Avalanche Tricolor: Eles passarão

 

Inter 1 x 2 Grêmio
Gaúcho – Beira Rio

 

 

Foi uma quarta-feira curiosa esta de Cinza, pois acordei com a notícia da confirmação de que Vanderlei Luxemburgo seria o técnico do Grêmio e os que tiveram oportunidade de ler minha última Avalanche sabem de que discordo da avaliação feita pelos diretores, que não tiveram convicção, coerência e, o mais grave, coragem ao demitir Caio Júnior. A escolha de seu substituto apenas confirmou o que penso, pois seguiram o caminho mais fácil, olhando apenas o passado de Luxemburgo em lugar de avaliarem suas atitudes e histórias nem sempre bem explicadas e o seu retrospecto nos últimos anos pouco recomendáveis. Incrível foi a sequência de mensagens que recebi durante o dia demonstrando total desconfiança em relação a possibilidade de Luxemburgo ter sucesso no comando do Grêmio. A maior parte das pessoas apostando em vida curta e catastrófica, em Porto Alegre. Confesso que me incomodou demais esta contratação, e pensei muito sobre as contradições entre torcer pelo Grêmio e ter que contar com o sucesso de Luxemburgo.

 

No fim da tarde, alheio a polêmica e conversa de torcedores, um dos meus filhos, o Gregório, porém, me surpreendeu e com um só gesto mudou meu espírito. Antes de sairmos para passear, foi ao guarda-roupa tirou uma camisa azul, comprada durante o Carnaval em Porto Alegre, que leva no peito o distintivo do tricolor e o lema “Grêmio Manda”. Fomos para o shopping, assistimos ao filme “Reis e ratos”, com Selton Mello, fizemos um lanche, visitamos a livraria e o supermercado e a todos os momentos eu ficava observando o passeio dele com a camisa gremista. Não importava o que poderia acontecer com o seu time logo à noite ou durante a gestão Luxemburgo, tinha orgulho em vesti-la e tinha certeza da atitude que havia tomado.

 

Ele tinha razão. O Grêmio é muito mais importante do que qualquer um dos seus dirigentes, vai além da história de seus técnicos e do que possam aprontar no comando da equipe. É com este espírito que encaro este momento, a começar por esta noite, em que escrevo a Avalanche antes mesmo do fim da partida (estamos no intervalo agora). Aconteça o que acontecer, sempre serei gremista, por que eles passarão.

 

Em tempo: a vitória no Gre-Nal é mais um motivo para agradecer ao meu filho que mudou com minha disposição, nesta quarta-feira de Cinzas. Dá-lhe, Grêmio, sempre, Grêmio.

Avalanche Tricolor: É preciso coragem, convicção e coerência

 

São José 2 x 1 Grêmio
Gaúcho – Olímpico Monumental

 

 

Escrevo sem saber o que será do amanhã. Leio nos sites de que o Grêmio pretende trocar seu técnico Caio Júnior, antes mesmo do Gre-Nal de quarta-feira. O nome preferido da diretoria é o de Wanderley Luxemburgo, treinador que há algum tempo aparece no noticiário muito mais por seus problemas e polêmicas do que por seus méritos. Torço para que não passe de especulação e falta de notícia nestes dias de Carnaval. Pois, a mudança neste momento, se for confirmada, é muito mais sinal da insegurança e incapacidade dos cartolas que mandam no Grêmio do que de seu técnico. Os resultados neste início de temporada não são mesmo alvissareiros – e o jogo de sábado à tarde reforçou este quadro -, mas as análises não levam em consideração a desconstrução do time e a falta de reforços para posições fundamentais.

 

O Grêmio mudou os dois zagueiros e os dois titulares atualmente são jovens para a responsabilidade que assumiram, além disso não contam com a assistência de volantes experientes – Fábio Rochenback deixaram ir embora. Os dois alas que demonstravam boa performance, Julio César e Mário Fernandes, especialmente, estão lesionados. Douglas, o jogador de qualidade e passe preciso, se foi também e a posição dele ficou órfã, não encontraram ninguém com capacidade para apoiar os dois atacantes, Kleber e Marcelo Moreno. A falta de talentos levou a diretoria a buscar reforços que começaram a chegar somente agora, portanto nunca estiveram à disposição de Caio Júnior.

