Conte Sua História do Rádio em São Paulo: a disputa entre Roberto Carlos e Paulo Sérgio no rádio

Odnides Pereira

Ouvinte da CBN

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Em 1959, quando nasci na Maternidade de Vila Maria, zona norte, a maioria das pessoas não tinha como comprar uma televisão. As notícias, histórias, músicas eram pelo rádio.

Morávamos em um cortiço na Vista Alegre, onde também viviam minhas tias. Quase todos os dias, elas se reuniam em volta do rádio para ouvir a Nacional. Gostavam do programa “História que o povo conta”, interpretadas por Silvio Santos. Éramos pequenos e morríamos de medo com o programa.

Mantivemos o hábito quando nos mudamos para uma casa na Vila Sabrina. No rádio, também havia uma disputa entre os cantores Roberto Carlos e Paulo Sérgio. O programa levava ao ar a música de um e de outro e os ouvintes escolhiam  a melhor. 

Eu e meu irmão, adolescentes, tirávamos sarro com as duas filhas de um dos nossos vizinhos. Toda vez que Paulo Sérgio ganhava a disputa. subíamos no muro e gritávamos para elas: “Paulo Sérgio é o melhor”, Tadinha, fãs do Roberto, elas até choravam. O troco vinha no dia seguinte quando Roberto Carlos era o vencedor. Só que a gente não chorava …

Nos anos de 1970, acordávamos com o Zé Béttio, na Rádio Record, que produzia o ruído de uma bacia d’água sendo despejada sobre os dorminhocos.  “Olha à hora, gente, olha à hora”, “joga água nele”, “acorda, gordo!” Entre uma fala e outra, havia burro zurrando, galo cantando e boi mugindo.

Não abandonamos o rádio nem mesmo quando meu pai conseguiu comprar uma televisão preto e branco. 

Depois que casei, em 1978, passei a levantar da cama com o rádio relógio ligado na Excelsior. E mais tarde, nos anos 90, conheci a querida CBN. 

Hoje, aposentado, com dois netos morando em casa, mantenho o hábito. Acordo às seis horas com as notícias do dia. No caminho da escola, levo os dois com o rádio na CBN, que também é minha companhia nas caminhadas diárias de seis quilômetros. Não desligo meu radinho de pilha nem mesmo na hora do banho ou nos fins de semana. Só mesmo quando quero ouvir música busco a Alpha FM, mas volto em seguida para me atualizar na CBN.

O certo é que aqui em casa não sabemos viver sem ouvir os programas de rádio.  

Odnides Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo, especial 100 anos de rádio. A sonorização é do Cláudio Antonio. A partir de outubro, voltamos a nossa programação normal. Então, aproveite e escreva agora mais um capitulo da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br 

Conte Sua História do Rádio em São Paulo: as luzes das válvulas do rádio

Giuseppe Nardelli

Ouvinte CBN

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Bom, o rádio sempre fez parte da minha vida. Lembro que ainda pequeno, tinha uns seis anos, morava no Largo do Arouche. Minha avó, no apartamento da frente, eu, meu pai e minha mãe no do lado. 

Todas as manhãs, eu ia dar um beijo e desejar bom dia pra minha avó, e ela estava ouvido o rádio valvulado. Era lindo: tinha a frente toda decorada; o “dial” era redondo e tinha um ponteiro, feito um relógio.

Ela ouvia às seis horas da manhã, o programa do grande Vicente Leporace. Voz firme e trazendo as notícias do dia.

Ainda estava escuro no quarto dela, mas as luzes das válvulas do rádio projetavam uns pontos lindos através da tampa traseira do rádio, cheia de furinhos. Eu ficava encantado com aquela voz que vinha daquele simples aparelho.

E assim foi… anos depois, meu pai sempre fazia a barba ouvindo a concorrente, Jovem Pan. Todas as manhãs, eu acordava com aquele som do “repita”. Era mágico!

E assim fui tendo o gosto e o vício de ouvir rádio. Mas não é só isso.!

O rádio esteve tão presente na minha vida que, quando minha avó ia para a Itália, o único meio de ter notícias dela era falar pelo rádio amador, o PY. Minha avó tinha um sobrinho que usava rádio amador potente na Itália e ele nos indicou um PY aqui de São Paulo. Pronto! Era só ir na casa dele, com poderosas antenas, e fazer contato com a Itália. Falávamos toda a semana com minha avó através das ondas do rádio. Como você pode ver, caro Milton, o rádio nunca saiu da minha vida. Nem o AM, nem o PY.

