Conte Sua História de São Paulo: o dia em que a freira e o Zorro foram detidos no aeroporto

Celia Corbett

Ouvinte da CBN

Foto de Nesrin Öztürk

Eram 1970. Tempos tumultuados. A ditadura tinha atingido seu auge. Qualquer manifestação de opinião contrária ao sistema era proibida. Nós éramos jovens estudantes, filhos respeitosos, gostávamos de Rita Lee, Chico Buarque, Beatles e assim seguíamos.

Estudantes mackenzistas com muito orgulho, estávamos entre o ensino médio e a faculdade. Eu cursava o último ano do Técnico de Administração e meu irmão, o Carlos, a faculdade de Engenharia. Todos nós éramos amigos dos amigos e formávamos um grupo muito legal. 

Fim de semana com festa era o máximo. Com festa a fantasia, era genial  Seria na casa da namorada do Andrade. Muita atrasada fui a loja de fantasia na Bela Vista e quase fiquei na mão. Tinha sim uma roupa que me servia. Mas será? De Freira? E assim foi. 

O quanto eu ouvi antes de sair de casa foi para a vida toda. Lá estava eu vestida com um hábito de freira perfeito, preto e branco, como manda o figurino. Mas qual a jovem de 16 anos não faria uma maquiagem a altura de uma festa de arromba. Festa, aliás, que estava fantástica com direito a odaliscas e piratas. Sensacional estava o Castro de zorro com capa e espada. Foi ele que me convidou para  acompanhá-lo e levar uma amiga lá pelos lados do Aeroporto de Congonhas. 

Nada era comparável ao café no aeroporto nos fins de noites daqueles ditos Anos Dourados. Aquele saguão chiquérrimo com seu piso quadriculado era muito badalado. O Castro tirou os adereços da fantasia e estava de calça e camisa pretas . Eu fiquei apenas com o hábito de freira e a maquiagem. E isso se transformou em um pesadelo.

Quando estávamos curtindo o saboroso cafezinho no balcão do salão fomos abordados por um policial que nos intimou a acompanhá-lo a delegacia do aeroporto. Por quê?

– Vocês estão detidos, disse o policial.

– Documentos na mesa, deu a ordem.   

    Logo nos apressamos a entregar a carteira de identidade e de estudante. Sim, de estudante porque mostrávamos que éramos pessoas de bem. Mas 1968 ainda estava na cabeça de todos assim como a Batalha da Maria Antonia, que fez com que nosso policial  nos condenasse antecipadamente.

    – Ah, estudantes do Mackenzie. Isso explica porque estão vestidos assim.

    Da festa de Ali Baba nos tornamos estudantes subversivos. Ficamos aterrorizados com a repressão do policial. Mesmo sem sofrer nenhuma agressão física, foi um pesadelo que só terminou quando o delegado de plantão chegou. Fez algumas perguntas: onde morávamos, oi que estávamos fazendo com as roupas estranhas. Todas devidamente respondidas. 

    Assim que fomos liberados pelo delegado, voamos para o carro que estava no estacionamento e de lá direto para casa. Além de um susto enorme, isso rendeu muita conversa pelos corredores do Mackenzie.

    Ouça o Conte Sua História de São Paulo

    Celia Corbett é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

    Nos 70 anos do Ibirapuera, uma lembrança do Ouvinte da CBN

    (Texto publicado originalmente no dia 1 de dezembro de 2023)

    Por José Carlos Vertematti

    Ouvinte da CBN

    Imagem de arquivo da “Aspiral”, de Oscar Niemeyer

    Eram 21 de Agosto de 1954. Eu tinha apenas cinco anos de idade mas me lembro muito bem deste dia maravilhoso! Meus pais, José e Vicentina, levaram minha irmã Rosinha e eu a uma grande festa: a inauguração do Parque do Ibirapuera, em comemoração ao IV Centenário da cidade de São Paulo.

    Uma área verde imensa, gramada, arborizada, com lagos, aves, chafarizes e vários prédios culturais que, para um garotinho como eu, parecia ser o mundo todo!