 

Tivessem coragem, convicção e coerência, dariam tempo para Caio montar a equipe com os novos jogadores e analisariam seu desempenho neste cenário. Como não os têm, fazem do técnico bode expiatório. Deveriam, sim, assumir diante da torcida de que erraram ao permitir a saída de jogadores qualificados e demoraram em substituí-los. Mas isto seria esperar demais desta gente.

 

É curioso notar que o clube que marcou sua história pela bravura e superação, tenha seu destino nas mãos de gente covarde. Espero estar redondamente enganado em tudo o que escrevi neste post.

Avalanche Tricolor: Moderno, talvez; Imortal, sempre

 

Grêmio 4 x 1 Santa Cruz
Gaúcho – Olímpico Monumental

 

 

Se a melhor defesa é o ataque, o melhor ataque esteve na defesa na partida de sábado à noite, pelo Campeonato Gaúcho, a primeira em que a vitória se construiu com folga, mesmo que tenhamos saído em desvantagem no placar. Naldo fez dois de cabeça, o de empate e o terceiro, que nos ajudou a respirar aliviado; Douglas Grolli, não com a cabeça, mas com o pé e bem ajeitado, marcou o gol da virada – o mesmo Grolli, aliás, que havia garantido os três pontos no jogo anterior com o gol nos acréscimos. Na partida de ontem, Kleber completou a goleada.

 

Por alguns momentos lembrei da fala de Caio Júnior pouco antes de começar o Campeonato Gaúcho na qual prometeu que o Grêmio jogaria futebol moderno. Contra o Santa Cruz, havia jogadores de defesa no ataque e atacantes marcando o adversário – nem por isso Kleber e Marcelo Moreno deixaram de incomodar o goleiro; havia, também, movimentação intensa na turma do meio campo com especial destaque para os volantes, Fernando e Gilberto Silva, este dando mais segurança ao time e aquele, qualidade no passe. Muita coisa ainda nos falta, jogadores inclusive, mas havia um esboço de time interessante para assistirmos no programa de sábado à noite.

 

Digo-lhe com convicção de que estou pouco me importando se o que teremos em campo tem a ver com a modernidade desejada por Caio, o que eu quero é a volta da Imortalidade.

Avalanche Tricolor: Uma noite pouco e bem dormida

 

Ypiranga 1 x 2 Grêmio
Gaúcho – Erechim (RS)

 

 

Dormir à meia noite, acordar às 4 da manhã e ter um dia inteiro de trabalho pela frente é tarefa árdua, exige sacrifício incomum e causa especial. Feita a escolha de encarar o desafio que ao menos sejamos premiados. E foi assim que me senti ao ver a bola raspar na cabeça de Douglas Grolli (confesso que só identifiquei que era a dele na repetição do lance) e parar no fundo do poço, como diria meu pai em memoráveis narrações futebolísticas. Aquele gol, aos 48 minutos do segundo tempo, foi redentor. Já estava me lamentando por mais uma noite perdida diante da televisão a espera de um jogo mais bem qualificado. Praguejava contra as bolas mal passadas, os chutes sem direção, as defesas do goleiro inimigo e as escapadas dos atacantes adversários. Temia pelas reações dos torcedores e a falta de convicção dos diretores se o resultado não fosse positivo, pois nesta altura do campeonato – aqui não apenas como figura de linguagem – é preciso paciência para não se abortar um trabalho que pode dar resultado mais à frente. Se havia certeza na escolha do técnico Caio Junior, comissão técnica e elenco, recentemente, é de se esperar que algumas semanas apenas não sejam suficientes para uma revisão, apesar do desempenho frágil até aqui. Sem contar que mudanças agora, além de precipitadas, poderiam ser desastrosas dadas as opções que temos à disposição no mercado. Os sentimentos mudaram ao fim da noite com aquele gol de cabeça. Justiça seja feita, Marcelo Moreno ajudou e muito com o gol de empate, não apenas porque nos abriu a possibilidade da virada, mas por ter mostrado, novamente, que não está na área para brincadeiras. A bola sequer era dele, mas o que importa? Atacante é para fazer gol, sem depender de apelidos e imagens forjadas nas páginas de jornal. Moreno fez o dele. Douglas, também. E o Imortal, está de volta. Minha noite pouco e bem dormida, agradece.

