Conte Sua História de São Paulo 468: cidade inquietação, farrapos de garoa

Por Colombina

São Paulo em foto de Paulo Pinto


Cidade inquietação; farrapos de garoa

se desprendem  da altura e tombam sobre o asfalto.

Aguda e prolongada uma sirene soa,

ao trabalho chamando a gente do planalto.


Um pássaro de prata a serra sobrevoa,

dominando a distância, além, no azul cobalto!

Range a serra, a bigorna estua, e longe, ecoa

a oração da cidade erguida para o alto…


Piratininga foi a pátria das Bandeiras,

com Paes Leme sofreu perigos e canseiras,

desbravando sertões e desafiando a morte.


E hoje é São Paulo: a forja, a usina, a mais possante 

máquina que conduz todo o Brasil avante…

Sempre o seu coração, sempre o seu braço forte!

((em breve, o áudio deste texto estará disponível))

Colombina é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Participe desta série e envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP 468: um passeio da várzea da Vila Medeiros ao verde do Horto Florestal

Odnides Pereira

Ouvinte da CBN

Foto: Governo de SP

Nasci dia 21 de abril de 1959, no Hospital e Maternidade de Vila Maria, na zona norte. Na época meus pais e meu irmão mais velho, moravam em um cortiço no bairro de Vista Alegre, também na zona norte. Logo eles compraram uma casa no Bairro de Vila Medeiros divisa com a Vila Sabrina.


Na minha infância, o lugar que mais freqüentava era o Vajão, um imenso espaço com mais de dez campos de futebol, um perto do outro, onde times de várzea disputavam seus torneios. Muitas vezes, assistimos a bolas chutadas de um campo cairem no outro, interferindo no andamento da partida. Com o tempo tudo isso acabou. Nos anos de 1980, lá se ergueu o que é hoje o Jardim Guançã.


Casei-me em 1978.  fui morar no Mandaqui.  Da minha casa ao Horto Florestal são cerca de quatro quilômetros. Aos fins de semana, quando possível, visitava o Horto, batizado Parque Estadual Albert Löefgren, e passava o dia por lá.

Tinham muitos macacos, aves, peixes nos lagos, e Mata Atlântica à disposição. Pessoas nadavam por ali, jogavam muita comida para os peixes e aves. Havia lixo, também. Por descaso e vandalismo, os lagos ficaram poluídos. E o Horto ficou insuportável. Resolvi não voltar mais. 


Com a concessão do Horto para a iniciativa privada, em 2021, apesar de cobrarem a entrada, o parque começou a ser recuperado. E a ficar mais parecido com o lugar que conheci no passado. E que mais gostava de frequentar em São Paulo.

Quem sabe, um dia eu volto?!?


Odnides Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de SP 468: os embalos de domingo na USP

Samuel de Leonardo

Ouvinte da CBN

Cidade Universitária da USP Foto Wikipedia

Naqueles anos de 1970, assim como os nossos embalos de sábado à noite, com reuniões entre amigos e “bailinhos na garagem”, foram marcantes, as tardes de domingo igualmente nos deixaram saudades. Morávamos próximos à Cidade Universitária — era assim que chamávamos o campi da USP. Sem muitos recursos para o lazer, procurávamos lugares que pouco ou quase nada nos custavam: era lá o nosso refúgio.


No decorrer da semana, no pátio da escola, combinávamos os encontros em frente aos colégios Daniel Paulo Verano Pontes ou Lourival Gomes Machado – ambos no bairro do Rio Pequeno, região do Butantã. Desses pontos partíamos em turmas de até 20 jovens, formadas por meninos e meninas. Trago na memória cada um daqueles amigos e amigas com os quais compartilhamos momentos especiais nas tardes de domingo.


Era quase rotina sairmos a pé em direção à Cidade Universitária.  Nada entendíamos de paisagismo ou de arquitetura, mas o “leiaute” da sua estrutura nos encantava, nos atraía, simplesmente uma magia.

Em suas alamedas desfilávamos absoluto. Nos gramados verdejantes um futebolzinho sem compromisso, linhas nas mão e pipas no ar. Nas sombras de seus arbustos, namoricos sem malicia, amizades sem cobrança — ainda nos sentíamos crianças. Ah, quantas lembranças! Cada cantinho daquele lugar; o nosso “playground”; o espaço predileto de todos. Tudo aquilo nos era familiar. 


