Avalanche Tricolor: os estranhos fenômenos que permitiram a vitória do Grêmio

Grêmio 2×1 Vila Nova

Brasileiro B — Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Thaciano comemora segundo gol em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Para falar da vitória gremista nesta noite de sexta-feira, destaco dois momentos que me chamaram atenção na partida.

No primeiro, o VAR cconvoca o árbitro depois do segundo gol do Grêmio. Pior do que a dúvida de ver o gol ser anulado, é o risco de o lance retornar à origem e um pênalti ser assinalado; de o 2 a 0 que o placar da TV já registrava se transformar em 1 a 1, em meados do segundo tempo. Foram quatro ou cinco minutos de discussão, revisão e ameaça de correção. Acostumado com os acontecimentos dos últimos tempos, do alto do sofá de minha casa, já previa o pior porque assim tem sido nossa jornada desde a tragédia do ano passado: se alguma coisa pode dar ruim, dará ruim.

No segundo, um escanteio a favor do adversário é assinalado quando o cronômetro já havia corrido mais de seis minutos desde os 45 finais. Era resultado de uma sequência de tentativas de ataque que pressionavam nossa defesa e provocavam um sofrimento desmesurado na torcida. Um gol naquele momento seria a decretação do empate — já havíamos tomado um aos 33 do segundo tempo —, da manutenção da série sem vitórias e a abertura da temporada de horrores na reta final do campeonato. Antes de o cruzamento se realizar, meu descrédito previa o pior. Tinha a impressão de que nada seria capaz de impedir aquela bola de entrar no nosso gol. E o pior esteve perto de ocorrer, porque a bola foi mal rebatida pelo Grêmio, ficou dentro da área e por duas vezes o adversário teve a oportunidade de marcar.

Do lance em que o VAR tentou anular à iminência de gol nos acréscimos, algo estranho para esses tempos complexos que vivemos aconteceu: nem o árbitro sinalizou o pênalti nem os atacantes adversários conseguiram botar a bola na rede — nesse caso, bem que um deles enxergou o canto aberto e empurrou a bola naquela direção, mas quis o destino que fosse desviada para a linha de fundo.

Nada do que fizemos em campo, nesta noite, foi muito diferente do que vinha sendo feito até então. Feitos que nos colocaram há algum tempo entre os quatro primeiros classificados mesmo que diante de alguns resultados capengas. 

Houve a pressão inicial — neste caso premiada com um gol bastante cedo —- e o espaço para o adversário se aproximar da nossa área; assim como houve um esforço descomunal dos nossos jogadores para revelar disposição na marcação e a imprecisão em muitas jogadas de ataque. Houve até Diogo Barbosa (que por sinal jogou bem e participou dos dois gols) e Thiago Santos, no mesmo time —- o que faria as telhas do Estádio Olímpico despencarem na cabeça de qualquer um que por lá se atrevesse passar. Houve vaias para Campaz e muxoxos para qualquer outro que não fosse capaz de fazer em campo o que a torcida imaginava na arquibancada.

Nada mudou. Nem se poderia esperar por isso, apenas porque a direção do Grêmio decidiu demitir todo o comando do departamento de futebol – com medo de perder votos na eleição do conselho deliberativo do clube, no próximo dia 24 – cometendo mais uma injustiça contra Roger. Mas estou convicto de que alguma força qualquer decidiu nos ajudar, nesta sexta-feira. Dessas coisas que a gente não sabe explicar direito. Dessas que alguns chamam de sorte ou azar. Outros falam em sobrenatural. Os atrevidos dizem que é coisa de quem nasceu com aquilo virado para a lua. 

Acho que é um pouco de cada coisa, porque tem gente chegando que dá a enteder que foi iluminada por forças superiores, pois mesmo que trace linhas tortas consegue escrever a história do jeito que deseja.  

Avalanche Tricolor: Roger, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem

Roger em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Jamais deixarei de torcer pelo Grêmio. Jamais! Nada do que fizerem com meu time será suficientemente forte para desconstruir a paixão que forjei desde criança com o meu Imortal. Se tivessem essa capacidade seria a derrota final. A falência da esperança, contra a qual lutarei sempre. Uma luta que promoverei em todas as dimensões da minha vida, porque sou um apaixonado pelas coisas que me envolvem: família, mulher, filhos, amigos, colegas, trabalho, projetos e, sim, meu time de futebol.

