostrar minha habilidade, virei a perna para dentro, contorci o corpo e bati de três dedos. A bola foi até Telê, mas antes de chegar nela já dava para ouvir a minha primeira e última grande bronca de um monstro do futebol: “Esse é o problema de todos vocês, ainda nem aprenderam a passar a bola e já querem inventar”.

É de pé em pé que o futebol é bem jogado. Com a bola precisa, encontra-se o colega mais bem posicionado, facilita-se o deslocamento dos companheiros em campo, abre-se a defesa e se evita a pressão do adversário. O passe é o fundamento essencial, e dele surgem os grandes lances, os chutes a gol e, às vezes, a goleada como na tarde deste domingo. Foi assim no primeiro gol em jogada que saiu da defesa teve o toque rápido entre Escudero, André Lima, Douglas e Escudero, novamente. Foi assim no segundo, com André Lima, Marquinhos, Escudero e André Lima voltando a aparecer lá na frente, após uma movimentação veloz de todo o time. O terceiro, com um chute de fora da área, e o quarto, o do pênalti, foram resultado desta mesma agilidade.

Fazia tempo que não éramos capazes de jogar com a tranquilidade oferecida pelo placar. Que não assistíamos a um jogo sem o risco do revés ou o medo de um desastre. E, deixando de lado a fragilidade do oponente, não tenho dúvidas de que esta sensação só se tornou realidade graças ao passe. Este danado que me fez perder a chance de ganhar um elogio eterno do mestre Telê Santana.

Avalanche Tricolor: É sempre especial

 

Corinthians 3 x 2 Grêmio
Brasileiro – Pacaembu


Falei com você, caro e raro leitor, por mais de uma vez, sobre a importância do Gre-Nal na emoção do torcedor. Uma vitória, como aquela do fim de semana passado, anima qualquer um. Um resultado negativo (deixe-me bater três vezes no tampo da mesa, antes de continuar escrevendo) leva muita gente, lá no Rio Grande do Sul, a ficar em casa no dia seguinte. É melhor desligar o celular e não ler o jornal de esportes. Desde que deixei Porto Alegre, em 1991, a distância do clássico e a probabilidade menor de se deparar com um torcedor colorado na rua ou na redação trazem um certo alívio. Em compensação, novas rivalidades surgiram no meu dia a dia. E a com Corinthians é, sem dúvida, a maior delas. Seja pelo histórico dos dois times, que têm DNA parecido, acostumados a grandes reações e performances heróicas (as tais raça e determinação); seja pelo fato de ambos terem disputados finais memoráveis como aquele que deu o título de campeão da Copa do Brasil, para o Grêmio, em 2001; seja pela quantidade de colegas e amigos corinthianos.

O dia seguinte de uma partida contra o Corinthians é especial, para o bem ou para o mal. Haverá sempre um ouvinte disposto a brincar (alguns não sabem fazer isso de maneira bem humorada, infelizmente) ou um colega pronto para falar – nem sempre estão lá quando têm de ouvir. Por isso, essa quinta-feira vai ser daquelas, apesar de tudo que ocorreu em campo, e me refiro aqui às injustiças cometidas pelo árbitro, muito mais por fraqueza do que por malvadeza. Nenhuma justificativa convencerá o vencedor de que houve equilíbrio de forças em campo e a vitória ocorreu por uma interferência indevida. É do futebol. É dos torcedores do futebol.

Independentemente disso, cabe ao gremista, nesta hora, além da humildade para reconhecer que houve um vencedor (e o que mostra o placar), a tranquilidade de que aos poucos o time volta a jogar bola, mesmo com suas várias carências, em especial no ataque. E admitir que não se pode querer tudo. No domingo, já ganhamos o Gre-Nal, em Porto Alegre. O que pode ser melhor do que isso, mesmo quando se vive em São Paulo e se está rodeado de amigos corinthianos?

A foto deste post é do site Gremio.Net

Avalanche Tricolor: Vitória com a magia do Gre-Nal

 

Grêmio 2 x 1 Inter
Brasileiro – Olímpico Monumental

Da magia do Gre-Nal conversamos muitas vezes nesta Avalanche. O clássico influencia o ânimo dos gaúchos, distorce a realidade e contorce nossas emoções. Os dias que o antecedem são especiais e, portanto, tensos. Mesmo na distância da terra natal não há como esconder uma apreensão pelo que haverá de acontecer em campo. Lá na rádio, no e-mail do ouvinte e na conversa com os amigos sempre terá alguém pronto para um comentário provocador, uma brincadeira. Faz parte do jogo. Sexta-feira, foi meu colega Juca Kfouri que, no Momento do Esporte, do Jornal da CBN, colocou em dúvida meu bom humor após a rodada de clássicos deste fim de semana.