Ao término dessa agitação, nos sentíamos recarregados para enfrentar a “segundona” e partíamos para nossas casas, sem uma despedida formal, com a certeza de que aquela não seria a última tarde de domingo.


Agora, maduro e longe de ser taxado de saudosista, posso atestar convicto que, de todos os encantos dessa pauliceia gigante, o campi da USP, no Butantã, é para mim o lugar especial nessa imensidão de cidade, quer seja pela sua pujança, quer seja pelas lembranças. 


Samuel de Leonardo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de SP 468: minhas imagens da Paulista

Por Claudio Lobo

Ouvinte da CBN

Canto ou Encanto de São Paulo, são vários. A cidade, superlativa como ela é, não poderia ser diferente. Mas um canto é especial: a avenida Paulista. Não é clichê ou lugar comum. 

Aos domingos, preferencialmente, eu e minha esposa, Maria Luiza, vamos à Paulista fotografar. Até aqui parece falta de opção ou imaginação, se não fossem os personagem e situações que lá encontramos. 

Troca de simpatias, olhares e gentilezas estão disponíveis na Paulista. 

O encanto é que as pessoas que encontramos, na grande maioria anônimas, nunca mais reencontraremos. Evaporam no ar. Ficam a simpatia, a pose, o espontâneo, o olhar, o sentimento captado. Ficam a beleza, a feiúra, o inusitado, o incomum, o bizarro. Ficam o animal, o humano, a infância, o apressado, o tranquilo, o ajustado, o desajustado. Ficam o artista, o que um dia será um artista, o vendedor, o comprador, o leitor, o artesão. 

A paisagem e tudo mais que registramos fica eternizado em nossas fotografias.

 Isto é vida. Isto é São Paulo. Isto é a avenida Paulista.

Cláudio Lobo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 468 anos: a travessia do pontilhão do Tietê

Por Wanderley Midei

Ouvinte da CBN

Acervo Coleção de Tony Belviso, livro Mercado Municipal de São Paulo, 70 anos de Cultura e Sabor. Abooks Editora. Foto Carlheinz Hahmnn

Nasci no Canindé, em 1943. Vivi até a minha juventude lá. Em 1961, me tornei jornalista e continuo escrevendo para o Facebook, mesmo acometido de cegueira por glaucoma.


Quando eu era criança me divertia correndo na avenida Cruzeiro do Sul ao lado do trem puxado pela Maria Fumaça, da ferrovia Cantareira. Achava engraçado as mulheres correrem para tirar as roupas que estavam quarando nas pedras da ferrovia, tentando evitar que queimassem com as fagulhas soltadas. 


Nessa época, o trem atravessava o rio Tietê por um pontilhão: a Ponte Pequena.  A ponte grande era mais próximo da Voluntários da Pátria. Às vezes, andávamos em um grupo de menino sobre os dormentes do trilho para chegar ao lixão da Vila Guilherme, onde hoje tem o Shopping Center Norte.

Muitos amigos tiveram de se jogar no rio, porque o trem estava chegando e não havia tempo para o retorno.


Quando fui suspenso no primeiro ano do ginásio, na Frei Paulo Luig, não contei nada em casa. Toda manhã pegava minha mala de couro, caderno, estojo e o livro escolar e saía como se fosse para a escola. Eu ia para a beira do rio Tiete. 


Naquela época, a Portuguesa não existia, era o São Paulo. Haviam lagoas nas proximidades, então eu ficava vendo os pescadores que tinham cruzado a noite pescando. Um dia, um dos pescadores, amigo do meu pai, contou minha traquinagem para ele. Foi a única surra que tomei na vida. E serviu a lição. Não que eu não tenha mais sido suspenso da escola outras vezes. mas sempre que fui contei tudo para ele. Foi melhor assim.

Wanderley Midei é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de SP 468 anos: o realejo da rua do Tesouro

Por Hylda de Albuquerque Pina

Ouvinte da CBN

Rua do Tesouro, 23. Parei em frente ao prédio apoiada no braço de minha filha, Mônica. Estou com 84 anos hoje. Depois de uma consulta médica que durou menos de cinco minutos, ela me convenceu a dar um passeio pela Praça da Sé para comprar fios de ovos. Comentei que, quando jovem, tinha trabalhado por ali.  Sim, depois de mais de 50 anos, estava de volta ao endereço do escritório das Lojas Interoceânicas. 