    Passeamos muito a pé e o que mais me intrigou foi o sistema de som do parque: podia-se ouvir claramente as mensagens e as músicas, em qualquer lugar e com o mesmo volume. Eu, ainda pequenino, não entendia como isso era possível, mas hoje imagino a complexidade de se instalar um sistema de alto-falantes em árvores e prédios, ao longo de todo o parque, e garantir um som perfeito e equilibrado, naquela época!

    Durante o passeio vimos um monumento lindo que tinha uns 17 metros de altura e que é difícil de descrever: algo como uma espiral com as extremidades unidas entre si por uma reta, fundeado no chão com uma inclinação de cerca de 60 graus.

    Soubemos que era uma obra de arte criada pelo magnífico arquiteto Oscar Niemeyer. a “Aspiral” ou “Voluta Ascendente” era um desenho que representava o crescimento e o progresso paulista. Estava instalada próxima à entrada principal do parque. Era para ser a imagem da cidade de São Paulo, assim como o Cristo Redentor é do Rio de Janeiro.

    Infelizmente, por motivos estruturais, este monumento não resistiu às forças da natureza e, em pouco tempo, veio abaixo e foi destruído! Hoje, só o vemos impresso na embalagem dos Dadinhos, aqueles chocolates com sabor de amendoim, que existem desde 1954. Aparece também na fachada de algumas casas que resistiram ao tempo. 

    Outra atração marcante foi a intensa chuva de prata, feita através de triângulos de papel metalizado que refletiam a luz criando um clima mágico. Após uma longa caminhada, maravilhados com a imensidão e beleza do novo parque, descansamos e fizemos um merecido piquenique no Ibirapuera.

    Conheça aqui a história da Aspiral, a estátua que desabou no parque

    Ouça o Conte Sua História de São Paulo

    José Carlos Vertematti é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

    Conte Sua História de São Paulo: vistas e memórias do Minhocão

    Profª.Dra. Deborah Hornblas

    Vista do Minhocão, em São Paulo Foto: Luis F. Gallo, ouvinte-internauta da CBN

    O longo viaduto se democratizou, mudou de nome, já não homenageia o Costa e Silva, agora é Presidente João Goulart. Eu, particularmente achei bom, mas paulistano só conhece o elevado de mais de dois quilômetros de cumprimento por apelido: Minhocão.

    O trambolho é feio. Passa de maneira acintosa pelos prédios que o circundam; não tem vergonha de invadir os lares, a vida das pessoas. É cinza, é duro. Embaixo de suas pilastras produz uma noite eterna e é o abrigo de quem não tem para onde ir. Ele é odiado e parece eterno.

    Minha vida quase inteira passei por ali. Durante os dias da semana, só se passa de carro, e veloz espio as janelas e os terraços. Quase posso ver, dentro das casas. 

    Vai aqui uma lista do tudo que vi e vejo no meu caminho:

    Edifício Altino Arantes, lá no fundo, icônico, simbolizando São Paulo. O Copan com suas milhares de janelas, meio que escondidas por traz de curvas de concreto. Prédios grudados uns nos outros parecendo se apoiar para não tombar. O redondo Hilton. Prédios com janelas da décadas de 1920, 30, 40, 50 e 60. 

    O castelinho da Rua Apa, local onde se deu um dos crimes mais terríveis da cidade. Dizem que é mal assombrado Um terraço com imensos vasos de estilo africano, embelezando a fachada sombria de um edifício antigo.

    A pintura de uma mulher com véu na empena cega, de olhos densos, que fica logo adiante de um outro retrato, esse colorido com tons africanos: é Mandela com um guepardo; o homem sorri para mim.

    Jardins verticais feios e mau cuidados

    Nas alças de acesso vejo craqueiros tristes e calmamente sentados: homens, mulheres, jovens tão jovens que são quase crianças ficam ali esperando a hora do fechamento do viaduto para continuar sua triste jornada zumbi

    Bicicletas, crianças e cães nos fins de semana. É quando o caminho se humaniza. Uma placa luminosa em uma janela oferecendo aulas de dança de salão, uma outra, serviços contábeis.

