Conte Sua História do Rádio em SP: minha fonte da informação

Neste mês de setembro, o Conte Sua História de São Paulo abre espaço para uma edição especial em homenagem aos 100 anos do Rádio, que se completam no dia sete. Os ouvintes foram convidados a falar de suas experiências com este veículo e os textos selecionados serão publicados todos os sábados deste mês e, também na semana de 5 a 9 de setembro, no CBN SP. Como sempre, a sonorização é de Cláudio Antonio que buscou nos arquivos do rádio de São Paulo momentos desta incrível história.

Mário Curcio

Ouvinte da CBN

Minha história com o rádio começa com um daqueles modelos à pilha e capinha de couro marrom, que já estava em casa antes de eu nascer. A marca era Hitachi. Ele ainda existe. Foi um presente que meu pai deu pra si mesmo no dia em que meu irmão nasceu. Dentro da capa está marcado à caneta o dia da compra: 6 de julho de 1959.

O radinho tem duas faixas, AM e Ondas Curtas, uma frequência em que é possível ouvir até emissoras da Europa e da China nas noites de céu limpo.

O seu João, meu pai, tem hoje 92 anos. Ele cresceu na época de ouro do rádio, quando a família se reunia à noite para ouvir shows de auditório, novelas e também notícias sobre a Segunda Guerra Mundial. Mas foi com aquele rádio marronzinho que ele comemorou as Copas do Mundo de 1962 e 1970. Também vibrou com muitos gols do nosso Palmeiras.

Neste radinho descobrimos quem era Adoniran Barbosa. Nossa música favorita com o Adoniran ainda é “O Samba do Arnesto”. Em 1970 meu pai estava no auge da carreira dele na indústria farmacêutica Squibb aqui em Santo Amaro e comprou um Chevrolet Opala Standard.

O carro veio sem rádio, mas nas primeiras viagens ele prendia o velho radinho no quebra-vento pra não perder o futebol. Esse aparelho também servia como espanta-ladrão: nas noites em que saíamos, ele ficava ligado na sala pra fazer de conta que tinha gente em casa.

Neste e em outros aparelhos, eu e meus irmãos passamos parte da infância e a adolescência ouvindo duas emissoras de AM aqui na capital paulista, a Difusora 960 e a Excelsior 780, a Máquina do Som, que deu lugar à CBN em 1991. Também pegamos o período de transição para o FM, uma frequência que melhorou muito a utilização do aparelho, especialmente dentro de empresas ou lugares com muitos equipamentos elétricos, que ainda causam interferência no AM.

Sou jornalista e o rádio é minha principal fonte de informação. Ouço a CBN dia e noite. Para o meu pai, que perdeu a visão por causa da diabete, o rádio é sua tevê, seu futebol e sua vida.  

Mário Curcio é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Em outubro, voltaremos à nossa programação normal, então aproveite para contar a sua história da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: te amava no meu Dodginho Polara

Anita Costa Prado

Ouvinte da CBN

Photo by Jadson Thomas on Pexels.com

Te amava subindo e descendo as ladeiras da Casa Verde Alta, para pegar o busão, indo ou voltando do Colégio Centenário, na Casa Verde Baixa. Lembro colegas de classe debatendo o motivo de um bairro se dividir em dois, questionando: haverá também a Casa Verde Média?

Te amava no comércio variado do centro da Lapa, onde passeava no intervalo das aulas da Faculdade de Educação Campos Salles, perto também do Mercado Municipal que tinha de tudo um pouco. Até seriguela e coco.

Te amava ao chegar com meu velho Dodginho Polara, na Avenida Rio Branco e em determinado ponto virar à direita para seguir rumo ao Teatro Escola Macunaíma, onde um aluno achava que um carro como aquele merecia ser personagem de peça mambembe.

Eu te amei em várias fases da minha vida e continuo te amando São Paulo, pois aqui a Casa Verde não desbota, o sonho breca mas não capota e sua grandeza nos impulsiona a seguir não apenas em frente mas para cima. Sempre.