Avalanche Tricolor: Os mistérios do sofrimento

 

Grêmio 2 x 2 Inter
Gaúcho – Olímpico Monumental

 

 

O dia começou na capela da Comunidade Imaculada Conceição, bem próximo de casa, endereço que visito todos os domingos pela manhã, nas missas do Padre José Bertolini. Autor de dezenas de livros religiosos, Bertolini tem fala mansa, precisa e bem humorada, fazendo daquele diálogo algo sempre bastante acolhedor. Foi apenas após algumas missas rezadas por ele, das quais participei, que descobri sermos conterrâneos, ele nascido em Bento Gonçalves, na serra gaúcha, eu em Porto Alegre, na capital, como você, caro e raro leitor desta Avalanche deve bem saber. Descobri, também, que temos algo mais em comum, a medida que ambos torcem para o Grêmio, motivo de nossas rápidas conversas ao fim da celebração religiosa, sempre com uma palavra otimista e um sorriso no rosto, seja qual for a situação de nosso time. Sabemos que não devemos jamais ter nosso cotidiano abalado por estas coisas que acontecem em campo. Eu, em particular, não gosto muito de misturar futebol e religião, creio até que já tenha comentado isso com você; imagino que o cara lá em cima tenha muito mais o que fazer em vez de ficar ajudando meu time ganhar suas partidas. Durante a homilia de hoje, porém, não consegui deixar de lembrar do Grêmio quando Padre Bertolini versou sobre o sofrimento, a partir da primeira leitura do Livro de Jó – sobre a paciência deste você já deve ter ouvido falar. Ele chamou atenção para o fato de que para os seres humanos nem sempre é simples entender o sofrimento, a compreensão da dor enfrentada acaba se transformando para muitos um mistério. Fez uma ressalva, porém: há momentos de dor que o homem sabe bem os motivos, pois foi ele quem a provocou. Padre Bertolini mais uma vez tinha razão, pois se nos faltam respostas para muitos de nossos sofrimentos, sabemos bem o que provoca este sentimento na alma do torcedor gremista, neste momento. Estamos aqui apenas passando por mais uma provação, preparando a alma para as glórias que virão. Em breve, se Deus quiser !

Avalanche Tricolor: Kleber e Marcelo têm atitude gremista

 

Grêmio 1 x 0 São Luiz
Gaúcho – Olímpico Monumental

 

O Brasil inteiro assistirá na televisão ao toque de calcanhar de Marcelo Moreno que deixou Kleber diante do goleiro para fazer o que mais sabe. Foi muito bonito mesmo, seja pela plástica, seja pela velocidade, seja pela habilidade com que deslocou a defesa adversária e permitiu que seu colega de ataque marcasse o terceiro gol dele com a camisa gremista. Kleber também foi preciso e veloz para superar seu marcador, segurar o tranco do zagueiro e completar a jogada, fazendo dela destaque nos telejornais. O lance permitiu que o Grêmio voltasse a vencer no Campeonato Gaúcho e teve o mérito de chamar atenção para o que esta dupla poderá fazer na temporada. Os dois, assim que estiverem em forma, oferecerão excelentes momentos para o torcedor.

 

Os que estão acostumados a acompanhar esta Avalanche sabem que gosto de perceber nos detalhes, muito mais do que nos lances que enchem os olhos do público e editores de televisão. Agrado-me com atitudes que parecem ser simples, mas transmitem mensagens importantes como no primeiro momento em que Kleber apareceu em campo e cortou um passe do ataque adversário próximo da área do Grêmio ou quando Marcelo Moreno com um carrinho impediu que o zagueiro saísse jogando e mandou a bola pela lateral. Não decidiram a partida mas demonstraram o quanto eles estão envolvidos no espírito que move o time, conquista o torcedor e se faz fundamental para o sucesso nesta temporada – e a vitória no próximo domingo.

