Conte Sua História de São Paulo 470: a revolução das estudantes do Maria Imaculada

Maria Elisabete Fonseca Marun

Ouvinte da CBN

Loja Sears em foto publicado no site Os Anos 50

Eu morava na rua Amâncio de Carvalho, perto do ponto final do ônibus 48, linha Paraíso-Anhangabaú. Estudava no Colégio Maria Imaculada bem perto da Praça Osvaldo Cruz.

É na praça que começa a avenida mais famosa de São Paulo: a Paulista. Alguns saudosos podem contestar porque a Avenida São João também é um local muito admirado pelos paulistanos até em música.

A Osvaldo Cruz era uma linda praça onde havia a escultura de um índio com sua lança, pronto para pescar algum peixe do pequeno lago que ali existia. Muitas vezes, após as aulas, eu e minhas colegas chegávamos até perto da água para nos refrescar.

A grande novidade naquela região foi a inauguração da loja Sears Roebuck, onde hoje funciona o Shopping Paulista. Seu slogan era impactante: “satisfação garantida ou seu dinheiro de volta”. Sensacional! Tendo chegado em 1949, a Sears revolucionou o varejo na cidade.

O acontecimento gerou uma revolução na disciplina do Colégio Maria Imaculada. As alunas cabulavam as aulas para visitarem a Sears. No térreo, o cheiro de amendoim torrado e açucarado, rescendia pela loja.  Nenhuma de nós resistia a um pacote.

No andar inferior onde se vendia discos havia uma pequena cabine na qual se ouvia as novidades do Rock and Rool. Logo, as irmãs da escola proibiram que ouvíssemos aquele ritmo. As freiras nos seguiam e éramos obrigadas a ouvir reprimendas em plena loja. Assim que elas apareciam, era um correria só para fugir da punição que seria certa.

O Maria Imaculada ainda está lá. Hoje atende meninas e meninos. A Sears, o cheirinho de amendoim, os produtos que ficavam a mostra e a música dos discos  permanecem na minha memória.

Ouça aqui o Conte Sua História de São Paulo

Bete Marum é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Escreva a sua história de São Paulo e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o novo site da CBN – cbn.com.br —, o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Avalanche Tricolor: dia de festa

Grêmio 4×1 São José

Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Soteldo é destaque em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

No dia em que escrevo esta Avalanche é feriado em São Paulo. 25 de Janeiro é a data de fundação da cidade que completa 470 anos. Vivi aqui meus últimos 33 anos e agradeço sempre pelas oportunidades que recebi. Sinto-me paulistano e digo isso sem nenhum demérito à cidade em que nasci. Porto Alegre é parte crucial de minha história. Nela tenho os registros da infância e da adolescência, as marcas do início da carreira, parte da família e, claro, o clube do coração. Foi lá que o meu “gremismo” foi forjado. É do Grêmio, aliás, que falo neste espaço como bem sabe o caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche.

Ontem, dia 24 de Janeiro, foi dia de muita festa para o torcedor gremista. À noite, reencontrou-se com o time na Arena, pela primeira vez nesta temporada. Depois do revés na estreia do Campeonato Gaúcho, jogando fora, o Grêmio se impôs e goleou seu adversário em casa. Quem mas se divertiu foi o venezuelano Soteldo que, a persistirem os sintomas, tende a ser o ponto forte da equipe. Driblou como poucas vezes vimos, fez a festa com a bola no pé para desespero de seus marcadores, deu assistência para o gol que abriu a goleada e marcou pela primeira vez com a nossa camisa.

Agustin Marchesín, goleiro argentino contratado este ano, também fez boa estreia, apesar de o lance do pênalti, mal sinalizado pelo árbitro, ter sido motivado por uma falha dele. Foi seguro em todas as demais oportunidades em que o adversário ameaçou nosso gol e demonstrou personalidade forte para comandar o setor defensivo que precisa evoluir muito neste ano de 2024. Aliás, no que se refere à defesa, que alegria ver Geromel e Kannemann lado a lado mais uma vez. 

