Avalanche Tricolor: Meu Deus Suárez!

Botafogo 3×4 Grêmio
Brasileiro — São Januário, Rio de Janeiro/RJ

Suárez comemora o terceiro gol em foto de Alexandre Durão / Grêmio FBPA

Foi pura magia. Do desencanto ao encantamento. Do revés à reação. Do time que sabe onde pode chegar a um craque que joga uma bola descomunal. Cada nuance da partida desta noite, em São Januário, foi parte de um roteiro forjado pelo sofrimento e êxtase, na típica narrativa da jornada do herói, desde a passagem pelo tempo comum até a ressurreição, da travessia do primeiro limiar ao elixir da conquista.

E se havia um personagem a ser o herói, claro, só poderia ter sido Luis Suárez, o atacante que aceitou a missão de recuperar a história do Grêmio nos gramados brasileiros e nos devolver a Libertadores. Mais do que isso: resgatou o orgulho de um torcedor ferido nos percalços das duas últimas temporadas. Um torcedor que tem levado seu grito a todos os estádios onde o Grêmio joga. Que canta satisfeito por seu próprio valor.

Luis Suárez foi gigante no gramado de São Januário. E no instante em que o Grêmio mais precisava dele, quando estávamos perdendo por 3 a 1. Em que parecíamos vencidos pelas circunstâncias, resignados por aquilo que o destino havia nos reservado, sermos coadjuvantes nesta competição. O maior atacante que já vestiu nossa camisa nos devolveu o direito de sonhar. De acreditar que não é impossível. Ele foi o responsável pela virada de um placar que parecia definitivo, dadas as condições do jogo e a pressão da torcida adversária.

Heróis como Luizito não se entregam jamais. Acreditou e lutou enquanto pôde. Foi auxiliado por um endiabrado Ferreirinha, que entrou no segundo tempo e infernizou quem se atreveu a marcá-lo. Em um dos primeiros lances, cruzou e, com o desvio do zagueiro, fez a bola chegar aos pés de Suárez, que diminuiu o placar. Na segunda, o cruzamento foi na medida certa e nosso atacante não perdoou, fazendo o gol de empate. A virada foi obra dele novamente, que buscou a bola na intermediária, tabelou e recebeu em condições de passar no meio dos zagueiros e estufar a rede.

Diante da obra construída por Suárez, só restava agradecer àquele que me deu a oportunidade de vivenciar esse momento. Levantei as mãos aos céus e agradeci: obrigado, Meu Deus Suárez!

Avalanche Tricolor: orgulho de ser Tricolor!

Grêmio 1×0 Bahia
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Foto Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Maratonei diante da televisão neste sábado. Comecei com a disputa da Libertadores, Copa para a qual não precisamos de apresentação, somos apaixonados por ela e já vencemos três vezes. Ao contrário do que costumo fazer quando não é o meu Tricolor que está em campo, não me contentei em apenas assistir à partida. Torci pelo Tricolor carioca. Não vou dizer que sofri, porque tendo a acreditar que só sofremos por amor. Mas torci muito!

Havia uma memória afetiva em campo.

A grená, branca e verde foi a primeira camiseta de jogador de futebol que ganhei. Após um Grêmio e Fluminense, no saudoso estádio Olímpico, o pai apareceu em casa com esse presente em mãos, obtido por um dos repórteres da rádio Guaíba e me entregou. Tinha o número 11 nas costas e ainda estava molhada de suor. Infelizmente, não lembro quem era o ponta esquerda da época. Era pesada, feita com um tecido grosso e costuras salientes. Antigamente, as camisetas não tinham a tecnologia atual nem a mesma qualidade. No primeiro banho, as listras brancas verticais ganharam manchas grená.

Aquele “troféu” se manteve no meu armário por muitos anos ao lado de uma do América do Rio, com o número 3 do zagueiro gaúcho Alex nas costas — outro “troféu” que me foi entregue pelo pai. Ambas, infelizmente, se perderam em uma dessas mudanças que fazemos na vida. A lembrança permaneceu, e até hoje, quando vejo aquela Tricolor em campo, a memória reacende. Portanto, era natural de minha parte querer muito a vitória do Fluminense na final desta Libertadores. E fiquei feliz pela conquista. Merecida conquista!

