Uma foto na última página do jornal Zero Hora me motivou a migrar do departamento de esportes para o de jornalismo, da rádio Guaíba de Porto Alegre, na segunda metade da década de 80. A imagem no alto e em quatro colunas tinha como destaque Renato Portaluppi, na época o principal jogador do Grêmio, fugindo dos jornalistas. Logo atrás aparecia eu, braço esticado, com um gravador de fita K-7 apontando na direção do atleta, a espera de uma palavra sobre a última encrenca na qual ele havia se envolvido.
Uma hora antes da foto ser registrada, o jogador tinha desembarcado no aeroporto Salgado Filho com a delegação do Grêmio, que havia sido goleado sei lá por quem, no Rio de Janeiro, no dia anterior. O resultado causou indignação na torcida que ficou revoltada com a atitude do atacante flagrado em uma boate, logo após a partida, entusiasmado de mais para quem tinha sido derrotado. Renato fugia dos repórteres para não ter de dar explicações.
Ao ver a imagem no jornal de maior circulação do Rio Grande do Sul pensei como era ridícula aquela cena. Não havia me formado em jornalismo para correr atrás de alguém que, se tivesse aceitado abrir a boca, não seria capaz de dizer nada de importante. Decidi que estava na hora de mudar de editoria. Foi o que fiz e não me arrependo.
Renato Portaluppi era auxiliar de padaria, em Bento Gonçalves, cidade serrana, onde começou a jogar futebol. Perdeu o emprego após atirar a massa no patrão que, consta, havia desrespeitado a mãe dele. Foi apenas a primeira atitude destemperada que conhecemos na história deste personagem do futebol brasileiro.
Logo que chegou ao Grêmio, com 20 anos, frequentava o Bar do Ramon, na esquina do estádio Olímpico, onde permanecia não para beber, mas para namorar. Com o tempo passou a frequentar casas mais famosas. Sempre gostou da noite e nunca escondeu esta preferência, mesmo que isto pudesse lhe prejudicar em campo.
No futebol, assim como fora dele, a disciplina nunca foi sua marca. Perdia a cabeça com facilidade e se envolvia em confusão. No auge de sua carreira, foi cortado da seleção brasileira de 1986 por não respeitar hierarquia, algo inaceitável para o rígido Telê Santana.
Com a bola nos pés era esta irreverência somada a qualidade técnica e força física que o levaram a ser dos maiores ídolos que o Grêmio já teve. Foi graças a uma dessas loucuras que, cercado por três defensores de um lado e espremido pela linha lateral do outro, decidiu dar uma balão para dentro da área e encontrou o centroavante César, autor do último gol do primeiro título da Libertadores. A inconsequência de sua personalidade se traduzia em jogadas alucinadas como quando, duas vezes, partiu para cima da defesa do Hamburgo e nos ofereceu o título Mundial, em 1983.
Apesar de todas as suas conquistas, nunca fui um fã de Portaluppi, seu ar prepotente e sua falta de respeito – mesmo tendo um gênio tão esquentado quanto o dele quando tive oportunidade de participar de alguma atividade competitiva. Porém, jogando, ele era excepcional.
Agora, está de volta ao Grêmio, levado não por seu conhecimento técnico ou capacidade como treinador, mas pela história que escreveu no clube. Ocupará a vaga não pela razão, mas pela emoção. Continua sendo um cara que não costuma falar coisas interessantes.
A virtude dele é trazer a torcida de volta e confiante para o estádio Olímpico, esta rapaziada que consegue empurrar o time para o gol adversário mesmo quando nos falta competência.
Renato terá 25 partidas pelo Brasileiro e, na melhor das hipóteses, mais nove pela Sulamericana, para driblar suas carências assim como fazia com seus marcadores. Talvez sejam jogos demais para viver apenas do passado.
Tenho muito medo desta aventura populista na qual o Grêmio se mete por não ter encontrado profissional mais bem preparado. No vestiário e ao lado do campo não há espaço para gênio explosivo ou maluquices, é preciso serenidade e conhecimento.
Como os deuses que escrevem o destino do futebol são caprichosos, quem sabe ao colocarem Renato no caminho do Grêmio não estejam apenas levando o Imortal Tricolor e seu eterno ídolo a protagonizarem mais um capítulo fascinante da literatura esportiva.
Torço por isso. E sei que vou sofrer.