Conte Sua História de São Paulo 470: um passeio nas lembranças da casa na Augusta

Miguel Chammas

Ouvinte da CBN

Hoje o dia está chuvoso e frio; perfeito para sentar em qualquer canto, calar a voz e permitir que o peito, através das lembranças, chore e ria o quanto e como quiser.

Não será preciso nenhum toque especial, nenhum gole de álcool ou qualquer outro motivador que seja. Basta, apenas, relaxar e esperar as memórias começarem a aparecer.

Bem pensado. Imediatamente colocado em prática. Surge uma dúvida: O que lembrar?

Bem, eu queria voltar no tempo, ir para as décadas de 40/50, e lá, naquele casarão da Rua Augusta, encontrar a minha infância, encontrar meu avô Gidi, minha avó Siti, minhas tias Neide e Zazá, meus primos Sonia e Roberto, minha mãe, meu pai, meu irmão.

Queria subir pelas escadas de mármore, ganhar o corredor, entrar no quarto da frente, encontrar meu avô, já doente, lhe fazer um cigarro de palha para, depois, ler uma boa parte do jornal até ele ressonar tranquilamente.

Depois, continuar percorrendo o longo corredor, ultrapassar o primeiro quarto onde dormiam eu, meu irmão, meu pai e minha mãezinha. Passar, logo em seguida, pelo segundo dormitório que era ocupado por minha tia Neide e meus primos Sonia e Roberto e, finalmente, chegar à sala de jantar onde as reuniões familiares aconteciam. Onde a árvore de Natal era montada todos os anos, e os presentes do ”Papai Noel” eram desembrulhados a cada dia 25 de Dezembro. Onde as macarronadas dos almoços domingueiros eram realizadas, onde os pacotes de doces do Bar Viaducto, comprados por meu pai, eram abertos e os doces devorados por todos, onde nós, crianças, a cada almoço, tínhamos, divididas com justiça, garrafas de deliciosas Tubainas.

Sala onde eu presenciei ainda garoto, os bailecos promovidos por minha tia, recheados de trilhas sonoras com Fernando Albuerne, Gregório Barrios, Lucho Gatica. Bing Crosby, Frank Sinatra, Tommy Dorsey, Glenn Miller e outros sons doces e melodiosos e, depois, passados alguns anos, mudado de assistente a promotor, passei a realizar bailinhos, não de garagem, mas de sala, abrilhantados por “Pick-up e sus Negritos”, amparados por “sandubas” de “Carne-Louca” e espetinhos de Salsicha e Picles enfeitando abacaxis ou outros que tais, regados a Ponche confeccionados com muita guaraná, Cinzano, frutas picadinhas e gelo.

Sala de mil lembranças, inclusive tristes, como os velórios de meu avô e depois de minha tia, quando era transformada em morgue, forrada de panos pretos, e iluminada por velas em castiçais prateados e flores de odor doce e nauseabundo, arejada por um pequeno aparelho emissor de ozônio de barulho irritante.

Queria continuar atravessando o corredor, passando pelo pequeno quartinho ocupado por minha tia, quando de sua solteirice, passando, depois, pela porta do único banheiro da casa que, no seu interior, guardava uma antiga cômoda de madeira usada para guardar materiais de higiene e toalhas de rosto e banho. Tinha, também, uma enorme banheira de ferro fundido, usada de quando em vez, para banhos alegres das crianças que, depois de se refestelarem na água represada, usavam o chuveiro elétrico que ao centro da banheira para o desensaboamento.

Chegaria, então, ao cômodo mais importante da casa, a cozinha, onde a vida inteligente da família se reunia nos dias não festivos para consumirem os alimentos (poucos no pós-guerra), mas elaborados com carinho e maestria por Tia Neide e minha mãe. A cozinha era simples, tinha um fogão de ferro onde eram acesos, com a ajuda de cascas de laranja secas que eram penduradas na barrinha em frente para transformarem os carvões inertes dentro das bocas do fogão, em brasas vivas, e emprestarem o seu calor para uma perfeita cocção dos alimentos.

Tinha também uma mesa antiga, de madeira já bastante gasta nas bordas arredondadas, um armário para guardar pratos e copos, uma pia que, nos seus baixos, tinham sido empilhadas umas tábuas para acondicionarem-se as panelas que, por sua vez, eram escondidas por uma cortininha de pano estampada com pequenas flores azuis.

