A coluna esportiva menos imparcial da blogosfera é dedicada ao Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense e tem textos escritos no calor da emoção, logo após o encerramento das partidas do Imortal Tricolor ou a qualquer momento em edição extraordinária.
Grêmio 0 (3)x(2) 0 Inter Gaúcho — Arena Grêmio, Porto Alegre
O futebol sempre tem heróis. O futebol sempre tem vilões.
Heróis e vilões podem ser a mesma pessoa no futebol.
O goleiro que falha para defender o pênalti em seguida. O atacante que erra para se consagrar na cobrança final.
Às vezes, os vilões se travestem de heróis. Ludibriam o torcedor. E se consagram. Outras, o herói fragilizado é chamado de vilão. São as coisas do futebol.
O herói pode ser o dono da braçadeira de capitão que lidera sua equipe de forma aguerrida contra tudo e contra todos; mas ele também pode ser o vilão.
Quem sabe o garoto que domina a bola como ninguém? Tem jeito de herói. Mas ai dele se perde o domínio na hora H.
O herói pode ser o goleador. Pode ser o defensor. Pode ter saído jogando, pode ter vindo do banco.
Basta um vacilo. Uma decisão errada. O pênalti mal cobrado. O gol desviado. E qualquer um deles pode se transformar em vilão.
O Grêmio, não!
O Grêmio que ganhou este campeonato Gaúcho de forma invicta e tendo tomado apenas um gol em toda a competição não tem heróis nem vilões.
Inter 0x0 Grêmio Gaúcho — Beira-Rio, Porto Alegre/RS
Cada um tem o seu Gre-Nal. E neste domingo, eu ganhei o meu em particular. Foi fora dos gramados e bem distante do campo de jogo. Não foi necessário marcar gols, dar carrinho para impedir o avanço do adversário e menos ainda peitar o árbitro para que ele mudasse de decisão. Foi uma vitória pessoal. Mais do que isso, emocional.
Em meio ao jogo corrido que se desenrolava no Beira Rio, fui agraciado com uma foto de um torcedor gremista —- enviada pelo meu irmão, o Christian. Não era um torcedor qualquer. Era o pai. Sim, o meu pai, Milton Ferretti Jung. Aquele que me forjou gremista. Que usou de estratégias pouco ortodoxas —- acho que já falei delas por aqui — e outras mais corriqueiras para me fazer torcer pelo time que ele sempre torceu.
O pai, poucos devem saber, segue sua saga pela vida, mesmo que na maior parte do tempo não tenha consciência do mundo que gira em torno dele. Em seu apartamento, onde recebe todos os cuidados e os carinhos que sua história merece e onde é abraçado pelos filhos e filha, por noras e netos, por toda a família, além de um grupo incrível de pessoas generosas, voltou a vestir a camisa do Grêmio, neste domingo.
Sentado na poltrona da sala, diante da televisão e com com seu corpo franzino e resiliente, fixou o olhar na tela e assistiu ao Gre-Nal. Foi como se tivesse reencontrado-se naquela realidade da qual foi um dos protagonistas através da crônica esportiva.
O pai vivenciou o futebol gaúcho com intensidade. Sempre esteve muito próximo do Grêmio, é lógico. Frequentava os corredores e bastidores do estádio Olímpico. Visitava o gramado durante os treinos. Era confidente de alguns treinadores e respeitado por todos os outros que passaram pelo clube. Diretoria e jogadores também o reverenciavam. Nos dias de jogos, recebia aplauso de torcedores a caminho do Olímpico, para onde seguia a pé, pois morou na vizinhança a maior parte da vida.
Nas muitas vezes em que fiz essa caminhada ao lado dele, ouvia gritos de “gol-gol-gol”, que ecoavam no Largo dos Campeões —- portão principal de acesso ao Olímpico. Eram admiradores que o saudavam repetindo o grito de gol que marcou sua carreira. Você deve imaginar como aquelas cenas me enchiam de orgulho.
Apesar de sua relação íntima com o Grêmio, tratava o adversário com muito respeito e em suas narrações fazia a voz vibrar e o torcedor se emocionar independentemente de quem fosse o gol. Foi dele um texto produzido pela rádio Guaíba de Porto Alegre e lido pelo narrador Pedro Carneiro Pereira, em homenagem a inauguração do Beira-Rio, em 1969. De tão belo e nobre ficou gravado em placa de bronze no estádio. Um texto escrito por um gremista que sabia reconhecer os méritos do adversário.