Sabemos como poucos neste Brasil o significado desta Copa na vida do torcedor e do clube. Fomos forjados na busca deste troféu, que vencemos pela primeira vez em 1983, época em que meu armário já estava dominado pela nossa Tricolor azul, preta e branca. Gostamos tanto de Libertadores que, apesar do sonho de ser campeão ainda existir, garantir a vaga direta à maior competição sul-americana valerá festa e muita cantoria (Libertadores vamos vencer / Por essa Copa / Eu te daria minha vida, campeão).

A vitória, mesmo difícil da segunda partida que assisti neste sábado, nos mantém na disputa pelo título, mas muito mais ainda dentro da Libertadores, e essa classificação terá sabor especial. Primeiro, porque poucos apostavam nas possibilidades de o Grêmio disputar vaga no topo da tabela após recém-subir da Série B. Mais do que essa reversão de expectativa, porém, é assistir em campo a Luis Suárez com a Tricolor. Essa imagem ficará para a história e na memória afetiva de todos nós torcedores gremistas.

Hoje, mais uma vez, Suárez decidiu na única bola que lhe chegou aos pés em condições de chutar a gol. Mérito também de Lucas Besozzi, esse garoto argentino que, se permanecer no time, tenderá a crescer na próxima temporada. Foi dele a jogada pela esquerda pouco depois de entrar no segundo tempo, com dribles curtos e um passe na medida para nosso atacante.

O gol fortaleceu o grito de “Fica Suárez” que já estava na garganta de todos os torcedores. E ecoou nas arquibancadas da Arena na comemoração da vitória. Sabemos que esse é um desejo quase impossível de ser cumprido. Mas o torcedor não está preocupado com isso. “Fica Suárez” é muito mais do que um pedido, é um grito de orgulho que temos por saber que um dos maiores nomes do futebol mundial veste a nossa Tricolor.

Avalanche Tricolor: estão deixando o torcedor sonhar

Coritiba 1×2 Grêmio

Brasileiro – Couto Pereira, Curitiba/PR

Festa do primeiro gol em foto de Richard Ducker/GrêmioFBPA

Toco tem 11 anos. Batizado Antonio, nasceu em Campinas e mora por lá. Os pais torcem para o Guarani e o irmão para o São Paulo. Um dia qualquer desses, ele avisou: eu tenho time, também, e meu time se chama Grêmio. De lá até hoje, nada foi capaz de demover seu desejo de ser gremista, que virou obsessão e hoje é paixão. 

Conheci a história do Toco pela mãe dele, a Bianca Rosa, jornalista na EPTV,  onde estive na manhã desta quarta-feira para conferir o investimento que a empresa faz em rádio e comemorar os 32 anos da CBN Campinas. Ela me mostrou a foto do menino vestindo a camisa tricolor, com a réplica do troféu da Libertadores em mãos e um enorme sorriso. Daquele tipo de sorriso que guardamos para a vida, como tantos que o Grêmio me permitiu ter pelas oportunidades que me ofereceu.

Essa coisa do futebol é curiosa. Nem sempre há uma razão lógica para a escolha que fazemos. O pai é verde, a mãe é preto e branco e, de repente, o filho se diz amarelo. Mais inexplicável é quando todos se apresentam vermelho e o piá teima que o melhor é ser azul. Quando se nasce na terra do time, a decisão parece fazer sentido. Quando se é um desterrado, como explicar? Afeição, simpatia, química, vi um dia e apaixonei. As mesmas justificativas que oferecemos quando alguém quer saber porque casamos com o companheiro ou a companheira amada. De verdade, não tem explicação. Acontece!