Assisti ao Grêmio em seus piores momentos. aprendi a torcer por este time quando sequer o mais próximo dos títulos possíveis, o Gaúcho, era possível. Acreditei nele mesmo quando assisti do gramado aos torcedores explodindo foguetes contra os meus ídolos. Mantive-me fiel apesar das picuinhas que infernizavam o ambiente do clube e me eram contadas por pessoas que viviam intensamente aquele momento. Vi o Grêmio ser rebaixado três vezes e se reerguer. Vi o Grêmio sobreviver a Batalha dos Aflitos.

Crente nos seus méritos, leguei aos meus filhos o amor que o tricolor havia me proporcionado. Os fiz gremistas mesmo à distância. Os fiz acreditar que aquele era o caminho a ser percorrido. Que o meu sofrer e o meu prazer serviriam de inspiração para a caminhada que eles estavam iniciando nessa incrível jornada que o esporte é capaz de oferecer ao ser humano. 

Lembro do dia que fiz os dois guris chorarem ao meu lado porque havíamos vencido a mais incrível das batalhas. E da noite em que os dois vestiram orgulhosos a camisa do Grêmio para entrar no estádio Hazza bin Zayed, em Al Ain, nos Emirados Árabes, e torcer pelo time que disputaria uma vaga à final do Mundial de Clubes, em 2017.

Esses momentos que tive o privilégio de vivenciar são muito maiores do que a mediocridade de dirigentes incapazes de enxergar a grandeza de uma história. 

Por isso, hoje, primeiro de setembro de 2022, decreto que não deixarei de torcer pelo Grêmio mesmo diante da maior das injustiças que poderíamos cometer nesse instante de instabilidade: a demissão de Roger. Esse homem que foi vítima do racismo estrutural que impera no Brasil e sofre a intolerância dos incapazes de entender que no futebol podemos ter pessoas com inteligência e senso crítico, agora é demitido em um ato de covardia do seu presidente que, um dia antes, havia confirmado a manutenção dele diante do comando técnico da equipe. 

Roger paga pelo que fala, pelo que pensa e pelo que conhece da vida.  Paga por sua inteligência e sua consciência. Paga pela incompetência de quem fez o clube refém de pretensões políticas. As mesmas aspirações que tentaram apagar a história de Luis Felipe Scolari, que venceu sete títulos no clube, entre Libertadores, Copa do Brasil, Brasileiro, Recopa Sul-Americana e Campeonato Gaúcho; ou de Vagner Mancini, que conquistou Libertadores e Campeonato Gaúcho, como jogador. 

Na primeira vez que Roger foi demitido como técnico, escrevi que “cheguei a imaginar que a política interna do clube seria insuficiente para influenciar o trabalho dele e conseguiríamos desenvolver um planejamento de longo prazo”. Hoje, vejo que sou um iludido, um desatinado diante das coisas podres do futebol,  incapaz de ver que o desejo de poder e a vaidade se sobrepõem aos interesses do clube. 

Roger mais uma vez é sacrificado. Sofre injustiça. Arca com a responsabilidade que não é dele. Merecia mais respeito do Grêmio e de seu torcedor. Mas, infelizmente, o futebol não é feito de justiça, assim como a vida. A me consolar, está a crença de que Roger saberá ser maior do que estes que o demitiram e o criticaram, porque tem caráter, tem personalidade forte e tem propósitos que estão acima do resultado dentro de campo e da política que corrói o ser.

A demissão dele e a contratação de Renato —- o mesmo que foi incapaz de manter a trilha vitoriosa e nos levou ao caminho da Segunda Divisão — são resultado de uma política covarde, sem personalidade nem índole, que contamina o ambiente do clube, impacta o empenho em campo e mancha nossa história. Um política que apenas visa o poder.

Roger — se é que você um dia lerá essa Avalanche — peço desculpas pelo que os atuais diregentes do Grêmio fazem mais uma vez com sua história. Perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem (e há algum tempo não sabem). E peço que você me entenda — e tenho certeza que entenderá por gremista que nunca deixará de ser: a despeito do que decidam e façam, jamais deixarei de torcer pelo Grêmio. Jamais!

Avalanche Tricolor: que venha Setembro, logo

Criciúma 2×0 Grêmio 

Brasileiro B – estádio Heriberto Hülse, Criciúma/SC

A defesa de Brenno em foto de LucasUebel/GrêmioFBPA

Que Agosto se vá e não deixe saudade! Foi o que pensei ao fim da partida da noite de terça-feira, apesar deste ser o mês de meu aniversário. A sequência de maus resultados — três derrotas e um empate — me remeteu ao dito popular de que “agosto é o mês do desgosto”,  má-fama que surgiu na Idade Antiga com crendices romanas de que, neste período do ano, um dragão cruzava o céu —- claro que expelindo fogo pelas ventas, porque não fosse isso, o espetáculo de horror não estaria completo. 