    Um bêbado, um louco, um drogado se equilibrando no meio das pistas, caminhando tropegamente na hora do rush. Ambulâncias com sirenes enlouquecidas. Motoqueiros buzinando e pedindo passagem no meio dos carros. Carros quebrados incomodando os que andam velozmente.

    O vendedor de amendoim que aproveita quando o trânsito emperra para oferecer sua mercadoria. Um pôr do sol vermelho e laranja. A pista inundada depois de uma chuva torrencial. Plantas insistentemente brotando das fissuras do concreto. Um, dois, três gatos na janela. Rede de proteção para eles e às crianças.

    O mergulho em um túnel escuro ao chegar a ligação Leste-Oeste. A visão da igreja de São Geraldo, no largo Péricles, e a lembrança de que estou pertinho do Ponto Chique e quase sinto o gosto do seu famoso bauru.

    Uma cruz enfeitada no meio do caminho: marcará a morte de alguém?

    O Minhocão vai ser demolido, mais dia, menos dia.

    Ouça o Conte Sua História de São Paulo

    Deborah Hornblas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

    Conte Sua História de São Paulo: a memória das minhas escolas tatuou meu coração

    Por Márcia Aparecida Lourenço da Silva 

    Ouvinte da CBN

    Photo by Pixabay on Pexels.com

    Trago no coração, entre tantas boas experiências em São Paulo, a lembrança das escolas em que passei. O primário, estudei no Centro Educacional  Sesi. Era na avenida Gustavo Adolfo, na Vila Medeiros, uma importante avenida que liga o bairro do Tucuruvi ao de Vila Sabrina — esse, já bem próximo da  Rodovia Presidente Dutra. Hoje, a escola não existe mais, foi demolida há muitos anos, dando lugar a um condomínio residencial.

    Parte dela era de madeira, com  várias salas de aula dos dois lados do corredor e, no fim dele, a tão temida diretoria. O piso era  com  assoalhos de madeira, que rangiam a mais suave pisada. Quando o sino tocava, o velho assoalho tremia com a correria da garotada e o som mais parecia de um grande terremoto.

    Minha primeira professora foi Dona Elci, uma referência de professora que guardo em destaque no coração. Amável e muito doce, tirava assim todo medo e ansiedade  da nova  situação de estar na escola e não ter minha mãe por perto.

    Também, conheci minha primeira amiga de escola, Regina Helena, que tive o  prazer de rever depois de quase 50 anos. O tempo não lhe tirou  a simpatia, a bondade e o belo sorriso. Ficávamos felizes quando a professora nos colocava sentadas na mesma carteira. Carteiras essas cujos assentos eram duplos e o encosto, numa só peça, servia de escrivaninha para os dois alunos de trás. Ali, trocávamos lápis de cor, borracha e rápidos cochichos, além do lanche, no recreio.

    Quarto ano concluído, hora de mudar de escola. Para isso um temido exame de admissão deveria ser feito para entrar no concorrido Colégio Estadual Dr Miguel Vieira Ferreira, também na Vila Medeiros. A entrada principal era na rua Eurico Sodré. Anos depois, cedeu parte do seu terreno ao posto de saúde  que vem servindo desde então a comunidade da região.

    Na época, o terreno era nossa quadra. Toda de terra e com direito a torcida no barranco. Para o terror das mães, o conga branco voltava para casa imundo.  A quadra oficial da escola era outra, aliás, meu paraíso. Foi onde aprendi a jogar vôlei e me encantei com esse esporte pelos quatro anos seguintes.

    Passei da infância para a adolescência de forma  encantadora e rápida, ao mesmo tempo intensa, a ponto de, depois de tantos anos, conseguir expressar em poema o tesouro que guardei tatuado em meu coração e ofereço com carinho aos ouvintes da CBN:

    Corações tatuados 💖

    Doces anos que passamos,

    sem o  passado presente,

    e o futuro parecia

    Distante…longe da gente.

    Época de nossas vidas 

    que nos desperta saudade.