Foi assim na vida do Toco, na minha e na sua, caro e cada vez mais raro torcedor desta Avalanche. De repente você se percebe vibrando pelo gol marcado e sofrendo pelo gol sofrido. Acreditando no time mal treinado; se iludindo com a constelação de craque; sempre a espera de um milagre, mesmo quando você sabe que não se fez por merecer; ou frustrando-se pelas injustiças que a bola comete quando a vitória era tudo que seu time fazia jus. Ser fanático por um time de futebol é torcer para que ele não caia para a segunda divisão em uma rodada, é vibrar porque subiu para a primeira e, sem nenhuma razão, é acreditar que dá para ser campeão na seguinte. 

Nós, gremistas, passamos por todos esses estágios nesses últimos tempos. Poucos dias atrás, maldizíamos a sexta colocação no campeonato; ontem, após mais uma vitória fora de casa — parece que aprendemos a lição ou será só ilusão? —, já comemorávamos a vaga a Libertadores; e, hoje, acordamos sonhando que é possível até ser campeão brasileiro. Já imaginou, Toco? Que loucura!

Avalanche Tricolor: Grêmio vira duas vezes e vence com ‘futebol entretenimento’

América-MG 3×4 Grêmio

Brasileiro – Arena Independência, BH/MG

Suárez comemora gol 550 na carreira, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Grêmio está de volta ao jogo. Não que tenha ficado longe dele em algum momento no campeonato. Mas havia perdido tração e corria o risco de deixar os principais adversários desgarrarem à frente na briga por vaga direta da Libertadores. As duas últimas vitórias nos devolveram à disputa — e é a esse jogo que me refiro na primeira frase desta Avalanche: o da classificação para a Libertadores.

Novamente, o Grêmio foi buscar o resultado depois de tomar o revés. No meio da semana, o feito foi muito mais difícil, considerando o potencial do adversário. Mas a vitória no início da noite deste sábado não deve ser desdenhada, mesmo que tenha sido contra o lanterna do Brasileiro. Por duas vezes atrás do placar, o Grêmio teve calma, brio e talento suficientes para chegar aos gols necessários. Um detalhe nada desprezível para a jornada gremista: duas viradas no mesmo jogo, disputado fora de casa, onde nosso desempenho tem sido pífio.

Diante da vitória em uma partida com sete gols e três viradas de placar, o comentarista Henrique Fernandes, da SporTV, foi perspicaz ao dizer que o Grêmio joga o “futebol entretenimento”. Na visão dele, fazemos a alegria dos apreciadores do jogo da bola, com a quantidade de gols que marcamos e levamos em uma só partida. Lembrou do 4 a 4 contra o Corinthians e do 3 a 2 contra o Flamengo. 

Por curiosidade, conferi o placar das 30 rodadas em que o Grêmio participou no Campeonato Brasileiro. Em 19 delas foram assinalados três gols ou mais; em ao menos sete dessas, o resultado final teve cinco ou mais gols. As duas em que a rede mais balançou foram no empate contra o Corinthians, em São Paulo, oito gols no total, e na vitória por 5 a 1 contra o Coritiba, na Arena. Nessas estatísticas, também está registrada a goleada que sofremos do Palmeiras (4 a 1) no primeiro turno. Não por acaso o Grêmio tem o melhor ataque da competição (50 gols) e uma das piores defesas (45).

O que é entretenimento para os admiradores do futebol, é, na verdade, sofrimento para o torcedor gremista. O jogo de hoje foi uma montanha russa de emoções e sentimentos. Da certeza dos três pontos ao desespero por estar sendo superado por um dos adversários teoricamente mais fáceis da competição; da alegria de ver Suárez alcançar a marca de 550 gols na sua carreira, enquanto veste a camisa do Grêmio, à indignação pela facilidade com que os atacantes penetram na nossa área; do prazer da vitória à tensão pelo risco constante da derrota. 

Ainda nos faltam oito partidas e quase dois meses até o fim da temporada, tempo suficiente para vivenciarmos os mais diversos sentimentos até garantirmos nosso retorno a Libertadores. O Henrique Fernandes, que foi meu colega no Sistema Globo de Rádio, quando fez parte da equipe de esportes da Globo/CBN BH — aliás, um ótimo comentarista —, e todos os demais admiradores do futebol terão muito para se divertir, assistindo ao Grêmio de Suárez e companhia. Quanto a nós, torcedores, resta lembrar de outro craque do microfone, Galvão Bueno: haja coração!