A coisa era tão séria e se espalhou pelo mundo que, em Portugal, se dizia que “casar em agosto traz desgosto”, o que fazia com que muitas mulheres adiassem a cerimônia. Necessariamente não era por medo do azar, mas pelo fato de que no período as embarcações deixavam a costa rumo ao Novo Mundo levando seus maridos, o que sempre era uma viagem de risco. Na lista de “malfeitos” do mês, uma lenda que corria entre cristãos dizia que 24 de agosto é o Dia do Diabo. Coincidência ou não, mesma data em que Getúlio Vargas cometeu suicídio — fazendo com que o mês ficasse ainda mais mal-afamado entre os políticos brasileiros.

Convencido de que os maus agouros, as três derrotas e os nove gols tomados eram de responsabilidade do Agosto, antes de começar a escrever olhei nossa performance nas partidas disputadas neste mês e percebi que a primeira semana havia sido bem melhor: ganhamos os dois jogos que disputamos, um fora de casa, coisa rara, e outro de goleada.

Minha pesquisa agora cedo derrubou com minha tese da noite de ontem. Minha desculpa para o desempenho abaixo do esperado e desejado se frustrou. Descobri que meu consolo para o que estamos assistindo em campo era tão frágil quanto o futebol jogado, neste momento. 

A despeito dos motivos que tenham nos levado a essa queda de rendimento que Setembro chegue logo e possamos voltar a sorrir com vitórias, gols e classificação garantida.

Avalanche Tricolor: da esperança na política e no futebol

Grêmio 0x1 Ituano

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Gabriel Silva dribla em foto de LucasUebel/GrêmioFBPA

Venho de três dias especiais para quem dedica sua vida ao jornalismo. Cobertura de eleição por si só é daqueles momentos para os quais nos preparamos com parcimônia, apuro e equilíbrio. No meu caso, tive o privilégio de mediar as entrevistas com três dos candidatos a presidente da República — infelizmente, os dois principais refugaram, fugiram da raia e se furtaram da oportunidade de conversar com milhões de pessoas que nos acompanham na CBN e nos jornais O Globo e Valor. São daquele tipo que têm medo de perder e só arriscam o resultado quando é inevitável.

Quando estamos diante de pessoas que se candidatam ao cargo máximo do país há necessidade de planejamento e estratégia, pesquisa antecipada e atenção redobrada. Por candidatos que são têm suas artimanhas para transformar a entrevista em palanque eleitoral, driblar os temas mais complicados e contra-atacar no primeiro vacilo do “adversário”. É preciso estar atento, saber a hora de dar a bola para ele jogar e saber a hora de retomá-la; respeitar o adversário, sem subserviência; atacá-lo, sem violência. Qualquer vacilo de nossa parte: gol deles!

Há uma cobrança intensa do público, parte dele contaminado por suas ideologias e “torcidas organizadas” — termo usado por Lula, em entrevista ao Jornal Nacional, para definir o papel dos militantes dos partidos. Uma visão reducionista sobre a política, como fez questão de lembrar Ciro, do PDT, candidato que esteve na sabatina promovida pela CBN, O Globo e Valor Econômico, nessa sexta-feira, no Rio — cidade que me abrigou nesses últimos dias.

Foi, aliás, pouco antes de se iniciar essa sabatina, quando os jornalistas costumam trocar algumas palavras amenas com o entrevistado, a espera do início dos trabalhos, que Ciro falou de futebol. Disse ser torcedor do Guarany de Sobral, cidade em que nasceu, no interior do Ceará. Citou dois ou três clubes pelos quais tem admiração pelo Brasil e quando soube que eu sou gremista, lembrou que o candidato dele a governador no Rio Grande do Sul era o presidente do Grêmio, Romildo Bolzan, que quando caiu para a segunda divisão, teve de abrir mão de suas pretensões políticas.

Você não tem ideia como eu adoraria saber, nesta altura do ano, que Romildo estaria candidato e bem cotado no Rio Grande do Sul. Não, não tem nada a ver com as minhas preferências políticas, mas é que se ele estivesse candidato, certamente o Grêmio não estaria na B.

Dito isso, de volta as conversas e fatos de uma eleição. 

Foi uma semana interessante, mesmo diante de candidata que, em princípio, teria pouco a contribuir para o debate nacional, como é o caso de Vera, do PSTU, partido de linha trotskista, entrevista na quarta-feira. Não desdenho de suas propostas que, inclusive, agradaram parte da audiência, pelo que li nas mensagens recebidas. Quando digo que teria pouco a contribuir, o digo porque não tem expressão na opinião pública como mostram as pesquisas. Foi uma boa surpresa ouvir algumas de suas histórias. Aprendo sempre. E mais uma vez aprendi. Permitir-se ouvir os diferentes, nos torna melhor, nos enriquece.

