Conte Sua História de São Paulo: meu bosque preferido da cidade

Júlio Araújo

Ouvinte da CBN

Parque da Independência em foto de arquivo da cidade

Nos meus tempos de criança, ouvia muito os meios de comunicação dizerem: “São Paulo, a cidade que mais cresce no mundo”. O presidente dos Estados Unidos, Dwight D. Eisenhower, quando veio em visita ao Brasil, estava ansioso para conhecer a cidade, principalmente para conferir esse slogan. Foi em fevereiro de 1960, eu tinha nove anos mas não atinava esse progresso, já que eu morava num bairro pacato da zona leste que nem ruas asfaltadas tinha.

De fato, muitas empresas internacionais, atraídas pelo mercado que a cidade e o país propiciaria, vieram para São Paulo, principalmente a indústria automobilística, notadamente a Ford, que se instalou no bairro do Ipiranga. Os laboratórios farmacêuticos também seriam outra atividade de muita importância na cidade com várias industrias que se instalaram na zona sul. Incluía, talvez, o efeito da frase de Juscelino Kubitschek que em campanha à presidência da República, em 1955, prometeu “Crescer 50 anos em 5 anos”

O centro da cidade erguia edifícios que futuramente seriam sedes de bancos, nacionais e internacionais, cartórios, estabelecimentos comerciais…. Com isso, outro setor que crescia bastante era o da construção civil, atraindo a migração, principalmente de nordestinos para a cidade. Na maioria, os migrantes vinham do interior da Bahia, e logo os baianos foram conquistando a cidade, de tal forma que qualquer outro migrante do nordeste que chegava seria logo chamado de baiano. Até migrante de outros estados do nordeste, ou mesmo de outra região, para os paulistanos era baiano.

Sem dúvida, o progresso desta cidade se deve muito aos migrantes que, em busca de oportunidades de trabalho para melhoria de vida, a tornaram essa potência. Outra região da cidade, a Avenida Paulista começava a se modernizar, encerrando o ciclo dos casarões, hoje com vários edifícios .

Nos anos 50, a cidade teve a sua população aumentada de 2 milhões para 3 milhões e meio de habitantes, matematicamente um aumento de 75%. E, nos anos 60, já contava com quase 4 milhões de habitantes.

Tudo isso estou dizendo para tentar explicar como a cidade de concreto, infelizmente, deixou muito pouco para a preservação da natureza. Muitos lugares da cidade, onde hoje estão situados muitos edifícios, museus e outros ícones, como se diz popularmente: “era tudo mato”

Eu vivi em meio ao crescimento da cidade. Tudo acontecia e não cheguei a conhecer locais cuja preservação da natureza estava estabelecida. Já havia o Parque Ibirapuera mas, pelo que sei foi uma obra planejada para os festejos do Quarto Centenário de são Paulo.

Embora eu já tenha ouvido reivindicações de estudo do parque atribuído a outros paisagistas, oficialmente o projeto e concepção das áreas verdes é de Roberto Burle Marx, que teve também participação de Otávio Augusto Teixeira Mendes.

Temos o Parque da Aclimação , com suas garças maravilhosas, Parque do Carmo, Parque Buenos Aires, Praça da República (que já foi até local de touradas), mais recentemente Parque Augusta e outros, que são excelentes mas não me trazem a sensação de estar em contato com a natureza em seu estado mais puro. A revitalização do Rio Pinheiros, bem recente, está trazendo algo positivo em termos de local que se pode usufruir da natureza em São Paulo.

Porém, e sempre existe um porém, como dizia o dramaturgo Plinio Marcos, na verdade, um local que tem algum tempo que descobri e que frequento com certa assiduidade, acredito que trás o objetivo da narrativa ao encontro do tema proposto. Está localizado no bairro do Ipiranga, mais precisamente nos fundos do prédio do Museu, o Bosque, ou Bosque do Museu do Ipiranga, reconhecido pela importância enciclopédica da Wikipédia .