Avalanche Tricolor: muito mais do que uma vitória!

Grêmio 3×2 Flamengo

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/ RS

Há momentos que fazem a história de um time. Há outros que os colocam em seu devido lugar. O Grêmio esteve nesse limiar, nesta noite de quarta-feira, em Porto Alegre. No seu pior momento no campeonato, deparou-se com seu maior algoz dos últimos anos. Em campo, não contava com toda sua força, começando pela ausência do principal reforço e quarto maior goleador do mundo, Luis Suárez. Nas arquibancadas, enfrentava um torcedor desconfiado.

Mais do que a performance em campo, a vitória era essencial para mostrar ao Brasil a grandeza do nosso futebol. Uma derrota nos relegaria ao oitavo lugar da competição, além do risco de entrar em uma espiral descendente sem retorno. E foi diante dessa iminência que se desencadeou uma reação surpreendente para quem vinha observando o time perder força, principalmente na segunda metade do Brasileiro.

Em 10 minutos, jogadores que vieram do banco, ainda muito jovens e sem a experiência das estrelas que brilhavam pelo adversário, revitalizaram o futebol gremista. Demonstraram uma desenvoltura que não se via durante quase toda a partida, muito menos nas anteriores.

O gol de empate veio dos pés de Ferreirinha, alvo de reclamações da torcida há algum tempo. O da virada foi de Nathan Fernandes, que, com apenas 18 anos, teve a audácia de enfrentar os grandalhões dentro da área e chutar cruzado para marcar. O gol da vitória veio de André, com apenas 21 anos, através de um chute seco e certeiro. Em todos os gols, a presença marcante de Villasanti, que lutou incansavelmente e se posicionou à frente para colocar seus companheiros em condições de marcar.

O resultado de hoje representa muito mais do que uma simples vitória. Mais do que apenas interromper uma incômoda sequência de derrotas para o mesmo adversário. Mais do que o fim de uma série de deslizes que nos afastaram do topo da tabela. O 3 a 2 desta noite evidencia que o Grêmio reconhece sua grandiosidade na história do futebol e honra a marca que o consagrou: a da Imortalidade!

Avalanche Tricolor: cantas por quê?

São Paulo 3×0 Grêmio

Brasileiro – Morumbi, São Paulo/SP

Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A experiência do estádio ainda me surpreende. Os muitos anos de arquibancadas no Olímpico Monumental não foram suficientes para me oferecer todas as sensações que o futebol pode proporcionar — e quantas emoções eu lá vivi! Falo do Olímpico porque, quando a Era Arena se iniciou, já não vivia mais em Porto Alegre, o que me fez diminuir drasticamente a presença, ao vivo, nas partidas. Transformei-me em torcedor de sofá — que isso não seja visto como demérito, apenas como circunstâncias da vida.

Hoje, porém, dei-me o direito de assistir ao Grêmio no Morumbi. É aqui na vizinhança, pouco menos de 2,5 quilômetros de casa e a 10 minutos de carro. Tinha uma razão especial para ver a partida do estádio: Luis Suárez, nosso atacante que se encaminha para o fim da jornada com a camisa tricolor. É um privilégio ser torcedor de um time que tem um dos quatro maiores goleadores do mundo na ativa a lhe representar. Não canso de admirar o esforço deste gigante que faz o que está a seu alcance para tornar o Grêmio um pouco melhor do que é — não bastasse o talento com que toca na bola e chuta a gol, tem uma raça e uma forma de liderar exemplares.

De Suárez vi o que foi possível a medida que o time faz pouco para que ele apresente todo seu potencial em campo. Por mais que corra desesperadamente em busca de uma boa jogada, a companhia não colabora muito com a sequência do lance. O que me fez feliz em uma noite de infelicidade no futebol jogado no campo esteve na arquibancada do Morumbi, no pequeno e desconfortável espaço reservado à torcida adversária. 