Estive à frente de Simone, do MDB, na quinta-feira. A candidata repetiu algumas das frases que marcaram sua campanha. Tentou mostrar otimismo mesmo diante das dificuldades eleitorais que tem para assumir uma posição mais competitiva. Tem percentual de intenção de voto quase tão inexpressivo quanto sua outra colega de disputa, Vera. Saiu da entrevista sem marcar gols. E conseguiu se defender bem de algumas investidas dos jornalistas.

Ao fim e ao cabo, cumpri minha missão, ao lado de excelentes colegas jornalistas da CBN, Globo e Valor, e deixei o Rio satisfeito pelo resultado do trabalho, mesmo que o foco que tive de ajustar tenha me mantido longe deste blog por alguns dias. Talvez você, caro e raro leitor desta Avalanche, não tenha percebido. Mas eu senti falta, sim. Adoro a arte da escrita, mesmo que não seja exatamente um arteiro nessa prática.

Cheguei em São Paulo ao fim da tarde. Em tempo de me atirar no sofá, e ligar a TV com a intenção de me divertir assistindo ao Grêmio jogar em casa. Não foi exatamente uma diversão que meu time me proporcionou como o resultado, destacado no alto desta Avalanche, deixa explícito. Frustrei-me com a possibilidade de subirmos na tabela de classificação, abrirmos vantagem sobre os adversários que estão menos cotados e demonstrarmos um time mais maduro diante de seus adversários.

Menos mal que nossa chance de passar para o segundo turno, ou melhor, para a série A, permanece, apesar de três partidas com resultados insatisfatórios. Para me consolar, lembrei de frase dita por Ciro, que está bem distante dos dois primeiros colocados na pesquisa, mas mesmo assim insiste em dizer que, se os adversários vacilarem, quem sabe ele não consegue dar uma volta de 180 graus, esticar a perna no alto, alcançar uma bola cruzada e se consagrar marcando um gol de bicicleta ao fim do jogo. Se Ciro tem essa esperança, quem sou eu, como gremista, para não tê-la.

Avalanche Tricolor: um jogo com as caras do Grêmio

Grêmio 2×2 Cruzeiro

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Gol de Diego Souza, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O escanteio foi cobrado para o meio da área, onde havia aglomeração de adversários, mas mesmo com os espaços aparentemente ocupados, Diego Souza apareceu imponente sobre todos, subiu alto e no movimento de cabeça fez a bola sair do alcance do goleiro e parar dentro das redes. O gol de empate do Grêmio saiu em um momento difícil da partida, quando estávamos atrás no placar, caminhando para o fim do primeiro tempo e potencializando os questionamentos que temos sobre as qualidades do time — o que tornaria a volta para o jogo bastante complicada.

Diego descobre gols onde muitos de nós duvidamos. Usa de seu corpo para conter o tranco dos zagueiros, limpa o campo para que os companheiros se apresentem, batalha contra os adversários e sua condição física —- impactada pela idade. Lidera o time, mesmo quando não está com a braçadeira de capitão. Conversa com os mais jovens, posiciona os colegas, esbraveja para mexer com o brio de quem pensa em baixar a cabeça e compartilha palavras de incentivo quando percebe que alguém se abateu com o erro. Ainda joga com a torcida, porque sabe que tem crédito na Arena — hoje marcou seu décimo segundo gol na temporada.

Mal iniciado o segundo tempo, o esforço de Diego para recolocar o Grêmio na partida foi recompensando em uma das melhores jogadas que o time fez nessa competição —- considerando participação da equipe, marcação intensa, precisão nos passes, movimentação correta e, claro, conclusão. 

O lance se  iniciou na entrega de Biel para roubar a bola e impedir o contra-ataque do adversário no meio de campo. O desarme de nosso atacante virou passe para Villasanti, que da intermediaria lançou Ferreirinha. Nosso ponteiro esquerdo usou da habilidade para chamar a marcação, enquanto Nicolas fazia a ultrapassagem. Assim que percebeu Nicolas em condições de receber, Ferreirinha entregou a bola no ponto certo. Nosso lateral esquerdo com apenas um toque cruzou para Bitello, que entrava em velocidade no meio da área, para completar de cabeça, e dar vantagem no placar.  Um golaço pelo conjunto da obra.

Ali aparecia o Grêmio que os torcedores gostariam de ver jogando o tempo todo. Havia os ingredientes de um time capaz de voltar à Primeira Divisão com tranquilidade — o que, nesta altura do campeonato, não duvido que aconteça. Claramente, o Grêmio tem pontuação, equilíbrio e força para ficar entre os quatro primeiros colocados. Estamos distante oito pontos do primeiro time fora da zona de classificação. 