A geladeira, que chegou um dia, para gáudio de todos, estava instalada ao lado da pia e, pasmem, era alimentada por barras de gelo que recebíamos diariamente através do “geleiro” e sua carroça básica.

Finalmente, descerrar a porta da cozinha e deparar com o cenário de minha pobre, mas alegre infância o quintal que, ainda hoje, povoa minhas lembranças.

No seguimento da porta da cozinha ficava uma escada que descia pela parede até o piso do quintal. Uma pequena parte do quintal, em que estava instalado o tanque onde um dia eu mergulhei como se fora um super-herói e quase matei de susto minha mãe, o corredor lateral e todo o porão da casa eram cimentados, O resto do enorme quintal era em terra bruta, onde além dos varais de roupa, suspensos por taquaras secas existiam, também, alguns mamoeiros, uma goiabeira de frutos vermelhos, onde eu saciava minha gula, uma velha parreira de uvas vermelhas e deliciosas e algumas ervam aromáticas, um enorme e pesado pilão de cimento dos tempos de minha avó e, a minha paixão, uma touceira de hortênsias azuis que eram o meu esconderijo preferido depois de alguma travessura.

Esta era minha casa, meu mundo, minha vida, minha querência querida.  Ah que bom seria poder voltar a ela e matar as saudades que hoje moram no meu coração.

Infelizmente, a realidade é cruel e sei, pesarosamente, ser impossível meu desejo, então tento amenizar estas saudades escrevendo e descrevendo o velho casarão.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Miguel Chammas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Seja você também personagem dos 470 anos da nossa cidade. O texto que você ouvirá a seguir foi adaptado para ser apresentado no rádio.

Escreva a sua história e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos leia o meu blog miltonjung.com.br e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: memórias fotográficas do Parque da Água Branca

Dora del Mercato

Ouvinte da CBN

Foto do perfil no Instragram @aguabrancaparque

O ano era 1987. Na época, eu com 23 anos e meu namorado, hoje meu marido, com 26. Éramos estudantes da Faculdade Cásper Líbero e usávamos os fins de semana para passear, namorar e fotografar. 

Um de nossos lugares preferidos era o Parque da Água Branca, na Barra Funda. Fácil de chegar e relativamente perto de nossas residências, nos encontrávamos lá quase todos os sábados para fazer fotos com uma máquina Nikon emprestada e depois revelaríamos o filme no laboratório da faculdade.   

Foram tantas e lindas fotos! 

Dentre elas um menino que trabalhava como pipoqueiro que não devia ter mais de 10 anos; idosos pensativos sentados nos bancos; e muitos animais atravessando as alamedas. 

Aprendemos a olhar com os olhos da alma, a admirar a beleza daquelas imensas árvores e ouvir os cantos dos galos. Tantas crianças, com pedaços de pão, correndo atrás das galinhas, patos e gatos, habitantes que viviam livres no Parque! 

No mini zoológico, alguns bois, bezerros e bodes ouviam desatentos os insistentes chamados das crianças penduradas nas cercas. Caminhando em direção a rua Turiassú, sempre parávamos no Pergolado. Lá, cantos de pássaros podiam ser ouvidos, e o local nos convidava a reflexão e quietude. Podia até imaginar esse sossego quando os portões se fechavam, depois de um dia intenso de sol. Os bichos se aninhando nas gramas, nas árvores, nos cantos. Em paz, enfim! 

Andando pelo parque, no meio de tantas árvores, parecia que não estávamos em São Paulo. O Água Branca era um oásis no barulho da Avenida Francisco Matarazzo.

Caminhávamos de mãos dadas, máquina pendurada no ombro, sem sentir as subidas que faziam parte dos diversos caminhos que nos levavam para as ruas Ministro de Godói e Turiassú. Parando ora aqui, ora ali, para uma foto, um comentário, um beijo! 

Muita coisa mudou na cidade e o Parque da Água Branca acompanhou essa transformação: envelheceu e soube manter seu frescor. Como todos na cidade, teve que se adaptar aos tempos: hoje tem aparelhos para ginástica, mesas e cadeiras para o café na feira orgânica, o Revelando SP, que apresenta comidas e artesanato de várias cidades do interior de São Paulo. 

O modo de fazer fotos também mudou. Hoje, os visitantes têm celulares e não precisam economizar o filme. Saem fazendo diversos cliques e fotos de tudo o que veem, muitas vezes se esquecendo de só olhar, de registrar a lembrança na memória e de andarem de mãos dadas pelas alamedas.

O Parque continua majestoso, recebendo de braços abertos pessoas de todos os locais da cidade e do mundo.  

Dora del Mercato é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Daniel Mesquita. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Venha participar da edição especial do Conte Sua História de São Paulo, em homenagem ao aniversário da cidade. Escreva seu texto agora e nvie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: às margens do rio Pinheiros

Francisco Costa

Ouvinte da CBN

Photo by sergio souza on Pexels.com

O Rio Pinheiros

Em uma manhã de primavera onde a névoa ainda úmida e fria, sobre ti marginal, passeio nesse tapete negro que me leva e me traz.

Sobre a sua margem direita observo a inteligência dos homens refletida na arquitetura moderna, nos prédios que nascem rompendo o horizonte.

Sobre a sua margem esquerda, em um resquício de natureza, a vida tenta  superar ela mesma e reflete a hipocrisia humana,  sobre um rio que agoniza e pede socorro.

Oh, rio! Quem dera que os homens modernos pudessem olhar para ti com o olhar do criador, aquele que majestosamente te criou.

Ouça o Conte sua História de São Paulo

Francisco Costa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Venha participar da edição especial do Conte Sua História de São Paulo, em homenagem ao aniversário da cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: cheguei com a cidada pronta para comemorar o Ano-Novo

Sonia Regina dos Santos

Ouvinte da CBN

Em 31 de Dezembro de 1967. Com 18 anos, alguns trocados e uma carteira de trabalho novinha, saí de Minas para morar em São Paulo. Da Rodoviária da Luz fui direto ao apartamento de um grande amigo, na Rua 24 de Maio, coração da cidade. Ao chegar, a melhor das surpresas: abastecida e decorada, a sala estava pronta para receber um novo ano, dentro de poucas horas, e, também, a me desejar boas-vindas.

Não se fizeram esperar os primeiros convidados; e antes de anoitecer, de longe se ouvia o genuíno sotaque paulistano dos rapazes elegantes e barulhentos. Bem mais tarde, as moças e, com elas, o tom da alegria, o brilho e a magia das noites de festa. 

De madrugada, descemos animados para ver a Avenida São João. Os bares e restaurantes lotados prolongariam ao máximo as comemorações do Réveillon. As luzes, a multidão em festa, uma energia quase a trepidar. Imersa numa espécie de doce euforia, a cada passo, mais e mais eu me distanciava de mim mesma e da minha pequena cidade.

Tantos anos se passaram e ainda me emociono em meio à multidão. Não é fácil, dela ser parte. Dá trabalho ser independente, ter liberdade. Nunca me curei da minha mineira cacofonia, mas São Paulo me aceitou mesmo assim, desde aquele Ano Novo. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Sonia Regina dos Santos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Você pode ouvir este e outros capítulos aqui no blog ou no podcast do Conte Sua História de São Paulo:

Conte Sua História de São Paulo: o Natal em que nasci

Antonio Dionísio

Ouvinte da CBN

Photo by sergio souza on Pexels.com

Sou paulista e paulistano. Nasci na noite de Natal, no bairro da Consolação. Eram 25 de dezembro de 1963. Sou filho de migrantes pernambucanos. Meu pai, Antonino Dionísio Marques, de Vitória de Santo Antão, terra da Pitu, uma das mais conhecidas cachaças do Brasil. Minha mãe, Maria do Carmo. Natural de Correntes, na época distrito de Garanhuns.

Papai era era alfaiate e foi para São Paulo, em 1957, após trabalhar com Seu Bruno Perrelli, no Recife. Na capital paulistana, acompanhou a agitação política no fim dos anos de 1950 e início de 1960. 

Ele assistiu à partida inaugural do Estádio do Morumbi. Além do fato de ter acompanhado a construção do estádio, decidiu ver o jogo de estreia porque era torcedor ferrenho do rubro-negro Sport Recife. Não que seu time estivesse em campo, mas o anfitrião São Paulo receberia o Sporting de Lisboa, jogo que a equipe da casa venceu por 1 a 0, com gol de Peixinho.  Foi o que bastou para que Seu Antonino se transformasse em torcedor do tricolor paulista. Falava com entusiasmo de tudo que presenciou naquele dia.

