Avalanche Tricolor: Suárez é Imortal!

Grêmio 4×1 São Luís 

Recopa Gaúcha — Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Suárez comemora um dos três gols marcados, em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

Um toque por cobertura, um tapa pelo lado e uma chapada com força para a bola estufar a rede. Em três lances, três gols! Em 37 minutos, Luis Suárez já havia feito sua melhor estreia da longa carreira dedicada ao futebol e havia entregado tudo o que o torcedor gremista poderia esperar para começar esta nova etapa em sua jornada esportiva. 

A ansiedade pela estreia da maior contratação já feita pelo Grêmio em sua história estava por todo o canto, das esquinas de Porto Alegre às entranhas das redes sociais. As arquibancadas pulsavam desde cedo, antes mesmo de os portões da Arena se abrirem. Havia uma inquietude! Um desejo de definitivamente virar a página desconfortável dos dois últimos anos. Não esquecer essa página, porque é preciso lembrar-se da dura lição sofrida para que os erros não se repitam, mas olhar para a frente, se dar o direito à alegria.

Suárez personifica esse novo momento. Por isso, a comoção provocada pelo anúncio das negociações com o craque uruguaio. Por isso aquela multidão no aeroporto a espera do quinto maior goleador do mundo, na apresentação na Arena e nesta noite de estreia, quando mais de 49 mil torcedores foram assistir à final da Recopa Gaúcha. 

A camisa 9 com o nome de Suárez às costas representa muito mais do que se possa imaginar. Sim, o nome do Grêmio ganha destaque no exterior, aumenta o número de sócios e crescem as vendas de material esportivo. Sim, os adversário têm a quem temer sempre que alçarmos a bola em direção ao ataque e nós temos a certeza de que haverá alguém lá na frente com categoria suficiente para concluir às redes.

Suárez no Grêmio é mais do que marketing ou, até mesmo, mais do que futebol. Neste momento, é a retomada do prazer que sentimos diante de uma paixão. É a esperança rediviva. É o renascimento da nossa crença. E, em particular, é a minha oportunidade de recuperar a ilusão e alegria daquele menino que aprendeu a gostar do Grêmio quando sequer nossa imortalidade havia sido testada.

Suárez agora também é Imortal!

Avalanche Tricolor: Feliz 2023!

Grêmio 3×0 Brusque

Brasileiro B (pela última vez) – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Gabriel Santos, esperança para 2023

Eu merecia! Você merecia! Um jogo tranquilo, sem compromisso. Com jogadores soltos em campo, trocando passe sem medo do erro.  Movimentando-se com leveza e destreza. Arriscando chutes de fora da área e tabelando na cara do gol. Com liberdade para criar e se movimentar. Assim foi a partida de despedida do Grêmio na Série B diante de sua torcida, na noite desta quinta-feira. 

O primeiro a brilhar foi Guilherme que marcou um golaço ao se livrar do marcador e bater forte e bem colocado — o primeiro dele desde que vestiu a camisa tricolor. Depois, foi a vez de Gabriel Silva, com seu bigode de pós-adolescente e cabelo cortado à moda antiga, que está apenas desabrochando no futebol. Marcou duas vezes — o segundo gol mais lindo do que o primeiro.  

Lá atrás, Adriel, com corpo esguio e movimentos seguros, pouco foi exigido, mas se fez presente quando requisitado. Mesmo que do goleiro se espere defesas precisas e bom posicionamento, confesso a você que me chamou atenção a forma como lança a bola com os pés e a intervenção que fez de cabeça em uma das poucas tentativas de contra-ataque do adversário. São sinais de um talento cada vez mais exigido à posição.

Na defesa, Bruno Alves apenas confirmou ter sido das boas contratações para a temporada, enquanto Kannemann, com todas as dificuldades físicas que encarou, tem de ter seu contrato renovado o mais rapidamente possível. Time que se preza não pode abrir mão de uma liderança como ele. Leonardo Gomes é outro nome que apareceu na reta final e precisa ser mantido na lateral direita.

No meio de campo, Villasanti é imprescindível; Lucas Leiva, necessário; e Bitello, uma revelação — foi nosso maior destaque no ano e fará diferença na Série A. 

Fora do jogo, vi Diego Souza, nome mais importante de nosso ataque, que estava no camarote comendo pipoca, na tranquilidade de quem sabe que fez o que precisava para nos devolver à Primeira Divisão. Se permanecer no elenco será jogador importante pelo que representa ao grupo, apesar de não ter capacidade de ficar em campo por muito tempo. 