Anita Costa Prado é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: vou chamar-te amazónia de betão 

Photo by Kaique Rocha on Pexels.com

Por Álamo Oliveira

Ouvinte CBN

Vou chamar-te amazónia de betão 

sem qualquer pudor lírico sobre teu santo nome. 

não te invoco em vão, pois te acho linda 

mega-cidade,  madura de caju e abacaxi 

perfumada a café e jacarandá. 

vou chamar-te amazónia de betão 

como se o não fosses de verdade e o poeta viesse 

para te cantar selvagem ao anoitecer da vida 

com seus versinhos na malinha de mão 

como quem acaba de se despir à sombra 

do teu casaco de pelúcia   senhora da aparecida! 

vou chamar-te amazónia de betão e pronto. 

não quero perder a ternura como qualquer virgem 

desprevenida e só    ou ficar sem jeito 

desembarcada de uma chalana 

que nunca te acostou porque nunca partiu. 

vou chamar-te…    afinal sorvedouro impune 

dos nomes feios que conheço: prostituta gigante 

violada e sempre requentada    meu amor eterno 

criminosa inocente de todas as mortes e fomes. 

na cama   e que eu te quero    macho ou fêmea de água

 cavalo    égua em galope até tapioga. 

me pega o olhar e me leva aos teus seios 

onde beba a caipirinha do destino 

pelo copo amargo da tua beleza    senhora desaparecida! 

ai    mulher grafitada dos pés à cabeça 

como índio condenado a morrer de poluição progressiva    

como terminar esta xácara sem bem nem mal 

para são paulo – apóstolo ferido em carne-viva? 

não sou bandeirante que te cubra as feridas 

com a bandeira da inocência. 

mas    se gritar    ainda me ipirango de amor.

Álamo Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: “metrópole de tanta gente, de perfil tão diferente”

Pedro Galuchi 

Ouvinte da CBN

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I LOVE ST PAUL 

Infinitas suas mazelas, 

Os cortiços, as favelas

Cercando as butiques

Onde madames chiques

Torram o cartão nos pets

Cheias de falsa nobreza

Desviam-se da pobreza

Dos mendigos, dos pivetes

Academias, ginástica

Clinicas de plástica

Espalhadas nas esquinas

Dividem ponto com meninas

Zé, Mané, Dita e João

Sardinhas na condução

Chegar atrasado outra vez

Congestionada a Vinte e Três 

Dependurados de Itaquera, 

Taboão, Jaguaré, Butantã

Campo Limpo, Jaçanã 

Que não tem mais trem

De qualquer jeito eles vêm

Zelar pelo Ibirapuera,

Moema, Paraíso, Vila Mariana

Dia a dia, toda a semana

Joga mais tijolo, Ceará

Grita o de Belém do Pará

Cabeças traçando planos

Rubro-negros, Corinthianos

Vim da Bahia, mas sou Vitória

Lacrimeja e continua a história

Já faz tantos Janeiros

Viagem demora dias inteiros

Em cem parcelas vou pagar

Deste ano não vai passar

Tô com saudade dos meninos

Ele e tantos Severinos

Nas portarias da Paulista

Invejam a Ferrari da revista

Pontos zero travados na pista

No céu, a toda velocidade

Hélices sobrevoam a cidade

Estacionam no alto do prédio 

Distraindo olhares de tédio

Angústia, pressa… que remédio!

Pra passar a fadiga

Seguir rumo ao Bixiga

Assistir a um teatro

Barzinho até as quatro

Chope e uma de mozarela

Depois exercício Matinal

Sanduba de Mortadela

No Mercado Municipal

Metrópole de tanta gente

De perfil tão diferente

Sem ser melhor ou pior

Vestindo brechó ou Dior

Cheiro de suor, perfume francês

Sotaque alemão, português

Falando a língua errado

Afro, branquelo, 

Amarelo olho puxado  

Todos…

como a galera ensandecida 

pelo orgasmo de um gol

Gritarão no último minuto de vida: 

I Love Saint Paul!