No embalo da banda da Geral do Grêmio, os torcedores, mesmo descrentes em relação ao desempenho do time, entoavam cânticos de exaltação pelos feitos do Imortal. Faltava harmonia entre as letras que falavam de vitórias e conquistas e a performance da equipe. Essa dessintonia fazia do som emitido pelos torcedores algo ainda mais impressionante. Sinalizava o quanto eles (nós) têm noção da relevância daquele distintivo que carregamos no peito, do que representamos e alcançamos nessa longa jornada. 

O melhor foi reservado para depois do jogo. Após um jogo que jogamos abaixo da crítica, tão sem méritos quanto sem organização. Enquanto esperávamos a liberação policial para deixamos o estádio, a banda tocava de forma eletrizante. Dentre os torcedores que pulavam no ritmo das músicas, um menino de cabelos longos, nos ombros do pai, com a camisa de Suárez nas mãos, vibrava como se tivéssemos conquistado um título. Uma alegria contaminante! 

Foi na imagem daquele guri que me encontrei em sintonia com a história do Grêmio mais uma vez. A felicidade dele lembrou-me porque sou um apaixonado por este time. Por que cantamos mesmo quando em campo o time não encanta.

Avalanche Tricolor: entre livros e maldições

Grêmio 1×2 Athletico Paranaense

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Iturbe comemora seu gol em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Na fila do livro “Amazônia na encruzilhada”, de Miriam Leitão, a conversa era sobre jornalismo, rádio, literatura e meio ambiente. Ninguém se aproximou para puxar assuntos do futebol. Ainda bem! Cheguei cedo na Livraria da Travessa, no Shopping Iguatemi, neste início de noite, em São Paulo. Quando se trata de livros de autores renomados e queridos, a concorrência por lugares na fila costuma ser intensa. Chegar atrasado significa esperar por horas para ter a oportunidade de cumprimentar a autora e receber um autógrafo.

Quando cheguei, Miriam já estava por lá e recebendo o carinho de amigos e a atenção de jornalistas que foram cobrir o lançamento. Logo a encontrei, agradeci pela bela obra que valoriza a maior riqueza que o Brasil tem e vive sob ameaça: a Amazônia. Em troca, além da gentileza de sempre, fui presenteado com palavras da autora e um autógrafo que ficará guardado entre meus livros queridos na biblioteca que mantenho em casa. Na biblioteca e no coração.

Na livraria, além de olhar os demais livros expostos, um prazer que mantenho no meu cotidiano, conversei com mais alguns colegas de profissão e tomei o caminho de volta para casa. O trânsito era intenso. A cara de São Paulo. O que me impediu de assistir na televisão ao primeiro tempo da partida do Grêmio. O recurso foi o rádio. E no rádio, além do gol de Iturbe, bem no começo do jogo, só ouvi sofrimento, reclamações e previsões catastróficas. Todas se realizaram.

Cheguei em casa no intervalo quando as equipes estavam em campo para iniciar o segundo tempo e o Grêmio já estava com nova formação. Assim que a bola começou a rolar, a impressão é que tanto os comentaristas quanto os torcedores ouvidos na rádio tinham assistido à outra partida. Passamos a pressionar, a impedir o avanço do adversário, a incomodar no ataque e dar sinais de que a vitória era iminente. Bastava um pouco mais de ajuste no chute final. Cheguei a me entusiasmar. Mas o que era entusiasmo virou ilusão. E da ilusão à frustração.

Nos minutos finais, quando estávamos nos acréscimos, o pior dos mundos se desenhou. Tanto insistimos em tomar um gol que o gol se realizou. Daqueles que costumávamos fazer e que, nestes últimos tempos, sei lá por qual motivo, se transformaram na nossa maldição. É quase como se os deuses do futebol, aqueles mesmos que nos deram o dom da Imortalidade, tivessem se reunido e decretado: vocês não fazem por merecer! Será?

Avalanche Tricolor: obrigado, Senhor Suàrez!