Nessa quarta-feira, havia gremistas com motivos ainda mais especial para festejar. O paraguaio Mathias Villasanti, um dos melhores volantes em atividade no futebol brasileiro, completou 27 anos com mais uma atuação segura. 24 de Janeiro também é aniversário do uruguaio Luis Suárez, que pelo que fez em um ano com a camisa tricolor será nosso eterno craque. 

Aliás, os astros merecem ser investigados porque todas as vezes que se alinharam nesta data nos ofereceram grandes nomes. Foi o que fizeram, por exemplo, em 1945, quando lá na pequena Brochier, interior do Rio Grande do Sul, nascia Loivo Ivan Johann, que anos depois se consagraria como o “Coração de Leão” pela forma valente e impetuosa com que jogava com a camisa 11 do Grêmio. Ponta esquerda raiz, com chute forte e ídolo de todos nós torcedores, Loivo completou ontem 79 anos de vida muito bem vivida.

O aniversário de Loivo, ontem, me levou a escrever texto em que compartilhei a experiência que o craque me proporcionou quando eu ainda era um guri de calção curto e camisa tricolor esturricada: o dia em que entrei de mãos dadas com ele no gramado do Olímpico. O relato que, com outras palavras, havia sido contado nesta Avalanche publiquei em grupo de WhatsApp no qual gremistas ilustres participam, dentre eles o próprio Loivo. 

Foi então que a minha festa particular se iniciou: o celular tocou e do outro lado era o craque a falar e a agradecer pela história que contei. Imagine a emoção deste escrevinhador que teve de controlar a batida do coração, a lágrima no rosto e a voz que fraquejava. O jornalista voltou a ser o guri do Olímpico,  comemorou o feito com a mesma alegria infantil daqueles tempos e com o desejo de abrir a janela do apartamento e gritar: “Gol, gol, gol, gooool de Loivo, o Coração de Leão!”. 

Conte Sua História de São Paulo 470: lições de meu pai pelas ruas da cidade

Álvaro Gomes Severino

Ouvinte da CBN

Foto de Kaique Rocha

Em novembro de 1978, nasci em Jacareí, embora meus pais vivessem na capital paulista. Cresci no Ipiranga, ouvindo histórias do meu pai, um “menino de rua, sozinho no mundo”, como ele dizia. Cuja vida por São Paulo inspirou meu amor pela cidade.

Minha infância foi marcada por travessuras a caminho da escola na Praça Pinheiro da Cunha. No trajeto, andava por cima do muro mesmo sob a reprimenda de minha mãe.

Aos sete anos, iniciei a escola Teotônio Alves Pereira, lembrando sempre da tia Helenice, minha primeira professora.

Brincadeiras de rua, carrinho de rolimã e passeios de bicicleta pelo parque da independência faziam parte do meu dia-a-dia.

Na pré-adolescência, trabalhei com meu pai, entregando encomendas pela cidade, o que fortaleceu meu amor por São Paulo. Aprendi a navegar pela metrópole com um guia detalhado, antes da era do GPS. Os fins de semana eram reservados para os bailinhos, onde a moda era calça baggy, blaser com ombreiras e tênis.

Com a mudança dos meus pais para o sul de Minas nos anos 90, fiquei a 190km de São Paulo. Hoje, como marceneiro, visito a cidade frequentemente, relembrando os lugares da minha infância com carinho e nostalgia. Para mim, São Paulo não é apenas uma cidade, é o lugar que definiu minha felicidade e orgulho, a capital do meu coração.

Ouça aqui o Conte Sua História de São Paulo

Álvaro Gomes Severino é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Esse texto foi inspirado na história contada pelo Álvaro. Agora, eu quero ouvir a sua história de São Paulo. Escreva e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o novo site da CBN – cbn.com.br —, o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo 470: o Ipiranga que nos uniu

Alex Albergaria 

Ouvinte da CBN

Foto de Manoel Junior

Essa história começou em São Paulo e muitos anos depois atravessou o mundo e promoveu um encontro improvável. Nasci numa maternidade no Ipiranga e desde criança morei na região. O recém reformado Museu do Ipiranga foi parte da minha infância. Aos fins de semana, eu e meus amigos fazíamos corrida de carrinho de rolimã na descida que liga os dois extremos do parque, brincávamos de pega-pega por entre as árvores que cercam a Casa do Grito e pelos jardins de estilo francês, que sempre atraíram turistas. 