Pra encerrar, ganhei o primeiro rádio Philco Transglobe, em 1979. Pegava as ondas curtas. Era um deleite ouvir várias línguas e várias notícias naquele chiado das pequenas e potentes ondas. Tenho ele até hoje, intacto e funcionando!

Na década de 1980, fui fazer rádio na Bandeirantes. Tinha um programa sobre eventos artísticos. Entrevistei muitos artistas e cheguei a fazer rádio ao vivo. Quero dizer que amo rádio e desejo um feliz dia do rádio a todos que, como eu, usam e abusam dessas ondas mágicas!

Giuseppe Nardello é personagem do Conte Sua História de São Paulo, especial 100 anos de rádio. A sonorização é do Cláudio Antonio. A partir de outubro, voltamos a nossa programação normal. Então, aproveite e escreva agora mais um capitulo da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br 

Conte Sua História do Rádio em São Paulo: as “crianças” da sala de aula de Nhô Totico

Flávia Bissoto

Ouvinte da CBN

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Uma semana antes de ouvir o convite da CBN para escrever nossas histórias no rádio, minha Tia Wilma Medeiros, que hoje tem 89 anos, havia me contado um fato de sua infância:  ela ouvia o programa de Nhô Totico — um dos ícones do humor radiofônico, no Brasil

O programa se passava em uma classe de escola, era a Escolinha da Dona Olinda, na qual havia vários alunos diferentes, com sotaques diferentes: um inteligente, outro chorão … e o preferido dela era o Jorginho, o Turco.

Minha tia me disse que quando tinha por volta de seis ou sete anos, a professora dela levou os alunos para conhecer o programa do Nhô Totico.

Chegando na emissora de rádio, minha tia ficou esperando pelas crianças da escolinha da Dona Olinda. E nada das crianças chegarem. As crianças não chegaram.

Para surpresa e decepção dela, Nhô Totico era um adulto, gente grande, que imitava a professora, Dona Olinda, e os alunos da sala de aula. 

Nhô Totico foi muito gentil com minha tia. Afagou sua cabeça e beijou suas mãozinhas, pois ela era a menorzinha da classe. Apesar do carinho, Tia Wilma disse que estava assustada. Não era o que esperava encontrar. Naquele dia, se desfez a magia daquele programa de rádio. 

Para ela o melhor do rádio estava mesmo na imaginação!

Flávia Bissoto Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo, especial 100 anos de rádio. A sonorização é do Cláudio Antonio. A partir de outubro, voltamos a nossa programação normal. Então, aproveite e escreva agora mais um capitulo da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br 

Conte Sua História do Rádio em SP: minha fonte da informação

Neste mês de setembro, o Conte Sua História de São Paulo abre espaço para uma edição especial em homenagem aos 100 anos do Rádio, que se completam no dia sete. Os ouvintes foram convidados a falar de suas experiências com este veículo e os textos selecionados serão publicados todos os sábados deste mês e, também na semana de 5 a 9 de setembro, no CBN SP. Como sempre, a sonorização é de Cláudio Antonio que buscou nos arquivos do rádio de São Paulo momentos desta incrível história.

Mário Curcio

Ouvinte da CBN

Minha história com o rádio começa com um daqueles modelos à pilha e capinha de couro marrom, que já estava em casa antes de eu nascer. A marca era Hitachi. Ele ainda existe. Foi um presente que meu pai deu pra si mesmo no dia em que meu irmão nasceu. Dentro da capa está marcado à caneta o dia da compra: 6 de julho de 1959.

O radinho tem duas faixas, AM e Ondas Curtas, uma frequência em que é possível ouvir até emissoras da Europa e da China nas noites de céu limpo.

O seu João, meu pai, tem hoje 92 anos. Ele cresceu na época de ouro do rádio, quando a família se reunia à noite para ouvir shows de auditório, novelas e também notícias sobre a Segunda Guerra Mundial. Mas foi com aquele rádio marronzinho que ele comemorou as Copas do Mundo de 1962 e 1970. Também vibrou com muitos gols do nosso Palmeiras.

Neste radinho descobrimos quem era Adoniran Barbosa. Nossa música favorita com o Adoniran ainda é “O Samba do Arnesto”. Em 1970 meu pai estava no auge da carreira dele na indústria farmacêutica Squibb aqui em Santo Amaro e comprou um Chevrolet Opala Standard.

O carro veio sem rádio, mas nas primeiras viagens ele prendia o velho radinho no quebra-vento pra não perder o futebol. Esse aparelho também servia como espanta-ladrão: nas noites em que saíamos, ele ficava ligado na sala pra fazer de conta que tinha gente em casa.