Não vi Geromel, mas soube que treinou durante a semana, mesmo que tenha sido poupado depois da conquista alcançada. Hoje à noite, senti falta de uma homenagem ao capitão. Ele merecia essa menção, pois foi irretocável em todos os jogos que participou. O Grêmio lhe deve muito.

Tem ainda Biel e Ferreirinha, ambos em recuperação, que têm velocidade e podem dar ritmo ao time, em um esquema mais ajustado e num esquema mais bem treinado. Tem também Campaz — se o cito é porque ninguém pode ter custado tanto sem nunca nos oferecer muito. Quem sabe ano que vem não seja o ano em que seu futebol vai esplandecer.

O Grêmio precisará ir além para se fazer relevante nas competições que disputará em 2023. Por enquanto, vale o fato de termos nos credenciado a voltar para a elite do futebol brasileiro com duas rodadas de antecedência.  Que a nova direção saiba fazer do Tricolor um grande time e nunca, nunca mais nos faça passar o que passamos neste ano. 

Eu mereço! Você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, merece! Um time melhor. E um Governo muito melhor para 2023.

Avalanche Tricolor: obrigado, Greg!

Náutico 0x3 Grêmio

Brasileiro B — Estádio dos Aflitos, Recife/PE

O abraço da vitória em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Greg,

Você e eu sabemos que o domingo foi estranho. E estamos cientes de que o próximo talvez seja ainda mais. As coisas que vêm acontecendo na política assustam e preocupam. Não estão do jeito que a gente gostaria. Acompanho de perto suas preocupações. Justificáveis, diante do País que você sonha viver: igualitário, justo e generoso — como você. 

A despeito dos acontecimentos e dos sentimentos que afloram, hoje também era um dia de remexer na nossa memória afetiva. Retomar as emoções que vivenciamos há 17 anos, quando você e o Lo eram guris de calça curta e cabelo comprido. Mal sabiam ainda o que levava o pai a sofrer desesperadamente diante da televisão que transmitia um jogo de futebol. Entraram no quarto, onde eu assistia ao despedaçar do meu time na Segunda Divisão, para entender meus lamentos. Logo se uniram a mim, me abraçaram e assim ficamos até o instante final quando vencemos o que ficou conhecido por “Batalha dos Aflitos”. O pai chorou e vocês, constrangidos com a cena, foram solidários.

Foi lá que vocês foram forjados gremistas, mesmo que você tenha vestido uma camisa tricolor ainda nos tempos em que dormia em um berço, quando fomos campeões brasileiros, em 1996, o ano que você nasceu. Foi lá que você entendeu que aquele time tinha uma importância para o seu pai que se sobrepunha à razão. E nunca mais me deixou só nesse sofrimento. 

Comemoramos títulos, vibramos com os gols, reclamamos dos jogos mal jogados e dos reveses nas nossas jornadas esportivas. Nos divertimos na final do Mundial e curtimos juntos a alegria dos torcedores pelas grandes vias e locais turísticos de Abu Dhabi. Ano passado, foi você quem me confortou na inevitável caminhada à Série B. E me ensinou que, independentemente da competição que estivéssemos disputando, seguiríamos vibrando com gols e lamentando as derrotas. Ou seja, nada nos faria deixar de ser gremista.

Neste ano, foi você quem esteve ao meu lado partida após partida. Ajudou-me a suportar o futebol enfadonho, encontrou consolo nos pontos perdidos fora de casa e na sequência de empates que nos impedia de acelerar a ascensão. Foi você quem me fez mais feliz a cada gol que comemorou comigo. 

Neste domingo, não seria diferente. Sem ser indiferente a importância e a gravidade do que acontece no Brasil, lá estava você sentado comigo diante da televisão para assistirmos ao Grêmio contra o mesmo adversário e no mesmo estádio de 2005. As circunstâncias eram outras, é claro. Não era vida ou morte. Não havia arquibancada lotada. Nem o oponente tinha mais qualquer chance de se manter na competição. Mas a memória estava fervilhante e a ansiedade era enorme. Confirmar a passagem à Série A com duas rodadas de antecedência era o mínimo que merecíamos depois desta temporada ingrata de 2022. 