Aos 18 anos, me mudei a trabalho para o Japão. Foi onde passei a praticar snowboard. Um dia, convidado por um amigo, me juntei a um grupo para visitar a uma pista de esqui famosa a umas quatro horas de carro de onde morávamos. No grupo uma garota chamou minha atenção. Apesar de ser a primeira vez que eu a via, tive a sensação de que a conhecia. Nas conversas descobri que ela também era brasileira. Descobri que éramos de São Paulo. Havíamos morado no Ipiranga e nascidos na mesma maternidade.

O destino nos uniu no Japão. Nos casamos. E voltamos para o Brasil. Perdi a conta de quantas vezes estive com nossos três filhos no Parque da Independência: andamos de skate, jogamos bola, escorregamos nos corrimãos gigantescos de mármore, observamos os macacos e pássaros que moram na mata, ao fundo do Museu. 

Hoje, estamos novamente no Japão. As crianças já não são tão crianças. Têm uma vida bem diferente aqui em Yokohama. Mas cresceram com as memórias do parque e do museu do Ipiranga que seguem  vivas em suas mentes.

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Alex Albergaria é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Venha participar das comemorações dos 470 anos da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br , acesse o novo site da cbn CBN.com.br, e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 470: minha Móoca tem o cheiro do cotonifício e o sabor do cannoli

Italo Cassoli Filho

Ouvinte da CBN

Fachada do Cotonifício Rodolfo Crespi. Foto de Daniellima89 Domínio público

Destacar um ponto especial de São Paulo não é tarefa fácil. Cada lugar, cada cantinho, cada nicho tem seus encantos próprios.

Se você for ao Brás, Liberdade ou Bela Vista terás a oportunidade de vivenciar emoções diferentes ainda hoje.

Mas o meu “cantinho” é a Mooca…ahhh como eu te amo!

E essa paixão vem dos idos de 1960 quando passava as férias na casa do tio Américo e da tia Ida.

O encanto era ainda maior porque eu vinha de Pirassununga, uma realidade totalmente diferente. Desembarcar na estação da Luz e embarcar no bonde rumo a rua Javari passando pela rua dos Trilhos já fazia aquele menino tremer na base. 

Quando o motorneiro parava próximo ao Cotonifício Rodolfo Crespi, uma industria têxtil, fundada em 1897, que ocupava uma enorme área a minha pulsação disparava. Até a fumaça e o odor que ela exalava, me encantavam.

E assistir aos treinos e jogos do Juventus? Que felicidade vibrar com meu Moleque Travesso, aquele cannoli de sabor incomparável. Dá água na boca.

Dez anos depois, eu iniciei minha carreira profissional como professor. 

Onde?  No Colégio MMDC na rua Cuiabá. Claro, na Mooca. Destino? Se foi ou não, eu pouco me importei, a minha felicidade era estar novamente no bairro que aprendi a amar.

O bonde fora substituído pelo ônibus, que partia da Praça Clovis Beviláqua, e ao mesmo tempo que fazia seu trajeto projetava em minha memória um filme que até hoje, quando tenho a oportunidade de lá retornar, ainda vejo: a fumaça, o cheiro do Cotonifício, o sabor do cannoli, as vitórias do Moleque Travesso.

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Conte Sua História de São Paulo 470: dos bondes lotados às cabras do Cambuci

Joao Coppa

Ouvinte da CBN

Reproduçao do site São Paulo Antiga do pesquisador Douglas Nascimento

Os bondes que usávamos estavam sempre cheios de pessoas andando em pé nos estribos. Quando a gente não tinha dinheiro, era preciso fugir dos cobradores, que andavam em volta do bondes mesmo quando em movimeto. A maioria dos cobradores de bondes era de portugueses .