O pai sempre viveu neste mundo, como radialista, como cronista e como torcedor. E, na tarde deste domingo, deu sinais de que se reconectava à vida diante daquele espetáculo proporcionado pelas duas equipes.
Ao vê-lo em fotografia, tive a impressão de que havia voltado no tempo, quando ele descrevia com precisão cada lance de uma partida. Ou quando comemorava os gols gremistas ao meu lado nas cadeiras cativas, do Olímpico.
Mais do que isso: o pai estava com cara de moleque —- como a do guri que escapava das salas de aula do internato, que subia no telhado para ler os gibis proibidos, que fazia brilhar os metais da bicicleta que o acompanhava nas corridas pela 16 de Julho, no bairro São João.
O Gre-Nal aproximou o pai da realidade. E o clássico me proporcionou, mesmo sem gols, a alegria de uma vitória conquistada. Vitória que compartilho com o Christian e a Jacque, meus irmãos. E com você, caro e raro leitor desta Avalanche. Porque essa é uma vitória de vida. Daquelas de dar lágrimas nos olhos.
Grêmio 3×1 Rosário Central Libertadores – Arena Grêmio
Comemorando mais um gol, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA
Vamos Grêmio tu és copeiro E hoje temos que ganhar Eu te sigo desde pequeno Já não posso mais parar
Tu és a vida, tu és a paixão O sentimento vai além da razão E não importa se perder ou ganhar O tempo inteiro eu vou te apoiar!
Cantar, cantar e cantar. É o que me resta neste resto de noite quando voltamos à Libertadores.
Driblamos os piores prognósticos com o talento de Everton, a elegância de Jean Pyerre e o poder de decisão de Leonardo Gomes. Tivemos Matheus Henrique, Maicon, Tardelli e André, também. E quando foi preciso lá estavam Paulo Victor, Geromel, Kannemann e Cortez.
Mais do que cada um deles, tivemos um time disposto a mostrar à América (e aos descrentes) que somos Imortais porque construímos essa história dentro de campo — na luta, na garra e, especialmente, no futebol muito bem jogado.
Uma história que acompanho desde que mal sabia assoviar os acordes de nosso hino. Porque, como diz o título da música que embala esta Avalanche, Grêmio “eu te sigo desde pequeno”. E confiarei sempre na tua redenção!
André comemora gol e me manda recado, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA
No salão de embarque do aeroporto de Congonhas, escrevo esta Avalanche. Estou a caminho do Rio, onde apresento o Jornal da CBN, na segunda-feira. Esperei o jogo se encerrar para sair de casa, porque sabia que haveria tempo de chegar para o embarque sem correria.
Poucas coisas me incomodam ou geram ansiedade mais do que o relógio correndo enquanto se aproxima a hora da viagem. Deve ser coisa de outras vidas —- se é que você acredita nelas —-, já que não lembro de uma viagem perdida por me atrasar.
Tendo, porém, a imaginar que o trânsito estará mais complicado do que já costuma estar — mesmo com o advento do Waze penso em alguma intercorrência momentânea; imagino que a chegada em Congonhas será caótica —- e motivos não me faltam dada algumas trapalhadas feitas por quem gerencia o acesso de carro ao aeroporto; que o excesso de passageiros vai travar o setor de fiscalização e controle; e outros quetais preocupantes. Curiosamente, a única preocupação que deixo na mala é a da viagem de avião.
Independentemente de todas minhas ansiedades, estou aqui a espera do voo e em tempo de escrever esta Avalanche. Mas é que gosto de ter controle sobre as coisas — ao menos daquelas que posso ter controle.
Estava ansioso antes de a partida de hoje, também. Especialmente depois de três jogos sem gols e um tropeço frustrante no meio da semana, na Libertadores. Sabe como é que é. A gente tem a melhor campanha, está invicto, havia levado apenas um gol em toda a competição, é muito melhor do que o adversário … mas vai que dá errado. Sei lá, nosso chute bate no travessão, levamos o contra-ataque e no desvio do zagueiro colocamos fora a passagem à final.