O espetáculo não foi completo porque um ‘bate-cabeça’ na nossa área permitiu o empate, quando o jogo parecia mais bem resolvido para nós. Um lance que — assim como o do segundo gol — talvez também diga muito do Grêmio que vem sendo reconstruído desde a tragédia que foi 2021. É capaz de ajustar-se em alguns momentos; e desconjuntar-se em outros. Aliás, tem sido esse o desafio de Roger: manter o time na parte mais alta da tabela, arriscar momentos de iluminação — como os dos gols de Diego e Bitello —- e reduzir os riscos nos instantes de sombra. 

Em tempo: antes de fechar essa Avalanche deparei com mais um torcedor de rede social espumando sua raiva contra Roger, como seo treinador não tivesse mérito algum e a ele cabesse toda a responsabilidade pelos cometidos. Chamava-o de convarde. Logo lembrei-me do time que montou para enfrentar o principal adversário da competição. O volante que escalou em lugar de Campaz estava dentro da área adversária quando marcou seu gol. As mudanças que fez ao longo da partida — mesmo as por questões físicas — tinham a intenção de levar o Grêmio mais para frente e pressionar o adversário no campo de ataque, jamais segurar o resultado. E quando o gol de empate saiu não se fez de rogado: tirou um zagueiro e escalou um meia-atacante. Covardia é atacar as pessoas, por preconceito ou intolerância.

Avalanche Tricolor: o dia do “Não”

CRB 2×0 Grêmio

Brasileiro B – Estádio Rei Pelé, Maceió/AL

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Se é pra dar errado, que dê tudo errado de uma só vez. Se é pra tomar gol de goleiro, que sejam logo dois. Se é pra fazer pênalti, que façamos dois. Se é pra perder um jogador para o clássico, que seja o melhor. Assim foi o Grêmio nesta noite de sábado, em Alagoas. Nada deu certo! 

Mesmo com a bola no pé produzíamos pouco. Das poucas vezes em que a entregamos para o adversário, foi um Deus nos acuda. 

Na primeira bola, escapamos no bico da chuteira de Rodrigo Ferreira, que já estava praticamente vencido pelo atacante que corria pelas costa dele em direção ao gol. Na segunda, derrubamos o atacante na área. E na terceira, o desastre definitivo. Geromel perdeu a bola na frente e na tentativa de recuperá-la interceptou o chute a gol com o braço. Pênalti, cartão amarelo e suspensão automática para a partida contra o líder da competição. Se é pra dar errado, que o combo seja completo.

Já contei pra você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, da lição que me foi deixada por Seu Ênio Andrade, dos maiores técnicos que estiveram no clube e meu padrinho por adoção. Das conversas que ele tinha com meu pai, na mesa da cozinha do bar que ficava no interior do Estádio Olímpico, regadas a bom whisky, Seu Ênio me ensinou: “tem o dia do sim e o dia do não, Alemão!”. 

No dia do “Não”, a marcação é falha, o passe é incerto, a movimentação é precária, a ambição é nula e os chutes a gol ocorrem por mero acaso. No dia do “Não”, o árbitro até pode ajudar e fazer vistas grossas com o seu  goleiro que defendeu a bola com as mãos fora da área ou voltar atrás e se convencer de que a falta foi dura o suficiente para expulsar o adversário. Nem se tivesse inventando um pênalti a nosso favor, adiantaria. A bola não entraria.

O Grêmio viveu, neste sábado, o dia do “Não” — o dia para ser esquecido como disse ao fim da partida, Rodrigo Ferreira. De consolo, resta outra dessas máximas que ouvia no passado lá no Olímpico, após assistir ao Grêmio treinar mal, com performance aquém do esperado: “dia de pouco, véspera de muito!”, dizia o treinador para dar esperança ao torcedor.

Que assim seja! 

Avalanche Tricolor: a Roger o que é de Roger

Grêmio 5×1 Operário PR

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Roger Machado em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Lá se vão três meses desde o último revés. Não lembro contra quem foi nem perderei meu tempo olhando a tabela para conferir. Coisa ruim a gente esquece. Há quem diga que com as ruins a gente também aprende. Faz sentido. Mas desse aprendizado já tivemos demais na última temporada, portanto fiquemos com o que de melhor tem acontecido neste time comandado por Roger Machado.

Ouço críticos falarem com surpresa da consistência defensiva do Grêmio, algo que não era comum na passagem anterior de nosso técnico à frente do time. Roger aprendeu. Amadureceu. E amadurecido aceitou o desafiou de remontar a equipe e levá-la à Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro.