A partida se fez fácil mesmo com o futebol difícil que jogamos. Quis o destino que a revelação do ano se sobressaísse aos seus: Bitello fez dois gols e renovou a esperança de que em 2023 vai brilhar no meio de campo gremista. Lucas Leiva, o volante cabeludo da “Batalha dos Aflitos”, que voltou da Europa para fazer parte desta campanha, agora jogando mais à frente, também marcou o seu para tornar ainda mais completa essa sua história com o Grêmio. 

Foi o segundo gol, o de Lucas Leiva, que me fez acreditar que nada mais nos impediria de subir. Foi a cena dele abraçado, em comemoração, a Geromel —- ninguém mais merecia esse retorno do que nosso capitão —- e a Diego Souza —- minha reverência a nosso goleador —, três ‘veteranos’, que me fez cair em emoção. 

O desejo era de virar criança mais uma vez, correr para abraçar o pai e ser abraçado por ele. O pai não está mais entre nós. Contive-me! Ou quase! Os olhos marejaram, a lágrima escapou e escorregou pelo rosto, sem que eu conseguisse esconder a vergonha daquele sentimento. Você, cúmplice, me poupou. Compartilhou sua alegria. E foi parceiro como sempre! 

Ao seu lado, estamos de volta à Série A! E por ter sido ao seu lado, essa caminhada foi bem menos árdua do que poderia ter sido diante da conjuntura que enfrentamos — no futebol e no País. 

Obrigado, parceiro!

Avalanche Tricolor: Casimiro tem razão

Grêmio 1×1 Bahia

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Thiago Santos comemora gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“É ruim contra ruim” disse o filósofo esportivo das redes sociais, Casimiro, há algumas rodadas, após assistir ao time de coração dele perder para o meu time de coração. Do seu jeito, eloquente e hiperbólico, que conquistou o Brasil — e meus guris aqui em casa —- definiu bem a “Maior Série B de Todos os Tempos” — foi esse o título que o pessoal do marketing batizou a competição que reúne seis ex-campeões brasileiros e põe em jogo quatro vagas de acesso à primeira divisão. Esqueceu de combinar com os times.

Dentre a criatividade dos publicitários e a fala crua do comentarista, fico com esse último. É a realidade de um campeonato em que ver seu time jogar fora de casa tem se transformando em um martírio. Com a exceção de praxe que toda regra nos impõe, os clubes de melhor desempenho não têm muito mais do que 50% de aproveitamento como visitante. Uma performance mediana, sinônimo de medíocre. Por isso, garantir os três pontos em casa faz diferença na competição.

O Grêmio perdeu dois pontos hoje à tarde, depois de um primeiro tempo em que jogou melhor e desperdiçou seus ataques. Foi punido com um gol nos acréscimos, no único lance em que o adversário impôs perigo. No segundo tempo, foi um deus-nos-acuda: o Grêmio subia de maneira desorganizada, tomava decisões erradas e sequer conseguia desperdiçar gols, pois não era capaz de proporcionar perigo dentro da área adversária. 

No raro momento em que fizemos uma jogada de linha de fundo, Guilherme, que entrou no intervalo e não precisou de cinco minutos com a bola nos pés para ser vaiado pelo torcedor, fez um cruzamento preciso para Thiago Santos concluir de cabeça. Nosso volante, outro que havia entrado no intervalo para desespero de parcela da torcida, que até hoje o vê como símbolo do rebaixamento (em tempo: há gente muito mais culpada pelo que aconteceu com o Grêmio), estava predestinado a marcar. Momentos antes havia concluído para as redes, em um gol anulado devido a um impedimento na origem da jogada. E não teve mais uma chance, naquele que poderia ter sido o gol da virada, porque Diego Souza se precipitou sobre ele na conclusão de um lance de área, nos acréscimos.

O resultado final só não foi lamentado porque a combinação da rodada conspirou a favor, com o empate entre os outros dois times que buscam à classificação —- um deles, o de Casimiro —, em jogo, aliás, que não se encerrou devido a violência de torcedores e a invasão de campo. Cenas de entristecer e desmerecer o título que os marqueteiros deram ao Brasileiro B.

A três rodadas do fim do Campeonato, o Grêmio está mais próximo do acesso. Nem tanto pelo que tem feito nessas últimas partidas. Muito mais pelo que seus adversários deixam de fazer. A preocupar, o fato de dois desses jogos serem fora de casa e o Grêmio terá de mudar a rotina da B fazendo ao menos três pontos no estádio adversário —- um deles o do Náutico, no Recife, domingo que vem, o mesmo cenário da Batalha dos Aflitos. Aflitos? Sim, aflitos é como estamos nós torcedores nesses momentos finais de uma disputa que, como diz o filósofo Casimiro, “é ruim contra ruim”.