    Um desabrochar de tudo,

    encantamentos da idade.

    Crises até enfrentamos, 

    mas isso não  impedia

    de, misturados, sentirmos

    o clima que nos unia.

    Provas, trabalhos, lições,

    aquela chamada oral

    que, por vezes, fomos salvos 

    pelo “bendito” sinal.

    No pátio, de braços dados,

    as meninas circulavam.

    Assuntos, risadas, segredos…

    Quase  nunca se esgotavam.

    Momentos compartilhados

    sem os recursos de agora.

    Estarmos juntos, bastava,

    nosso mundo, nossa escola.

    Tempos  muito preciosos,

    Hoje, na  história fincados.

    Tesouros que ninguém  rouba, nos corações tatuados.

    Ouça a poesia Corações Tatuados

    Ouça o Conte Sua História de São Paulo

    Márcia Lourenço é personagem do Conte Sua História de São Paulo. O poema “Corações Tatuados” que a Márcia nos oferece está em texto e áudio publicados no meu blog: miltonjung.com.br. A sonorização é do Cláudio Antonio. Lá no blog e no podcast do Conte Sua História de São Paulo, você encontra outros capítulos da nossa cidade.

          –

    Conte Sua História de São Paulo: desci na estação errada?

    Por Pedro Galuchi

    Ouvinte da CBN

    Photo by Andre Moura on Pexels.com

    Próxima estação: Sé…

    Desembarco pela esquerda…

    Na esquina da Rua Direita

    Repentina suspeita:

     

    Desci na estação errada?

    Viro-me pé ante pé

    Vejo imagem desbotada

    Da imensa catedral da fé

     

    A praça perdeu a cor

    Uma tristeza sem par

    Não tem perfume de flor

    Cheiro de miséria no ar

     

    Sem perna estende a mão

    Suplica qualquer esmola

    Rastejantes pelo chão

    Pivetes cheirando cola

     

    Apertado o coração

    Em instante me desespero

    Retratos de solidão

    Multiplicam-se no marco zero

     

    A chegada do metrô

    Levou antiga cena

    Os escritórios de dotô

    Teatro Santa Helena

      

    Segundos de implosão

    Sumiu o Mendes Caldeira

    No meio da confusão

    Vanzolini sem a carteira

     

    Naquele aperto da Clóvis

    Não há mais separação

    Faço a prova dos noves

    Dolorosa conclusão

     

    Desvio dos passantes

    Peço licença, por favor

    Fujo às escadas rolantes

    Entro no trem salvador

     

    Próxima estação:

    Nem presto atenção

    Anhangabaú… São Bento…

    Pedro Segundo… Liberdade…

     

    O sentido tanto faz…

    Dentro do túnel o sentimento:

    A velha Sé ficou pra trás

    Apenas uma saudade!

    Ouça o Conte Sua História de São Paulo

    Pedro Galuchi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

    Conte Sua História de São Paulo: meus joelhos têm as marcas da Vila Sabrina

    Denise Moraes

    Ouvinte CBN

    Vista aérea da Vila Sabrina Foto: divulgação

    Olhei-me no espelho do elevador e reparei nos meus joelhos: não tão bonitos quanto minha mãe queria. Lembrei dela falando desde bem pequena — uns seis anos?: “Menina, não seja tão moleque! Cuidado com os joelhos, depois ficam todo marcados…”  

    Não adiantou nada, eu sei.  Os tenho cheios de marcas. Algumas adquiri depois de adulta mesmo, em minhas trilhas e passeios, em pedras e galhos. E quer saber? Me orgulho delas. Quanto as marcas de infância, amo mais ainda, porque são dos bons tempos em que eu sumia na rua em que morava, sempre descobrindo os lugares mais incríveis para brincar. 

    Por um tempo, era no campinho, perto do largo da Vila Sabrina, onde havia um enorme terreno vazio, sem casas, sem nada. Mas um trator ficara remanejando a terra por muitos meses, uma bendita terra preta que minha mãe odiava, porque grudava de um jeito na roupa!! E eu, no meio dos meninos, acho que eu era a única menina, subia nas montanhas de terra que afundava um pouco quando a gente pisava. Lá de cima rolávamos e gargalhávamos. 