 

Obs: aos que perderão tempo falando do pênalti desperdiçado, só tenho a dizer que, além de Gladiador, Kleber é justo, a falta em Leandro foi fora da área, em um raro erro de arbitragem a favorecer o Grêmio.

Avalanche Tricolor: Eram outros tempos

 

Juventude 2 x 1 Grêmio
Gaúcho – Caxias do Sul

 

 

Fossem as férias de inverno fossem as de verão, subir a Serra Gaúcha era programa obrigatório na época em que ainda era um guri de Porto Alegre. Em Caxias do Sul vivia boa parte dos Ferretti – tios, tias e primos de meu pai que nasceu por lá, em 1935, conforme ele próprio contou semana passada no texto semanal que escreve aqui no Blog. Pelo que consigo lembrar, as primeiras viagens foram a bordo do Gordini azul da família, no qual eu me espremia no banco de trás com meu irmão e minha irmã. Nos aventuramos de Fusca, também, por algum tempo, e somente mais tarde encaramos a estrada sinuosa com motores potentes. O mais importante não era a viagem, mas a estada no casarão da Avenida Júlio de Castilhos com três andares e um número razoável de quartos. O prédio era todo de madeira e eu sempre ficava impressionado com o tamanho das portas e das fechaduras. O poço que havia no quintal atiçava minha curiosidade, pois era quase sempre impedido de chegar perto devido ao risco de uma queda que seria fatal. As janelas se transformavam em camarotes VIPs no período da Festa da Uva, pois o desfile de carros alegóricos, em que o principal sempre trazia no topo a Rainha, passava bem diante de nós. Naquele tempo, a cidade serrana já tinha tradição no futebol e seus clubes se destacavam no cenário estadual, impondo dificuldades para os times da capital, apesar de não serem capazes de conquistar títulos – isto só foi acontecer muitos anos depois. Atualmente, não é mais surpresa chegar ao Alfredo Jaconi, estádio do Juventude, e ao Centenário, do S.E.R Caxias, e sair de lá derrotado como aconteceu neste domingo. Confesso, porém, que tenho saudade, muita saudade, daqueles tempos.

Avalanche Tricolor: Prazer conhecê-los

 

Canoas 1 x 3 Grêmio
Gaúcho – Olímpico Monumental

 


 

O feriado era apenas em São Paulo e mesmo que o clima tenha sido esse, para mim a quarta-feira foi de muito trabalho, pois comecei logo cedo no Jornal da CBN e depois tive o privilégio de ser convidado a participar do CBN SP especial, em homenagem aos 458 anos da cidade. Foi lá que ouvi mais uma vez de um dos muitos “comentaristas esportivos” – aspas pois são apenas amigos admiradores do esporte – que a contratação de Kleber pelo Grêmio foi uma loucura: “gastaram muito dinheiro e não vai dar certo”. O Gladiador – é esta a marca que o acompanha – é bastante conhecido pelas confusões que se envolve e gols que marca, e dizem que costuma estar mais nelas do que neles. Tenho a tendência a acreditar que os jogadores irão corrigir seus defeitos e desenvolver suas qualidades assim que vestirem a camisa tricolor, principalmente se entre estas está o espírito guerreiro que sempre contamina a torcida – ou é contaminado por ela. Kleber tem este espírito e às vezes confunde um pouco as coisas, mas foi muito bem-vindo desde que anunciado ano passado. No início da noite de hoje, a partida do Grêmio começou às sete e meia da noite, ainda com muito sol na cidade de Canoas, na Grande Porto Alegre, o atacante marcou seu primeiro gol em partida oficial. Não foi um golaço, daqueles de driblar dois zagueiros, limpar a jogada e encher as redes; nem foi um gol decisivo, capaz de ficar marcado na memória dos gremistas; mas foi um gol de quem entende do riscado – como diriam os mais antigos -, tinha o olho na bola no momento em que foi cruzada para outro colega de ataque que estava na área, se deslocou por trás dos marcadores para o lugar onde ela deveria sobrar na jogada seguinte e apareceu sozinho ao lado da trave tendo apenas o trabalho de empurrar a bola para dentro do gol – não leia este “apenas’ com desprezo, está aqui para mostrar que a simplicidade é um mérito, neste caso. Kleber se apresentou e marcou. E mesmo que seja apenas o início, é um prazer conhecê-lo com a camisa do Grêmio. Assim como foi conhecer Marcelo Moreno, que chegou sem a mesma “má-fama” do colega de ataque, pelo contrário, é visto como um dos prováveis destaques da temporada, e, hoje, ao fazer sua estreia já marcou o primeiro gol (e de cabeça). Moreno e Kleber vão mesmo causar muita confusão em campo. Para o adversário, é lógico