Avalanche Tricolor: como sempre!

Londrina 1×1 Grêmio

Brasileiro B – estádio do Café, Londrina/PR

Diego comemora mais um gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O Grêmio pode garantir passagem à Série A daqui uma semana, jogando diante da torcida, foi o que disseram os jornalistas esportivos durante a jornada desta tarde de sábado. Vai depender da combinação de resultados dos demais jogos e, claro, de uma vitória em casa na próxima rodada. 

Não me esforcei a entender essa matemática porque precisa tirar pontos daqui, colocar outros ali e somar onde é possível chegar. Perda de tempo, agora. A ascensão está próxima quase que por inércia. Mesmo que a campanha seja de altos e baixos, de vitórias, de algumas derrotas e de muitos empates, os adversários colaboram em seus tropeços. Se não der domingo que vem, dará na sequência. Temos três rodadas para alguma coisa dar certo. Talvez até consigamos subir enfrentando o Náutico, no Recife — o que, convenhamos, não seria uma novidade.

Hoje, foi mais do mesmo. Um time de contradições. Quando esteve melhor, não conseguiu transformar a performance em gol. Quando o desempenho piorou, marcou. Contou com a presença dentro da área de Diego Souza, o atacante que ainda tem torcedor com coragem de reclamar. Subiu mais alto e de cabeça concluiu para as redes. Como sempre.

No segundo tempo, o técnico decidiu “fechar a casinha” — no meu tempo chamavam isso de retranca. E foi aí mesmo que a “casinha” se abriu. Escalou nove jogadores da intermediária para trás: um goleiro, dois zagueiros, três laterais e três volantes. Com tal congestionamento não é de se surpreender que uma bola haveria de resvalar na mão de alguém. Pênalti visto pelo olho eletrônico. E cobrado no meio do gol. Gol! Como sempre.

De diferente mesmo só o fato de ter sido o primeiro ponto conquistado fora de casa sob o comando do novo-velho treinador — até aqui, longe da Arena, só havia somado derrotas. A despeito de tudo isso, voltaremos à Primeira Divisão, como sempre!

Avalanche Tricolor: personagens da nossa história

Grêmio 2×0 CSA

Brasileiro B — Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Lucas Leiva comemora o gol em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Dois têm 37 anos. O terceiro, tem 35. Os três têm muita história boa para contar. Têm dores e sofrimentos para compartilhar, também. Enxergam o futebol como poucos jogadores o fazem dentro de campo. E exercem uma liderança difícil de ser medida para quem nunca viveu o cotidiano do vestiário de futebol, local em que dramas pessoais, fragilidades emocionais e disputas internas contaminam o ambiente. Situações que precisam ser atendidas na conversa ao pé de ouvido, no puxão de orelha diante dos colegas e, às vezes, em uma chacoalhada de ânimo, naquela corrente de abraços que mais parece curso de autoajuda. 

Geromel e Diego Souza (os de 37) e Lucas Leiva (o de 35) são os personagens desta vitoriosa e otimista Avalanche, escrita com sentimento bem diferente daquele que ecoava no inquieto coração deste escrevinhador (que, apenas por curiosidade, tem 59 anos), na semana passada. Lá havia um misto de frustração, tristeza e desencanto com o que havia assistido e ouvido de alguns dos nossos. Que por serem nossos queremos que sejam perfeitos, quando sabemos que as pessoas, por seres humanos que são, não são assim: erram, se omitem, pecam, traem tanto quanto acertam, transformam, glorificam e vencem. Nós somos assim, eles são assim, eu sou assim —- muito mais talvez do que todos os outros.

Lucas Leiva, o mais novo dos veteranos, pediu para voltar. Queria encerrar carreira no time pelo qual é apaixonado. Os torcedores, mesmo escolados com a decepção proporcionada por outros que, recentemente, tomaram a mesma decisão, oferecemos a ele o benefício da dúvida. Teve dificuldade para se readaptar ao futebol (mal) jogado na Série B e aos desacertos de um time que até agora não entendeu o que está fazendo na segunda divisão. Foi reposicionado em campo e dá a impressão que se redescobriu mais à frente, onde mata suas sede e fome de gol. Marcou o primeiro de hoje, o segundo dele nas duas últimas partidas disputadas.

