Corinthians, devolve minha alma roubada

 

Sou torcedor forjado a sofrimento e lágrimas, acostumado a lutar sempre e não aceitar a derrota mesmo quando esta é inevitável e a vitória, injustificável. Estou sempre disposto a mais uma conquista sabendo que esta somente será alcançada após driblar todos os percalços e no último minuto do jogo, se preciso for que seja no tempo extra. Foi assim que aprendi a me contorcer nas arquibancadas do Olímpico Monumental – no início apenas Olímpico -, empurrando a bola pela linha de fundo para impedir o ataque advesário, chutando o encosto da cadeira da frente para ajudar o volante a despachar o perigo e de bico enfiar a bola onde o goleiro não alcançará jamais. Nunca me iludi com os elogios ao futebol-maravilha, arma preferida de comentaristas e “especialistas” contra o futebol de verdade, aquele que rende títulos e emoção. Desdenham do time viril, bravo e competitivo que alcança sua meta, seja esta qual for, quando deveriam compreender que em campo não há mais espaço para firulas, lances rebuscados e goleadas – e na me venha com as exceções, estão aí apenas para confirmar a regra. Reclamam de jogadores limitados e placares espremidos. E daí ? Futebol é sangue, suor e camisa rasgada.

Chega-se a mais um título brasileiro nestas condições. Não se tem futebol de sobra nem jogador para ser chamado de craque. Tem-se um grupo de guerreiros dentro de campo e uma torcida alucinada do outro lado do alambrado. No banco, o técnico xinga, esbraveja, esmaga o rosto com as mãos, faz substituições para enfeiar a partida se isto for necessário no caminho da vitória. Sabe que todo drible será esquecido se esta não for alcançada e gol do título só serve para agradar programa de televisão. Por isso, se precisar que se vença de 0 a 0.

Caro e raro leitor deste blog (cada vez mais raro), estou feliz pela conquista que a Alma Tricolor alcançou nesta temporada de 2011. Aprendi seu significado e como esta contamina jogadores, técnicos e torcedores transformando-os em campeões lendo o filósofo do futebol Eduardo Bueno, o Peninha, no livro “Grêmio: nada pode ser maior”. É lá que se descobre que esta Alma foi campeã Mundial em 1950 vencendo o iluminado Brasil, no Maracanã; destroçou a Holanda em 1974 e 1978; conquistou a Copa de 2002 contra os badalados alemães; foi a maior e mais forte – nunca a mais talentosa – nas Libertadores de 1983 e 1995, no Mundial de Tóquio, em 1983 e nas muitas Copas do Brasil, em especial a de 2001, que tive oportunidade de comemorar no microfone com os gritos de gol no 3 a 1 contra o Corinthians, no Morumbi – estas últimas todas vestindo a sua tradicional camisa azul, preto e branco.

Neste ano, a Alma Tricolor, sabe-se lá porque os Deuses do futebol assim quiseram, fardou-se de corintiana e acaba de se transformar Campeã Brasileira, sem marcar gols, brigando com o adversário, reclamando do juiz mesmo que ele esteja certo, sofrendo ataques no poste e no travessão, e comemorando ao fim de tudo sob a batuta de um maestro que construiu sua imagem no Monumental, Tite. Fim de temporada, me cabe apenas um pedido ao Corinthinas que festeja merecido título: devolva-me a alma roubada – está fazendo uma falta danada para a turma da Azenha.

N.B: O futebol jogado, a vitória do Corinthians e a temporada de lamentos gremistas nada mais importam diante do minuto eterno de respeito que devemos a Sócrates e sua família. Um jogador que incluiu o calcanhar no vocabulário do futebol e a política no vestiário da bola. Ele também tinha Alma Tricolor.

8 comentários sobre “Corinthians, devolve minha alma roubada

  1. Tenho esse livro do Peninha, muito bom aliás. A Alemanha de 54 também pode ser mencionada, assim como o Brasil de 94. Infelizmente 2011 é um ano para esquecer no Grêmio. Que a verdadeira alma do Imortal Tricolor venha em 2012.

    Quanto ao Sócrates, deixará muitas saudades. Não o vi jogar ao vivo, mas aproveitei o domingo em casa para relembrar todas as partidas do Brasil nas Copas de 82 e 86 (felizmente o YouTube permite isso). Era um grande jogador, sem dúvidas. Estava ao lado de outros grandes jogadores, claro, mas ele dava a impressão de se destacar mais. Uma pena para o futebol mundial. O esporte bretão deve muito a ele.

    Abraços, Milton!

    Bruno

  2. Retardei de propósito a leitura da tua Avalanche Tricolor deste infausto domingo,Mílton. Não que duvidasse da tua capacidade de construir um texto capaz de consolar teu velho pai. É que,antes de qualquer outro sentimento,precisava espantar o mais pontual: a raiva que sentia (nada poética) de um comandante que,para mim,tem de ser responsabilizado por ter frustrado o ano do Grêmio. A cólera já desapareceu. Deu lugar à esperança de dias melhores. Espero que o Corinthians do admirável Tite aceite devolver-nos a alma roubada.

  3. Milton, sou Santista de corpo e Alma, mas adorava assistir o Sócrates jogar. Na Copa de 82 torci demais pelo Brasil e pelo Doutor Sócrates. Dou uma sugestão e os Corintianos deveriam levantar essa bandeira. O novo estádio do Corinthians que as pessoas conhecem como Itaquerão bem que poderia se chamar Estádio Doutor Sócrates Brasileiro Sampaio. Hj temos nomes de casas de espetáculos e teatros não com nomes de pessoas ligadas a musicas e teatros mas a Marcas de empresas de operadoras de telefonia celular, bancos e cartão de crédito. Espero que o Itaquerão receba o Nome do Doutor Sócrates que foi um idolo e marcou história na Democracia Corintiana. Fico imaginando uma final entre Santos e Corinthians no Estádio Doutor Sócrates. Ou Brasil x Argentina no Estádio Doutor Sócrates na final Copa 2014. Magrão descanse em Paz.

  4. Ai, Mílton! Li num fôlego só, como leio sempre seus textos (ainda que não comente). Emocionante! Essa paixão futebolística, essa nação esportiva, esse olhar sensível, me deixa comovida que só vendo. Você devolveu-me a vontade de comentar (aqui renovada). Valeu!

  5. Boa noite Milton e os colegas do Blog,

    Milton, o Brasil perde um dos seus genios do futebol. O socrates era um desses genios que não precisava esta inspirado para jogar bem. As suas jogadas de calcanhar, era uma pintura.
    Infelizmente hoje, com raissimas excessões, podemos afirmar, não temos mais craques, temos uns que podemos chama-los de boleiros. Agora craque mesmo esta dificil encontrar um.
    Derrepente o Neymar, o ganso pode vir a se revelar uns boleiros refinados, como tem o R. Gaucho e o Robinho.

    Boa Noite,

    JS.

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