Nosso treinador sempre foi inteligente e diferenciado na maneira de tratar as coisas do futebol e da vida. Hoje, tem mais experiência para entender limites e oportunidades. 

Ele sabia que o Grêmio precisaria reequilibrar-se, simplificar a maneira de jogar, ter segurança lá atrás, enquanto reerguia-se do meio para frente. Sabia que o Grêmio carregava um peso extra pelo que havia deixado de fazer no ano anterior. Uma vergonha que tirava o sorriso dos jogadores em campo — precisava resgatar neles o prazer de jogar bola. Sabia que a reconquista da confiança viria jogo após jogo, ponto após ponto. Precisaria de paciência para suportar os muxoxos de uma torcida ainda traumatizada. 

Foi assim que Roger recuperou o Grêmio na temporada. Com a calma necessária. Garantindo pontos fora de casa. E fazendo o máximo possível dentro dela. Reposicionando jogadores. Contando com a sustentação de “veteranos” como Geromel e Diego Souza. Agora, tendo a experiência e o talento de Lucas Leiva. 

O Grêmio tem a melhor defesa do campeonato; depois da goleada de hoje, também o melhor ataque; é o time mais disciplinado da competição;  sem perder há 17 jogos, registra a maior invencibilidade do futebol brasileiro, nesta temporada. Fincou os dois pés na zona de classificação e tudo leva a crer que vai além. 

Em campo, não faz apenas resultado —- o que, convenhamos já seria suficiente para as necessidades do ano. Está melhorando a maneira de se portar também quando está com a bola nos pés. Troca passes com mais velocidade e se movimenta com maior rapidez. É um time mais solidário na defesa e no ataque. E com isso ocupa melhor os espaços no campo. Nem sempre a execução sai como o desejado. Tropeços vão ocorrer porque a competição é longa. Mas o bom caminho está traçado. E a Roger tem de ser dado este mérito.

Em tempo, a coincidência no calendário: em 9 de Agosto de 2015, o Grêmio fazia 5×0 no Inter; em 9 de Agosto de 2022, 5×1, no Operário. Nas duas datas, o técnico do Grêmio era Roger Machado. Que o 9 de Agosto se repita mais vezes na temporada.

Leia a Avalanche em que conto o dia que conheci Roger

Avalanche Tricolor: futebol é bola na rede!

Guarani 1×2 Grêmio

Brasileiro B — Brinco de Ouro, Campinas/SP

Villasanti comemora o primeiro gol, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Tem muitas formas de se jogar no futebol. Sei que abrir o texto com essa frase é chover no molhado — e pelo que você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche percebe, acordei encharcado de lugar-comum, a começar pelo título da coluna. Mas se abro assim o texto é para me dar oportunidade de distinguir o futebol que o Grêmio jogou no primeiro e no segundo tempo da partida, na noite de sexta-feira, em Campinas.

Nos 45 minutos iniciais, foi muito bom ver a marcação alta, com nossos jogadores pressionando e atrapalhando a saída de bola do adversário. Gostei mais ainda de observar algo que não ouvi muitos dos analistas comentando: a marcação dupla. No meio de campo, a despeito de uma escapada ou outra das quais fomos vítimas, conseguimos barrar boa parte das tentativas de jogada contra o nosso gol. E o fizemos com dois marcadores à caça da mesma bola. Dedicação que faz muita diferença!

Ao desarmar os ataques nos colocávamos em condições de atacar. E quando chegávamos à frente, o time dava sinais de que perdeu a vergonha e o medo de concluir. Às vezes até de forma precipitada, com cruzamentos que, talvez, tivessem de esperar um ataque mais bem posicionado. Se antes havia constrangimento pelo erro em tentar, por mais de uma oportunidade tentamos de fora da área, nos espaços que apareciam.

Foi em uma dessas roubadas de bola e em uma dessas tentativas de fora da área que chegamos ao gol. Villasanti, sempre Villasanti, se antecipou e interceptou a bola pelo alto, encontrou Diego Souza — que se redescobre útil quando sai da área —-, tabelou e antes de a marcação se aproximar bateu. Confesso, desconfiado pelo passado, demorei a crer que a bola havia morrido no fundo do poço (como diria o saudoso pai, Milton Ferretti Jung). Villasanti, não! Ele sabia que havia um só espaço para aquela bola entrar, arriscou nele e, com confiança, outro mérito reconquistado por este time de Roger, marcou.