Diego, nosso goleador, soube-se agora, além de enfrentar a violência, a pressão dos zagueiros e o peso da idade, precisa superar a dor de uma hérnia inguinal que entra em campo com ele, acompanha-o em cada disputa de bola e torna os movimentos ainda mais difíceis. Hoje, mais uma vez, subiu ao lado dele, mais alto do que todos os marcadores para, de cabeça, definir a vitória. Se o número de gols somos capazes de registrar —- foram 13 apenas nesse campeonato —, incontáveis foram as vezes em que vimos nosso atacante orientando companheiros, sinalizando o melhor caminho a percorrer, mostrando qual o comportamento adotar diante dos diversos desafios que temos pela frente. Um líder na tabela de goleadores gremistas tanto quanto um líder à frente do grupo de jogadores.

Geromel foi pouco exigido na noite desta terça-feira quando demos mais um passo importantíssimo à Série A. Foi eficiente, como costuma ser, nas poucas vezes em que a bola rondou o espaço ocupado por ele. Mas é personagem, sim, desta Avalanche porque ninguém, nenhum outro jogador, veterano ou novato, se dedicou de forma tão séria à missão de elevar o Grêmio a seu patamar quanto nosso zagueiro, nesta temporada. Em campo, nunca deixa qualquer um que esteja vestindo nossa camisa esquecer o significado de vesti-la. É respeitoso com o adversário. Elegante no comportamento. Sério na execução de sua tarefa. Preciso, muito preciso nos movimentos que realiza. 

Lucas, Diego e Geromel, veteranos que escolhi para serem personagens desta Avalanche, são, por merecimento, protagonistas da história do Grêmio. E da nossa ascensão que está cada vez mais consolidada.

Avalanche Tricolor: Fora, Renato!

Sampaio Correa 2×1 Grêmio

Brasileiro B – Castelão, São Luis/Maranhão

Renato em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Calma! Antes de me condenar, perceba a vírgula que precede o nome próprio e se expressa logo após o vocativo. Muda o sentido daquilo que você, caro e cada vez mais raro leitor, deve ter imaginado assim que deparou com a ‘manchete’ desta Avalanche. 

Não o culpo por ter interpretado o título de forma errada. Seria natural no futebol pedir a cabeça do treinador que, em momento decisivo, abrisse mão de seu time titular e reduzisse o ritmo de treino e mobilização do elenco porque a partida é fora de casa — bem distante da sede — e, com essa decisão, prolongasse a agonia da presença na Série B. 

Por muito menos, parte do torcedor fez isso com Roger — e olha que o treinador em nenhum momento baixou a guarda, fez seus jogadores pensarem que o compromisso à frente era de menor importância, afastou-se do clube para aproveitar a praia e tenha dado folga a seus principais e poucos talentos. Alguns gremistas foram além: o condenaram pela “petulância” de proferir discurso de cunho político quando tinha de estar preocupado com o baixo rendimento do time — algo muito mais relevante para vida das pessoas do que combater o racismo, por exemplo (atenção, atenção: contém ironia nessa frase e se você não entendeu azar o seu!).

Das arquibancadas da Arena, ouvia-se a vaia sempre que o nome do técnico era anunciado. Quando se atrevia a escalar os “malditos”, até porque faltavam (na verdade, faltam) opções no elenco precariamente montado para a Série B, era desconjurado. Os idólatras, que costumam ser pobres de espírito e fracos de memória, além dos apupos, gritavam o nome de Renato — como se o técnico consagrado em uma estátua nos arredores da Arena não tivesse sido uma das causas pela tragédia que nos colocou na segunda divisão. 

Pensar que “Fora, Renato!” tivesse o mesmo sentido de “Fora Renato!” , depois de mais uma derrota na casa do adversário, seria muito lógico para quem acredita que o futebol é movido pela lógica. Até porque o aproveitamento de Renato, desde que voltou ao time, após a aclamação de parte da torcida, é de apenas 50%. Ganhou os dois jogos disputados na Arena e perdeu os dois jogados fora — a partida vencida, logo depois da demissão de Roger, não conta, né, afinal, Renato preferiu fazer ‘home office’, no Rio de Janeiro, em lugar de assumir a responsabilidade de comandar o time na casamata — imagino que tivesse algo mais importante a fazer na cidade fluminense.