Pedro Galuchi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: quem não ama a Paulista de domingo?

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O Conte Sua História de São Paulo traz neste mês de agosto, poesias escritas pelos ouvintes da CBN. Começamos a série com Maria Carolina Prado:

Paulistan@

Quem nunca viu um buraco na calçada

na rua

no caminho?

Quem não comeu milho de panela no ponto,

pastel na Benedito,

pastel no mercadão?

Quem não correu no Ibira,

na marginal Pinheiros,

ou com os bicicleteiros?

Quem não ama a Paulista de domingo,

as ciclovias,

o minhocão?

Quem não gosta de pôr do sol na laje,

boteco de esquina,

padoca, café e pão?

Quem não esperou no trânsito,

esperou o trem,

esperou o busão?

Quem não pegou uma fila,

brigou na fila,

furou de antemão?

Quem nunca reclamou da violência,

do asfalto,

da poluição?

Quem não ama e desama,

foge do caos,

sente falta dessa imensidão?

Quem não quer mais céu,

mais gentileza,

mais amor e natureza?

Quem vem pra cá é aventureiro ou empreendedor,

mágico ou palhaço,

honesto ou mentiroso,

corajoso, feminista,

hater, ou elitista

farofeiro,

pacifista,

motoqueiro ou

sonhador

Quem é de Sampa

sabe o que quer,

onde comprar

e onde vender

Quem vem daqui

tem pressa, tem fome

tem sede,

tem garra,

tem malícia e gratidão

Quem é de Sampa já viu de tudo

e mora aqui

só pela emoção.

Maria Carolina Prado é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: fé e crença de que as coisas podem mudar

Foto de arquivo: Arsenal da Esperança

Neste último sábado de Julho, o Conte Sua História de São Paulo completa a série de textos selecionados, de um total de 66 escritos por pessoas acolhidas durante a pandemia no Arsenal da Esperança, onde funcionava a Hospedaria dos Imigrantes, na Mooca. Nossa ideia foi chamar atenção para a existência de pessoas que vivem em situação de rua e precisam da nossa ajuda. Leia o texto esrito por Anderson Francisco:

Nunca diga nunca. Essa é uma frase que eu escutava muito quando eu era pequeno. Você nunca pode desacreditar das coisas. Porquê? Você nunca sabe se isso pode realmente acontecer com você.

Às vezes, me pergunto o que Deus tem planejado para minha vida, e qual será o propósito disso tudo. Nós seres humanos, chegamos a um ponto que não temos mente alguma para compreender tamanho poder.

Antes de eu ouvir falar sobre a pandemia ou me falarem sobre o Arsenal da Esperança, passei por muitas turbulências conturbadas durante minha vida. Um pai alcoólatra e uma mãe doméstica por destino. Pequenos filhos, com um péssimo ensino e uma baixa renda que, de tão baixa, uma anã é gigantesca perto dela.

Apesar disso tudo, tive uma boa educação dada por eles, me amaram e me deram boas surras … que nós aprontávamos! E também nunca deixaram faltar nada dentro de casa. Meu pai era pedreiro, saiu do nordeste de Pernambuco, bem novo, com quatorze anos de idade.

Veio a São Paulo a procura de serviço, começou bem cedo na roça, ajudando os pais com as tarefas da roça, junto com o resto dos irmãos. Veio embora ao rumo de São Paulo se queixando de surras constantes que levava de outros irmãos mais velhos. Minha mãe saiu de Goiás, era bem mais velha que meu pai. Tinha dezessete anos de idade e saiu de casa pelos mesmos motivos que meu pai, surras diárias que não aguentava.

Se encontraram em São Paulo, se conheceram e tiveram três filhos, uma menina e dois meninos.

O tempo passou, nós crescemos, alguns se foram e outros ficaram e a vida continuou.