Ele, assim como a maioria dos comentaristas de futebol (e me refiro aqui a todos aqueles que mesmo sem carteira assinada assumem este papel, no Brasil), falava do alto de seu conhecimento sobre a superioridade do adversário, influenciado, também, pelo que o Tricolor vinha apresentando até aqui no Brasileiro. Tinha razão, não fosse a magia do Gre-Nal sobre os ânimos e mentes de seus protagonistas.

O Grêmio jogou como nunca havia feito neste Campeonato. Arrisco escrever: em toda esta temporada. E Celso Roth teve mérito ao redescobrir Escudero, aceitar Douglas e Marquinhos no mesmo time e investir nas aventuras de Mário Fernandes. Mais do que na escalação, mexeu na disposição de sua equipe tornando-a gigante em campo com uma marcação que eliminou o futebol do adversário. Ao contrário do que muitos costumam lhe acusar, não foi retranqueiro. Foi ousado. E pôs o time no ataque com a chegada de laterais e meias em alta velocidade. Até o (ruim) juiz da partida ficou tonto, incapaz de enxergar dois pênaltis.

Tivemos de chegar até aqui, sofrendo o que sofremos, até a última rodada do primeiro turno do Campeonato Brasileiro para descobrir que é possível jogar futebol com este elenco, apesar da carência de nossos centro-avantes. Foi preciso a energia emada pelo Gre-Nal para mexer em nosso brio e renovar a esperança pela vitória, com uma atuação que me fez lembrar o que escreveu o gremista Érico Veríssimo: “A vida começa todos os dias”. A nossa recomeçou neste domingo.

A foto deste post é do site Ducker.com.br

Avalanche Tricolor: Tem de decolar

 

Atlético GO 1 x 0 Grêmio
Brasileiro – Serra Dourada (G)




Dentre os caros e raros leitores deste blog, um ou dois devem ter percebido a ausência desta Avalanche, que costuma ser publicada ao fim de cada partida, desde 2008. Meu silêncio desde o fim da tarde de domingo, ao contrário do que a maioria possa imaginar, não se deve ao desempenho e resultado – este consequência daquele – na penúltima rodada do Campeonato Brasileiro, véspera de um clássico. Estive fora de São Paulo no fim de semana e meu retorno, coincidência apenas, se deu na hora da partida. Como se sabe, nos aeroportos temos outras preocupações. O de Salvador, que leva o nome de Luis Eduardo Magalhães, de família com tradição na prática política, não se difere dos demais. A agilidade que a empresa área tenta oferecer com equipamentos eletrônicos para check-in nos leva rapidamente para uma enorme fila onde teremos de, pacientemente, esperar os trâmites de segurança que permitirá acesso à área de embarque. São minutos intermináveis que nos separam da poltrona do avião, marcados por cenas de angustia de passageiros que correm o risco de perder o voo, funcionários das empresas tentando acelerar o processo para que a decolagem ocorra na hora certa e agentes de segurança tocando a manada – desculpe-me pela expressão, mas é a sensação que tenho ao participarmos desta cena, mesmo quando a pressa não me aflige.

Dentro do avião, outro reflexo da desorganização. Passageiros pouco dispostos a perder tempo a espera das malas no aeroporto de desembarque preferem levar o que podem e não podem dentro do avião. Os primeiros que chegam tomam o espaço dos bagageiros, deixando para os demais a dura tarefa de encontrar um lugarzinho que seja para tudo que têm em mãos. A medida que cresce a falta de confiança na entrega das malas, aumenta o número de bagagens dentro do avião. Não sei como alguns conseguem burlar a vigilância carregando tanta tralha, como nas cenas que víamos naqueles caminhões pau-de-arara – e aqui não vai nenhuma conotação perjorativa à classe social, mesmo porque amassadas entre uma bagagem e outra nota-se muitas bolsas de grife e marcas de lojas famosas.

A chegada em Congonhas, São Paulo, que não leva nome de político, mas é resultado da falta de respeito que muitos deles têm por nós, não se difere muito da situação em Salvador. Em plena noite fria na capital paulista, os passageiros são deixados no meio do pátio para embarcar em um ônibus, pois não há lugar para todos os aviões que chegam. E a espera das malas segue interminável, somente superada pelo tempo que se perde para pegar um táxi.