Nasci em São Paulo, no bairro do Cambuci na Rua José Bento, lá pelos anos de 1930. A ruas do bairro eram de terra, onde se faziam fogueiras na época de São João. A festa durava a noite inteira e o melhor momento era o de pescar com uma varetinha as batatas doces no meio da fogueira. 

Tinham também pinhões assados e pipocas, além do gostoso quentão, só para maiores Os balões coloridos passeavam à vontade lá entre as estrelas, e, às vezes, caiam, por sorte, perto da gente. 

De vez em quando ouvia-se um tilintar de sinos e lá vinha uma porção de cabras, lideradas por um bode. Eram os vendedores de leite de cabra, que por uns trocados nos forneciam um copo de leite ainda quente, pura delícia! 

Nos fundos da vila de casa onde morávamos, passava uma valeta, onde, nos campos em redor, meu pai catava cogumelos, que minha mãe fritava. 

Todos os dias, no cair da tarde, enxames de pernilongos vinham atacar, e minha mãe costumava, acender jornais dentro de uma bacia, a luz atraía os insetos que morriam no calor. Ainda não havia inseticida. 

Fomos morar depois na rua do Paraíso, onde meu tio tinha uma loja de armarinhos, em que se vendia fazendas em peças, roupas, linhas e agulhas. Comecei a trabalhar nessa loja enquanto frequentava o curso primário no Grupo Escolar Rodrigues Alves, que ainda existe lá na  avenida Paulista. Eu fazia entregas da loja, alem de varrer, arrumar as mercadorias. As entregas me levavam longe, lá para o bairro da Aclimação. Para chegar até lá tinha de atravessar a mata que hoje é a avenida 23 de Maio. Pura aventura! No meio tinham bicas d’água sempre geladinha, frutinhas silvestres, moranguinhos e amoras, coquinhos e pitangas. 

Naquele tempo, o Carnaval era festejado na Paulista, e os carros enfeitados com os foliões vinham da Consolação e faziam a volta  na Praça Osvaldo Cruz, que só tinha uma única via, e alguns casarões no entorno.

Durante a Segunda Guerra, as padarias não tinham trigo para fazer o pão e de vez em quando produziam um pão preto e intragável. Gasolina também não tinha, e inventaram o carro a gasogênio, que funcionava a carvão e soltava uma fumaça preta e mal cheirosa. 

Chegando nos anos 1950, na Praça da Bandeira, onde é hoje o terminal de ônibus, havia o Circo de Alumínio, que era também um parque de diversões. Naquele tempo, o Palhaço Piolin e sua turma faziam as brincadeiras no seu próprio circo, na praça Marechal Deodoro. 

Já na esquina da São João com a Ipiranga, grande filas se faziam para entrar nos belos cinemas: o cine Art-Palácio, o Paisandu, o Ipiranga e o belo Cine Metro, onde os homens só entravam de gravata ao lado de mulheres bem chiques.

Todas essas coisas e lembranças boas que o tempo deixou para trás.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Joao Coppa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Daniel Mesquita. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Venha participar da edição especial do Conte Sua História de São Paulo, em homenagem ao aniversário da cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 470: nadamos com as andorinhas nas lagoas da Vila Olímpia

João Batista de Paula

Ouvinte da CBN

Foto de @coldbeer no Pexels

Nem a famigerada guerra mundial nos tirava a vontade de viver. Vivíamos bem ali onde hoje chamam de Jardins. Em cada casa tinham três ou quatro meninos e meninas que seguiam a rotina de ir à escola  e voltar sempre correndo, pois as mais diversas brincadeiras nos esperavam.

As meninas no seu tradicional brinquedo, a fazerem casinhas imitando suas mães, dedicadas ao que levava o nome prendas domésticas. Os meninos se entregam a acirradas lutas nos campinhos de futebol.

As casas eram quase todas iguais: um portão baixinho e flores por todos os cantos. Nos verões, os meninos mais crescidos iam às lagoas da Vila Olímpia.

Nadávamos como chegamos ao mundo, sem roupa. observados pelas andorinhas. De repente, saíamos em disparada: “quem chegar por último é o bobo”. Oitocentos metros depois estava o campo de futebol. Escalados os times, caneladas trocadas até o famoso “tô de mal”— durava pouco.