Após os eventos de 31 de março de 1964 e se sentindo inseguro, enviou  para o Recife, sua esposa, minha mãe, e eu, no fim de abril. Ele e o irmão, João Dionísio, deixaram São Paulo, no mês de Sant’Ana, como o nordestino chama o mês de junho. 

Religiosamente, meu pai retornava à capital paulista para rever os amigos. Por várias vezes, eu o acompanhei. Ficávamos na casa de um cunhado dele que também era migrante e morava na rua Cuiabá, número 96, bairro da Mooca. Chegávamos a ficar até 20 dias.

Ao me formar no ensino superior, fiz um estágio, para aprimorar os conhecimentos em voleibol, no Esporte Clube Banespa e morei um tempo no bairro de Santo Amaro, na zona Sul. Quando a grana permitia, visitava o centro da cida e almoçava pastel com caldo de cana, no Mercado Público. 

Hoje, viajo menos a São Paulo, devido os afazeres. Vou eventualmente, a cada dois, três anos. Sempre que vou me emociono andando a pé pelo centro. Assim admiro melhor suas ruas, monumentos, parques, museus, exposições e tudo de bom que essa megalópole oferece.

Por restrições financeiras, faz uns seis anos que não saboreio aquele caldo de cana acompanhado de pastel, uma parada obrigatória sempre que assistia a um jogo da Taça São Paulo de Futebol Junior.

Por uma dessas coincidências que o destino nos apronta, meu pai morreu na manhã de um 25 de dezembro, quando eu estava completando 43 anos. Preparava um churrasco para comemorar meu aniversário e havia convidado seus parentes de Vitória de Santo Antão e os da minha mãe, da cidade de Correntes. A presença deles naquela data, ao menos serviu para que todos pudessem prestar uma homenagem ao Seu Antonino que, assim, como eu, adorava a cidade de São Paulo.

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Antonio Dionísio é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a rosa na escadaria da Sé

Márcia Dainez

Ouvinte da CBN

Vista da Praça da Sé a partir dos altos da Catedram, foto: Mílton Jung

Minha história em São Paulo começou em 1986, no bairro do Ipiranga, na visita a casa de umas tias que moravam na rua Bom Pastor. Até então, via São Paulo  pela televisão. Era algo distante de minha realidade, nascida e criada no interior. 

Foi naquele ano que surgiu a oportunidade de ir para a capital paulista. Na época, não tínhamos telefone. Era ainda por carta que avisamos de nossa viagem. Desembarcando na rodoviária do Tietê foi um desespero ver tanta gente apressada em chegar ao destino; e o tempo todo alguém dizendo: tenha cuidado, a cidade grande é perigosa! Pegar o metrô foi outra novela, tudo muito novo e arriscado.

Com parada na Sé, aproveitamos para conhecer a Igreja Matriz. logo na escadaria, um jovenzinho me ofereceu uma rosa, gesto que achei muito gentil,  afinal ele não me conhecia. Aceitei de imediato tal carinho. Até que o jovem deu o valor — não lembro quanto, mas era alto.  Devolvi a rosa!

Fomos ao metrô novamente e chegamos ao destino. Uma casa com algumas divisões em que cada pedacinho fora aproveitado. O pedreiro de um bairro distante pernoitava num cômodo nos fundos durante a semana e prestava serviços à minha tia já idosa como forma de pagamento. 

Ao lado, uma jovem equipou um outro espaço com potes e vasilhas pois estava sem emprego e montou ali a sua cozinha e o ponto de venda de bolos. Do outro lado, uma cabeleireira fez o seu salão. Tudo alugado. 

As tias falaram de uma peça com Ary Toledo, logo mais à noite. De repente me senti gente e conheci um teatro! No retorno pra casa vi que a cidade de São Paulo não parava mesmo e funcionava a noite toda. No dia seguinte, fomos conhecer o Museu do Ipiranga,  viver a história só lida nos livros da escola. Inesquecível!

As lojas todas com atendimento diferenciado. E, claro, trouxe um tecido lindo, do qual fiz uma camisa. Me orgulhava em vesti-la e dizer aos amigos: trouxe de São Paulo! 

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Márcia Dainez  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: minhas mémórias gastronômicas e auditivas da cidade

Joabedan Mariano

Ouvinte da CBN

O estádio do Palmeiras na foto de Sergio Souza

Aos cinco anos, nos longínquos anos de 1980, fiz uma viagem de três dias de Alagoas a São Paulo. Minha mãe, um primo e eu. Como era criança, não paguei passagem, e também não tive direito ao assento: dormia embaixo do banco no qual sentavam minha mãe e meu primo.

A São Paulo que vi, senti e provei era fria. Nas bandas do nordeste, não somos acostumados a temperaturas baixas. A cidade era cinza, por onde passava havia pouquíssimo verde e muito concreto; era inóspita, também. Meus familiares viviam na Favela de Heliópolis. Lá havia uma sinfonia de uma nota só: bang, bang, bang … E quase toda noite, era o que se ouvia.

Talvez por ser muito novo, eu até achava curioso e, não raro, preferia acreditar que aqueles sons eram estalos de São João. Ah, esses os conhecia muito bem.

Tive boas experiências, também! 

Gastronômicas, em especial: conheci sabores que nunca havia provado. Almeirão, sagu, groselha e uma mortadela deliciosa da qual nunca mais provei. 

Houve experiências visuais: fui ao Museu do Ipiranga, ficando em minha mente tudo o que vi: as armas do Brasil-Império e a Coroa Real; os caixões de Dom Pedro e de sua respectiva esposa; a tela de Pedro Américo, “Independência, ou Morte!”. 

E, claro, mantenho na memória as experiências auditivas. Minha tia, a que morava em Sampa, era assim que ela chamava o lugar, ouvia uma estação de rádio que transmitia um programa humorístico chamado “A Turma da Maré Mansa”. Eu adorava e me divertia!

Curiosamente, nunca mais voltei para São Paulo. Fui algumas vezes a Guarulhos, apenas para os voos em conexão. Sinto a necessidade de retornar à cidade para completar uma missão que eu mesmo me dei: conhecer o Brás, o Bexiga e a Barra Funda, lugares descritos com maestria pelo meu autor favorito, Alcântara Machado. Ah, e também realizar dois sonhos: conhecer as instalações da rádio CBN São Paulo (e, com muita sorte, conhecer Petria Chaves, da qual sou fã de carteirinha  – mas com Menção Honrosa a Milton Jung) e o Allianz Parque, palco dos shows do meu time do coração, o Palmeiras.

Joabedan Mariano é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também um personagem da nossa cidade. Escreva seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o passeio na inauguração do Ibirapuera e o monumento que não resistiu ao tempo

Por José Carlos Vertematti

Ouvinte da CBN

Imagem de arquivo da “Aspiral”, de Oscar Niemeyer

Eram 21 de Agosto de 1954. Eu tinha apenas cinco anos de idade mas me lembro muito bem deste dia maravilhoso! Meus pais, José e Vicentina, levaram minha irmã Rosinha e eu a uma grande festa: a inauguração do Parque do Ibirapuera, em comemoração ao IV Centenário da cidade de São Paulo.

Uma área verde imensa, gramada, arborizada, com lagos, aves, chafarizes e vários prédios culturais que, para um garotinho como eu, parecia ser o mundo todo!

Passeamos muito a pé e o que mais me intrigou foi o sistema de som do parque: podia-se ouvir claramente as mensagens e as músicas, em qualquer lugar e com o mesmo volume. Eu, ainda pequenino, não entendia como isso era possível, mas hoje imagino a complexidade de se instalar um sistema de alto-falantes em árvores e prédios, ao longo de todo o parque, e garantir um som perfeito e equilibrado, naquela época!

Durante o passeio vimos um monumento lindo que tinha uns 17 metros de altura e que é difícil de descrever: algo como uma espiral com as extremidades unidas entre si por uma reta, fundeado no chão com uma inclinação de cerca de 60 graus.

Soubemos que era uma obra de arte criada pelo magnífico arquiteto Oscar Niemeyer. a “Aspiral” ou “Voluta Ascendente” era um desenho que representava o crescimento e o progresso paulista. Estava instalada próxima à entrada principal do parque. Era para ser a imagem da cidade de São Paulo, assim como o Cristo Redentor é do Rio de Janeiro.

Infelizmente, por motivos estruturais, este monumento não resistiu às forças da natureza e, em pouco tempo, veio abaixo e foi destruído! Hoje, só o vemos impresso na embalagem dos Dadinhos, aqueles chocolates com sabor de amendoim, que existem desde 1954. Aparece também na fachada de algumas casas que resistiram ao tempo. 

Outra atração marcante foi a intensa chuva de prata, feita através de triângulos de papel metalizado que refletiam a luz criando um clima mágico. Após uma longa caminhada, maravilhados com a imensidão e beleza do novo parque, descansamos e fizemos um merecido piquenique no Ibirapuera.

Conheça aqui a história da Aspiral, a estátua que desabou no parque

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Conte Sua História de São Paulo: o rei e a rainha na porta do hotel

Andrea Wolffenbüttel

Ouvinte da CBN

Entrada do antigo Ca’D’Oro em foto de divulgação

Sou carioca por nascimento, paulistana por vocação. Era 1978. Um ano muito especial porque eu havia deixado a escola de bairro, no Brooklin, onde morava, e cursava o 1º ano do Ensino Médio, no Mackenzie, bem no centro de São Paulo. Para chegar até lá, eu deveria embar em um ônibus executivo, que passava em frente à minha casa, e descer em um ponto na Consolação. 

Meus pais queriam que eu usasse esse serviço diferenciado de transporte público. Afinal, eram minhas primeiras incursões, sozinha, fora dos arredores de casa. Acontece que o ônibus executivo era caro e eu logo percebi que poderia tomar um transporte convencional e economizar o resto do dinheiro para gastar no lanche. Melhor ainda, para um cinema. 

Por isso, eu pegava um ônibus da linha Santo Amaro–Praça das Bandeiras, descia na Nove de julho, subia uma escadaria de 100 degraus, que desembocava na curva onde a Frei Caneca virava Caio Prado. Seguia em frente, cruzava a Augusta, a Consolação e atingia a Maria Antônia, onde fica o Mackenzie. 

Porém, em uma manhã, ao atravessar a rua Augusta, vi uma estranha movimentação em frente ao Hotel Ca’d’Oro. À época, um estabelecimento de luxo. Fiquei curiosa, fui perguntar e me informaram que o rei de Espanha, Dom Juan Carlos I, estava hospedado ali. E logo sairia para seu primeiro compromisso.

Não lembro sequer de ter me questionado se deveria permanecer ou seguir para a escola. Simplesmente, fiquei ali, parada, olhando fixamente para a saída do hotel. Não sei quanto tempo passou, mas em um determinado momento: o rei. Ele saiu elegantíssimo como sempre, acompanhado da rainha Sofia. Parecia um filme, ou um sonho. 

Só voltei à realidade quando a comitiva real desapareceu na rua Augusta e, junto com a sensação de enlevo veio a recordação de que eu tinha prova de química na primeira aula! 

Ai meu Deus! Eu havia estudado tanto e a esta altura a prova já deveria estar perto do fim! Corri, corri muito! Subi as escadarias do prédio do Mackenzie aos saltos e cheguei ofegante à sala de aula quando a professora já estava recolhendo a prova. 

Ela me olhou com aquela expressão de “isso são horas?” e continuou sua tarefa indiferentemente. Me aproximei com cara de arrependimento e confessei: “professora, me atrasei porque fiquei na frente do Ca’d’Oro esperando para ver o rei e a rainha de Espanha”. A professora refletiu um instante, que me pareceu infinito. Sorriu e me disse: “essa é a desculpa mais maluca que já ouvi, mas para ver o rei da Espanha, eu também esperaria. Senta aí e faz a prova já… você só tem 15 minutos”. Não precisava de mais tempo… Fiz a prova e tirei 10! 

Ao longo dos anos, o hotel Ca d’Oro entrou em decadência, parou de funcionar, foi vendido e, agora, reinaugurado, tenta resgatar o glamour de antigamente. Eu tive a oportunidade de frequentá-lo, encontrar amigos, almoçar e jantar diversas vezes em seu restaurante. Mas sempre que passo pela frente, revejo a cena do casal real na calçada e uma menina do outro lado da rua, se sentindo em um conto de fadas.

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Andrea Wolffenbüttel é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a marmita do senhor Bonifácio

Flávio Cruz

Ouvinte da CBN

(memórias de minha infância em Perus, São Paulo)

A marmita que a dona Eleta preparava para o senhor Bonifácio era uma obra de arte. Tinha cinco andares. Cinco vasilhames redondos de alumínio com alças dos dois lados. Eu era muito criança e a marmita parecia desproporcional para o meu tamanho. Tenho certeza de que uma delas continha feijão e a outra, arroz. Isso era sagrado. As outras três levavam as misturas. Exalava um cheirinho muito gostoso. Ah, havia também, amarrada pelo gargalo, uma garrafinha verde com uma rolha de cortiça que continha o café. Esse café, após minha longa jornada, ainda chegava quente na fábrica de cimento. Garfo e colher eram segurados por um elástico num dos lados. Não me recordo da data exata, mas com certeza era a década de 1950.

O roteiro era perigoso para um garoto com menos de dez anos. Penso que havia mais anjos da guarda naquela época ou, ao menos, menos demônios. Saía de casa sempre no mesmo horário e começava a minha jornada. Descidas, curvas para a direita e para a esquerda, um casarão, o correio e lá no final uma esquina, seguida de uma reta.

Naquela época, acredito que nenhuma rua era asfaltada. Algumas eram cobertas com paralelepípedos e outras ainda eram de terra ou cascalho. Quando chovia, as ruas no alto tornavam-se perigosas, transformando-se em lamaçais, enquanto as mais baixas se enchiam de água. Entre essas pequenas tragédias, continuávamos com nossas vidas.

E também prosseguia meu caminho, até atravessar uma pequena ponte. Logo após, chegava a parte mais arriscada da jornada: um túnel que passava por baixo da estrada de ferro, usado para conduzir as águas do rio de nosso bairro, Perus. No canto, havia uma pequena passarela por onde caminhava cuidadosamente, vendo as correntes de água quase roçarem meus pés. Logo depois, já era possível ver as grandes chaminés da Fábrica de Cimento Portland Perus. Andava então pelo solo coberto por um pó cinza, quase verde, enquanto ouvia o apito anunciando o horário do almoço. Do meu lado esquerdo estendia-se uma grande cerca de arame. Os fios, muito grossos, estavam cobertos com o mesmo pó.

Após algum tempo, via meu pai me esperando. Ele sorria amplamente. Também, quem não sorriria, faminto, vendo chegar tal almoço?

Sentávamos no refeitório e, enquanto ele escolhia as marmitas e pegava os talheres, eu observava os outros trabalhadores, conversando e rindo, apesar do cansaço. Tinha certeza de que meu pai era o mais importante de todos, o mais forte, o mais… tudo.

Era um momento agradável do dia. Afinal, eu estava lá, cumprindo minha importante missão. Após algum tempo, ele terminava sua refeição, arrumava tudo, dava um tapinha em minhas costas e me mandava voltar para casa. Novamente, aquele sorriso de felicidade. Não é que ele sempre sorrisse. Mas quando o fazia, era valorizado. Ele também não era de ficar fazendo carinho ou dando abraços o tempo todo. Ainda assim, sentia que ele era o paizão mais afetuoso de todos, o senhor Bonifácio.

O tempo passou.

Já com dois filhos, visitava frequentemente meus pais em Perus, próximo de onde morava. Não havia mais fábrica de cimento, nem marmita, nem caminhada. A infância já tinha ficado para trás há muito tempo e agora pertencia aos meus filhos. Ao abrir o portão, deixava os dois correrem à frente. Meu pai, já aposentado, que estava abaixado cuidando de sua horta, levantava-se, olhava firme e sorria. Era exatamente o mesmo sorriso de quando eu levava suas marmitas. E esse sorriso era diferente dos outros. 

Foi somente então que entendi. O sorriso não era pelo almoço que eu levava. O sorriso era por mim. Era a alegria de me ver. Agora, já adulto, ele transferira esse presente para os netos. Era um sorriso reservado, mas vasto, do tamanho do mundo.

Agora, enquanto escrevo, após todo esse tempo, sinto que ele está olhando para mim novamente, com o mesmo sorriso, como se eu ainda fosse uma criança.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Flávio Cruz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros episódios, visite o blog de miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.