Verdade que ao ver nossa equipe, a firmeza de nossa defesa, o talento dos volantes, a qualidade do toque de bola no meio de campo e a velocidade de nossos atacantes, fica difícil não confiar.
Sem contar que, ao lado do campo, tem Renato, sempre dedicado, chamando atenção de um jogador aqui, posicionando outro ali, pedindo marcação alta — é assim que se chama o que um dia já foi conhecido por “pega ratão”, né!? —, cobrando mais velocidade na troca de bola e aplaudindo a boa jogada.
Tudo isso é motivo para deixar nossa confiança em alta, mas vai que o domingo é um dia daqueles pra esquecer … haja ansiedade!
O primeiro gol veio antes de meia hora de jogo, após um lance de muito talento de Jean Pyerre que fazia fila entre os marcadores adversários e só foi parado após uma falta dura. Em vez de ficar se lamentando, Geromel cobrou com rapidez, pegou a defesa fora de posição e depois de a bola cruzar pela área, André fez a assistência para Alisson completar.
O gol era para dar tranquilidade a este torcedor ansioso, mas aí o locutor lembrou que o Gaúcho tem “gol qualificado” e, assim, após empatar fora de casa em zero a zero, um só golzinho do adversário nos tiraria da final. Caramba!
Foram necessários mais 13 minutos até marcarmos o segundo gol, em jogada na qual André teve todo o mérito, pois foi preciso ao driblar o zagueiro dentro da área e ágil ao bater de primeira. Correu para a torcida e com a mão direita fez um sinal que muita gente estranhou. Eu logo entendi. Mandava dizer para mim que agora estava tudo OK, pode ficar tranquilo porque já estamos na final — se não foi isso, foi assim que entendi.
O segundo tempo ainda nos daria um ou outro susto, mas nada que me tirasse da cadeira. A não ser o gol de Everton que voltou a marcar, logo cedo, aos 13 minutos. O passe de Jean Pyerre, enquanto Everton entrava na área, foi genial. Nosso atacante, ao seu estilo, cortou o marcador, limpou e chutou fora do alcance do goleiro. Na saída do campo, na entrevista, tenho certeza que mandou outro recado para mim: precisa controlar a ansiedade, disse ao explicar o tempo que ficou sem fazer gols.
Quando o Grêmio joga com essa supremacia não tem mesmo motivos para ficar ansioso. Que venha a final do Gaúcho! Que venha a Libertadores! Putz … já comecei a ficar ansioso de novo.
Universidad Católica 1×0 Grêmio Libertadores – Santiago do Chile
Kannemann, o melhor do nosso time, é destaque em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA
A experiência em assistir, ao vivo, à uma partida pelo Facebook começou muito mal — em todos os sentidos. Meus computadores da Apple me deixaram na mão. A bola já estava rolando e em nenhum dos meus equipamentos, em nenhuma das minhas contas e em nenhum dos links que os amigos gremistas me enviaram fui capaz de ver o futebol gremista.
Cheguei a pensar que era uma conspiração das máquinas — logo elas que sempre haviam me tratado bem e oferecido facilidades para trabalhar e me divertir ao longo do tempo. Demorei para perceber que aqueles computadores estavam apenas querendo me alertar. Mandavam recados do tipo “não insista”, “hoje nada vai funcionar” ou “quem sabe quando a transmissão for pela televisão?”. Não entendi a mensagem. Insisti.
Busquei a salvação no Windows de um dos filhos. Mas quando descobri que ali estava a solução, já tínhamos quase meia hora de jogo. E, sim, o pior já havia acontecido. Não, minto. Pior mesmo foi ver o que vi na sequência. Já com a imagem tomando conta de todo o super-monitor que um dos meus guris joga seu games e disputa suas partidas virtuais, ficou muito claro que não seríamos capazes de sequer operar um milagre em campo, nesta noite de quinta-feira.
O atraso comum no sinal da internet — coisa de 30 segundos, não muito mais do que isso —, mesmo com uma banda larga de qualidade aqui em casa, refletia o atraso do futebol que apresentávamos. A bola chegava atrasada no pé do companheiro, o marcador chegava atrasado no atacante adversário, o passe saia para trás.