Soube do placar da partida quando cheguei em casa, apenas após enfrentar estes desafios aeroportuários que, registre-se, não foram suficientes para estragar o prazer de uma estada na Praia do Forte, onde o sol, o calor e o cenário em nada se pareciam com aquilo que os paulistas – meus conterrâneos gaúchos e muitos outros brasileiros de Sudeste a Sul do País, também – tiveram de encarar nesse fim de semana.

Quer saber se a derrota me tirou o humor, como alguns colegas da CBN chegaram a supor nesta manhã ? De jeito nenhum. Nem o futebol apresentado pelo Grêmio nem a falta de estrutura dos aeroportos são suficientes para tal, apesar de que está cada vez mais difícil encontrar uma solução para os dois. Bem, ao menos para o Grêmio eu ainda tenho esperança. E nada como um Gre-Nal para decolar de vez.

Avalanche Tricolor: Até a lojinha fechou

 

Ceará 3 x 0 Grêmio
Brasileiro – Presidente Vargas (CE)

Foi um choque, confesso. Ao subir a escada rolante, pouco antes de chegar ao topo no primeiro andar, olhei ansioso para a única vitrina que me chamara a atenção nos últimos tempos. Era meu ponto de apoio, motivo de orgulho e certeza de que nossa história havia conquistado seu espaço merecido, houvesse o que houvesse nos gramados. Era lá, no meio dos meus passeios prediletos, que avistava a camisa do Imortal Tricolor em destaque, vestida por um manequim inanimado, sem cabeça, mas com o escudo do meu time no coração. Pouco tempo atrás havia escrito sobre isso neste mesmo blog (leia aqui, se tiver paciência)

Olhei e não a encontrei. Aquela camisa predominantemente azul-celeste com duas faixas em preto e branco na vertical e horizontal havia desaparecido. O cartaz ao fundo com Renato em destaque, Vitor, Rochemback e Gabriel como coadjuvantes, também. Pior, muito pior. A loja, a única loja em São Paulo a oferecer como seu produto principal o manto tricolor estava fechada. Para sempre. Substituída por um tapume com anúncio de um novo ponto comercial dedicado a sandálias.

Um prenúncio ? Sinal do que me aguardava ? Texto subliminar do destino traçado ao Grêmio na temporada de 2011 ? Detesto pensar que mensagens aleatórios sejam enviadas para anunciar o nosso futuro. Desagrada-me a ideia de que Deus ou qualquer força superior estejam metidos nesta coisa que é o futebol e interfira no passe, no deslocamento, no cruzamento, no chute ao gol e no placar da partida. Prefiro olhar para os fatos concretos, as ações e decisões tomadas aqui e agora que definem os resultados que buscamos. E estes não tem colaborado com meu ânimo e, menos ainda, com o resultado das partidas.

Antes mesmo de o jogo se iniciar nesta noite, notei que aquela camisa que era destaque na loja do shoping estava em campo. Quando a bola começou a rolar, me dei conta que a alma daquela turba que a vestia era tão viva quanto a do manequim da vitrina. Sequer pareciam jogadores de um time marcado pela imortalidade. Estavam distante do que representaram meus heróis. Afastados da imagem que sempre construí nesta Avalanche e em meus sonhos infantis. Pareciam um bando de ninguém.

O Grêmio esqueceu o que é ser o Grêmio. E eu não tenho mais a lojinha para ludibriar minha dor.

Avalanche Tricolor: Lá vem a Avalanche !

 

Grêmio 2 x 1 Fluminense
Brasileiro – Olímpico Monumental

Uma vitória, finalmente. Necessária, imprescindível e para a sobrevivência. Era a sensação ao fim de mais uma partida sofrível pelo resultado, desempenho e temperatura nesta noite de Porto Alegre. A chuva bateu forte e o frio, também. Da arquibancada ainda se ouviu muita reclamação e no campo ainda havia muita gente atrapalhada. De um lado ou de outro, porém, o som e o suor tinham uma meta: encontrar um novo horizonte.

Os três pontos vieram pela virada e pelos pés de Marquinhos (teremos, enfim, um bom batedor de faltas?). Nosso meia, ao comemorar o primeiro gol, chamou a torcida para dentro de campo em legítimo sinal de que somente com esta simbiose será possível avançar no ritmo da nossa Avalanche. Ao fim da partida, Adílson (teremos descoberto um novo lateral?) falou e Victor (vai ser grande como sempre foi?) ratificou: era preciso vencer, de qualquer jeito. E assim fizemos.