Neste e em outros aparelhos, eu e meus irmãos passamos parte da infância e a adolescência ouvindo duas emissoras de AM aqui na capital paulista, a Difusora 960 e a Excelsior 780, a Máquina do Som, que deu lugar à CBN em 1991. Também pegamos o período de transição para o FM, uma frequência que melhorou muito a utilização do aparelho, especialmente dentro de empresas ou lugares com muitos equipamentos elétricos, que ainda causam interferência no AM.

Sou jornalista e o rádio é minha principal fonte de informação. Ouço a CBN dia e noite. Para o meu pai, que perdeu a visão por causa da diabete, o rádio é sua tevê, seu futebol e sua vida.  

Mário Curcio é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Em outubro, voltaremos à nossa programação normal, então aproveite para contar a sua história da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: te amava no meu Dodginho Polara

Anita Costa Prado

Ouvinte da CBN

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Te amava subindo e descendo as ladeiras da Casa Verde Alta, para pegar o busão, indo ou voltando do Colégio Centenário, na Casa Verde Baixa. Lembro colegas de classe debatendo o motivo de um bairro se dividir em dois, questionando: haverá também a Casa Verde Média?

Te amava no comércio variado do centro da Lapa, onde passeava no intervalo das aulas da Faculdade de Educação Campos Salles, perto também do Mercado Municipal que tinha de tudo um pouco. Até seriguela e coco.

Te amava ao chegar com meu velho Dodginho Polara, na Avenida Rio Branco e em determinado ponto virar à direita para seguir rumo ao Teatro Escola Macunaíma, onde um aluno achava que um carro como aquele merecia ser personagem de peça mambembe.

Eu te amei em várias fases da minha vida e continuo te amando São Paulo, pois aqui a Casa Verde não desbota, o sonho breca mas não capota e sua grandeza nos impulsiona a seguir não apenas em frente mas para cima. Sempre.

Anita Costa Prado é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: vou chamar-te amazónia de betão 

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Por Álamo Oliveira

Ouvinte CBN

Vou chamar-te amazónia de betão 

sem qualquer pudor lírico sobre teu santo nome. 

não te invoco em vão, pois te acho linda 

mega-cidade,  madura de caju e abacaxi 

perfumada a café e jacarandá. 

vou chamar-te amazónia de betão 

como se o não fosses de verdade e o poeta viesse 

para te cantar selvagem ao anoitecer da vida 

com seus versinhos na malinha de mão 

como quem acaba de se despir à sombra 

do teu casaco de pelúcia   senhora da aparecida! 

vou chamar-te amazónia de betão e pronto. 

não quero perder a ternura como qualquer virgem 

desprevenida e só    ou ficar sem jeito 

desembarcada de uma chalana 

que nunca te acostou porque nunca partiu. 

vou chamar-te…    afinal sorvedouro impune 

dos nomes feios que conheço: prostituta gigante 

violada e sempre requentada    meu amor eterno 

criminosa inocente de todas as mortes e fomes. 

na cama   e que eu te quero    macho ou fêmea de água

 cavalo    égua em galope até tapioga. 

me pega o olhar e me leva aos teus seios 

onde beba a caipirinha do destino 

pelo copo amargo da tua beleza    senhora desaparecida! 

ai    mulher grafitada dos pés à cabeça 

como índio condenado a morrer de poluição progressiva    

como terminar esta xácara sem bem nem mal 

para são paulo – apóstolo ferido em carne-viva? 

não sou bandeirante que te cubra as feridas 

com a bandeira da inocência. 

mas    se gritar    ainda me ipirango de amor.

Álamo Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: “metrópole de tanta gente, de perfil tão diferente”