Inter 3×2 Grêmio

Brasileiro – Beira Rio, Porto Alegre/RS

Suárez comemora segundo gol em Gre-Nal. foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Padre José Bertolini é gremista de Bento. Vive em São Paulo há muitos anos. E, por essas felizes coincidências que a vida proporciona, reza missa na capela próxima de casa. O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche o conhece de crônicas passadas. Esteve por aqui no emblemático Gre-Nal do 5 x 0, em agosto de 2015, e em outras tantas passagens que o futebol nos proporcionou. 

Hoje cedo, era Padre José quem estava escalado para rezar a missa, na Capela da Imaculada. Antes de encerrar a homilia, inspirada na parábola da Vinha do Senhor (se estiver interessado leia aqui), entrelaçou suas reflexões com memórias do seminário. Lembrou-se de um colega gremista que, enquanto ouvia os jogos em um pequeno rádio colado no ouvido, segurava um santo rosário na outra mão, avançando na reza do terço à medida que a partida progredia. Bertolini questionou: “Acredita realmente que o Senhor vai interferir?”

Antes que o considerem descrente, esclareço que Padre José foi preciso em sua fala pois sabe, a partir de seus estudos aprofundados da religião, que não é neste campo que a intervenção divina se realiza. Já escrevi vez passada que lá onde a bola rola, nossos deuses são profanos e nossas atitudes nem sempre são santas. 

No futebol, quem intercede por nós é o goleiro realizando milagres; são os zagueiros, nossos guardiões inabaláveis, que precisam contar com a ajuda dos santos protetores que atuam na frente da área; os meio-campistas, que manejam a bola com a devoção com que um fiel avança nas contas do terço até completar a reza; são os atacantes e seus gols salvadores. Se nada disso funciona, pouco adianta pedir aos céus.

Mesmo diante do resultado negativo desta tarde de domingo, há razões para o Grêmio expressar gratidão. Graças ao esforço sobre-humano de Luís Suaréz que voltou a marcar gol no clássico, desta vez de falta — coisa rara na história recente do Grêmio — os torcedores deixaram o Gre-Nal com um sabor menos amargo, lembrando-nos das uvas verdes e azedas da parábola evocada por Padre José.

Avalanche Tricolor: quero falar sobre Geromel

Fortaleza 1×1 Grêmio

Brasileiro — Arena Castelão, Fortaleza, CE

Geromel em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Na última partida antes do Gre-nal, assuntos não faltam para os que gostam de falar do Grêmio —- gostem bem ou gostem mal. Pode-se falar da qualidade da assistência de Reinaldo, que serviu Suárez com um passe em curva nas costas dos marcadores e permitiu que o uruguaio marcasse o gol de empate. 

Claro, pode-se falar de Suárez, também, que sempre é um bom motivo para puxar conversa, mesmo com torcedores contrários. O gringo mais uma vez se entregou em campo como quase nenhum outro. E nos premiou com aquela corrida por trás dos zagueiros e a precisão do chute, apesar da pressão do goleiro que saiu em sua direção e parecia ter fechado todos os espaços. Até a reclamação de que ele não marcava gols fora de casa cai por terra: ele fez dois nas duas últimas partidas em que jogamos como visitantes

Há os que andam por aí reclamando da dificuldade que temos de impor nosso futebol na casa dos adversários — e têm motivos para tal; ou do desperdício de pontos que nos afasta cada vez mais do título, apesar de estarmos na luta pelas primeiras colocações há muitas rodadas; ou das perdas sucessivas de cobranças de pênaltis — esquecendo-se de que foi nos pênaltis que avançamos até a semifinal da Copa do Brasil.. 

Apesar de tudo, ter o melhor ataque, com 40 gols marcados e o segundo maior número de vitórias, 13 no total, no Campeonato Brasileiro, ao menos até o instante em que publico esta Avalanche, talvez também fosse razão de um bom bate-papo no boteco.

Todos são temas pertinentes! 