Não! Definitivamente, não! Eu não estou aqui liderando qualquer grito pela demissão do nosso treinador — não é do meu estilo nem seria apropriado para o momento. Espero que Renato permaneça até a rodada final (e só) e, antes que esta chegue, tenha conseguido nos elevar à primeira divisão. Vencer ao menos duas das três partidas na Arena, imagino, serão suficientes para alcançar esse objetivo que já estava bem encaminhado por Roger, apesar dos pesares e das críticas de gente que colocava seus preconceitos acima dos interesses do clube.

O título desta Avalanche, esclareço, é apenas uma forma de chamar atenção para o momento que estamos vivenciando, em que a lógica no futebol tende a ser ofuscada pela paixão — no futebol e na política, também. De lembrar que, talvez, se estivermos dispostos a conquistar um ou dois pontos “fora, Renato”, a classificação chegará antes da rodada final. 

Avalanche Tricolor: o sorriso de Lucas Leiva

Grêmio 3×0 Sport

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegte/RS

Lucas Leiva comemora gol em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Punho cerrado, braço estendido em direção ao céu e corpo elevado por um dos colegas. Assim Lucas Leiva comemorou o primeiro gol dele desde que voltou ao Grêmio e o segundo na vitória importantíssima desta noite — não apenas porque nos deixa mais próximo da classificação à série A , mas também porque corremos o risco desta ser a última partida na Arena, nesta temporada. Havia também um sorriso estampado no rosto desse gremista que, após vitoriosa carreira no exterior, decidiu encerrar sua jornada no time do coração.

Um sorriso que não escondia o alívio de quem sabia da dívida que tinha com o clube, pois desde que retornou não havia conseguido impor o futebol que lhe alçou ao sucesso. O próprio Lucas confessou, ao fim da partida, a frustração de não ser capaz de repetir com a camisa do Grêmio o talento que lhe projetou internacionalmente — ops, não é de bom tom usar essa palavra em uma Avalanche Tricolor, vamos então mudá-la para mundialmente. 

Nesta terça-feira, jogando mais à frente , pela total ausência de armadores e criadores no meio de campo, Lucas demorou para entender sua função. Participou de alguns lances, mas sem o diferencial que esperamos de alguém com a capacidade dele. 

Foi no segundo tempo, quando se imaginava lhe faltaria fôlego para manter a intensidade na marcação na saída de bola, que Lucas apareceu. Iniciou a jogada do primeiro gol no meio de campo e participou da sua finalização já dentro da área adversária, com a conclusão de Biel — em tempo: é incrível a dedicação desse menino de apenas 21 anos. O segundo gol, como já disse, foi de autoria dele e resultado de lançamento de Diogo Barbosa e da presença de Rodrigo, recém-entrado, dentro da área. Lucas disputou com o zagueiro e bateu forte, estufando as redes.

O sorriso na comemoração voltou a se repetir na entrevista final, ao comentar o placar elástico sobre um adversário que vinha se assanhando na competição e já era visto como uma “touca” do Grêmio, diante das estatísticas favoráveis nas últimas temporadas. Lucas Leiva estava feliz com o gol e a vitória — o terceiro gol foi marcado por Bitello. Uma felicidade que me representava em campo. Uma felicidade apropriada para o momento, sem a ilusão de que está tudo resolvido e menos ainda de que estamos esbanjando qualidade técnica.

Foi o próprio Lucas Leiva quem disse ao repórter que o abordou ao lado do campo que no Grêmio nada é fácil, tudo vem com sofrimento, mas, no fim, na maioria das vezes, as coisas dão certo. 

Que Lucas siga nos dando o direito de sorrir!

Em tempo: o que você vai ler a seguir, é claro, é opinião de um torcedor gremista; mesmo assim, espero que você tenha parcimônia em compreender o que penso sobre o assunto. Torcedores do Santos invadiram o gramado e um deles tentou dar uma voadora no goleiro Cássio do Corinthians. O time paulista foi punido com perda de mando de campo nos dois próximos jogos da Copa do Brasil, no ano que vem. Alguns torcedores se engalfinharam nas arquibancadas, na partida contra o Cruzeiro, e o Grêmio foi punido com a perda de três mandos de campo, que se for mantida representará o fim da presença gremista em seu estádio nesta temporada. É justo?