Avalanche Tricolor: Sem sinal da NET e sem futebol

 

Grêmio 0 x 2 Lajeadense
Gaúcho – Olímpico Monumental

 

O adversário era dos mais difíceis que já enfrentei em início de temporada. Este é um período em que não estamos completamente preparados física e emocionalmente para tais embates. Retorno das férias, ritmo ainda lento, um calor que baixa a pressão e a falta de entrosamento dificultam nossas ações. Sem contar que ainda não estamos focados – perdão pelo termo batido, mas é assim que técnicos, jogadores e comentaristas de futebol nos ensinaram – o que acaba gerando surpresas. E, convenhamos, do lado de lá tinha gente bem preparada, com padrão de procedimento, artimanhas ensaiadas em cursos de qualificação, um pessoal disposto a fazer qualquer coisa para garantir o seu ganha pão e criando todo tipo de dificuldade para os meus ataques (de nervos). Todos psicologicamente treinados para desequilibrar o adversário. O resultado não poderia ser outro: fui derrotado.

 

Não, não me refiro a estreia do Grêmio no Campeonato Gaúcho, às nove horas de uma noite de sábado, contra o Lajeadense – time com tanta expressão local quanto nacional. A este jogo não tive o direito de assistir, apesar de há cinco anos pagar religiosamente por isso. Se duvida, é só olhar na minha fatura da NET. Pago R$ 59,90 para ser sócio de um clube do qual não pude participar, neste fim de semana, o PFC, que me oferece (ou deveria) os jogos do Campeonato Brasileiro e do Campeonato Gaúcho. Apesar disso, o texto que aparecia na tela do Canal 122, no qual a partida deveria estar sendo apresentada, insistia em me informar que precisaria desembolar R$ 75 se quissesse ver o jogo. Usei de sapiência e paciência para entrar em contato com as atendentes da operadora de TV a cabo – no feminino, pois eram todas mulheres -, recebi ao menos três intermináveis números de protocolo e fui submetido a exercícios de tortura: primeiro, fique de joelho diante da TV; depois, estique seu braço até onde não alcançar mais; em seguida, sem enxergar a parte de traz do decoder – aquela caixa preta que recebe o sinal ,- use o tato para encontrar o cabo da energia; puxe o cabo e comece a contar, vagarosamente, até 10 para, na sequência, tentar ligá-lo novamente, sem olhar, por favor; agora, aguarde até o sinal ser restabelecido, senhor. E o jogo? Vou ter que falar com meu supervisor que retornará a ligação, senhor – foi o que me prometeu a terceira pessoa a me atender. A primeira prometeu que em 15 minutos estaria tudo resolvido – como se fosse possível pedir para o juiz prorrogar o inicio da partida – e a segunda … bem , na segunda vez, sem nenhuma solução oferecida, a ligação caiu ou foi caída.

 

A propósito: estou até agora esperando a ligação do supervisor (aliás, soube que era uma supervisora) que trabalhava sábado à noite na central de atendimento da NET e teria recebido um “papelzinho” com pedido de urgência para atender meu caso – foi o que disse a atendente. Mal sabe ela que se retornasse a ligação, ouviria um elogio: : ”Obrigado, minha senhora. A incompetência da sua empresa fez com que eu não perdesse tempo assistindo à incompetência do meu time”.