É fantástico apreciar a quantidade de vegetação do bosque formada por araucárias, pau-ferro (que os índios na língua tupi chamavam de Ubiratã) paineiras, árvore de borracha, amendoim acácia (essas que pesquisei) e árvores de frutos comestíveis, e muitas outras que me rendo pela minha total falta de conhecimento de botânica

Em pesquisa que realizei na internet, para se ter uma ideia, das 160 espécies localizadas no museu, 91 aparecem no Bosque. Algumas, mais precisamente 18, estão registradas em lista da União Internacional para a Conservação da Natureza na categoria de espécies ameaçadas de extinção (triste). Parece pouco, como o texto descreve, mas indica a falta de comprometimento do homem em preservar a natureza. Além desse aspecto, o texto denuncia que o bosque vem sofrendo com a perda de sua vegetação original muitas vezes pela interferência depredatória do homem, que não observa os limites de descarte de plásticos e embalagens que agridem a natureza. Os fatores climáticos também influenciam nessas perdas

Outra impressão que tenho do bosque é a de que, na sua essência, nunca foi modificado em seu acervo natural. Não houve modificação no seu fulcro apenas adaptações com determinação de trilha para os frequentadores correrem ou caminharem, bem como colocação de bancos e aparelhos de ginástica na beira da trilha.

Logo na entrada principal, antes de adentrar o núcleo do bosque, bem pertinho do prédio do museu, há espaço para crianças, com playground, e algumas mesas para convescote. Os sanitários para o público também ficam nessa área.

Há outra entrada próxima do Museu de Zoologia da USP, que, aliás, por muito tempo foi dirigido pelo professor, zoólogo e compositor musical de muito sucesso , Paulo Vanzolini.

O Museu de Zoologia está localizado numa área oposta que, de imediato , apresenta ao visitante sua exuberante vegetação. Nos dias mais quentes, as árvores frondosas propiciam aquelas sombras refrescantes tornando o Bosque um lugar ainda mais aconchegante.
Sou suspeito, pois sempre que vou pra caminhada no museu, não deixo de fazer o circuito do bosque que, como eu disse, frequento há muitos anos desde quando morava no bairro de Vila Prudente (não tão distante, uns 3 a 4 km, mas eu vinha de carro)

Quando me mudei de Vila Prudente, um dos fatores decisivos na escolha de novo imóvel seria encontrar um local que eu pudesse praticar atividades físicas ao ar livre. Há 18 ano,s me mudei para o bairro do Ipiranga e distante apenas 400 metros do Bosque, que ,praticamente, é o quintal do edifício onde moro… agora, venho a pé!

Era sonho meu estar tão perto do bosque?

-“Sim , e …. foi realizado.

Julio Araujo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também um personagem de São Paulo. Escreva seu texto e envie para o email contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: o rádio e a rádio que me fizeram escritora

Marina Zarvos

Ouvinte da CBN

Photo by Brett Sayles on Pexels.com

A caixa. Imponente.

Toda feita de madeira nobre e trabalhada, enfeitava a sala.. 

A Menininha. Curiosa.

Na pontinha  dos pés, como bailarina, ensaiava os primeiros passos e tentava desvendar o mistério da caixa que falava.

Foi assim anos a fio e todas as noites. A caixa falava (com chiado, é verdade!) e a menininha adormecia, embalada pelas ondas do rádio. Transcorria a década de 50.

A família reunia-se em torno dela (a caixa) para ouvir os intermináveis discursos do  pai dela(da menininha), então presidente da Câmara Municipal de Lins. 

E, ao som das ”ondas” do rádio  que proseava sem parar, a menina adormecia.

O tempo voou e a caixinha mágica ficou menor, libertou-se dos fios e acompanhou  a adolescente que ouvia os Beatles e os Rolling Stones, sem imaginar  fazer parte de uma geração icônica.

Geração que libertava  a jovem mulher de amarras seculares. Década de 60.

No embalo da Jovem Guarda, ouvia atentamente programas que ofereciam música aos apaixonados. Suspiros, fantasias e muitos sonhos surfavam nas ondas do rádio.            

Ah! A lua da jovem apaixonada ficava mais perto. Sempre ele, o rádio, a nos informar.

“Um pequeno passo para um

homem, um grande salto para a Humanidade.”

A jovem dá um grande  passo na década seguinte: universidade, casamento, filhos… anos 70, 80, 90…

Ganhos, perdas e algumas conquistas.

Avizinhava-se o novo século, novas tecnologias, infinitas possibilidades se descortinavam. A fiel caixinha mágica, de onde as palavras saltavam e bailavam, acompanhava a jovem mãe  nas noites intermináveis, em claro, ninando as crianças com músicas para relaxar.