A partir de agora, em meio a todas as dúvidas que ainda temos, é respirar, suspirar e expressar nosso desejo pela recuperação a qualquer custo. Impor nossa história e voltar a superar um adversário atrás do outro como fizemos no ano passado quando chegou Renato. No banco, não temos mais o ex-craque, mas Celso Roth um técnico com capacidade para enxergar o jogo estrategicamente e entender o que o Grêmio representa à sua torcida.

Que o futebol bem jogado volte na esteira desta vitória. E que venha mais uma Avalanche !

Dois heróis: Meu pai e Eurico Lara

 


Por Airton Gontow
Jornalista e gremista

Nunca tive qualquer empatia por esses super-heróis dos desenhos – fortes, destemidos e invencíveis. Ao contrário, lembro-me de que desde a minha infância minha mente e meu coração só tinham espaço para os personagens reais que habitam ou não o cotidiano da gente.

Herói era meu pai. Juntos fomos a todos os jogos do Grêmio no Rio Grande do Sul durante sete anos. Quando a gente voltava pela estrada, ia em uma espécie de comboio, com vários carros de torcedores e, no meio de nós, o ônibus dos jogadores e o ônibus da TV Gaúcha trazendo o vídeo-taipe do jogo, já que naquele tempo o “via-satélite” mal existia!!!! Fazia geralmente muito frio e quando entrávamos na cidade, o ônibus da Gaúcha seguia em direção ao morro Santa Tereza e nosso carro percorria a neblina porto-alegrense até o porto seguro de nosso apartamento lá na av. Protásio Alves. E aí eu ficava assistindo ao jogo do Grêmio que a TV Gaúcha (Canal 12) estava começando a exibir….aquele mesmo que eu havia visto quatro horas antes.

Meu pai ia até meu quarto, fazia minha cama e depois se deitava, com aquele corpo grande de pai da gente, e derrotava a frieza dos lençóis e, depois, eu o via surgindo, cada vez maior, até que me pegava no colo e me conduzia pelo corredor até o meu quarto e me deitava naquela cama mágica e já aquecida pelo calor do pai. Talvez por isso, mesmo quando meu pai fez um monte de bobagens na vida e a vida fez graça de mau humorista com a gente, eu não consegui nunca deixar meu coração amargurado e a alma sem esperanças, porque eu sabia que ele era meu herói e os heróis não são necessariamente vencedores, mas são aqueles que sempre acalentam a alma da gente!!!!

Heróis, Heróis, Heróis; sim, tenho meus heróis! Alguns da vida cotidiana. Outros como Eurico Lara, grande nome da história do Grêmio! De Eurico Lara, eu aprendi a história ao lado de seu túmulo, no cemitério São Miguel e Almas, em Porto Alegre, segurando na mão de meu pai, como acontece com muitos e muitos gremistas. Era um goleiro fantástico e gremista apaixonado (como todos os gremistas devem ser). É o único jogador da centenária história gremista citado por Lupicínio Rodrigues. Sim, o autor de “Nervos de Aço” e “Felicidade foi se embora” fez o belo o hino do Grêmio – “Até a pé nós iremos, para o que der e vier, mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio onde o Grêmio estiver”.

Mas eu falava sobre Eurico Lara, que era apaixonado e gremista e, veja só, estava no quarto de um hospital, com turberculose e doente do coração, no dia da final do campeonato gaúcho, contra o inimigo Internacional, no chamado clássico Gre-Nal. Lara fugiu do hospital para assistir ao jogo. Um empate daria o título ao Grêmio, que estava com um ponto a mais na competição. Mas, faltando três minutos, o juiz marcou um pênalti para o Inter. A torcida gremista, em grande maioria, ficou em silêncio, com medo da catástrofe próxima. Foi neste momento que Lara disse para o homem que cuidava do portão junto ao gramado: “abre”. E quando entrou em campo foi tirando a camisa, as calças…estava de uniforme por baixo e, pasme, de chuteiras. O estádio explodiu de espanto e alegria, mas logo depois, aconteceu um silêncio absoluto, que até hoje impressiona a todos os que assistiram à cena. Era como se não houvesse vozes, pássaros…vento no mundo

O atacante do Inter ajeitou a bola. Parecia um touro, enquanto se preparava para iniciar a curta corrida em direção à bola. O chute saiu forte, alto, no canto esquerdo. Mas Lara, meu herói Eurico Lara (cantado por Lupicínio como “o craque imortal”) saltou como um gato e encaixou a bola no peito e com ela continuou agarrado quando caiu no chão. A torcida entrou em delírio. Os jogadores se aproximaram para reverenciar aquela lenda do futebol.