Mesmo com a boa conexão que gerava uma imagem de qualidade, não fui capaz de ver o futebol gremista em campo, simplesmente porque o futebol gremista não se apresentou em campo, nesta terceira partida da Libertadores.
Para ter ideia, a melhor notícia da noite foi saber que tanto nosso técnico quanto nossos jogadores — e jamais desconfiei que agiriam diferente — saíram de campo conscientes de seus erros, em lugar de buscar desculpas naqueles elementos que geralmente os times que jogam mal se debruçam para justificar uma derrota.
Foi ali, ainda ao lado do gramado, que ouvi de Everton a frase: “agora é vida ou morte”. Como sou um eterno torcedor e otimista, voltei ao meu Apple, abri a calculadora, fiz as projeções, somei três pontos aqui, mais três ali, menos três do adversário acolá, e cheguei a conclusão de que está muito difícil mas ainda temos chance nesta Libertadores.
Até porque, caro e raro leitor desta Avalanche, se “agora é vida ou morte”, chegou a nossa hora. Que venham os próximos compromissos, mas , por favor, que sejam só na televisão, porque esse negócio de Facebook dá um baita azar.
São Luiz 0x0 Grêmio Gaúcho — 19 de Outubro, Ijuí/RS
Pepê vai ao ataque em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA
Chimarrão é bebida típica do Sul. Bebida para ser apreciada na calma que a alma pede. Do preparo ao sorver, sem pressa nem pressão. Apenas saboreando o curtir da cuia e o pó da erva-mate escorrendo até preencher dois terços do espaço interno, enquanto a água começa a esquentar no fogão.
Curva-se a cuia para dar movimento a erva e desenhá-la conforme manda o figurino. É preciso apuro no preparo da água, pois tem de chegar morna para não queimar o mate e não amargar o chimarrão. Com a erva banhada na água morna, todo cuidado é preciso ao posicionar a bomba que deve ter sua boca fechada com o dedo polegar enquanto afunda na erva — tô pra ti dizer que coisa ruim é chimarrão entupido.
Se o serviço for bem feito, basta esperar a chaleira chiar. É o sinal de que a água já bate na casa dos 64º Celsius e está no ponto para ser servida — não pode ferver porque queima a erva e tudo que se fez até aqui se desperdiça.
Hoje cedo, após a missa dominical, rezada pelo padre José Bortolini, meu conterrâneo e gremista, de quem já tratei nesta Avalanche, cheguei em casa e aproveitei o sol da manhã, em São Paulo, para preparar meu chimarrão.
Cevar o mate logo cedo foi tranquilizador em um dia no qual assisti a alguns amigos e conhecidos se digladiando nas redes sociais, como se a história da humanidade se resolvesse nesse espaço. Ou a história do Brasil ali pudesse ser reescrita.
Sozinho, já que a turma aqui de casa nunca se acostumou com este hábito próprio do Rio Grande do Sul, saboreei a erva-mate até a cuia roncar. Uma, duas, três, quantas vezes a garrafa térmica cheia de água permitiu.
O tempo passou fácil, o pensamento foi longe e o coração bateu mais leve — sequer parecia que ao fim do dia estaria diante da televisão para torcer pelo Grêmio em mais uma partida decisiva, dessas muitas que fazem parte do nosso concorrido calendário.
Por falar em Grêmio. Tive a impressão de que o time de Renato entrou em campo hoje à noite com a mesma disposição de quem prepara um chimarrão.
Não que tenha estado abaixo do ritmo que a disputa por uma vaga na final exige —- especialmente estando no campo de um adversário motivado com o feito que pode ser histórico. Longe disso.
Via-se que nossos jogadores se esforçaram para encontrar espaço para entrar na área ou quem sabe chutar de fora. Forçou por um lado. Forçou pelo outro. Forçou pelo meio. Arriscou-se em alguns momentos mas sempre transmitindo a sensação de que estava tudo sob controle.
Quando digo que o Grêmio parecia preparar o chimarrão é porque dava sinais de que sabia que o caminho à final dependeria do resultado das duas partidas, e a segunda e decisiva seria mesmo diante de sua torcida, na Arena.
Precisava ter calma, retomar a bola do adversário, mantê-la sobre seu domínio e esperar o momento certo para atacar. Talvez tenha apenas faltado um pouco mais de atenção com a temperatura do jogo —- sabe aquilo que falei da água do chimarrão? Tava morno de mais. Talvez tivesse de deixar esquentar, sem ferver. Como se faz no bom chimarrão.