Eu me envolvi com drogas, morei nas ruas, filho pequeno. Aí entra o Arsenal da Esperança. Estou acolhido aqui fez quatro meses, no dia 18 de junho de 2021.

Arrumei uma namorada branca, ah, vocês não sabiam… eu sou negro! Mãe branca e pai negro.

Aí chega a pandemia, devastando tudo o que tem, matando milhares de vidas no mundo. Mas o que a pandemia trouxe de bom foi mais empatia com as pessoas. Saber dar valor às coisas simples da vida. A união das pessoas um com os outros, mais fé e acreditar que as coisas podem mudar mesmo.

Sei que minhas escolhas me impediram fazer certas coisas boas e (escolhas certas) que me encaminhei para um caminho bem melhor. 

E digo mais, peço desculpas pelos meus erros de ortografia, por quê? Eu não tenho me dedicado aos estudos, mas tudo que eu estou vivendo e os desafios de uma pandemia, é isso. É se esforçar ao máximo, é acreditar que você realmente pode alcançar os seus objetivos.

E sempre Deus em primeiro lugar em tudo. Abençoando os caminhos árduos que teremos de trilhar. Nunca fui bom com histórias, mais tentei fazer o melhor do possível para vocês tentarem me entender e me escutarem. Usem máscara, se cuidem assim. Mas por quê? Com a saúde não se brinca.

E com simples palavras descrevi tudo aquilo que eu senti. Por quê? Essa é mais uma história que ninguém conta.

Anderson Francisco do Arsenal da Esperança, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a esperança chegou na primeira semana do Arsenal

No Conte Sua História de São Paulo, você acompanha a série de textos escritos por pessoas em situação de rua acolhidas no Arsenal da Esperança, antiga Hospedaria dos Imigrantes, durante a pandemia. O texto de hoje é de Wilson Luis

Foto: Mílton Jung

Olho para os acontecimentos sem dar importância, como todos, pensando somente “mais um vírus que não vai me afetar”. Muito menos o Brasil. Esse passará longe.

Quando os noticiários ficaram mais longos e mostrando a chegada do vírus no Brasil e como já estava a Itália e a China, me preocupei, mas sem ter a dimensão do que o vírus causaria.

Quando uma orientadora do abrigo onde eu estava convocou uma assembleia dizendo que não poderíamos mais sair de lá, somente nos dias estipulado pela direção, somente para comprar, como cigarro, e médico, pois o Brasil estava fechado por 14 dias, me senti numa zona de guerra.

No abrigo, passei a conviver 24 horas com todos. Os noticiários não pararam de falar do aumento de mortos. Lembro de sair para comprar cigarro e ver a cidade deserta, somente ambulância e carro funerário na rua. Logo fiquei preocupado com minha família. Falava com eles constantemente.

O convívio no abrigo não era fácil nem pros funcionários, nem pra nós, conviventes, pois a rotina estava mudada, todos ali tinham que almoçar no abrigo, não era mais obrigado a sair e nem podia sair para resolver problemas pessoais: parei meus projetos.

Passei a criar uma rotina, passei a ler mais, conhecer mais pessoas no abrigo e me apeguei mais na fé e em Deus.

Logo, quando cheguei no Arsenal da Esperança, a esperança chegou na primeira semana, pois tomaria a vacina.

Apesar da vacina andar a passos curtos, posso notar a diferença, o comércio abrindo, as pessoas voltando ao trabalho, pessoas sorrindo novamente, revendo seus parentes, meus projetos voltando.

Não foi fácil, ainda tem um longo caminho a ser perseguido para a volta da normalidade, mas a vacina nos trouxe esperança e ver nossos filhos abraçando a mãe após um ano, nos traz a esperança.

Temos que tirar lição de tudo que a pandemia nos causou como …

Aprendizado. E o maior aprendizado para mim se chamou saudade.

Wilson Luís do Arsenal da Esperança, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: meu Brás, oh, meu Brás!