No estádio, uma chuva de chapéus, como nunca mais foi vista, nem mesmo nas comemorações pela vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial. Lara continuava agarrado com a bola no chão. Sim, era sua, não queria soltá-la. Os jogadores foram se afastando. A torcida de pé, em silêncio, compreendeu o que acabara de acontecer. Lara estava morto. Com a bola grudada naquele imenso peito gremista. No gramado, milhares e milhares de chapéus eram como flores homenageando aquele deus do futebol.

Na verdade, a primeira história, sobre meu pai, é verídica, mas esta segunda não aconteceu exatamente assim. No dia 22 de setembro de 1935, contrariando as recomendações médicas para que não atuasse mais, Lara entrou em campo para o jogo decisivo – um Gre-Nal! – do campeonato da cidade, naquele ano chamado de “Campeonato Farroupilha”, por ser o período das comemorações do centenário da Revolução Farroupilha. O Grêmio precisa vencer para conquistar o título. Foi uma das maiores atuações de sua vida, decisiva para a vitória gremista por 2 a 0. Nunca mais atuou. Faleceu em 6 de novembro, 45 dias após o Gre-Nal – e dizem os médicos que a morte foi apressada pelos meses em que, mesmo doente, jogou pelo Grêmio.

Mas vou contar ao meu filho exatamente como o meu pai me contou: segurando em sua mãozinha de gremista, ao lado do túmulo do inesquecível Eurico Lara, aquele que morreu defendendo um pênalti, com tuberculose e doente do coração, dando o título de campeão ao Grêmio….

Avalanche Tricolor: Programa especial

 

Palmeiras 0 x 0 Grêmio
Brasileiro – Canindé (SP)

 

Uma semana depois do aniversário e uma antes do Dia dos Pais, este fim de semana teria tudo para ser apenas mais um no calendário. Foi especial, porém. Nem tanto pelas coisas do futebol, motivo desta coluna sempre escrita na sequência de alguma partida. Até poderia ser, afinal havia em campo, na noite de sábado, dois times que fizeram alguns dos mais emocionantes embates do futebol brasileiro. Lembro de partidas memoráveis na história do Grêmio contra o Palmeiras, de quanto sofri e sorri quando estas duas equipes se enfrentaram principalmente lá na década de 90. Os dois times, contudo, não estão com esta bola toda. No Canindé, também, havia a expectativa pela estreia do novo-velho técnico Celso Roth, recém-chegado ao clube após mais uma aventura da diretoria gremista em pleno voo. Confesso, porém, que não esperava tanto quanto alguns torcedores amigos, já que o treinador havia tido pouco tempo para ajeitar a casa.

Foi especial o fim de semana pela visita ilustre que recebi na minha casa. Esteve por aqui aquele que acendeu meu interesse pelo Grêmio, mostrando-me o caminho certo a seguir. É provável que você saiba que quando se nasce no Rio Grande do Sul tem-se apenas uma chance de acertar na escolha do time pelo qual se decide torcer. Eu tive todo o direito de escolher. Pelo Grêmio, lógico. Assim como meu irmão, o Christian, e minha irmã, Jacque. Lá na Saldanha Marinho, onde vivi meus primeiros muitos anos de vida, todos éramos adeptos do azul, preto e branco. Primeiro por “sugestão”, depois por razão e, finalmente, por paixão.

A esta altura do campeonato, você já deve ter ideia de que o visitante que tornou estes dias de folga diferentes foi meu pai, que você lê às quintas neste blog. E de quem já escrevi muitas vezes. Tê-lo em São Paulo não é comum, porém. Faz tempo que não gosta das viagens de avião, após a overdose que as jornadas esportivas o impuseram. Assim, a oportunidade de tomar café pela manhã, almoçar, jantar, passear e – claro – assistir ao jogo do Grêmio pela televisão ao lado dele, em São Paulo, é, sem dúvida, um programa especial – mesmo que na tela a bola continue rolando “quadrada”.

Avalanche Tricolor: Que saudade !