O importante é que o empate nesta primeira partida da semifinal em nada vai tirar o sabor do que realmente nos interessa: a Libertadores, que volta na próxima quinta-feira com o desafio de vencermos fora de casa, no Chile. E lá, pelo que sei, servem chimarrão frio — que coisa mais sem graça, não!?
Grêmio 0x0 Juventude Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre
Um amistoso de luxo. E com direito a taça. Era o que se tinha para esta noite de quinta-feira, depois da goleada acachapante de domingo, na primeira partida das quartas-de-final do Campeonato Gaúcho.
O Grêmio entrou classificado à semi-final e prestes a garantir a melhor pontuação entre todos os participantes da competição — importante porque leva a decisão do Gaúcho para a Arena, se seguirmos nesta caminhada até o final.
O adversário entrou disposto a parar a saraivada de gols que havia se realizado no jogo de ida. Postou-se atrás, fechou-se como pode, esforçou-se muito, catimbou com a anuência do árbitro e deve ter saído satisfeito em não perder.
Diego Tardelli até marcou, mas juiz impediu — foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA
O gol até saiu, resultado do bom toque de bola gremista e da paciência de seus jogadores, especialmente os do meio de campo, que não se cansam em trocar de posição, movimentar-se com aproximação e triangular em busca de mais espaço. Foi assim que Luan em meio a um amontoado de marcadores encontrou Diego Tardelli que, em velocidade, recebeu a bola na entrada da área. Matou com um pé e fulminou com o outro.
Um golaço — se a auxiliar não tivesse se precipitado e sinalizado impedimento, o que as imagens da televisão deixaram muito claro que não houve. É curioso como os árbitros e seus bandeirinhas são incapazes de seguir a recomendação da International Board, que dá regras ao futebol. Recomenda o organismo internacional que no caso de impedimento a norma é “in dubio pro reo” — ou seja, na dúvida, segue o lance.
Sem o gol e com a classificação garantida, restou levantar o troféu em homenagem aos 100 anos da Federação Gaúcha de Futebol. Prêmio oferecido ao time que fez a melhor campanha da fase de classificação: 29 pontos ganhos — sete à frente do segundo colocado –, 9 vitórias, 2 empates, 29 gols a favor e apenas um contra.
E ver o Grêmio levantando troféu sempre me garante uma boa noite.
Juventude 0x6 Grêmio Gaúcho — Alfredo Jaconi, Caxias do Sul/RS
Teve gol de peito, de falta, de cobertura, de carrinho e até gol de Marcelo Oliveira —- aliás, foi dele o gol que abriu a goleada nesta tarde, no estádio Alfredo Jaconi, na primeira partida das quartas-de-final do Campeonato Gaúcho. Gol que surgiu depois de o adversário ter um de seus defensores expulso por jogada violenta, em uma tentativa desesperada do marcador de impedir mais uma chegada com velocidade pelo lado esquerdo. A expulsão foi aos 18 minutos do primeiro tempo e o primeiro gol foi sete minutos depois.
Daí para frente, o Grêmio tocou bola com qualidade, superando até mesmo as irregularidades do gramado. Seus jogadores trocavam de posição, apareciam para receber, recebiam e davam sequência à jogada — às vezes com mais um bom passe e em outras com um ou dois dribles. Assim como a superioridade numérica em campo fazia sobrar espaço de um lado e de outro, a superioridade técnica fazia sobrar talento.
O desavisado haverá de desmerecer o placar elástico dizendo que contra 10 é mais fácil. É mesmo. Bem mais fácil, especialmente se o seu time souber jogar com a bola. Mas essa facilidade só se torna possível porque o Grêmio provoca as expulsões —- e não é de hoje nem com violência. Lembro de já ter tratado do assunto na Libertadores, de 2017, e no Gaúcho, de 2018, nesta mesma Avalanche.