Eu me reservo o direito de falar do que mais me chamou atenção na partida dessa tarde de sábado: a performance de Geromel. Ver nosso zagueiro de volta com a faixa de capitão e, pela primeira vez no ano, disputando uma partida completa, após a cirurgia no joelho e o problema muscular, já seria motivo de alegria para mim. Vê-lo com a segurança e empenho que vi —  imagino que você, caro e cada vez mais raro leitor dessa Avalanche, também tenha visto — é mais do que motivo para minha satisfação.

Geromel está com 38 anos, completados há cerca de uma semana — aos crentes nas coisas alheias, ele é virginiano como o Grêmio. Resiliente e paciencioso, nosso zagueiro superou a distância dos gramados e a dureza do período de reabilitação. Para quem foi atleta e passou por isso, sabe o drama que é cada dia de fisioterapia, exercícios doloridos e avanços limitados, expectativas para voltar aos treinos e medos de que a lesão volte a incomodar.

Enquanto alguns reclamariam da falta de ritmo de jogo, na volta ao time, Geromel  demonstrou estar em plena forma física e técnica. Em campo, mostrou que mantém o reflexo que o fez dos maiores zagueiros que já vestiram nossa camisa. Deu o bote na hora certa e impediu o drible do atacante. Antecipou-se às jogadas e abortou as tentativas do adversário. Dentro da área manifestou seu gigantismo despachando a bola pelo alto e por baixo. Independentemente de como ela viesse.. 

Nos deu ainda a satisfação de assisti-lo novamente ao lado de Kannemann com quem forma a dupla de zaga mais vitoriosa dos últimos tempos. Geromel traz tanta segurança à defesa que seu colega de área pode se expor menos e completou uma partida sem tomar cartão amarelo, coisa rara nesta temporada. 

Ao fim ainda expressou a humildade que marca sua trajetória. Ao repórter de campo que o elogiou, respondeu que não poderia ser diferente depois de tanto tempo que teve para treinar. Como se voltar a campo após meses recuperando-se de lesão e jogar da forma como jogou fosse a coisa mais natural do mundo. Não o é! Geromel é simplesmente sobrenatural !

Avalanche Tricolor: a vitória do Grêmio Copeiro!

Grêmio 1×0 Palmeiras

Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Era jogo de Brasileiro e o Grêmio o transformou em jogo de Copa. Tipo mata-mata. Em que se não mata morre. Que não interessa o quanto se joga mas o quanto se sabe sofrer. Do pragmatismo e da bola para o mato. Do suor correndo no peito e o sangue lavando a testa. 

Era uma partida daquelas que não se busca a melhor performance, o que se quer é o resultado. E o resultado se fez logo cedo, aos 10 minutos do primeiro tempo, na clássica jogada da bola passando de pé em pé até estufar a rede. E foi o pé direito de João Pedro que marcou aquele que seria o único gol do jogo após receber o toque precioso de Luis Suárez, o goleador e mais talentoso garçom da nossa equipe.

Villasanti também fez parte da triangulação do gol. Fez muito mais do que isso. Foi gigante na marcação, fechou todos os espaços e não perdeu dividida de bola. Encarou a cara feia do adversário. Irritou o atacante e se sacrificou em campo quando percebeu que o risco do empate era iminente. Deu a vida, foi expulso e saiu aplaudido pelo torcedor que encontrou no desempenho de nosso volante o Grêmio copeiro que andava escondido em algum armário no vestiário.

O Grêmio não foi melhor. Foi apenas maior. E era isso que eu mais esperava do meu time, há algum tempo, para que o coração resignado que me batia fraco no peito voltasse a pulsar no ritmo da raça de um Imortal.

Ao tomar a frente do placar, o Grêmio que assistimos hoje na Arena decretou que ninguém mais seria capaz de nos roubar a conquista alcançada. E em nome dela assumiu a postura do guerreiro que não teme o tranco do adversário, não tem vergonha do chutão e faz da catimba estratégia de jogo. Foi assim que chegamos às maiores das nossas vitórias nos 120 anos de vida e foi assim que superamos depois de sete anos, em casa, o adversário desta noite. 

O Grêmio, desta vez, foi Copeiro em pleno Campeonato Brasileiro! Que assim seja para todo e sempre.