No Conte Sua História de São Paulo, você acompanha a série de textos escritos por pessoas em situação de rua acolhidas no Arsenal da Esperança, antiga Hospedaria dos Imigrantes. O autor de hoje se identificou apenas como Fábio e escreve um poema sobre um dos mais tradicionais bairros da cidade:

Reprodução de foto do livro “Os desafios de uma pandemia”, do Arsenal da Esperança

Quando voltei, foi difícil acreditar.

Me bateu desespero.

Deu até vontade de chorar.

Confesso, chorei… não deu para suportar.

O que antes era um grande curral social

Hoje, chora em prantos

Ruas desertas, portas fechadas

Mais parecia faroeste, cidade fantasma

Meu Brás, oh, meu Brás!

Nas ruas onde me criei; aprendi a arte do comércio.

A comercializar, comercializo.

Devido às circunstâncias, por algum momento

Até mesmo manguear, mangueei

Meu Brás, oh, meu Brás!

Não vejo a hora disso tudo acabar.

Os que nesse genocídio

Junto com Deus, esteja a vos olhar.

E quando acabar…

Sacolas cheias novamente

Compra, vende, movimentação de gente

Das gentes, povos e etnias

Temos um arsenal de costura

Bolivianos, quem diria!

Pretos, Brancos, Pardos e Índios.

Somos o maior polo comercial.

Da América Latina.

Meu Brás, oh, meu Brás!

Coração de São Paulo.

Hoje bate por aparelhos.

A esperança renasce, no vagão do trem.

No soar da voz, de mais um marreteiro

Meu Brás, oh, meu Brás!

A metrópole comercial da América Latina.

A cidade do comércio, que antes não dormia.

Hoje descanse em paz, feitos da pandemia. 

Fábio, do Arsenal da Esperança, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a pandemia tirou o caminhão, o emprego e a família

Reprodução de foto do livro “Os desafios de uma pandemia”, do Arsenal da Esperança

No Conte Sua História de São Paulo, você acompanha a série de textos escritos por pessoas acolhidas no Arsenal da Esperança, antiga Hospedaria dos Imigrantes. O autor de hoje é Marcelo José

Em primeiro lugar queria falar sobre o antes e o depois da pandemia. Como era minha vida! Eu possuía um ótimo emprego como motorista de caminhão que entregava cerveja artesanal numa das regiões mais chiques do Rio de Janeiro, pois esta cerveja era muito cara, nem todo mundo podia consumir a não ser os grandes magnatas.

O caminhão que eu trabalhava era zerado, muito bonito; claro, porque fazia parte do padrão da empresa. Para você ter ideia, os uniformes eram lavados na própria empresa. Tinha teste de bafômetro todo dia pela manhã para motorista e ajudante. Todos tinham que estar com cabelos e barba feitos.

Todas as sextas-feiras tinha um jogo de futebol que a própria empresa patrocinava, com direito a carne de qualidade e, claro, muita cerveja. Os funcionários que quisessem podiam levar mulheres e filhos. Como era bom este ambiente familiar. Tínhamos, também, todos os benefícios de uma grande empresa.

Mas um dia pela manhã, fomos pego de surpresa por uma grande catástrofe que assolava a todo mundo – a grande pandemia. Na primeira semana pensei que era uma coisa passageira, mas infelizmente a coisa era muitíssimo séria.

Havia rumores na empresa que haveria cortes. Eu me lembro bem que todos estavam muito tensos, mas eu, muito otimista, pensei que logo, logo, esta tempestade iria passar.

Mas, infelizmente, depois de três anos de empresa, um dos sócios chamou a todos pela manhã e começou a conversar no pátio com todos. Eu me lembro muito bem suas primeiras palavras, que dizia que do faxineiro ao presidente geral, todos eram importantíssimos para a empresa e para que ele não fosse injusto com ninguém as demissões seriam feitas por sorteio, claro cada um na sua função. E infelizmente eu fui um dos sorteados. A empresa honrou com todos os compromissos comigo, sem faltar nada.