A velocidade das jogadas, a forma como o time se movimenta em campo, a quantidade de passes trocados e a precisão desses passes faz com que os espaços se abram. Por mais esforçado que seja o adversário é preciso correr mais, dobrar a marcação e ser muito cirúrgico na roubada de bola —- escrevi há cerca de um ano e mantenho minhas palavras. Na ânsia de retomar a bola e parar de correr atrás do nosso time, o marcador erra no bote e na batida. Cartão vermelho. E surge mais espaço para o Grêmio esbanjar qualidade técnica.
O sorriso no rosto de quem gosta de jogar bola, na foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA
Esse Grêmio que fazia o olho brilhar, em 2016, nos fez ser o maior da América, em 2017, e teve seu futebol reverenciado, em 2018, é o Grêmio que tem a assinatura de Renato —- um técnico com a capacidade de levar para o vestiário o espírito vitorioso que o acompanhou na carreira de jogador.
Mais do que isso: um cara que, a despeito de suas frases de efeito e provocações verbais, entendeu a importância de estudar as mais modernas táticas do futebol, analisou cuidadosamente as estratégias usadas pelos times de melhor desempenho no mundo, montou uma comissão técnica capaz de identificar jogadores com potencial e que se encaixavam na sua ideia de futebol e, com tudo isso em mãos, agregou seu carisma e identificação com o torcedor gremista.
Como jogador nos deu os maiores títulos que sonhamos: a Libertadores e o Mundial, de 1983; além de ter sido campeão Gaúcho, em 1985 e 1986. Como técnico praticamente repetiu a dose: campeão da Copa do Brasil, em 2016; campeão da Libertadores e vice do Mundo, em 2017; da Recopa Sul-Americana e do Campeonato Gaúcho, em 2018; e da Recopa Gaúcha, em 2019.
Mais do que todos os títulos que conquistou —- mas também graças a eles —-, Renato quando voltar para a praia no Rio de Janeiro terá deixado um legado na maneira de o Grêmio jogar bola.
Acabou a era do brutamonte que tanto nos fez vibrar, chorar e sofrer —- e nada contra aquelas batalhas campais, pois sei que foram elas que forjaram nossas conquistas históricas. Sei também que não fugiremos à luta se assim for necessário no amanhã para alcançarmos novas vitórias.
Renato deixou para trás os tempos em que se despachava a bola pra qualquer lado porque não se sabia bem o que fazer com ela; em que se deixava os adversários jogarem, torcendo para que em uma bobeada deles fizéssemos o gol salvador; em que o gol era apenas um detalhe na nossa trajetória.
O Grêmio de Renato nos ensinou a gostar do jogo bem jogado, a se deslumbrar com o talento, a não ter medo do drible e a valorizar a técnica em detrimento a brutalidade.
O Renato do Grêmio nos ensinou a sorrir — e a sorrir com o mesmo sorriso que estará estampado em seu rosto, na estátua que será erguida nesta segunda-feira, dia 25 de março, na Esplanada da Arena.
Ali, pertinho de onde conquistamos nossos últimos títulos, sob o comando de Renato, estará a imagem de nosso atacante, em bronze e com quatro metros de altura, no momento em que ele comemorava um dos gols do Mundial de 1983. Uma homenagem ao maior nome que já passou pelo Grêmio. Para lembrar a cada um de nós, gremistas, porque somos o Imortal Tricolor.
O Renato merece essa estátua. O Grêmio merece Renato.
Pelotas 0x2 Grêmio Gaúcho – Boca do Lobo, Pelotas/RS
Matheus Henrique conduz a bola, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA
Renato não estava no banco. Os titulares não estavam em campo. Classificado antecipadamente e em primeiro, sem qualquer risco, o placar em nada mudaria nossa história neste campeonato — a não ser pela possibilidade de vencê-lo de maneira invicta. Nem a TV ajudava muito: foi preciso perspicácia e troca de informação em rede social para descobrir a partida; aqui em São Paulo, somente seria transmitida em um canal analógico do PPV. Nestes tempos de TV 4K, teríamos de nos contentar com imagem borrada, de baixa qualidade e recursos de câmeras restritos.
Convenhamos, o cenário era um convite para deitar mais cedo, recuperar energia para o dia seguinte, quem sabe acordar até mais disposto. Mas relutei em aceitá-lo. Afinal, era o Grêmio que estaria em campo. E, atualmente, com as exceções de praxe, assistir ao Grêmio é sempre muito agradável.
Tem um guris que pintam e bordam em campo.