    Em outro tempo, passávamos horas brincando dentro de um depósito de materiais de construção, subíamos nas prateleiras que armazenavam madeira e de lá pulávamos sobre os montes de areia. Minha mãe tinha a melhor das intenções, pois ela temia pelos machucados. Mas que tempo bom!

    Vila Sabrina era uma vila distante de tudo, lá para os lados da Vila Maria, terra do Jânio Quadros. Cheguei a ver meus primos nadarem no rio Cabuçú, sob a vigilância do meu pai. Ele me carregava nos ombros. Eu com uns três ou quatro anos. Não me deixava colocar o pé no chão que estava encoberto de água, devido ao transbordamento desse riozinho, depois de uma forte e longa chuva de verão. 

    As chuvas de verão eram muito bem-vindas. As enchentes não atingiam casas nem causavam os estragos de hoje em dia. Havia muito terreno permeável, muito mato, as pessoas, sabiamente, não construíam próximo de rios. Hoje, esse riozinho, na melhor das hipóteses, deve ter sido canalizado, pois a última vez que vi, era um esgoto a céu aberto.

    Uma pena que nossos governantes provavelmente não acreditavam e não acreditam em Deus, pois a natureza, manifestação divina, jamais poderia ter sido desprezada e morta pelas mãos do homem. Quem sabe um dia, se ainda der tempo, nós, paulistanos, sobreviventes dos desmandos políticos, saibamos decidir por uma cidade melhor.

    Denise Esperança deveria ser meu nome.

    Ouça o Conte Sua História de São Paulo

    Denise Moraes, por que não, Denise Esperança é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

    Conte Sua História de São Paulo: os paradoxos da metrópole

    Por Paulo Bregantin

    Ouvinte da CBN

    Montanhas, vales e planícies. Assim era um amontoado de terra e um punhado de pessoas que há 470 anos começaram a escrever uma história boa, ruim, interessante, diferente. As montanhas transformaram-se em arranha céus, os vales tornaram-se formigueiros de casas e comércios, as planícies em estradas, as avenidas e ruas cortando cada centímetro de uma terra que atrai felicidade e ganância, paz e tormento, tranquilidade e insegurança. Paradoxo de uma metrópole.

    As pessoas, mestiças em sua maioria, não tiveram medo dos desafios, descobriram que a terra da pequena cidadezinha poderia ser as bênçãos de Deus para suas vidas e, com esse objetivo, várias outras pessoas desembarcaram naquela que seria a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo.

    Tudo aconteceu tão de repente que não dá para entender, pois a metrópole invadiu o mundo, fincou seus alicerces no meio da humanidade, implantou seu telhado por entre as plantações que existiam na época. O mundo nunca mais foi o mesmo, os transportes mudaram. Antes carro de boi, depois trens, ônibus, táxis, metrôs, lotações. As fazendas deram lugar aos condomínios, outra parte transformaram-se em fábricas, da noite para o dia transformaram-se em shoppings.

    As pessoas simples e pacatas que passeavam pelas ruas da metrópole se enredando entre os bondes com seus chapéus. Hoje, piercing no nariz, cabelos vermelhos, roupas curtas, longas. Assim uma metrópole se transforma. Quem pode impedir o crescimento de São Paulo? Quem é louco para dizer que eladeve parar de crescer?

    Os paradoxos de uma metrópole são algo sagaz e encantador. Observamos o bairro do Morumbi com suas mansões e prédios, rodeados por favelas de madeira e papelão. Os carros importados se confundem com os catadores de latas e seus carrinhos. O verde do Trianon com o cimento dos arranhas céus da Paulista. O cemitério da Vila Nova Cachoeirinha, muro áamuro com a maternidade Cachoeirinha. O maior índice de doentes com o maior hospital da América Latina. O maior número de carros por metro quadrado e o maior trânsito de todo o Brasil. Um mundo de policiais e uma multidão de ladrões. Quem entende?