Consegui o primeiro emprego por indicação de uma amiga. Quando soube que era no centro, fiquei preocupada. Eu não sabia andar por lá. Aos 18 anos, conhecia o bairro onde havia nascido, o Ipiranga. Minha família tinha uma pensão na rua Clemente Pereira, onde serviam refeições para funcionários do comércio e para operários dos arredores, a turma das indústrias da família Jafet, da fábrica das Linhas Corrente, das Meias Marte .… 

Para ir para o Centro, precisaria pegar um bonde até a Praça Clóvis ou um ônibus até o Parque Dom Pedro. As duas opções me assustavam, mas tomei coragem e comecei no novo trabalho. Com uma hora e meia de almoço, podia comer em casa e retornava em tempo de dar uma volta na região. Muitas vezes me perdia e chegava em cima da hora para o expediente da tarde. 

Esses passeios solitários ampliaram meus horizontes de menina de bairro. Passeava em frente ao auditório da Rádio Record, na Quintino Bocaiúva, e me admirava com a fila de moças que esperavam para assistir ao programa Só Para Mulheres. 

Nas vitrines do Mappin, da Americanas, das lojas de tecidos, de roupas e calçados, o olhar se distraía. Nem sempre eu sabia o melhor caminho para voltar e lá estava eu, de novo, perdida no Centro.      

O coração sossegava quando enfim, avistava a bonita fachada da loja Sönksen, que vendia chocolates e balas, e ficava no prédio em frente ao do meu trabalho. Bem na porta da Sönksen, toda tarde, se instalava um velhinho com seu realejo.  A música chegava ao escritório, no sexto andar. De vez em quando, só de farra, os rapazes que trabalhavam comigo telefonavam para a bomboniere, reclamando do barulho do realejo. Depois, corriam para a janela, só pra ver a moça da loja mandar o velhinho embora…  

Agora, parada por um instante, aqui na Rua do Tesouro, acho que consigo ouvir de novo a música do realejo. Que depois de tanto tempo, me traga boa sorte…  

Hylda de Albuquerque Pina é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Ouvintes contam suas histórias em São Paulo, em homenagem aos 468 anos da cidade

Avenida Paulista em foto de Mariana Tarkany

O realejo na rua do Tesouro, a Maria Fumaça da Cantareira e a pipa sobrevoando a Cidade Universitária são algumas das lembranças que mexem com a memória dos ouvintes da CBN, na série especial em homenagem aos 468 de São Paulo. Com o tema “Em cantos da cidade”, o Conte Sua História de São Paulo inicia a décima-oitava temporada, nessa segunda-feira, dia 10 de janeiro, com duas edições diárias: às 7h15 no Jornal da CBN e às 15h45 no Estúdio CBN. 

O Conte Sua História foi ao ar pela primeira vez, em 2004, quando a cidade comemorava os 450 anos. Na estreia, os textos enviados pelos ouvintes eram interpretados ao vivo e sonorizados em tempo real pelo Paschoal Júnior. Fizemos “rádio raiz”, dos tempos em que o sonoplasta buscava no seu entorno os recursos para dar vida sonora às histórias. Ao longo do primeiro ano, as edições eram diárias, de segunda à sexta, no CBN SP, programa que estava sob meu comando. 

Ainda na primeira temporada passei a gravar os textos selecionados e a sonorização ficou a cargo de Cláudio Antonio, maestro e meu parceiro no quadro até os dias de hoje. No ano seguinte, o Conte Sua História manteve a frequência diária nas semanas que antecediam o aniversário da cidade, em 25 de Janeiro, e eram apresentados aos sábados, no restante do ano. Modelo que se mantém até hoje.

Em 2006, publicamos o livro Conte Sua História de São Paulo, pela editora Globo. Reunimos cerca de 100 das histórias mais interessantes contadas por nossos ouvintes. Ainda é possível encontrá-lo nas livrarias virtuais.

Nestes 18 anos de programa, vivenciamos momentos incríveis com os nossos ouvintes. Gente que se reencontrou, que se emocionou, que relembrou, que reviveu ao escrever ou ouvir as histórias na CBN.

Dia desses mesmo, uma ouvinte nos contou que ao dizer que sua história seria publicada, a filha, que havia sofrido um acidente cerebral que restringiu sua fala, reagiu como um “muito legal”. Chorei? Claro que sim. Claudinho disfarçou bem, mas tenho certeza que aquele olho aguado tinha muita emoção expressa. 