Virada do século, o velho amigo, agora  guardado como recordação, fora substituído  por outro que cabia na palma da mão. A mãe torna-se “mãe  de sua mãe” já muito idosa e frágil. 

Noites e dias em que os sonhos misturavam-se aos pesadelos da dura realidade. Novamente o rádio, companheiro inseparável, aplacava a angústia e informava. Era a rádio que tocava a notícia, no sem-tempo para leituras.

E foi num desses dias, na segunda década do novo século, que a menina-jovem-mulher-e já avó ouve  o chamado para enviar um texto para o programa “Conte sua história de São Paulo”. Já corria a década de 2010.

A emoção de ouvir um texto, sonorizado com esmero, lido  com a voz inconfundível do âncora, Milton Jung, foi mágica! Acontecia o inusitado encontro da caixinha proseadora  com a  prosa literária daquela que  ama conversar com o leitor e ouvinte.

Nascia a escritora que havia engavetado suas escritas ao longo de muitas décadas.

As ondas do rádio, agora saídas também da palma da mão que carrega o celular, inundaram e fertilizaram a criatividade da vovó. 2022.

Incentivada pelos textos  acolhidos e divulgados, a avó ainda surfa nas ondas do rádio. Ondas que a levaram além mar… Escreve nas nuvens, literalmente, a  caminho de Lisboa. Vai lançar seu livro na maior feira lusófona do mundo: a 92a Feira do Livro de Lisboa. Ensaia os primeiros passos no mundo literário… mas precisa escrever sua história com o rádio! 

Gratidão ao rádio e a Rádio CBN, que toca notícias, corações, e proporcionou à menininha do passado navegar por ondas e “mares  nunca dantes  navegados”.

Marina Zarvos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também mais um personagem dessa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o carteiro da minha rua, no Jaçanã

Por Luiz Alves 

Ouvinte da CBN

Photo by Raquel Tinoco on Pexels.com

O carteiro da minha rua chamava-se Valter Alito. Durante toda a minha infância, eu o vi diariamente subindo ou descendo a rua de terra em que morávamos, no bairro do Jaçanã. As rajadas de vento faziam levantar nuvens escuras de um pó fino e pegajoso, que travava a garganta; e quando chovia, a rua desaparecia em um imenso lamaçal.

Ele fazia parte da rua, pois com chuva ou sol, lá vinha ele assobiando, vestindo sua farda surrada, com passos decididos e uma pesada bolsa de lona nos ombros. Tinha a habilidade de transformar aquele trabalho aparentemente ruim em algo bom e divertido. Penso que o Valter nasceu para ser carteiro.

Eu olhava com admiração para aquele homem franzino, rosto minúsculo, nariz fino, olhos da cor da distância e olhar amigo, afinal ele usava quepe; que eu era louco para colocar na minha cabeça.

Não foram poucas as vezes que, para o delírio da molecada, ele se meteu em nossas peladas de futebol. Dois ou três dribles, um chute certeiro, e lá ia o Valter, agora com os sapatos sujos, para cumprir o resto de sua jornada.

O Valter era responsável por encurtar distâncias e construir pontes entre pessoas, trazendo notícias de parentes e amigos. Conhecia os moradores pelo nome, e não raras vezes parava para um dedo de prosa com o meu pai. Falavam de política, comentavam sobre a carestia ou algum acontecimento no bairro. Todos o respeitavam e o tratavam como autoridade. E o era, pois nem os cachorros da rua ladravam com ele.

Foi o Valter Alito que trouxe o telegrama avisando da morte da minha avó, em um sete de setembro cinzento. Também era ele que entregava as cartas de parentes, que às vezes deixava a minha mãe triste e preocupada. Eu não entendia bem por que, mas sabia que aquelas cartas sempre traziam más notícias. Mas o Valter também trazia agradecimentos, afetos, conselhos, pedidos, sentimentos e saudades, dentro de envelopes.

O tempo passou, o carteiro deixou de ter a mesma importância para as pessoas, e eu não sei onde foi parar o Valter, mas jamais esquecerei a forma como ele tratava as pessoas. Com certeza, ele já não entrega cartas e cartões de Natal. Pena porque me restou uma pergunta não feita: o que será que o Valter pensava de nós?