Pedro Galuchi 

Ouvinte da CBN

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I LOVE ST PAUL 

Infinitas suas mazelas, 

Os cortiços, as favelas

Cercando as butiques

Onde madames chiques

Torram o cartão nos pets

Cheias de falsa nobreza

Desviam-se da pobreza

Dos mendigos, dos pivetes

Academias, ginástica

Clinicas de plástica

Espalhadas nas esquinas

Dividem ponto com meninas

Zé, Mané, Dita e João

Sardinhas na condução

Chegar atrasado outra vez

Congestionada a Vinte e Três 

Dependurados de Itaquera, 

Taboão, Jaguaré, Butantã

Campo Limpo, Jaçanã 

Que não tem mais trem

De qualquer jeito eles vêm

Zelar pelo Ibirapuera,

Moema, Paraíso, Vila Mariana

Dia a dia, toda a semana

Joga mais tijolo, Ceará

Grita o de Belém do Pará

Cabeças traçando planos

Rubro-negros, Corinthianos

Vim da Bahia, mas sou Vitória

Lacrimeja e continua a história

Já faz tantos Janeiros

Viagem demora dias inteiros

Em cem parcelas vou pagar

Deste ano não vai passar

Tô com saudade dos meninos

Ele e tantos Severinos

Nas portarias da Paulista

Invejam a Ferrari da revista

Pontos zero travados na pista

No céu, a toda velocidade

Hélices sobrevoam a cidade

Estacionam no alto do prédio 

Distraindo olhares de tédio

Angústia, pressa… que remédio!

Pra passar a fadiga

Seguir rumo ao Bixiga

Assistir a um teatro

Barzinho até as quatro

Chope e uma de mozarela

Depois exercício Matinal

Sanduba de Mortadela

No Mercado Municipal

Metrópole de tanta gente

De perfil tão diferente

Sem ser melhor ou pior

Vestindo brechó ou Dior

Cheiro de suor, perfume francês

Sotaque alemão, português

Falando a língua errado

Afro, branquelo, 

Amarelo olho puxado  

Todos…

como a galera ensandecida 

pelo orgasmo de um gol

Gritarão no último minuto de vida: 

I Love Saint Paul!

Pedro Galuchi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: quem não ama a Paulista de domingo?

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O Conte Sua História de São Paulo traz neste mês de agosto, poesias escritas pelos ouvintes da CBN. Começamos a série com Maria Carolina Prado:

Paulistan@

Quem nunca viu um buraco na calçada

na rua

no caminho?

Quem não comeu milho de panela no ponto,

pastel na Benedito,

pastel no mercadão?

Quem não correu no Ibira,

na marginal Pinheiros,

ou com os bicicleteiros?

Quem não ama a Paulista de domingo,

as ciclovias,

o minhocão?

Quem não gosta de pôr do sol na laje,

boteco de esquina,

padoca, café e pão?

Quem não esperou no trânsito,

esperou o trem,

esperou o busão?

Quem não pegou uma fila,

brigou na fila,

furou de antemão?

Quem nunca reclamou da violência,

do asfalto,

da poluição?

Quem não ama e desama,

foge do caos,

sente falta dessa imensidão?

Quem não quer mais céu,

mais gentileza,

mais amor e natureza?

Quem vem pra cá é aventureiro ou empreendedor,

mágico ou palhaço,

honesto ou mentiroso,

corajoso, feminista,

hater, ou elitista

farofeiro,

pacifista,

motoqueiro ou

sonhador

Quem é de Sampa

sabe o que quer,

onde comprar

e onde vender

Quem vem daqui

tem pressa, tem fome

tem sede,

tem garra,

tem malícia e gratidão

Quem é de Sampa já viu de tudo

e mora aqui

só pela emoção.

Maria Carolina Prado é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: fé e crença de que as coisas podem mudar

Foto de arquivo: Arsenal da Esperança

Neste último sábado de Julho, o Conte Sua História de São Paulo completa a série de textos selecionados, de um total de 66 escritos por pessoas acolhidas durante a pandemia no Arsenal da Esperança, onde funcionava a Hospedaria dos Imigrantes, na Mooca. Nossa ideia foi chamar atenção para a existência de pessoas que vivem em situação de rua e precisam da nossa ajuda. Leia o texto esrito por Anderson Francisco:

Nunca diga nunca. Essa é uma frase que eu escutava muito quando eu era pequeno. Você nunca pode desacreditar das coisas. Porquê? Você nunca sabe se isso pode realmente acontecer com você.

Às vezes, me pergunto o que Deus tem planejado para minha vida, e qual será o propósito disso tudo. Nós seres humanos, chegamos a um ponto que não temos mente alguma para compreender tamanho poder.

Antes de eu ouvir falar sobre a pandemia ou me falarem sobre o Arsenal da Esperança, passei por muitas turbulências conturbadas durante minha vida. Um pai alcoólatra e uma mãe doméstica por destino. Pequenos filhos, com um péssimo ensino e uma baixa renda que, de tão baixa, uma anã é gigantesca perto dela.

Apesar disso tudo, tive uma boa educação dada por eles, me amaram e me deram boas surras … que nós aprontávamos! E também nunca deixaram faltar nada dentro de casa. Meu pai era pedreiro, saiu do nordeste de Pernambuco, bem novo, com quatorze anos de idade.