Cada retorno que recebemos é comemorado. É uma consagração. É a certeza de que a edição apurada no texto, o cuidado na interpretação e a pesquisa sonora que buscamos fazer no Conte tocam o coração do ouvinte. Nada pode ser mais importante.

Você é convidado a enviar sua história de São Paulo, escrevendo e enviando seu texto a contesuahistoria@cbn.com.br. Ainda a tempo para participar da série dos 468 anos. Os textos que não forem selecionados nestas duas semanas, até o 25 de janeiro, serão publicados nas edições de sábado durante o ano de 2022. Tanto texto como áudio ficam disponíveis aqui no blog. E no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o dia em que o time da Vila Maria venceu o Desafio ao Galo

Jair Rosa da Silva

Ouvinte da CBN

Foto de Kafeel Ahmed no Pexels

Nasci no hospital Cristo Rei, lá pelas bandas do Parque Dom  Pedro II. Meus pais,  oriundos do agreste nordestino baiano, de um vilarejo de nome Manda Saia, moravam na Vila Maria. Bairro de baianos, pernambucanos, cearenses, alagoanos e de imensa colônia portuguesa.

Havia dois cinemas – salvo engano, Cine Vila Maria e Candelária. Foi no Candelária que tive a primeira emoção de ver uma tela gigante e imagem colorida. Era matinê com sessão dupla: “A Quadrilha do Karatê” e “Roberto Carlos e O Diamante Cor de Rosa”. Eu tinha oito anos. Na Vila Maria Alta tinha um zoológico, o do Agenor. Devo ter ido umas duas vezes lá, em passeios em família. Havia ainda muitos campos de futebol. 

Cresci vendo algumas dessas peladas e jogando bola em gramados que contornavam a ponte da Vila Maria. Eram tão próximos do Rio Tietê que, certa vez, um jogador deu uma bicuda na bola de capotão nº 5 que caiu no rio. Um dos jogadores saiu correndo, mergulhou, nadou e conseguiu recuperar a preciosidade. Foi aplaudido e ovacionado pelos dois times.

Cheguei a jogar no dente de leite do Flamengo de Vila Maria, treinado pelo Zé Negra. No fim de cada jogo, confraternizávamos tomando Guaraná em uma garrafa chamada caçulinha. Um requinte, pois refrigerante só tinha em casa em domingos que recebíamos a visita de parentes.

Lembro que só tinha um par de sapatos para ir à escola. Em época de chuva, quando aparecia um buraco na sola, a meia era sugada para debaixo do sapato. Minha mãe revestia, carinhosamente, o interior com um pedaço bem recortado de papelão para continuar usando até que o pagamento de meu pai chegasse para comprar um outro. 

Um dos dias aguardados era o domingo. Eu morava no início da Guilherme Cotching e bastava atravessar a ponte a pé para chegar no campo União dos Operários e assistir ao Desafio ao Galo. Havia um time, o Parque da Mooca, praticamente invencível e na minha cabeça de garoto, ele nunca perderia para ninguém. Num domingo, estava assistindo ao jogo na TV em preto e branco, com plástico colorido em azul, rosa e verde, e um dos times do nosso bairro – acho que é Frum – quebrou a invencibilidade do time da zona leste. Corri ao restaurante do Seu Ary, um senhor negro, forte, que tinha sido árbitro de futebol. Anunciei aos gritos a boa nova. 

– Você tá brincando comigo, seu moleque?

– Não, seu Ary, é verdade. Escute os fogos.

Ele deu a volta no balcão foi para a frente do bar e viu uns rapazes correndo em direção à ponte, que confirmaram a vitória. De tão contente, dispensou os fregueses, pegou seu DKV, e, comigo abordo, fomos para o campo que estava uma festa só. Foi o dia em que o time da Vila Maria venceu no Desafio ao Galo.

Jair Rosa da Silva Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Participe dos festejos de 468 anos da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br com o tema “em cantos de São Paulo”. E ouça seu texto em uma ediçao especial do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: nossa árvore de Natal

José Simões Neto 

Ouvinte da CBN


Nessa pandemia seguimos com o isolamento, consciente de estarmos preservando os demais e a nós mesmos e realimentando esperanças de um mundo menos isolado. Convivência familiar limitada e até impedida é remediada por vídeos chamadas. Nesse contexto, minha filha, Marília, casada com Daniel, e meus netinhos Oliver e Nina, ficaram a uma distância geográfica e sanitária impossível de vencer. Moram na Áustria, na cidade de Bregenz. Tanto eu como demais familiares acumulamos saudades sem fim.