    O amor a São Paulo nasce a cada manhã, pois com chuva ou sol ,a cidade se parece com as ondas do mar. Nunca se sabe o que a “maré poderá trazer”. O coração bate forte quando se enxerga a marginal lotada, e o alívio é rápido quando o fluxo se esvai. O corre-corre do centro é adrenalina pura, mata alguns e outros ficam milhões de reais muito mais ricos.

    O amor a São Paulo transforma as pessoas de corações frios em labareda. Com a agitação do dia a dia não existe mau tempo. Toda hora é hora de uma cervejinha ou happy hour no bar da esquina. O coração fica quente de qualquer jeito. Eita terra boa que tudo dá.

    São Paulo é assim. Uma metrópole sem fim. Cresce e cresce; desenvolve e desenvolve. Nunca para, nunca fica muda. Sempre em movimento, falante e altiva. São Paulo é maravilha. Pulsam corações de milhões de apaixonados a cada metro dessa que é nossa metrópole. 

    Ouça o Conte Sua História de São Paulo

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    Conte Sua História de São Paulo: a fazenda que faz jus ao nome Biacica

    Arnaldo Bispo do Rosário

    Ouvinte da CBN

    Fazenda Biacica em foto de arquivo

    Neste final de semana ensolarado, com o fim de contrariar o ditado “santo de casa não faz milagres”, levantei disposto a conhecer a lendária “Fazenda Biacica”, nascedouro dos bairros Vila Curuçá, Itaim Paulista e Jardim Helena, na zona leste de Sampa. Eu moro a 15 minutos de carro deste lugar. 

    Embora estivesse disposto a ir mesmo caso não encontrasse quem comigo fosse, como a vida deve ser uma festa de pão e vinho a ser compartilhada, tive a ventura de ligar para meu amigo Izau que, por ser professor de história, de plano aceitou. Assim, como os irmãos Vilas-Boas, porém desbravadores urbanos do próprio quintal, rumamos ao local. Em lá chegando, ficamos fascinados com o que vimos e nos certificamos que tudo ali faz jus ao nome Biacica, derivado do tupi “imbeicica” que significa “cipó resistente”. 

    Posso afirmar isso porque, entre 1610 e 1611, a título de sesmaria, aquelas terras da região do Boi Sentado, localizadas na margem esquerda da várzea do Rio Tietê, estiveram sob o controle do bandeirante Domingos de Góes.  Em 1621, passou ao domínio dos padres carmelitas. Foi quando deram início à construção da capela com estilo português, considerada um marco da colonização da região e denominada “Nossa Senhora da Biacica”. Tanto é que por muito tempo a região do Itaim Paulista, Vila Curuçá e a parte leste do Jardim Helena, era chamada de “imbeicica”. 

    A capela passou às mãos da família Fontoura, que a adaptou para um casarão de veraneio, já que às margens do Tietê. Apesar de algumas alterações, dá para notar as características sacras da construção. A família fez novos cômodos ao redor e uma varanda na frente da capela, com dois painéis de azulejos, datados de 1952. Os painéis retratam a chegada dos portugueses a São Paulo, em 1532, e a catequização de jesuítas, em 1554. 

    O casarão foi tombado pelo patrimônio histórico, nos anos de 1990, medida que já havia sido sugerida pelo escritor modernista Mário de Andrade, em 1937, quando a visitou como diretor do IPHAN em São Paulo. 

    E o que é melhor? É que tudo isso está protegido pelo “Núcleo Itaim Biacica”, parque inaugurado, em 2018, na várzea do Tietê, que além de preservar a natureza, com suas alamedas arborizadas, ainda protege parte da várzea. Se o Egito é uma dádiva do Nilo, nossa Sampa é uma dádiva do Tietê. 

    Pois bem, o espaço público de lazer e atividades esportivas, conta com 140 mil m², e parte dele com equipamentos de lazer e esporte, quadras poliesportivas, playground, campo de futebol, quiosques com churrasqueiras, academia ao ar livre e espaços de convivência, que podem ser usados pela população. 