Assistir a Matheus Henrique e Jean Pyerre, por exemplo, é genial. Eles conduzem a bola com facilidade, se livram dos marcadores como se estivessem passeando, passam com qualidade e abrem espaço para novas jogadas mais à frente. O baixinho Matheus ainda tem uma capacidade de marcação de dar inveja em qualquer brutamonte que tente passar por ele. E o esguio Jean Pyerre, corre com a elegância dos antigos craques do futebol brasileiro.
Se conseguem fazer isso é porque seus colegas estão a altura do futebol jogado por eles e são capazes de reproduzir o modelo de jogo desenhado por Renato, com muita movimentação, deslocamentos para facilitar o passe de primeira, dando seguimento à jogada com toques rápidos, driblando quando é necessário e virando o jogo quando o espaço parece restrito.
Resultado: mesmo que o time não seja o titular — e de todas as condições descritas no primeiro parágrafo desta Avalanche –, ver o Grêmio em campo é um convite irrecusável, motivo de alegria para este torcedor e, imagino, para todos vocês torcedores gremistas e amantes do bom futebol.
Na noite dessa quarta-feira, além de todas as boas notícias, foi muito legal ver Galhardo de volta no lado direito e, especialmente, Thaciano jogando com vitalidade e esbanjando talento no meio, a ponto de ter sido o autor do primeiro gol, participado do arranque para o segundo e quase tendo marcado um outro que seria antológico.
Foi tão legal assistir ao Grêmio na noite de quarta, que acordar de madrugada nesta quinta-feira chuvosa em São Paulo tornou-se fácil.
Grêmio 1×0 Inter Gaúcho — Arena Grêmio Porto Alegre
A festa do gol na foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA
Gre-Nal é Gre-Nal, diz o dito gauchesco. De futebol ou de toss, quero ganhar sempre. Já teve Gre-Nal que antes de o árbitro jogar a moeda para o alto, os capitães se engalfinharam. Teve um que se ganhou com 17 segundos — lembra daquele gol do Iúra? Outros ganhamos de 5 e até de 10 a 0. Há os que se ganha no gogó. Se o time não está nada bem, o técnico chama a imprensa, provoca, desmerece e vence na base da psicologia.
Dizer que o clássico não vale nada é papo de perdedor. Ou de gente que não entende as coisas do Sul do País. O cartola blefa e usa um imbróglio jurídico para amenizar o risco da derrota. Esperneia e manda o técnico escalar time reserva. Truco, grita o outro lado. E surpreende na escalação, também. Ainda tem quem caia nessa balela e acredita que os times entrarão em campo com menos ímpeto porque o jogo vale pouco, afinal todos já estão classificados à próxima fase. Coitados!
A bola é disputada a cada metro quadrado. E a torcida comemora o espaço ocupado, o passe interceptado e o drible interrompido. Se o goleiro pega, festa na arquibancada. Se o zagueiro despacha de canela, festa de novo. E mais festa só porque o atacante cortou para dentro e o marcador passou reto. Nesse clima não interessa quem vista nossa camisa — menos ainda quem vista a camisa deles. É contra 11. É contra 10. É contra a lógica. É contra o maior rival da nossa história. Eu quero é ganhar.
E a vitória desta noite de domingo nos faz disparar na liderança, garante a passagem em primeiro lugar às finais, mesmo ainda faltando um rodada para o fim da fase de classificação, e reafirma nossa superioridade no Rio Grande do Sul. Resultado alcançado graças a infernal troca de passes e ao domínio preciso da bola, no primeiro tempo, que levaram o adversário a bater mais forte, no desespero de parar a jogada. Quando encontra-se um árbitro que decide punir a violência, o resultado é o que assistimos em campo. Ganha-se vantagem numérica, aproveita-se o espaço aberto e se chega ao gol, como fez Leonardo Gomes, após triangulação com Montoya e André, ainda no primeiro tempo.
Como é Gre-Nal, respeito é bom e eu gosto. Por isso, no segundo tempo a preferência por parar o jogo, segurar a bola, conter a velocidade e fechar os espaços na entrada da área. Se ampliar o placar, excelente. Mas a missão era manter-se à frente no placara, porque se é Gre-Nal eu quero vencer. E nós vencemos o primeiro do ano.