Avalanche Tricolor: você não tem ideia

Novo Horizontino 2×0 Grêmio

Brasileiro B – Estádio Jorjão, Novo Horizonte/SP

Foto de Lucas Uebel

Foi hoje pela manhã que terminei de escrever o texto que você encontra abaixo deste. Com os dias corridos como têm sido esses últimos, não havia conseguido publicá-lo na sexta-feira que antecede a apresentação do programa Mundo Corporativo, como gosto e costumo fazer, com o objetivo de oferecer ao ouvinte e leitor acesso às informações completas que vão ao ar no programa de rádio. 

Atrasei a entrega, considerando o prazo que minha disciplina me impõe, porque a semana foi intensa tanto quanto cansativa. Foi feliz, também, já que os resultados alcançados foram bastante positivos —- os meus resultados, lógico! 

Encontrei plateia entusiasmada diante da mensagem que apresentei em palestra e ouvintes carinhosos e acolhedores pela visita que fiz a Manaus, no meio da semana. Em São Paulo, de um frio arrepiante, também tive dias gratificantes, tanto pelo que aconteceu na profissão como na vida pessoal. Dias que se encerram aqui no interior de São Paulo onde aproveito a companhia da família em meio a uma reserva florestal.

Compartilho tudo isso, em um espaço que seria dedicado apenas ao futebol, porque foi o atraso no texto escrito que me fez ter acesso a recomendações de uma especialista em gestão e desenvolvimento humano, na manhã deste sábado, antes de começar a escrever esta Avalanche. Ela recomenda que não se haja impulsivamente frente a situações difíceis ou que exijam sensibilidade. Pede para que se ouça atentamente o outro, observe-se a situação com cautela e se dê um tempo para responder, permitindo que nossas ideias, às vezes animalescas, migrem do cérebro reptiliano para o cérebro racional.

Oportuna lição, porque você não tem ideia do que o meu cérebro mais primitivo estava doido para escrever nesta Avalanche depois do que assistimos na noite de ontem, em Novo Horizonte. Ou, se você viu o jogo, talvez tenha ideia, sim!

Avalanche Tricolor: contagem regressiva para o fim da maldição

Grêmio 2×1 Vasco

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Thaciano comemora o gol da vitória em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Empurrado pelo torcedor e motivado pelo treinador, o Grêmio venceu um dos adversários diretos pela classificação à Série A. Saiu atrás, com um gol tomado logo nos primeiros minutos, não esmoreceu e virou o placar ainda no primeiro tempo. Bitello fez um gol de “chiripá”, nome de uma indumentária que os gaúchos vestiam antigamente que serviu para batizar esses chutes que saem meio enviesado mas chegam ao seu destino. O outro, de Thaciano, aos moldes “carretão”, aquela máquina movida por tração animal capaz de moer o que havia no caminho. 

Jogou melhor que o adversário e brigou de igual para igual —  o verbo é mais apropriado para o que os dois times apresentaram na disputa pela bola na etapa final. 

Enquanto jogou futebol, o fez com intensidade e velocidade, haja vista o gol da virada: se iniciou com o corte da defesa, a bola foi para Thaciano que encontrou Biel disparando na frente, em uma desabalada correria; o mesmo Thaciano chegou livre na cara do gol, recebeu e marcou. Contra-ataque de carteirinha.

Quando o futebol não se expressava mais,  demonstrou dedicação, esforço e entrega. Teve carrinho com direito a vibração de zagueiro, catimba para conter o desespero do adversário, um goleiro que fez ao menos duas grandes defesas e um ferrolho com três e até quatro volantes de marcação para impedir a pressão no fim da partida.  

Seis pontos à frente do quinto colocado e com 92% de chances de se classificar, faltam agora nove partidas para o fim do campeonato, quatro delas em casa quando teremos o torcedor no cangote para fazer o time resistir ao adversário, e ao futebol precário. Será preciso marcar pontos fora de casa, também, para não corrermos riscos.

A maior motivação está na promessa do treinador de que a meta é subir e o bom futebol a gente vê depois —- suficiente para engajar uma torcida desacreditada no potencial do clube, desde a tragédia do ano passado. Curiosamente, nada diferente do que tínhamos até aqui — até os velhos desafetos do torcedor estiveram todos em campo na tarde deste domingo —, mas o futebol é assim mesmo: a narrativa vale mais do que os fatos. E enquanto a narrativa for vitoriosa, prevalecerá. Que siga sendo ao menos até que a gente se livre dessa maldição. Estamos na contagem regressiva.