As brincadeiras ao ar livre se estendiam até o anoitecer, quando então ecoavam os sons daquela nossa cidade: os chamados das mães:. “Dito, a mãe está chamando!”, “Osvaldo, Vani, Luiz, Calu”, e todos respondíamos em coro, “tchau Calu, tchau Américo”, criando uma sinfonia de despedidas que hoje ressoa com saudade.

A Vila Olímpia agora é um bairro rico. Sem vestígios das lagoas.  O Itaim Bibi evoluiu para o Jardins, e nós, os meninos, nos afastamos tanto quanto as andorinhas, talvez alcançando destinos ainda mais distantes.

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João Batista de Paula é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Daniel Mesquita. Esse texto foi adaptado para você ouvir aqui no rádio. Conheça outros capítulos da nossa cidade que estão no meu blog miltonjung.com.br. ou no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: no baile Black

Odnides Pereira

Ouvinte da CBN

Imagem criada no Dall-E

Nasci na maternidade de Vila Maria, na zona norte de São Paulo no dia 21 de abril de 1959.

No início dos anos 70, Giberto Gil, Bezerra da Silva, Jorge Bem Jor, Tony Tornado, Jackson Five, Billy Paul, Al Green, Stylistics,  Barry White, Diana Ross, Stevie Wonder, Donna Summer, Aretha Franklin, Marvin Gaye, Roberta Flack, , entre outros cantores negros, regavam nossos bailes com suas músicas. 

Dançávamos Samba Rock, hip hop, música lenta etc., chamávamos esses bailes de “Baile Black ou Baile de Preto”.

Na Vila Sabrina também zona norte de São Paulo onde eu morava, existiam os “Bailes de Garagem” que eram feitos na garagem de um amigo e nos salões de festa de nome: Sociedade Amigos de Vila Sabrina, Maracanã e Cafona. Eu participava desses bailes até nas quartas feiras, que terminavam sempre as 11 e meia da noite, pois todos tínhamos que trabalhar no outro dia. 

Naquela época estava na moda calça boca de sino, sapato bicolor, camisa de tergal, uma corrente de bijuteria da mais grossa possível e o cabelo Black Power. 

Apesar de eu ser pardo e meu cabelo liso, eu usava o Garfo ou Pente Africano para moldar meu cabelo para virar o famoso Black Power.

Muito raramente meus amigos e eu, participávamos de bailes em outros bairros, somente íamos quando quem convidava era o dono do baile, pois do contrário corríamos riscos. 

Atualmente somente o salão da Sociedade ainda existe, mas não tem mais bailes, os outros foram demolidos, até a garagem do meu amigo não existe mais.

Quando se aprende a dançar Samba Rock, nunca se esquece, ainda danço com minha esposa, minha sobrinha e minha neta que estou ensinando.

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Odnides Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Seja você também personagem dos 470 anos da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos leia o meu blog miltonjung.com.br e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 470: os sons da cidade

Fernando Dezena

Ouvinte da CBN

Foto de DANIEL QUEIROZ

queria ouvir os sons da cidade
mas a cidade não fala
a cidade não grita
a cidade fica silenciosa
pelo meu caminho

deito à noite – quarto de hotel
e não ouço a cidade
o que me vem é lembrança
de um som que se apagou
mas não era o som da cidade

na rua andando
ouço ônibus em disparada
ouço buzina atormentada
ouço gritos do louco perdido pela rua

                                                                      (eu?)