Para engajar as crianças, a  Marília criou uma rotina dentro da tradição católica, forte na Áustria, de seguir as quatro semanas que precedem o Natal, celebrando o Advento. Atividade que registra em vídeos compartilhados com toda a família.


A cada dia meus netos de três a cinco anos buscam um dos envelopes pendendo de uma planta da sala, onde encontram a foto de um de nós  — tios, tias, primos e avós —- quando éramos crianças. Em raras ocasiões os pequenos identificam de pronto o personagem do dia. As dicas para identificá-los ficam escondidas pela casa, exigindo uma caça ao tesouro, coordenada pelos pais. Uma dica leva a outra dica. Ao final, descobrem uma cartinha escrita para eles pelo personagem do dia, com um foto recente. 


A árvore de Natal, então, ganha mais dois adereços: a foto de uma criança que fomos e a foto do que somos, amenizando a saudade, celebrando o advento e realimentando diariamente a esperanças de nos encontrarmos em breve.


José Simões Neto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Participe dos festejos de 468 anos da nossa cidade: escreva para  contesuahistoria@cbn.com.br com o tema “em cantos de São Paulo”. E ouça seu texto em uma ediçao especial do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: o Natal das Helôs

Talita Ribeiro

Ouvinte da CBN

Meus avós tiveram quatro filhas – as “Quatro Helôs” – cuja descendência já soma 112 integrantes, entre nativos e agregados. Reunir a família toda para o Natal, como fazíamos há 25 anos, agora nem pensar. Mas que eu pensava, pensava! 


Ainda mais neste ano, 2020, em que nem aos mais próximos tivemos acesso presencial. Desde março, eu precisei me reinventar, como muitos, e criar grupos de Whatsapp para dar aulas de bordado às minhas alunas, através de vídeos caseiros, fotos, textos, áudios e até ligações por vídeo pra cada uma. Que experiência! 


De repente a ideia: por que não formar um grande grupo de Whatsapp – 75 adultos – e preparar uma celebração de Natal com dia e hora marcados, todos juntos? Convoquei um primo de cada ramo “Helô”, para conseguirmos todos os nomes, idades e números de Whatsapp. Também cada primo se responsabilizou por conseguir dois ou três depoimentos por vídeo sobre como foi a vida na pandemia – temos queridos na África do Sul, Estados Unidos, Alto Paraíso, Cunha, Vinhedo, Ubatuba, Taubaté…. Entre ideia e execução, apenas oito dias! 


Criei um grupo de Whatsapp só meu, e lá fui acomodando as postagens, na ordem em que seriam apresentadas: fotos dos nossos avós, das “Quatro Helôs”, dos netos, dos bisnetos e dos trinetos. Depois, uma música de Natal muito popular nos nossos antigos Natais – com a letra para cada um cantar na sua casa e se imaginar cantando em grupo! Depois, o depoimento da prima da África do Sul, cujas crianças nem falam português – mas que apareceram no vídeo usando um aplicativo que as deixou com caras de gatinhos, focinho, orelhas… Uma graça! 


E assim fui mesclando as postagens, até chegar no ápice, que foi uma oração de esperança para o ano de 2021, seguida de um PowerPoint com fotos de absolutamente todos os integrantes da família, por ramo, tendo como fundo uma lindíssima música de Natal que dizia “This is the story”… A história de cada um… E tudo isso aconteceu no dia 19 de dezembro, às cinco da tarde. Por quase uma hora e meia, em que eu ia encaminhando postagem por postagem; aguardando o tempo necessário para que todos lessem, vissem ou ouvissem. Terminada a celebração, todos puderam escrever seus votos de Natal, postar selfies, fotos da pequena família, da infância e… Meu Deus, que festa! 


Estávamos todos dentro de uma grande sala virtual, nos curtindo, nos alegrando. Uma tia de 88 anos – a Helô caçula – chegou a dizer que foi o Natal mais emocionante da vida. No 25 de dezembro, reativamos o grupo e o deixamos aberto a tarde toda, para que todos compartilhassem suas lembranças e fotos dos Natais de cada pequena família! Desta enorme família das Helôs!


Talita Ribeiro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Participe dos festejos de 468 anos da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br com o tema “em cantos de São Paulo”. E ouça seu texto em uma ediçao especial do Conte Sua História de São Paulo.