 

Grêmio 2 x 2 Atlético MG
Brasileiro – Olímpico Monumental

Foi uma noite para relembrar os anos 1990. Naquela época trabalhava na TV Cultura e deixava a redação lá pelas 10 da noite quando o jogo do Grêmio já havia se iniciado. Pegava meu carro, ligava o rádio e escorregava o ponteiro do dial até o ponto mais à esquerda, próximo dos 500 mghz. Era ali que conseguia sintonizar, entre chiados e descargas elétricas, emissoras de rádio do Rio Grande do Sul. Ou a Guaíba ou a Gaúcha, dependia da condição meteorológica. Demorava no caminho, estendia meu caminho e dava preferência às Marginais, onde o som ficava um pouco melhor. Na maior parte das vezes era difícil até mesmo de distinguir quando o gol era do Grêmio ou do adversário.

Ontem à noite, saí de uma palestra da comunicação quando a partida do Grêmio estava se iniciando. Abri o Ipad, cliquei no aplicativo da rádio CBN e acessei a emissora de Belo Horizonte que estava com sua equipe no estádio Olímpico, em Porto Alegre. Durante todo o caminho até minha casa, demorado devido ao congestionamento, ouvi a partida em seus detalhes sem qualquer interferência. Transformei meu moderno tablet no velho radinho de pilha com a vantagem dele me permitir acesso a emissoras que não são aqui da cidade.

As diferenças de como e o que ouvia nos anos de 1990, infelizmente, não se resumem a qualidade do som e o meio de transmissão. Naquela época, o time era treinado por Luis Felipe Scolari e dava orgulho torcer por aqueles jogadores.

Avalanche Tricolor: Haja paciência !

 

Flamengo 2 x 0 Grêmio
Brasileiro – Engenhão (RJ)

A mão escorrega pelo rosto e puxa as bochechas para baixo, ao mesmo tempo em que os olhos se voltam para o céu, em busca de alguma explicação para o erro, enquanto os lábios se espremem impedindo que palavras impublicáveis se dirijam injustamente àquele que o assiste. De forma repetitiva, o gesto se expressa a cada chute com destino tortuoso, como se a bola ter ido a um lugar qualquer que não o seu objetivo fosse desejo próprio deste ser inanimado, nunca resultado da falta de habilidade ou desajuste do protagonista.

Tem sido assim, jogo após jogo, a reação de nossos Imortais a cada tentativa frustrada de ataque. Já deixei de contar as vezes em que não conseguimos sequer chutar em direção ao gol; são raros os momentos em que o goleiro adversário tem de fazer algum esforço para impedir a investida de nosso time; normalmente o destino da bola é o braço dos gandulas, quando esta não é despachada para um lugar qualquer. Inevitável, porém, é a cena do desespero (pela sua mediocridade, talvez) mal interpretada e destacada na televisão por nosso atores, como se aquilo fosse uma injustiça dos Deuses do Futebol, jamais resultado de sua incompetência.

E nós que só temos o poder de torcer, sofrer ? Passamos a mão no rosto, olhamos para o alto, esprememos os lábios, pensamos o quê? Deveríamos desenvolver um grau de paciência que vai além da capacidade de qualquer monge tibetano? Acreditar no poder de nossa mística ? Na história de um clube que nos apaixonou?

Você, caro e raro leitor deste blog, sabe o cuidado que tenho de sempre exaltar os méritos do tricolor, mesmo que estes se resumam a um chutão para a lateral ou uma roubada de bola. Sabe que o sofrimento a cada rodada sempre é visto por mim como o momento de provação que devemos ser expostos para alcançarmos a glória que nos aguarda na próxima esquina. No jogo desse sábado, no Rio, até parecia estarmos diante de um time diferente daquele que se apresentou nas últimas partidas.

Haja paciência, porém. Quando até mesmo nosso maior ídolo é constrangido pelo erro, defender quem – ou quem nos defende? Quando o comandante entende que toda crítica é política e se mostra incapaz à auto-crítica, esperar que a mudança venha de onde? Quando você olha para o banco e não vê opção, não enxerga confiança nos gestos de seu treinador, por que acreditar que haverá crescimento?

Paciência, muita paciência. E olhar para o que já enfrentamos e como solucionamos nossos dramas. São os caminhos que temos para continuar torcendo, sofrendo e acreditando.

NB: Logo após a derrota para o Flamengo, o presidente Odone disse que Wellington Paulista seria contratado e substituiria André Lima, que será sacado do time até melhor sua forma física. O ex-atacante do Palmeiras está ameaçado de não vir mais. Será obra da oposição, presidente Odone?