    O oásis de que falo ganha maior relevância porque localizado no Distrito Jardim Helena, com 136 mil habitantes e um dos menores IDH da cidade.

    Por estas bandas, há muito o que se fazer do que ensinou o Cristo, inclusive dar pão a quem tem fome, o que fizemos logo depois da expedição, quando comemos um baião de dois, acompanhado de uma deliciosa tilápia frita, regada a algumas doses de salinas, na Vila Nair, ao lado do Tietê, em São Miguel Paulista, porque nem só de pesquisa vive o homem. 

    Ouça o Conte Sua História de São Paulo

    Arnaldo Bispo do Rosário é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também um personagem da nossa cidade. Envie agora o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

    Conte Sua História de São Paulo: “na terra da garoa namorei, escrevi, descansei …”

    Por Wilson Jesus Thomaz Dutra
    Ouvinte da CBN

    Photo by Caio on Pexels.com

    Na minha infância querida:

    Na terra da garoa vi e colhi 

    chá, café, goiabas, ameixas… Delicias!

    Brinquei de pega-pega, esconde-esconde, 

    taco, futebol, carrinho de rolimã … Alegrias!

    Estudei o primário, ginásio,

    científico, faculdade… Maravilhas!

    Na minha juventude querida:

    Na terra da garoa trabalhei 

    Na indústria, comércio, banco… Labutas!

    Namorei garotas brancas, 

    negras, orientais… Beldades!

    Na minha velhice querida:

    Na terra da garoa namorei, escrevi, 

    descansei e espero morrer… Infinito!

    Isto meus irmãos paulistanos 

    é a minha São Paulo querida! 

    Terra que proporcionou tudo isso 

    a mim e a muitos outros! 

    Hoje, vejo-a arruinada! 

    Com uma infância sem alegria, 

    parte da juventude se drogando, 

    e da velhice sem sonhos e lugares para descanso e morrer

    Portanto, peço a todos, que façamos uma corrente de orações,

    para que os nossos governantes cuidem melhor de nossa cidade querida! 

    Ouça o Conte Sua História de São Paulo

    Wilson Jesus Thomaz Dutra é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você também pode ser personagem da nossa cidade. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

    Conte Sua História de São Paulo: as árvores do Morro do Cruzeiro

    Fatima Magalhães de Oliveira

    Ouvinte da CBN

    Passeio ecológico no Morro da Cruz. Foto: site da prefeitura de SP

    Nasci em 25 de março de 1968, em Xique Xique, na Bahia. Cheguei a São Paulo aos nove meses de vida, no bairro Jardim Santo André, onde até hoje resido. Sou graduada em pedagogia e geografia. Já lecionei em todas as escolas estaduais do nosso bairro. 

    Um fato marcante que vivenciei foi em setembro de 2016. Um crime ambiental aconteceu em uma área próxima ao Morro do Cruzeiro que é um dos maiores picos da cidade, com 998 metros de altura, no limite entre as cidades de São Paulo e Mauá, no Jardim Santo André, na zona leste. Lá próximo do parque do Morro, também conhecido por Pico do Votussununga, tinham sido cortadas aproximadamente 350 árvores. 

    Diante do ocorrido, constitui o coletivo S.O.S Morro do Cruzeiro para defender este patrimônio. Conseguimos realizar cinco ações e reflorestar o local com umas 380 árvores nativas da Mata Atlântica.

    Nossas atividades, nos deram autoridade e fomos contempladas pela Jornada do Patrimônio, o que nos permitiu em, novembro de 2021, a entregar um abaixo assinado, com dois mil apoiadores, solicitando a implantação do Parque Natural do Morro do Cruzeiro. 

    Em agosto do ano seguinte, a Secretaria do Verde e Meio Ambiente, da cidade de São Paulo, instalou mais de dez placas no percurso onde será criado o parque. 

    Eu me sinto muito feliz em fazer parte desta história em defesa da nossa mini Amazônia da zona leste que é o Morro do Cruzeiro. 

    Ouça o Conte Sua História de São Paulo

    Fatima Magalhães de Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você também pode ser personagem da nossa cidade. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.