Cheguei na minha casa e falei para minha esposa que eu tinha sido uns dos sorteados. Nós choramos muito por que tínhamos que nos adequar à realidade. Reduzir gastos em todas as áreas das nossas vidas, como ir à pizzaria, churrascaria, ao shopping, compras do mês. Chegamos a ficar sem luz por duas semanas, tínhamos que ficar enclausurados na nossa própria casa. O nível de estresse era tão grande que começamos a discutir por coisas banais e, infelizmente, um casamento de 20 anos foi por água abaixo. Isto foi, infelizmente, o que a pandemia me causou.

Que Deus Abençoe a todos nós. 

Que dias melhores virão. 

Amém. 

Marcelo José, do Arsenal da Esperança, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

Conte Sua História de São Paulo: meus dias na ‘Boca do Lixo’

Noel Taufic

Ouvinte da CBN

Photo by Kyle Loftus on Pexels.com

Sou um paulista lemense mas me considero também um paulista paulistano, AMO SÃO PAULO! Não há tempo pra falar de tudo que já passei nessa cidade, nas minhas mais de seis dezenas de vida, por isso vou me ater a contar como esse amor começou.

Meu pai sempre teve salas de cinema, em Leme, interior de São Paulo, e desde meus sete anos, nas férias escolares, eu ia com ele marcar filmes nas distribuidoras, que se concentravam na rua do Triunfo e imediações, bem no centro e perto da antiga rodoviária.

Quando fiz 15 anos. passei a ser o programador dos cinemas e, uma madrugada por mês, de ônibus, ia fazer o trabalho de programação dos filmes. Aos 18, fui estudar em São Paulo e daí a vida seguiu até hoje nesse delicioso ofício.

Mas o que me marcou sempre foi conhecer o centro de São Paulo, os cinemas mais famosos pertinho de mim, como o Ipiranga, o Metro, o Marabá, o Olido, o República, o Art Palácio, o Comodoro e, eu, sempre passando meus dias de paulistano na famosa “Boca do Lixo”.

Sim, “Boca do Lixo” era o nome da região da Santa Efigênia, avenida Rio Branco, começo da Ipiranga, todo esse pedaço que se somava à avenida São João, ao largo Paissandu, à Duque de Caxias.

Nesse trabalho, a gente convivia com as amáveis prostitutas. E também com os músicos, já que muitas gravadoras também lá se localizavam, na famosíssima Santa Efigênia.

O ponto principal sempre foi o queridíssimo Bar do Léo, que na verdade ganhou mais fama ainda com o seu Hermes, diretor do Corinthians, como proprietário, mas sempre tendo ao seu lado o mais famoso garçom paulistano, o Luiz que recebia a todos pelo nome, podendo ser pessoa comum, empresário ou político de qualquer cidade que vinha àquele estabelecimento.

Nesse período conheci vários artistas, diretores de cinema, produtores.  Artistas foram muitos: Vera Fischer, Aldine Müller, Renato Aragão mas, pra mim, o que eu mais gostava de encontrar, era o Mazzaropi, que sempre recebia os exibidores em seu escritório, no segundo andar do Cine Ouro, no Largo Paissandu.

O ilustrador de cartazes do cinema brasileiro, meu amigo também, era Miécio Caffé. Ele e a esposa moravam na rua Vitória e seu estúdio de criação ficava dentro da Paris Filmes, um pouco abaixo de sua casa. Seu Miécio foi o maior colecionar de discos 78RPM do Brasil. Seu apartamento tinha muito mais que seus móveis, tinha inúmeras estantes com discos e fitas, impagáveis.

Que delícia tudo isso! Que São Paulo maravilhosa! Hoje, mato saudades dela, correndo a São Silvestre todo ano e passando pela minha eterna “Boca do Lixo”.

Noel Taufic é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.