Veio a São Paulo a procura de serviço, começou bem cedo na roça, ajudando os pais com as tarefas da roça, junto com o resto dos irmãos. Veio embora ao rumo de São Paulo se queixando de surras constantes que levava de outros irmãos mais velhos. Minha mãe saiu de Goiás, era bem mais velha que meu pai. Tinha dezessete anos de idade e saiu de casa pelos mesmos motivos que meu pai, surras diárias que não aguentava.

Se encontraram em São Paulo, se conheceram e tiveram três filhos, uma menina e dois meninos.

O tempo passou, nós crescemos, alguns se foram e outros ficaram e a vida continuou.

Eu me envolvi com drogas, morei nas ruas, filho pequeno. Aí entra o Arsenal da Esperança. Estou acolhido aqui fez quatro meses, no dia 18 de junho de 2021.

Arrumei uma namorada branca, ah, vocês não sabiam… eu sou negro! Mãe branca e pai negro.

Aí chega a pandemia, devastando tudo o que tem, matando milhares de vidas no mundo. Mas o que a pandemia trouxe de bom foi mais empatia com as pessoas. Saber dar valor às coisas simples da vida. A união das pessoas um com os outros, mais fé e acreditar que as coisas podem mudar mesmo.

Sei que minhas escolhas me impediram fazer certas coisas boas e (escolhas certas) que me encaminhei para um caminho bem melhor. 

E digo mais, peço desculpas pelos meus erros de ortografia, por quê? Eu não tenho me dedicado aos estudos, mas tudo que eu estou vivendo e os desafios de uma pandemia, é isso. É se esforçar ao máximo, é acreditar que você realmente pode alcançar os seus objetivos.

E sempre Deus em primeiro lugar em tudo. Abençoando os caminhos árduos que teremos de trilhar. Nunca fui bom com histórias, mais tentei fazer o melhor do possível para vocês tentarem me entender e me escutarem. Usem máscara, se cuidem assim. Mas por quê? Com a saúde não se brinca.

E com simples palavras descrevi tudo aquilo que eu senti. Por quê? Essa é mais uma história que ninguém conta.

Anderson Francisco do Arsenal da Esperança, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a esperança chegou na primeira semana do Arsenal

No Conte Sua História de São Paulo, você acompanha a série de textos escritos por pessoas em situação de rua acolhidas no Arsenal da Esperança, antiga Hospedaria dos Imigrantes, durante a pandemia. O texto de hoje é de Wilson Luis

Foto: Mílton Jung

Olho para os acontecimentos sem dar importância, como todos, pensando somente “mais um vírus que não vai me afetar”. Muito menos o Brasil. Esse passará longe.

Quando os noticiários ficaram mais longos e mostrando a chegada do vírus no Brasil e como já estava a Itália e a China, me preocupei, mas sem ter a dimensão do que o vírus causaria.

Quando uma orientadora do abrigo onde eu estava convocou uma assembleia dizendo que não poderíamos mais sair de lá, somente nos dias estipulado pela direção, somente para comprar, como cigarro, e médico, pois o Brasil estava fechado por 14 dias, me senti numa zona de guerra.

No abrigo, passei a conviver 24 horas com todos. Os noticiários não pararam de falar do aumento de mortos. Lembro de sair para comprar cigarro e ver a cidade deserta, somente ambulância e carro funerário na rua. Logo fiquei preocupado com minha família. Falava com eles constantemente.

O convívio no abrigo não era fácil nem pros funcionários, nem pra nós, conviventes, pois a rotina estava mudada, todos ali tinham que almoçar no abrigo, não era mais obrigado a sair e nem podia sair para resolver problemas pessoais: parei meus projetos.

Passei a criar uma rotina, passei a ler mais, conhecer mais pessoas no abrigo e me apeguei mais na fé e em Deus.

Logo, quando cheguei no Arsenal da Esperança, a esperança chegou na primeira semana, pois tomaria a vacina.

Apesar da vacina andar a passos curtos, posso notar a diferença, o comércio abrindo, as pessoas voltando ao trabalho, pessoas sorrindo novamente, revendo seus parentes, meus projetos voltando.

Não foi fácil, ainda tem um longo caminho a ser perseguido para a volta da normalidade, mas a vacina nos trouxe esperança e ver nossos filhos abraçando a mãe após um ano, nos traz a esperança.

Temos que tirar lição de tudo que a pandemia nos causou como …

Aprendizado. E o maior aprendizado para mim se chamou saudade.

Wilson Luís do Arsenal da Esperança, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.