Luiz Alves e o carteiro Valter são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também mais um personagem de São Paulo. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, viste o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: Rita Lee desbravou a floresta do Ibirapuera

No Conte Sua Historia de São Paulo, uma homenagem a Rita Lee, nascida em 1947 e vivida, boa parte de seu tempo, na Vila Mariana. Morta na segunda-feira, dia 8 de maio, aos 75 anos. Rita era apaixonada pela cidade. Selecionamos um dos capítulos do livro RITA LEE: UMA AUTOBIOGRAFIA para expressar essa relação dela com a capital paulista, quando escreve sobre as visitas que a família dela, a familia Jones, fazia ao parque do Ibirapuera:

Floresta encantada 

Antes de virar parque, a floresta do Ibirapuera era o lugar perfeito para os piqueniques dos Jones, domingo sim, domingo não. 

Socadas no Jeep com Charles pilotando, as seis mulheres equilibravam cestas de comidas e ferramentas de jardinagem. 

Estacionávamos em frente ao Instituto Biológico e de lá seguíamos a pé dois quarteirões até a entrada da floresta. 

A imensidão do lugar nos convidava a abrir pequenas clareiras em pontos diferentes, onde montávamos um pequeno acampamento. 

Cada um de nós escolhia uma árvore ou planta para “tomar conta”, limpando ervas daninhas, juntando folhas mortas e batizando as plantas, por exemplo: pela exuberância, samambaias eram doñas Mercedes; eucaliptos eram Horácios, um primo nosso alto e magro com pele descascada; Carmens Mirandas eram as bromélias. Flores levavam nossos nomes por “usucapião estético”; e Ritas, claro, eram as marias-sem-vergonha. 

A família Buscapé plantava milho, cana, melancia, café, banana, verduras, legumes. Podia-se dizer que vários cantinhos do Ibirapuera viraram uma feirinha para chamar de nossa. 

O sonho acabou no quarto centenário de São Paulo, quando grande parte da floresta virou asfalto, cimento e construções de gosto duvidoso. Charles, inconsolável, se recusou a comparecer à festa de abertura. O harém foi, ficamos encantadas com as flâmulas prateadas que os aviões despejavam sobre o povo e tristes de ver nossas hortinhas destruídas.

Quando chegamos em casa, Charles disse: “Vocês por acaso sabem o que significa a palavra Ibirapuera em guarani? Ibirá = árvore, puera = lugar onde havia. Ou seja: lugar onde havia árvore. Os índios previram essa catástrofe e vocês foram lá aplaudir”. Um minuto de silêncio vergonhoso.

RITA LEE é nossa personagem no Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capitulos da nossa cidade visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua Historia de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a jabuticabeira do Seu Oseas e dos passarinhos do Campo Limpo.

Oseas Pereira Campos

Ouvinte da CBN

Seu Oseas e a jabuticabeira em foto de arquivo pessoal

Tenho  77 anos. Sou viúvo. Moro no condomínio Interclube, no Jardim Umuarama, no Campo Limpo, zona Sul da cidade. Cheguei em São Paulo em 1972. Cinco anos depois, eu e minha esposa ganhamos uma muda de jabuticaba. Eu plantei em um vaso e continuamos a regá-la durante 15 anos.

Quando chegou 2018, plantei a jabuticaba no pomar do condomínio que moro e já está dando frutos.

Fico muito alegre de ver os sabiás, os bem-te-vis, o casal de João de Barros, pardais que comem os frutos todos os dias. Minha felicidade é enorme ao ver que o plantar da árvore frutífera alimenta os pássaros. E a mim, também. 

Gostaria mesmo que minha esposa estivesse aqui para ver a jabuticabeira, como está linda e como atrai os passarinhos do bairro. 

Oseas Pereira Campos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história, envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade ouça o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: no meu imaginário, era a terra da salvação


Jose fabio nobre nobre

Ouvinte da CBN

Photo by Caroline Cagnin on Pexels.com

No idos da década de 1970, eu, criança, na Cidade de Crato,  interior do Ceará, passava com frequência  em frente a uma empresa de ônibus — não havia rodoviária — e presenciava cenas que me chamavam atenção. Época em que muitas famílias faziam o trajeto para São Paulo na busca de sobrevivência mesmo. Aquelas cenas começaram a me tocar porque eu via pessoas conhecidas, outras, crianças, e até parentes próximos. Aquelas despedidas me sensibilizam, eu chorava junto àquela gente. 