No segundo tempo, deixamos de lado parte desse jogo, apesar de a marcação mais recuada também ter se mostrado útil com os desarmes no meio de campo e a precisão de nossos zagueiros. Aumentaram os perigos, e Brenno mostrou que está de volta com seu talento e segurança. Já havia feito defesas importantes no primeiro tempo e passou no teste ao qual foi submetido no segundo. Houve queda de rendimento do time, mas em nenhum instante de dedicação. 

Foi por dedicado que fomos que conseguimos no primeiro lance de ataque, já aos 30 minutos do segundo tempo, chegar ao segundo gol. Elkson que havia substituído Diego Souza 15 minutos antes, foi forte o suficiente para superar o marcador e, mesmo derrubado, servir Guilherme que passou com perfeição para a conclusão a gol de Biel. O atacante que muitas vezes foi acusado de desperdiçar seus chutes a gol, bateu firme entre as pernas do goleiro. Bateu com a confiança que o Grêmio reconquistou — reforço essa ideia, porque isso tem feito diferença na campanha pela volta à Primeira Divisão.

Onde quero chegar nessa nossa conversa: por muito vínhamos ouvindo críticas ao fato de o Grêmio não vencer fora de casa. Crítica tão ruidosa que, às vezes, sequer conseguíamos perceber que da mesma forma, há muito tempo o Grêmio não perdia fora de casa — agora estamos há nove jogos invictos como visitante e 16 sem ser derrotado na competição. A sequência de empates no campo do adversário somada  às vitórias na Arena levaram o Grêmio ao G4 e deram consistência ao time na competição. Somos vice-líderes, nos aproximamos do líder em velocidade e nos afastamos do grupo que vem logo atrás em busca da vaga para à Série A.

Consistência, repito, revertida em confiança. Uma confiança que faz o Grêmio acreditar que mesmo quando não performa o melhor futebol — e oscilamos entre o futebol jogado no primeiro e no segundo tempo —, é capaz de fazer aquilo que o futebol pede: bola na rede!

Avalanche Tricolor: assim como o pôr do sol, nem todo empate é igual

Chapecoense 0x0 Grêmio

Brasileiro B — Arena Condá, Chapecó/SC

Lucas Leiva é destaque em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O pôr do sol se faz diante da praia onde aproveito os dias de férias, no Ceará. A cena é rara no Brasil, pois temos o litoral a leste, onde o sol nasce — ao menos é assim que nos acostumamos a ver. Lá em Porto Alegre, parada anterior do meu descanso, por exemplo, é famoso o espetáculo nas águas do rio Guaíba, a oeste. 

Assistir ao sol se por no mar só é possível aqui nesta região graças a geografia da vila de Jericoacoara — um desses locais incríveis que encontramos quando decidimos viajar pelas belezas brasileiras. E coisa linda não desperdiço. Por isso, pouco antes das seis da tarde, lá estava eu sentado na areia aproveitando cada momento, desenho e cor que a despedida do sol nos proporciona. Fiquei até o último raio alaranjado desaparecer. Já passavam das 6h15 da tarde (ou da noite).

Foi nesse clima de contemplação que voltei para o quarto onde estou hospedado para assistir ao Grêmio jogar. Logo que a partida se iniciou, às 6h30, cheguei a acreditar na possibilidade de uma vitória fora de casa —- outra coisa rara de se ver, haja vista nosso desempenho nesta temporada. Havia um esboço de time e movimentação que nos fazia melhor do que o adversário. 

Um lance atabalhoado de Bitello, ainda no primeiro tempo, mudou todas as minhas expectativas. Nosso guri se excedeu na vontade e mereceu ser expulso. Menos mal que tínhamos Lucas Leiva na reserva para ocupar o espaço deixado no meio de campo. Por outro lado, Campaz teve de ser sacrificado — logo ele que tem melhorado aos poucos nas últimas rodadas.

Jogar na casa do adversário, com desvantagem numérica e com nosso histórico no campeonato, não era animador. Apesar disso, especialmente no primeiro tempo e no início do segundo, o Grêmio foi firme e forte na marcação; e isso impediu que o adversário se aproximasse do nosso gol. Os riscos apareceram a medida que o time dava sinais de cansaço. 

Ainda assim, nosso setor defensivo foi gigante — como é gigante Geromel que se impôs na área de uma maneira impressionante. Lucas, na frente dos zagueiros, com sua experiência e talento, ajudou bastante a conter algumas investidas; e funcionou muito bem ao lado de Villasanti, enquanto este esteve em campo. 

Gabriel Grando (ex-Chapecó), atuando na terra em que surgiu e diante de parentes próximos, foi firme nas intervenções e providencial na defesa que se fez necessária no último lance da partida.

O Grêmio saiu de gramados adversários com mais um empate. Esse, porém, é um empate diferente dos demais. Tem valor de conquista pela forma como foi garantido. Além de manter-se em ascensão no campeonato, entre os quatro primeiros colocados, chegou há 15 jogos sem perder — a maior invencibilidade dos últimos dez anos, da Série B. 

Além do resultado que foi bom, diante das circunstâncias, deixamos Chapecó com duas ótimas notícias: Geromel terá seu contrato renovado automaticamente até 2023 e Lucas Leiva dá sinais de que entregará muito mais categoria e segurança ao time, especialmente a partir de agora quando deve assumir a titularidade, com a ausência de Bitello.

Avalanche Tricolor: o bom filho a casa torna

Grêmio 2×1 Ponte Preta

Brasileiro B – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Uma torcida empolgante em foto de Mílton Jung

A casa onde morei ainda está por aqui. Também está a casa onde me descobri. O estádio onde forjei minha personalidade se sustenta como pode, mesmo que aos pedaços — suas linhas são visíveis na vizinhança. Por outros cantos que passeei, na cidade em que nasci, me reencontrei. Porto Alegre está cheia das minhas marcas tanto quanto eu tenho as dela. Nestes primeiros dias de férias, fui apresentado a novos espaços e paisagens que me conquistaram. Cenários recuperados. Outros recriados. 

Nesta toada de saudade e orgulho, de emoção e lembranças, voltei à Arena para assistir ao Grêmio, neste sábado. Fazia pouco tempo que havia estado por lá. E encontrei um clima bem diferente daquele início de campeonato. O torcedor está mais crente das suas possibilidades, apesar das desconfianças de plantão —- comuns para quem vivenciou o desastre de 2021. Ao menos descobriu que, a despeito dos limites do time, sua força será essencial para a retomada do rumo.

Logo que entrei na Arena, ouvi o hino ser entoado, em um coro puxado pelos alto-falantes. Em seguida, outras músicas ecoaram nas arquibancadas, inspirados na cantoria promovida pela turma da Geral. Alguns jogadores, mais do que outros, eram ovacionados. E empurrados pelo incentivo do torcedor. A maioria que estava lá, dentre velhos e adultos, jovens e crianças, queria mesmo é ver o ídolo que a casa torna: Lucas Leiva.

E enquanto Lucas não vinha, o time entregava o que tinha de melhor para o momento: uma intensidade incrível na marcação, velocidade na retomada da bola, e imposição sobre o adversário. Nem sempre tudo isso chega acompanhado do talento querido, mas é o suficiente para empolgar o torcedor.

Que empolgação! Há muito não assistia à torcida do Grêmio cantando quase toda a partida. Vibrando pelas pequenas conquistas. Comemorando lances banais. Emitindo uma energia que impulsionava o time à frente. Com um clima desses nada parecia capaz de nos impedir de chegar ao gol. Chegamos logo aos nove minutos e de forma magistral: um lançamento preciso de Villasanti que surpreendeu o zagueiros e encontrou Diego Souza, em condição legal, dentro da área. A bola morreu no peito dele e de bicicleta foi para o fundo da rede. 

Que explosão! Foi tamanha que muitos sequer perceberam que havia o risco de o gol ser anulado, e seguiram comemorando enquanto havia a checagem da imagem pelo VAR. Nesse ritmo alucinado, a pressão foi ainda maior. E antes de meia hora de jogo, em nova escapada veloz, Ferreirinha chutou no travessão e Campaz completou para o gol.

Quando o segundo tempo chegou, algo estranho aconteceu: mesmo com o time tendo desaparecido em campo, os torcedores seguiam cantando e pulando. É como se ninguém acreditasse que alguma coisa poderia dar errado na tarde desse sábado. O entusiasmo aumentou assim que Roger acionou Lucas Leiva no banco. A comemoração do torcedor era tal que muitos sequer viram que o Grêmio havia tomado um gol na cobrança de escanteio. Mais do que isso: que o Grêmio sofria forte pressão e corria riscos de desperdiçar os três pontos dentro de casa.

Até o apito final, a dúvida sobre o resultado persistia, dados os perigos que nos expomos. De certo, mesmo, só a forma como os torcedores — a ampla maioria deles —- decidiram abraçar o time, fenômeno que tenho identificado há algumas rodadas e, hoje à tarde, se comprovou em plena Arena do Grêmio.

Tive o prazer de vivenciar tudo isso, ao lado de gente querida, amigos e mais de 41 mil torcedores, em Porto Alegre. Voltar para essa casa me remete à felicidade dos tempos de guri, que me faz desejar começar tudo de novo, sempre ao lado do Grêmio, onde o Grêmio estiver!