mas é o som do ônibus
o som do carro
o som do louco agora na calçada
não ouço a rua

e esse desejo de ouvir tijolos sobrepostos me consome
e esse desejo de ouvir os paralelepípedos enterrados me alucina
piso sobre eles como querendo ouvi-los gritar
eles não gritam
eles se calam
e transformam em angústia as respostas que não tive

mesmo no cemitério da cidade

(introspecto – quarta parada – última na brincadeira do taxista)

ouço vozes
uma sorrindo, outra cantando, outras pedindo clemência a Deus
mas dos muros do cemitério nada se ouve

as lápides, as esculturas

pedra, bronze, marfim
nada dizem
quietas observam a eternidade

talvez nas construções restauradas
na demão de tinta
no parque preservado
ouça algum barulho que não da vida
(de agora)
mas da vida silenciosa que construiu a metrópole
talvez
auscultando
as paredes
com outro timbre
possa ouvir ruídos de histórias
talvez
talvez um menino que correu pela praça
talvez a prostituta em gozo pela noite
talvez o professor
talvez o poeta que nada quis além do menino da mulher e do aluno
talvez um poeta possa ouvir
mas não o que canta a cidade
aquele que tente ouvi-la

surdamente questiona

ouvi-la para quê?

qual o sentido de ouvir a cidade
qual o sentido de petrificado ante ao Theatro municipal gritar
– o que me tens a dizer!

não te procurei
não te procurei
não te procurei
três vezes te nego
e sei que jamais serei absolvido em teu silêncio

o meu pai aqui pisou
minha mãe andou por tuas ruas
andou em teus bondes
ouviu as pessoas
contou tantas histórias
sei de coisas que podem me levar ao engano
de dizer
– ouvi a cidade

mas meu pai morreu com o pulmão cheio de nicotina

não das fumaças de tuas ruas

minha mãe morreu de tanto amor que tinha

traiçoeiramente

não em tua traição

meu irmão Toninho morreu no alto da Paulista

meu irmão Tarcísio viveu no alto da Paulista

meu sobrinho canta pelos teus bares

meus sobrinhos andam por tuas ruas

meu irmão tem casa nesta cidade

pensei que poderia ouvir-te dizer

ao menos

bom dia.

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Fernando Dezena é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Esse texto foi adaptado para você ouvir aqui no rádio. A poesia completa você lê no meu blog miltonjung.com.br. Seja você também um personagem dos 470 anos da nossa cidade: escreva agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos acompanhe o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo 470: futebol no paredão de Pinheiros

Edison N. Fujiki

Ouvinte da CBN

Viajar para São Paulo, era uma aventura. O melhor era ir de trem: Estrada de ferro da Alta Paulista. Parava nas principais cidades: Adamantina, Marilia, Bauru, Limeira, Americana, Campinas e Jundiaí. Tinham outras que hoje já não me lembro mais. A viagem demorava 14 horas. Pela janela, a cada cidade que passava, meus sonhos ficavam para trás. 

Lá em Pacaembu, andávamos, descalço ou quando muito usava alpargatas, pescava e nadava num rio perto de onde morávamos. Levava o estilingue no pescoço, e minha paixão era jogar futebol.

Viemos morar com os irmãos num apartamento, na Cardeal de frente ao mercado de Pinheiros —- esse era um lugar que eu gostava: tinha verduras, uma banca que vendia animais e pássaros e aquilo me fazia lembrar dos meus tempos recém deixados para trás.  

Lá em Pinheiros, tinha a Cooperativa Agrícola de Cotia. Lembro que meus pais falavam deste grande empreendimento da colônia japonesa. E para meu deleite, onde os caminhões estacionavam para carga e descarga ficava vazio nos finais de semana. Eu pegava a minha bola de futebol, corria e chutava contra o paredão. Às vezes, transmitia a partida como um speaker de rádio.

Uma figura da época era o Luizão, que morava na rua. Fazia bico ajudando na descarga dos caminhões.  Quando estava embalado nos seus devaneios, Luizão gritava: “o tempo passa!”,  lembrando Pedro Luis, um dos maiores locutores esportivos de todos os tempos. A voz de Luizão ecoou pelas ruas de Pinheiros onde hoje está o Largo da Batata. O mercado não existe mais. O apartamento da Cardeal foi demolido. A sede da Cooperativa deu lugar a outros prédios. Meu campinho sumiu assim como o do Sete de Setembro, no fim da Rebouças que  agora é o Shopping Eldorado. 

O tempo, sim, o tempo passa!

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Edison Fujiki é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Este texto foi adaptado para você ouvir aqui no rádio. Seja você também personagem dos 470 anos da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos leia o meu blog miltonjung.com.br e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.