Daí, São Paulo ficou no meu imaginário como sendo a terra da salvação. Garanti a mim mesmo que ao completar 18 anos, eu também iria para a capital paulista para conhecer, visitar parentes e, quem sabe, morar na casa de uma tia ou um tio. Quando completei a maioridade, já trabalhava e apesar de solteiro era o “provedor” da casa —  os irmãos e irmãs mais velhos já haviam casado e fiquei órfão de pai muito cedo. Com o dinheiro que recebia do trabalho em um banco privado,  me organizei para realizar o sonho de viajar a São Paulo, o que ocorreu em dezembro de 1980. 

Quarenta e oito horas num ônibus que, diante das minhas expectativas tão positivas, tirei de boa. Fui recompensado. Adorei tudo que via, uma prima que morava em Vila Nova Cachoeirinha passeava bastante comigo e me mostrava os locais mais importantes. 

O que me marcou naquela primeira viagem foi ir a uma gravação do Programa do Chacrinha — havia uma senhora amiga da minha prima que fazia caravana para o programa, num teatro da Brigadeiro Luiz Antônio. Na época ele estava na rede Bandeirantes, depois retornou para a Globo. Aquilo me fascinou. O inusitado é que de repente a gravação parou, as chacretes se abraçavam e choravam. Os artistas e jurados, também. Nós na plateia não sabíamos o motivo  da demora do intervalo. Até que a notícia chegou a todos: há poucos instantes, havia sido anunciado o assassinato de John Lenon. A despeito disso, a gravação e a vida tinham de continuar.

Hoje sigo amando São Paulo mesmo morando em Recife há 40 anos. Visito a cidade no mínimo três vezes ao ano. Adoro a fervura cultural e vou aos principais eventos artísticos. Amo ficar próximo ao COPAN, que para mim é a cara da cidade, para bater perna por todo o centro e subir a Consolação caminhando até a Paulista, aproveitando para cumprir a minha meta de sete mil passos diários —  ouviu, Márcio Atalla?

José Fábio Nobre personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Conte você também a sua história. Escreva seu texto e envie para o email contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: São Sebastião da praça da minha rua

Vera Helena Gasparotti Praxedes

Ouvinte da CBN

Parque Nabuco, no Jardim Jabaquara

Existem coisas que nos emocionam! 

Apareceram na pracinha, em frente da minha casa, algumas mudinhas plantadas de ora-pro-nóbis, cada uma com uma plaquinha as identificando. Há mudas de outras espécies, também. 

A origem daquela obra da natureza, descobri quando fui levar os recicláveis no parque Nabuco, que fica entre o Jabaquara e a Cidade Ademar.

Na volta, vi um senhor passar por trás de um belo carro vermelho com uma enxada nova na mão. Nova sim, porque visualizei o selo.  Fui sem demora perguntar o que ele estava fazendo. 

Qual foi a minha surpresa! Com a enxada, estava capinando ao redor de uma minúscula planta. Começamos a conversar e então o senhor me contou que mora bem longe daqui e na casa dele não tem espaço.  Tem até uma praça por lá, porém arrancam qualquer coisa que por ventura alguém resolva fazer. 

Disse-me o senhor que estava plantando sementes que, com carinho, germinam na casa dele. Até falou que a mudinha de orvalha que por hora capinava ao redor, trouxera a semente de mais longe ainda lá da represa. Falou também que comentou com a esposa que achava que aqui as pessoas não arrancavam o que era plantado. De vez em quando, ele vem fazer limpeza ao redor das mudas porque assim quando a prefeitura vai cortar o mato e limpar a pracinha não as arranca. 

Contou-me que mora lá pra cima, pelas bandas da Montemor. A saber: a rua Rodrigues Montemor fica no bairro de Americanópolis. A pracinha — cenário desta história que compartilho com vocês — se chama Azevedo Antunes, e fica na rua Conde Moreira Lima, no Jardim Jabaquara. O nome dessa doçura é Seu Sebastião. São Sebastião que preserva a cidade!

Vera Helena Praxedes é  personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Conte você também a sua história. Escreva seu texto e envie para o email contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: meu pátio era o Parque da Água Branca

Eliana Succar Assad

Ouvinte CBN

Parque da Água Branca em foto de Wikipedia

Minha infância, até os 11 anos, passei no bairro das Perdizes, na rua Turiassú bem atrás do Parque da Água Branca. Nossa casa dava para os fundos da casa do administrador do parque, e com jeitinho minha mãe pedia se poderíamos atravessar por ali.