 

Em tempo: dois dias e cinco protocolos depois, descubro que a NET havia mudado meu contrato e me oferecido o Campeonato Paulista em lugar do Gaúcho. Se em 20 anos de São Paulo não me motivei a torcer por um time da terra – imagine se trocaria meu Grêmio por qualquer outro ou por outro qualquer -, por que agora o faria? Outra dúvida: por que isto não foi constatado na primeira ligação que fiz para NET? Já sei: pelo mesmo motivo que o Grêmio não venceu do Lajeadense.

Corinthians, devolve minha alma roubada

 

Sou torcedor forjado a sofrimento e lágrimas, acostumado a lutar sempre e não aceitar a derrota mesmo quando esta é inevitável e a vitória, injustificável. Estou sempre disposto a mais uma conquista sabendo que esta somente será alcançada após driblar todos os percalços e no último minuto do jogo, se preciso for que seja no tempo extra. Foi assim que aprendi a me contorcer nas arquibancadas do Olímpico Monumental – no início apenas Olímpico -, empurrando a bola pela linha de fundo para impedir o ataque advesário, chutando o encosto da cadeira da frente para ajudar o volante a despachar o perigo e de bico enfiar a bola onde o goleiro não alcançará jamais. Nunca me iludi com os elogios ao futebol-maravilha, arma preferida de comentaristas e “especialistas” contra o futebol de verdade, aquele que rende títulos e emoção. Desdenham do time viril, bravo e competitivo que alcança sua meta, seja esta qual for, quando deveriam compreender que em campo não há mais espaço para firulas, lances rebuscados e goleadas – e na me venha com as exceções, estão aí apenas para confirmar a regra. Reclamam de jogadores limitados e placares espremidos. E daí ? Futebol é sangue, suor e camisa rasgada.

Chega-se a mais um título brasileiro nestas condições. Não se tem futebol de sobra nem jogador para ser chamado de craque. Tem-se um grupo de guerreiros dentro de campo e uma torcida alucinada do outro lado do alambrado. No banco, o técnico xinga, esbraveja, esmaga o rosto com as mãos, faz substituições para enfeiar a partida se isto for necessário no caminho da vitória. Sabe que todo drible será esquecido se esta não for alcançada e gol do título só serve para agradar programa de televisão. Por isso, se precisar que se vença de 0 a 0.

Caro e raro leitor deste blog (cada vez mais raro), estou feliz pela conquista que a Alma Tricolor alcançou nesta temporada de 2011. Aprendi seu significado e como esta contamina jogadores, técnicos e torcedores transformando-os em campeões lendo o filósofo do futebol Eduardo Bueno, o Peninha, no livro “Grêmio: nada pode ser maior”. É lá que se descobre que esta Alma foi campeã Mundial em 1950 vencendo o iluminado Brasil, no Maracanã; destroçou a Holanda em 1974 e 1978; conquistou a Copa de 2002 contra os badalados alemães; foi a maior e mais forte – nunca a mais talentosa – nas Libertadores de 1983 e 1995, no Mundial de Tóquio, em 1983 e nas muitas Copas do Brasil, em especial a de 2001, que tive oportunidade de comemorar no microfone com os gritos de gol no 3 a 1 contra o Corinthians, no Morumbi – estas últimas todas vestindo a sua tradicional camisa azul, preto e branco.

Neste ano, a Alma Tricolor, sabe-se lá porque os Deuses do futebol assim quiseram, fardou-se de corintiana e acaba de se transformar Campeã Brasileira, sem marcar gols, brigando com o adversário, reclamando do juiz mesmo que ele esteja certo, sofrendo ataques no poste e no travessão, e comemorando ao fim de tudo sob a batuta de um maestro que construiu sua imagem no Monumental, Tite. Fim de temporada, me cabe apenas um pedido ao Corinthinas que festeja merecido título: devolva-me a alma roubada – está fazendo uma falta danada para a turma da Azenha.

N.B: O futebol jogado, a vitória do Corinthians e a temporada de lamentos gremistas nada mais importam diante do minuto eterno de respeito que devemos a Sócrates e sua família. Um jogador que incluiu o calcanhar no vocabulário do futebol e a política no vestiário da bola. Ele também tinha Alma Tricolor.