Pela casa, em um passe de mágica, o mundo se transformava de rua com ônibus e muito barulho em um paraíso. Saíamos correndo livres para rolar na grama, ribanceira a baixo. Árvores e palmeiras enormes…. na minha imaginação uma floresta. Depois sentávamos nos bancos em volta do imenso picadeiro; e no silêncio, minha mãe abria o livro de historias e passávamos um tempo lá escutando maravilhadas! 

Depois seguíamos para as gaiolas para ver os pássaros e outras de macacos…em seguida os lagos: nos debruçávamos nas grades e os peixes apareciam, grandes e pequenos.

Assim, seguíamos andando pela manhã em direção a saída, mas sem antes dar uma olhada nas antas enormes que dormiam tranquilas; e aí voltamos para almoçar em casa e ir para a escola.

Ao lado, moravam meus avós e tios que nos domingos nos levavam no parque: ah, tudo mudava! Eram exposições agrícolas com tratores enormes  e bois premiados! O cheiro, as pessoas, a pipoca, o algodão doce … tudo mudava. Um mundo de emoções!

Tudo ficou na memória .. 

Depois nos mudamos para outro bairro. Quando minha mãe ficou doente, eu a levei para passear por lá e todas as emoções voltaram para mim e para ela.

Eliana Succar Assad é  personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Conte você também a sua história. Escreva seu texto e envie para o email contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: suas margens refletem a inteligência e a hipocrisia humana

Francisco Costa

Ouvinte da CBN

Photo by sergio souza on Pexels.com

Em uma manhã de primavera onde a névoa ainda úmida e fria, sobre ti marginal, passeio nesse tapete negro que me leva e me  traz.

Sobre a sua margem direita, observo a inteligência dos homens refletida na arquitetura moderna, nos prédios que nascem rompendo o horizonte

Sobre a sua margem esquerda, em um resquício de natureza, a vida tenta superar ela mesma e reflete a hipocrisia humana, sobre um rio que agoniza e pede socorro.

Oh rio! Quem dera que os homens modernos pudessem olhar para ti com o olhar do criador, aquele que majestosamamente te criou.

Francisco Costa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Conte você também a sua história. Escreva seu texto e envie para o email contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: Ibirapuera, o parque que me reconcilia com a humanidade

Claudia Signorini

Ouvinte da CBN

Parque do Ibirapuera, foto de Renata Carvalho/Helicoptero da CBN

Há quase quarenta anos moro num prédio a poucos quilômetros do parque do Ibirapuera.

Para mim, que deixei uma casa com quintal e jardim, frequentar esse parque foi como encontrar o éden.

Costumo fazer minhas caminhadas em volta do lago duas ou três vezes por semana. Acompanho extasiada a mudança das estações: a época dos ipês, roxos, amarelos e brancos, esses últimos de breve duração; a época das sibipirunas, das tipuanas, das primaveras, dos pessegueiros em flor, numa florescência luxuriante.

E o que dizer dos pássaros e aves que povoam esse parque: sabiás, bem-te-vis, sanhaços, joões-de-barro, patos, mergulhões, cisnes, até os utilíssimos urubus nas suas vestes negras e andar pendular. E a pérola das pérolas, a garça cinza, imponente, elegante, nem sempre visível, infelizmente.

O parque também é um lugar de encontro.

Sempre paro para conversar com os frequentadores que levam seus cães para passear, como eu fazia com minhas duas vira-latas cujas cinzas deixei neste mesmo parque no local em que as soltava para correr.

Costumo cumprimentar os funcionários que trabalham no parque, os seres invisíveis como eu os chamo. Paro para tomar água de coco na barraca do Duda. Chamo a atenção dos skatistas que invadem a pista dos pedestres.

Bato palmas para os que jogam o lixo nos recipientes adequados. Sento num dos bancos do parque para observar todos os sons, as cores, os perfumes que esse maravilhoso parque me oferece.

No fim de minhas caminhadas eu me sinto em plena comunhão com a natureza e de certa forma reconciliada com a humanidade.

Claudia Signorini é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Daniel Mesquita. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo